Publicado em 11 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

Bolsonaro usou, oportunisticamente, a grande data nacional
Ricardo Bruno
O Globo
Após se apropriar do verde e amarelo e da bandeira nacional, Jair Bolsonaro conseguiu ofuscar as comemorações da Independência brasileira. Reduziu o Sete de Setembro a um espetáculo grotesco, beligerante, um revide público às instituições com viés profundamente antidemocrático.
E o fez movido exclusivamente por interesses pessoais, num movimento em que sobrepôs as questões que o afligem — entre elas a possibilidade de prisão — aos valores de bravura e coragem historicamente evocados nesse dia pelas Forças Armadas.
DISSE SANTOS CRUZ – A irresponsável subordinação dos grandes temas nacionais à pauta estreita do bolsonarismo certamente não agradou aos comandantes das tropas. A fala do general Carlos Alberto Santos Cruz de que o 7 de Setembro foi sequestrado por interesses políticos não foi fortuita, fruto de um arroubo verbal disparado ao acaso. Ao contrário, representa com clareza a posição de setores importantes da caserna.
Em 199 anos de independência, pela primeira vez um presidente da República — logo um ex-oficial do Exército Brasileiro — se coloca acima da nação. Trata as questões penais que o atormentam com mais importância do que o conjunto de valores que dignificam a história das Forças Armadas e, de resto, do povo brasileiro.
Historicamente, o Sete de Setembro é o momento em que as Forças Armadas exaltam a essência do patriotismo dos brasileiros, dada a importância do fato para a construção da identidade nacional.
ACHINCALHES AO STF – Os conceitos que fundamentam a Independência constituem a base de nossa formação cívica. Na terça-feira, contudo, os compromissos inarredáveis de devoção pública à pátria e a seus símbolos foram substituídos por achincalhes do presidente da República à Suprema Corte.
Assim, valores cívicos basilares da nação, os quais as Forças Armadas tradicionalmente exaltam e dos quais se orgulham em datas simbólicas, foram obnubilados pela fanfarronice presidencial.
Ressalvadas as diferenças ideológicas e de caráter de seus protagonistas, a mobilização de Jair Bolsonaro para o Sete Setembro poderia ensejar a apresentação de medidas estruturais para a transformação do país, a exemplo do que fizera João Goulart com as reformas de base no comício da Central do Brasil.
SEM PROJETOS – Ao juntar em praça pública a sua base de sustentação política, Bolsonaro poderia estar criando, hipoteticamente, as condições objetivas para apresentação de um conjunto de metas e diretrizes governamentais num ato altissonante em que supostamente obteria o aval popular para seus planos. Ainda que se discordasse de tudo que ele propusesse, seria inegavelmente um momento afirmativo do governo.
Nada disso aconteceu. É esperar demais de Bolsonaro. Minúsculo em tudo o que faz, ele se ocupou apenas de uma contraofensiva retórica às investigações do STF que podem eventualmente levá-lo à cadeia.
Capturou o sentimento pátrio do Sete de Setembro para promover uma patuscada cívica. Sequestrou valores nobres num movimento que, por baixo, malbaratou a história de bravura e coragem das tropas na construção da identidade nacional.