domingo, maio 08, 2022

A escalada da guerra rumo à Europa Central




A expansão do conflito para a Europa Central está em curso. Para evitar a escalada para um confronto global, o regresso a uma retórica de contenção por todos os aliados é uma prioridade.

Por Madalena Meyer Resende (foto)

O perigo de expansão da guerra da Ucrânia para um conflito mais vasto está à vista, tanto no perímetro regional da Europa Central, como no contexto global. As visitas de Nancy Pelosi a Kyiv e do Comandante das forças armadas russas Valeri Gerassimov à frente de batalha na passada semana demonstram como, sem perspetiva de negociação a curto prazo, os dois lados se predispõem a uma escalada na guerra. A consolidação da narrativa das democracias versus estados autoritários – e a evocação da Segunda Grande Guerra – é evidência da trajetória da guerra.

A expansão da guerra na Europa Central

O primeiro sinal da vontade de expansão do conflito por parte da Rússia é a intensificação dos bombardeamentos de cidades ucranianas longe dos combates no terreno, sem qualquer objetivo militar ou estratégico. Esta é uma estratégia de punição a quem resista à Rússia, e uma forma de impedir a reconstrução da Ucrânia – um dos objetivos de Zelensky a que o Ocidente mais tem atendido.

Também a vizinha Moldávia se tornou alvo de desestabilização, depois do anúncio da sua intenção de aderir à União Europeia. As explosões na república separatista da Transnístria, povoada pela Rússia, presumem-se serem “de falsa bandeira russa” e servirem para justificar a intervenção russa. Apesar de a Rússia não dispor de tropas suficientes para tentar anexar a Transnístria, a decisão mais fácil para o Kremlin seria reconhecer uma declaração Transnistriana de independência.

Por fim, o anúncio pelo Presidente Bielorusso Aleksandr Lukashenko de que tenciona formar com a Rússia uma “União de Estados soberanos“, a que se poderão juntar outras antigas repúblicas soviéticas, aponta para o caminho da formação de uma “Grande Rússia”. Este é, presumivelmente, o mecanismo de integração das partes da Ucrânia, da Geórgia e da Moldávia ocupadas pela Rússia. Seria a versão minimalista da formação de um império.

Face a esta investida, os países da Europa Central – exceto a Hungria – reforçam o compromisso da sua pertença ao campo ocidental. Por um lado, mostram-se cada vez mais frios face à China, infligindo uma morte lenta à cooperação entre os estados da região no formato “16+1”, que celebra este ano o seu 10º aniversário. Por outro lado, a ativação esta semana pela UE do mecanismo de Estado de Direito em relação à Hungria, que poderá resultar na suspensão dos fundos de Recuperação e Resiliência a este país, demonstra que o eixo Varsóvia-Budapeste está morto e que a Polónia poderá estar a negociar com Bruxelas uma solução para o conflito em relação às violações do Estado de Direito.

A escalada da guerra para o contexto global

No contexto internacional mais vasto, os holofotes viram-se para o discurso de Putin no dia 9 de Maio. A retórica russa é concomitante com a escalada ocidental. Se o Secretário de Defesa Americano Lloyd Austin anunciou que o objetivo dos EUA é o de enfraquecer a Rússia e Boris Johnson evoca Churchill, espera-se que Putin declare uma terceira fase nas operações militares, cujo objetivo é um confronto mais amplo contra a NATO. Putin tem ultimamente concentrado a sua retórica no apoio militar internacional à Ucrânia como casus belli para uma Terceira Guerra Mundial. Igualmente possível é o anúncio de uma mobilização geral – potencialmente mais 150.000 soldados russos. Mesmo que esta seja uma medida impopular e de último recurso, preconiza uma maior prontidão militar, assim como uma maior probabilidade de confronto direto entre a NATO e a Rússia.

Concluindo, a atual trajetória é insustentável. Apesar de estarmos longe de um cenário de Terceira Guerra Mundial, a expansão do conflito para a Europa Central está em curso. Para evitar a escalada para um confronto global, o regresso a uma retórica congruente com a estratégia de contenção por todos os aliados é uma prioridade.

Observador (PT)

Em destaque

Mais de 20 mil candidatos entram na corrida por espaço no poder em 2026

Publicado em 17 de agosto de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Charge do Cazo (Blog do AFTM) Marina Pinhoni Folha...

Mais visitadas