sábado, setembro 11, 2021

Uma das razões do recuo foi o “temor” do desembarque de aliados, alega o Planalto

Publicado em 11 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

“Não dá para degolar todo mundo”, justificou Jair Bolsonaro

Marianna Holanda , Renato Machado , Mateus Vargas e Julia Chaib
Folha

A escalada na temperatura com partidos aliados teve peso determinante na iniciativa de Jair Bolsonaro (sem partido) de buscar o ex-presidente Michel Temer (MDB) e publicar uma nota para tentar atenuar a crise institucional provocada por ele com os repetidos ataques a integrantes do Supremo Tribunal Federal.

A “Declaração à Nação”, divulgada na quinta-feira (9), deixou o mandatário em saia-justa com apoiadores que respaldaram as ameaças golpistas no 7 de Setembro. Nesta sexta-feira (10), Bolsonaro buscou se justificar para sua base, afirmou haver cobranças para reações imediatas e “que vá lá e degole todo mundo”, mas defendeu mudanças graduais no Brasil.

DEBANDADA – Segundo assessores do Palácio do Planalto, a quarta-feira (8) pós-feriado e a manhã de quinta deixaram Bolsonaro especialmente preocupado com a possibilidade de afastamento dos partidos que compõem a base no Congresso.

A declaração do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), foi considerada dura por Bolsonaro. Com a caneta na mão para abrir um dos mais de cem pedidos de afastamento de Bolsonaro, Lira enviou sinais de tentativa de apaziguamento e não usou a palavra “impeachment”, mas elevou o tom de crítica e falou em “basta”.

O presidente da Câmara estava pressionado por líderes partidários, que, ao longo do dia, vinham soltando notas de repúdio. Alguns dirigentes falaram mais abertamente sobre impeachment, como o PSDB.

EVITOU-SE O DESEMBARQUE? – Assim, para auxiliares palacianos, um dos principais efeitos da nota de recuo foi ter tirado o presidente das cordas e evitado o desembarque de legendas do centrão.

Como a Folha mostrou na semana passada, dirigentes de partidos que compõem a base governista no Congresso, como PL, PP, Republicanos, avisaram o Planalto que uma eventual radicalização poderia comprometer a base.

Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, avisou das consequências da radicalização de Bolsonaro à ministra Flávia Arruda (Secretaria de Governo). Já o PP, de Ciro Nogueira (Casa Civil), está rachado. Como Bolsonaro subiu o tom nos atos do 7 de Setembro em Brasília e em São Paulo, líderes partidários foram críticos publicamente e reservadamente ao mandatário.

APENAS SOBREVIDA – Para interlocutores de Bolsonaro, a nota garantiu sobrevida ao presidente. Apesar de encerrar a semana com o que os “bombeiros palacianos” consideram uma vitória, Bolsonaro não se comprometeu com nenhum outro gesto de pacificação na conversa com Temer na quinta-feira.

Por enquanto, o recuo é visto como retórico. Segundo integrantes da ala política, o maior desafio será garantir que o chefe do Executivo mantenha as palavras da nota e pare de atacar o STF e o ministro Alexandre de Moraes.

Intermediado pelo ex-presidente, Bolsonaro ligou para Moraes. Segundo interlocutores, a conversa durou poucos minutos, e eles não trataram de assuntos delicados —como os inquéritos que têm Moraes como relator e o presidente e aliados como alvo.

MOTIVAÇÃO JURÍDICA – Na véspera da ligação, Temer perguntou a Moraes se ele poderia intermediar a conversa. Ouviu de Moraes que ele não tem nada contra Bolsonaro pessoalmente e que suas decisões têm apenas motivação jurídica.

Outro fator que pesou para o recuo do presidente foi o discurso do presidente do STF, ministro Luiz Fux, no dia seguinte às manifestações de raiz golpista do 7 de Setembro.

O ministro disse que a ameaça do mandatário de descumprir decisões judiciais de Moraes, se confirmada, configura “crime de responsabilidade, a ser analisado pelo Congresso Nacional”. “Ninguém fechará esta corte. Nós a manteremos de pé, com suor e perseverança”, disse Fux na quarta (8).

COM O MINISTRO – Nesta sexta (10), o ministro da Justiça do governo Bolsonaro, Anderson Torres, se reuniu em São Paulo com Moraes, em um encontro de cerca de quatro horas na casa do magistrado, conforme antecipado pelo jornal O Globo.

Na terça-feira (7), diante de milhares de apoiadores em Brasília e em São Paulo, Bolsonaro fez ameaças golpistas ao STF, elevando a pressão da classe política pela abertura de processo de impeachment.

Dois dias depois, divulgou a nota, cujo rascunho foi de Temer, mas construída com a ajuda dos ministros palacianos Ciro Nogueira e Flávia Arruda, com tom bem diferente do que Bolsonaro vem adotando nos últimos meses.

SEM INTENÇÃO? – “Nunca tive nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes. A harmonia entre eles não é vontade minha, mas determinação constitucional que todos, sem exceção, devem respeitar”, escreveu Bolsonaro.

A declaração fez com que o presidente fosse cobrado por eleitores mais radicais. Nas redes sociais, assessores palacianos com muitos seguidores, como Mosart Aragão, pediam que confiassem em Bolsonaro.

Agora, o presidente está sendo questionado por ter aliviado o discurso golpista, ainda que provisoriamente, e ter pedido a desmobilização de manifestações de caminhoneiros que bloqueiam estradas.

BOLSONARO SE DEFENDE – As críticas motivaram o presidente a dizer a apoiadores nesta sexta-feira que não recuou de nada e que jamais cometeu um erro.

“Alguns querem que vá lá e degole todo mundo. Hoje em dia não existe país isolado, todo mundo está integrado ao mundo”, disse o presidente na frente do Palácio da Alvorada. A declaração foi divulgada por um canal bolsonarista.

Diante da pressão de apoiadores, os ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral) e o ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno, saíram em defesa do presidente nas redes sociais nesta sexta. “No passado, vimos muitos virarem as costas para Jair Bolsonaro em defesa de supostos ‘heróis’. O tempo trouxe a verdade! Tenham paciência, pois, mais uma vez, o tempo irá consolidar a verdade!”, escreveu Ramos no Twitter.

SENSO POLÍTICO? – Já Heleno, em vídeo, reconheceu o desânimo de apoiadores, mas disse que Bolsonaro tem “formidável senso político” e pediu união. “Alguns fatos deixaram muitos de nós desanimados. Isso não pode acontecer”, disse. “Vamos em frente, unidos e confiantes”, afirmou.

“O nosso presidente possui um formidável senso político. Discordei dele algumas vezes e depois descobri que ele tinha razão”, continuou.

O chefe do GSI é considerado um dos conselheiros mais radicais de Bolsonaro hoje. Segundo a Folha apurou, na reunião do Conselho de Governo no dia seguinte ao 7 de Setembro, foi dele uma das falas mais inflamadas.

CAMINHONEIROS – A paralisação dos caminhoneiros alinhados ao presidente também foi um dos fatores de pressão, mencionados por auxiliares, para levar Bolsonaro a redigir a nota.

Na longa reunião com Temer, Bolsonaro ouviu do antecessor que os caminhoneiros poderiam derrubá-lo. O efeito do desabastecimento de combustível, alimentos e remédios é devastador, disse o ex-presidente, que enfrentou a greve de 2018.

Bolsonaro concordou. Segundo interlocutores do presidente, mesmo antes do encontro, ele já demonstrava preocupação, apesar do comportamento errático diante de caminhoneiros.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG 
– Os autores da análise assinalam que se trata da versão do Planalto. Porém, todos sabem que o Planalto não é confiável, muito pelo contrário. Suas versões não servem para nada, porque só divulgam fake news, é uma espécie de “vicio de origem”, como se dizia antigamente. As informações que a TI conseguiu são um pouco diferentes. Depois a gente conta. (C.N.)


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