Publicado em 15 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

Sem a militância do PT e PSOL, protestos foram esvaziados
Marianna Holanda e Ricardo Della Coletta
Folha
Auxiliares do presidente Jair Bolsonaro viram a baixa adesão de participantes aos atos contra o governo neste domingo (12) como uma oportunidade para reanimar a base bolsonarista nas redes sociais. Há preocupação entre assessores no Palácio do Planalto com os efeitos da “Declaração à Nação”, nota retórica divulgada por Bolsonaro na semana passada na qual afirmou que não teve “nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes”.
O documento, divulgado dias após os atos do 7 de Setembro em que Bolsonaro ameaçou o STF (Supremo Tribunal Federal), dividiu aliados bolsonaristas.
CAI A POPULARIDADE – Além do mais, Bolsonaro registrou um tombo de popularidade nas redes na esteira da divulgação da carta, que foi redigida com ajuda do ex-presidente Michel Temer (MDB).
Assessores presidenciais avaliam, reservadamente, que o passo atrás dado por Bolsonaro na escalada da crise com o Judiciário fragiliza a base mais fiel do bolsonarismo, que foi às ruas no Dia da Independência defendendo uma agenda radicalizada.
Eles comemoraram o resultado das manifestações convocadas pelo MBL (Movimento Brasil Livre), pelo Vem Pra Rua e por outros grupos em defesa do impeachment de Bolsonaro. O diagnóstico do Planalto é que o comparecimento foi reduzido e deixou patente que a chamada terceira via —que defende uma opção que não Bolsonaro ou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)— não tem até o momento o poder de mobilizar as ruas.
POUCA PRESENÇA – Estiveram presentes no ato da avenida Paulista os presidenciáveis João Doria (PSDB), governador de São Paulo; Simone Tebet (MDB-MS), senadora; Luiz Henrique Mandetta (DEM), ex-ministro da Saúde; e Ciro Gomes (PDT).
Mesmo assim, em termos de comparecimento, Bolsonaro conseguiu colocar mais apoiadores nas ruas. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo estimou cerca de 6.000 manifestantes na Paulista neste domingo, contra 125 mil no ato bolsonarista de 7 de setembro e 15 mil na manifestação da esquerda no mesmo dia no Vale do Anhangabaú.
A contraposição do público de domingo com o das manifestações pró-Bolsonaro tem sido amplamente explorada por aliados do Planalto nas redes sociais.
MANTER A MILITÂNCIA – De acordo com esses assessores, as publicações que ironizam e até ridicularizam o MBL têm ajudado a manter a militância digital coesa em um momento importante, após a divulgação da “Declaração à Nação”.
Não é possível afirmar se a estratégia será suficiente para ofuscar as queixas sobre a nota de Bolsonaro. Porém, afirmam que, pelo menos por ora, a ofensiva digital tem mostrado resultados.
O próprio Bolsonaro ridicularizou os atos deste domingo. Em conversa com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada, disse que os contrários ao governo são uma minoria e que eles são “dignos de pena”.