Publicado em 15 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

Não se observa neste governo qualquer iniciativa efetiva para reduzir a pobreza
Pedro do Coutto
Reportagem de Fernanda Trisotto, Evandro Éboli e Dimitrius Dantas, edição desta terça-feira de O Globo, revela um conjunto de medidas elaboradas pelo ministro Paulo Guedes por pressão do presidente Jair Bolsonaro no sentido de reduzir os impactos negativos dos aumentos de preço dos combustíveis, da energia elétrica e da alimentação, esta última atingindo fortemente os grupos de menor renda. Por falar em renda média, esta recuou no país.
O que o governo chamou de pacote de bondades, representa também um esforço de transferir concretamente os efeitos do desemprego e dos desembolsos pelo Tesouro Nacional. Assim, no cerne da questão, surge um aspecto essencial: sem recuperação do mercado de trabalho e dos salários diante da inflação, não há como o poder público – não só no Brasil , mas em todo o mundo – enfrentar e superar os obstáculos sociais cada vez maiores que separam a pobreza do impasse em que se envolveu o governo Bolsonaro, em grande parte aprisionado numa teia imobilista traçada por Paulo Guedes e sua equipe.
CICLO VICIOSO – Não se observa em todo o governo qualquer iniciativa, não paternalista, mas efetiva, no sentido de reduzir a pobreza que avança com os seus efeitos, os mais diversos, sobre a realidade brasileira. Sem emprego não pode haver produção, não havendo produção, não pode haver consumo, não havendo consumo, coloca-se em risco a própria existência humana representada em nosso país por pelo menos por 40 milhões de pessoas que se encontram sob risco de não poder se alimentar e que já enfrentam as consequências gravíssimas da falta de saneamento e até da ausência regular do abastecimento de água potável.
Reduzir tarifas muito altas de energia elétrica nao é solução efetiva tanto para o presente, quanto para o futuro do país. Mas para o governo Bolsonaro o futuro concentra-se apenas em outubro de 2022, no caminho das urnas, o que já representou um recuo anunciado por projeto de não realizar as eleições caso o voto impresso não fosse reinventado no Brasil em um retrocesso que pelo menos conduziria a 1996.
As perspectivas relativas ao Produto Interno Bruto, de acordo com o boletim Focus do Banco Central, não são positivas. Pelo contrário, indicam um avanço pequeno em relação a 2021. Mas aí surge uma outra questão. Os percentuais relativos a avanços referem-se a que base numérica absoluta? Este é um outro problema porque é preciso distinguir entre um avanço relativo a uma situação de recuo anterior e a incidência do avanço sobre o Produto Interno Bruto que havia antes da queda.
ILUSÃO – O PIB brasileiro era de R$ 6,6 trilhões. Assim, os avanços concretos só podem ser confirmados se o crescimento incidir sobre esse montante porque se qualquer avanço recair sobre um produto menor que o montante de R$ 6,6 trilhões, os números podem iludir uma grande parcela da população. Mas o seu uso é incapaz de mudar a realidade. Essa visão concreta é indispensável para mostrar que pacotes de bondade não são de todo negativos, mas ocultam uma realidade essencial que ultrapassa a queda de prestígio de Bolsonaro para disputar o pleito do próximo ano.
Há que se estabelecer uma diferença entre o que é um benefício e um direito. A sociedade brasileira espera obter direitos sociais e não receber benefícios eventuais. A questão da popularidade, sem dúvida, é importante. Mas ela não se conquista apenas com iniciativas isoladas e subsidiadas pelo Tesouro Público. Elas têm que ser resultado de uma política integrada sob os ângulos social, econômico e financeiro. Sem isso, não há solução efetiva para a sociedade brasileira ou para qualquer sociedade.
ARGENTINA – Vejam agora o exemplo da Argentina. As eleições legislativas preliminares das eleições gerais marcadas para novembro apontaram uma derrota do presidente Alberto Fernández e da vice Cristina Kirchner. O peronismo assim, como em poucas vezes da história política do país, coloca-se em crise. Para mim, consequência de compromissos assumidos na campanha eleitoral não cumpridos pela chapa vencedora. Mais uma diferença, portanto, entre as promessas e a sua concretização.
Nas campanhas, como é habitual, os candidatos se comprometem com uma série de projetos e soluções. Uma vez no poder, esquecem tanto das soluções quanto das promessas. Essa é uma das raízes institucionais que ocorre principalmente no Brasil. Para mudar essa tendência, os candidatos devem no mínimo dizer a verdade e, quando eleitos, lembrar o que disseram aos eleitores e eleitores ao longo das campanhas.
ZIZINHO – Uma bela reportagem de Alex Sabino, Folha de S. Paulo, sobre os 100 anos de Zizinho que transcorreria ontem se vivo fosse. Foi sem dúvida, um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos. Pertence à era anterior às vitórias de Pelé e Garrincha. Jogou no Flamengo, foi tricampeão em 42,43 e 44, jogou no Bangu de 1949 a 1956 e encerrou a carreira no São Paulo.
Representou uma lembrança inesquecível para todos aqueles das gerações que o viram jogar. Meio-armador, meio-avançado e centroavante, deixou a sua marca no futebol. O destino não permitiu que fosse campeão do mundo em 1950. O campeonato mundial caberia bem para ele, como também para Ademir de Menezes. Ele, aliás, lembrou este ângulo da história esportiva num diálogo com o próprio Ademir.
Mas é que houve um Uruguai de Obdulio Varella no caminho e os 2×1 no Maracanã. Esteve fora da seleção brasileira na conquista do Pan-Americano de 1952 em Santiago do Chile. Não existia um bom relacionamento entre ele e o treinador Zezé Moreira. Com Zezé Moreira, o Brasil derrotou o Uruguai por 4×2, devolvendo a derrota de 1950 e conquistou o título numa final, derrotando o Chile por 3×0.
CONTUSÃO – No lugar de Zizinho, no meio-campo, Zezé Moreira escalou Didi, então no Fluminense que, eis novamente o destino, se tornaria campeão e bicampeão do mundo nas jornadas heroicas de 1958 e 1962. No Pan-Americano de 1952, Zezé Moreira convocou apenas um jogador da equipe efetiva de 1950, Ademir de Menezes. Mas ele se contundiu e no seu lugar entrou Baltzar, do Corinthians.
A vitória de 1952 lavou a alma dos brasileiros. Eis o time que Zezé Moreira escalou: Castilho, Djalma Santos, Pinheiro, Brandãozinho e Nilton Santos. No meio, Eli do Amparo, Didi e Pinga, na frente, Julinho Botelho, Baltazar e Rodrigues Tatú. A conquista de 1952 representa também uma alteração tática de grande importância: o futebol nao se ganha apenas do meio para frente, mas também depende do desempenho da defesa e da entrega de bola do meio-campo para as ações ofensivas.