Publicado em 8 de novembro de 2021 por Tribuna da Internet
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Polícia Federal fechou este garimpo ilegal em rio do Pará
Deu em O Globo
A perigosa associação entre facções do narcotráfico e garimpeiros ilegais na Amazônia, formando empreitadas criminosas que vêm sendo chamadas de “narcogarimpos”, torna ainda mais tóxica a extração mineral clandestina em terras indígenas, para a qual o governo costuma fazer vista grossa.
Reportagem do GLOBO mostrou que traficantes do Sudeste passaram a atuar nas reservas, fazendo a segurança dos invasores ou mesmo se associando a eles nos negócios escusos. A presença dos criminosos já foi constatada em duas das maiores reservas do país, a dos ianomâmis, em Roraima, e a dos mundurucus, no Pará.
FORAGIDOS – Investigações de autoridades de Roraima revelam que dez foragidos do sistema penitenciário do estado, todos ligados a uma facção paulista, atuam em garimpos da Amazônia. O líder do grupo assumiu o controle de uma área de extração ilegal de ouro na região do Rio Uraricoera.
No mês passado, duas crianças indígenas morreram sugadas por uma draga do garimpo ilegal quando nadavam no Uraricoera, causando comoção na comunidade ianomâmi. Depois da tragédia, Dário Kopenawa, da Hutukara Associação Yanomami, afirmou que nunca houve operações de repressão à atividade na região.
Os traficantes usam armamento pesado. Num vídeo que circula nas redes, bandidos com balaclavas aparecem armados de fuzis subindo o Uraricoera.
CLIMA DE TERROR – Fotos em poder da polícia mostram clara ligação da quadrilha com a facção paulista. O tráfico tem espalhado terror entre os indígenas. Em maio deste ano, uma saraivada de tiros disparada pelos criminosos assustou a comunidade ianomâmi de Palimiú, em Roraima. A violência só foi contida com a presença da PF e da Força Nacional.
Embora as ações contra o garimpo ilegal tenham arrefecido sob Bolsonaro, não se pode dizer que tenham desaparecido completamente. No dia 27 de outubro, a Polícia Federal fez uma megaoperação contra uma organização criminosa suspeita de explorar o garimpo ilegal na terra indígena caiapó, no sul do Pará.
Estima-se que quase uma tonelada de ouro era extraída anualmente para ser exportada para a Europa. Durante a ação em nove estados e no Distrito Federal, foram apreendidos cinco aviões e 14 imóveis. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 500 milhões que pertenciam à quadrilha.
PODER FINANCEIRO – Faz bem a PF em usar a inteligência e mirar no poderio financeiro das organizações criminosas. Mas essas operações, ainda que bem-sucedidas, não são suficientes para resolver o problema. A existência de “narcogarimpos” na Amazônia é extremamente grave e demanda ação enérgica do governo. À devastação ambiental se junta a insegurança, ampliando o problema.
No fim do mês passado, o Conselho Missionário Indigenista (Cimi) informou que, em 2020, o número de indígenas assassinados no Brasil (182) foi o mais alto em 25 anos de monitoramento. Sinal claro de que o Estado falha na tarefa de proteger esses povos.
Mais que fazer operações, necessárias, claro, é preciso haver vontade política para reprimir garimpeiros que violam a lei. Em outubro, o presidente Jair Bolsonaro visitou uma área de garimpo ilegal na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, onde defendeu a legalização da atividade. Garimpeiros contam com a simpatia do governo. Nada mais nocivo à floresta. Bolsonaro precisa escolher um lado. O da Polícia Federal, que combate a atividade clandestina — ou o dos criminosos.