Publicado em 13 de maio de 2022 por Tribuna da Internet

Sachsida não falou sobre o reajuste dos preços dos combustíveis
Pedro do Coutto
Foi um verdadeiro desastre político o discurso do novo ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida; sem pé nem cabeça, falando muito mais de investimentos no Brasil do que de petróleo e combustíveis. No final do pronunciamento, defendeu a privatização da Petrobras e pediu ao ministro Paulo Guedes que incluísse a estatal no levantamento para desestatização de empresas no país.
No O Globo, Fernanda Trisotto, na Folha de S. Paulo, Idiana Tomazelli, destacam de forma excelente o que representou no plano político e econômico o pronunciamento do sucessor do almirante Bento Albuquerque.
APOIO E BOLSONARO – Relativamente à privatização da Petrobras, cujos estudos ele solicitou publicamente ao ministro Paulo Guedes, a quem também agradeceu por sua indicação, Adolfo Sachsida disse ter o apoio total do presidente Jair Bolsonaro.
Se não tivesse o apoio do presidente da República, claro, não seria nomeado ministro de Minas e Energia. Mas, em parte até se entende, pois o ministro Bento Albuquerque saiu da pasta por não ter contado com o apoio de Bolsonaro na questão do reajuste de preços da gasolina, do diesel e do gás encanado.
ENTUSIASTA – Além disso, o ministro é um adepto entusiasmado do presidente da República. Inclusive, como diz Fernanda Trisotto, participou de manifestação pública, incluindo ataques ao Supremo Tribunal Federal. Esse conjunto de fatos constituiu um desastre para Bolsonaro, para o governo e para o país.
No caso da Petrobras, acarretou perda considerável de votos para a reeleição do chefe do Executivo. É bom lembrar que a Petrobras possui cerca de 45 mil servidores regidos pela CLT.
REPERCUSSÃO – A GloboNews transmitiu na íntegra o discurso de posse de Adolfo Sachsida, que era integrante da equipe econômica de Paulo Guedes. Terminado o discurso, os comentários de Gerson Camarotti, Natuza Nery e César Tralli foram arrasadores, condenando o seu pronunciamento, o anúncio da intenção de privatizar a Petrobras faltando cinco meses para as eleições, e pelo fato de terminado o evento não tendo aceito responder a perguntas dos repórteres.
Na mesma GloboNews, pouco tempo depois, no programa Em Pauta, a jornalista Eliane Cantanhêde analisou o pronunciamento, destacando que se concentrou no tema da importância de investimentos estrangeiros do país, dizendo que o Brasil era um porto seguro para absorver as aplicações internacionais de capital. Falou dez vezes em “porto seguro para os investidores e para os investimentos”.
Mas a sensação de insegurança é fornecida pelo próprio governo Bolsonaro. A repercussão negativa do quadro ameaçador à democracia está na matéria de Lucas Mathias, edição de terça-feira de O Globo, quando destacou declarações feitas à BBC pela subsecretária de Estado americano, Victoria Nuland, que criticou os ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas e a sua intenção de contratar uma empresa para fazer auditoria nas eleições.
AUDITORIA – De fato, contratar uma auditoria para conferir a computação dos votos significaria, penso, atribuir à uma auditoria particular o poder de contestar os trabalhos do Tribunal Superior Eleitoral. Inclusive, é importante acrescentar que o exercício do voto em 2 de outubro não se refere somente à sucessão presidencial.
Refere-se às sucessões em 27 unidades federativas e também à escolha de senadores, deputados federais e estaduais ao mesmo tempo. Afinal de contas, por que a auditoria se concentra apenas no pleito federal? Se é uma questão de princípio e desconfiança, deveria ser pela lógica de Bolsonaro estendida a todo o pleito.
PREÇOS – Relativamente aos preços da gasolina, do diesel e do gás, que foi o verdadeiro motivo da demissão do ministro Bento Albuquerque, o ministro que o sucedeu não se referiu a qualquer momento a tal questão. Afinal de contas, o preço dos derivados foi o verdadeiro motivo tanto da demissão do general Silva e Luna da Petrobras, quanto de Bento Albuquerque do MME.
O ainda presidente da Petrobras, José Mauro Ferreira Coelho, era um homem de confiança de Bento Albuquerque e sua permanência no cargo transformou-se num enigma político. Como ela era de absoluta confiança de Albuquerque e por esse motivo foi nomeado presidente da estatal, eticamente, penso, deve entregar o cargo.
FUGA DO TEMA – No O Globo desta quinta-feira, reportagem de Fernanda Trisotto, Eliane Oliveira, Geralda Doca, Jussara Soares e Gabriel Shinohara, analisa em detalhes o posicionamento inseguro de Adolfo Sachsida ao escapar do tema central em seu discurso, que motivou a demissão de Bento Albuquerque, e que se refere aos preços dos derivados do petróleo.
Um dos ângulos da análise feita por especialistas políticos e econômicos é o de que ao levantar a questão da privatização da Petrobras, que inclusive dependeria da aprovação pelo Congresso, como lembrou o senador Rodrigo Pacheco, tal fato seria uma cortina de fumaça para deslocar a atenção do eleitorado brasileiro sobre o preço dos alimentos, a inflação de 12,2% de abril de 2020 a abril de 2021, entre outros.
TERCEIRA VIA – Jussara Soares e Julia Lindner, O Globo de ontem, revelam que a terceira via por proposta pela senadora Simone Tebet que define um candidato único do grupo para se tornar uma opção contra Lula da Silva e Jair Bolsonaro nas urnas de outubro.
João Doria apoia a iniciativa. Mas, digo, se depender de pesquisa com base na mais recente do Datafolha, o candidato da terceira via só pode ser Ciro Gomes.