quinta-feira, setembro 16, 2021

Filho feio não tem pai




Por Zeina Latif (foto)

Esse ditado popular se encaixa muito bem ao momento atual do País, em que os problemas econômicos ou são negados ou as responsabilidades são transferidas. O prêmio de maior rejeição de paternidade vai, certamente, para o presidente Bolsonaro – justamente em quem recai a maior culpa.

Nesse contexto, observa-se a mesma postura de membros do governo e aliados, como mostram os recentes ataques à gestão do presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, por conta do aumento dos preços dos combustíveis.

Bolsonaro não só não ajuda, como atrapalha bastante. Mesmo assim, cobra de Paulo Guedes a solução para os problemas, segundo a imprensa. Para começar, não é justo a cobrança recair apenas sobre o titular da Economia.

Os erros na gestão da saúde e o persistente jogo do contra de Bolsonaro penalizam a economia, pela necessidade de isolamento social prolongado e de se estender as medidas de socorro, afetando a saúde das contas públicas. Este ano, os gastos extras com Auxílio e Benefício Emergencial totalizam R$77 bilhões.

A gestão falha do setor de energia também cobra sua fatura. Não é só a seca a responsável pela alta de tarifas e pelos riscos de apagão e racionamento - que prejudicam decisões de investimento.

O governo não deu continuidade ao ajuste iniciado na gestão Temer e tarda em resolver imbróglios, como o modelo de formação dos preços - o cálculo superestimado da chamada garantia física -, implicando contratação de energia aquém do necessário.

Como reflexo da postura do presidente, há a omissão da Casa Civil, que não cumpre seu papel de organizar o governo.

O presidente prejudica a economia com sua má gestão e por produzir incerteza política inédita para as atuais gerações.

Um canal é pela pressão cambial, elevando preços e tarifas. O real se descolou do que seria o patamar esperado diante do quadro internacional e da usual correlação com as demais moedas de emergentes.

Isso apesar da recuperação em “V” do PIB e do bom desempenho das exportações – destacando positivamente o Brasil dos demais da América Latina. Utilizando os parâmetros do passado, a taxa de câmbio deveria estar oscilando em torno de R$4,2/US$.

Como se não bastassem os entraves estruturais ao investimento, sendo a insegurança jurídica provavelmente o principal deles - um tema ignorado no governo -, o presidente adiciona mais ingredientes à receita de afugentar investidores.

O investimento estrangeiro direto recuou 62% em 2020, ante queda de apenas 8% em países em desenvolvimento ou mesmo de 33% no restante da América Latina e Caribe, nos cálculos da UNCTAD (o critério difere do utilizado pelo BC, que inclui o reinvestimento de lucro, e teve queda de 35%).

O clima de compasso de espera tende a crescer. A postura do presidente alimenta o sentimento não só de incerteza política até as eleições, mas de como será um possível segundo mandato. Além disso, a reeleição poderá implicar mais dificuldades do País em se inserir nas agendas globais, especialmente pela pauta ESG.

Há consequências também de longo prazo, pois Bolsonaro retrocede o Brasil institucionalmente – um país até recentemente reconhecido por ter instituições em funcionamento. O presidente enfraquece essa imagem ao testar limites e alimentar a desconfiança e a cisão da sociedade.

Paulo Guedes tem sua parcela de responsabilidade, por ter falhado em apresentar uma agenda econômica mais estruturada. Houve alguns avanços em temas estruturais, mas a gestão fiscal peca e ameaça a estabilidade macroeconômica.

O ministro fez também promessas em demasia, pois minimizou as dificuldades técnicas e politicas de reformas. Sua credibilidade sai arranhada, e também as perspectivas para um segundo mandato presidencial.

A responsabilidade final, no entanto, é do presidente. Não adiantam as tentativas de empurrar a culpa. O superministério pode muito, mas não pode tudo. Mesmo que houvesse uma agenda estruturada, com definição de prioridades e a necessária costura política, não funcionaria com Bolsonaro. Não se trata de buscar outro ministro.

A ideia de terceirização da política econômica ao “Posto Ipiranga” foi equivocadamente aceita por muitos, poupando Bolsonaro na campanha. Na realidade, era o prenúncio dos problemas que vivemos hoje. Pior, cada vez mais, o presidente terceiriza a agenda para o Centrão. O próximo da fila para levar a culpa.

Que a lição esteja aprendida em 2022.

O Globo

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