Charge do Alves (Arquivo do Google)
Alexandro Martello (do G1)
A forte inflação dos alimentos, dos combustíveis e do dólar, somada à tensão política, pode levar o Banco Central a aumentar nesta semana os juros básicos da economia. Caso se confirme, será a primeira elevação em quase sete anos — a decisão do BC sobre a taxa Selic, que tem por objetivo conter a inflação, será anunciada hoje no final da tarde.
A última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) que elevou a Selic é de julho de 2015. Na ocasião, a taxa passou de 13,75% para 14,25% ao ano. Depois disso, entremeada com períodos de estabilidade, a taxa caiu até atingir a mínima histórica de 2% anuais em agosto de 2020. Esse patamar foi mantido nos últimos sete meses.
PREVISÕES DE ALTA – Segundo a previsão da maior parte dos analistas, em pesquisa efetuada pelo BC na última semana com mais de cem instituições financeiras, a expectativa é de que a taxa suba para 2,25% ao ano na próxima quarta. Há economistas, no entanto, que preveem um aumento ainda mais expressivo – para 2,50% ou até 2,75% ao ano.
Os analistas avaliam ainda que essa poderá ser apenas a primeira elevação na Selic, que serve de referência para o mercado financeiro. A previsão é de que a taxa suba para 4% ao ano até o fim de 2021, e para 5,5% ao ano até o fechamento de 2022.
O diretor-executivo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira, afirma que os juros bancários já vêm subindo desde o fim do ano passado – reflexo dessa tendência de alta da Selic.
RISCOS E INADIMPLÊNCIA – Segundo Ribeiro, esse aumento nas taxas dos bancos vem acontecendo devido aos chamados “riscos fiscais” – aumento de gastos públicos – e também pela previsão de alta da inadimplência, além do quadro político e do ritmo lento da vacinação contra a Covid-19. “Naturalmente, se o BC subir a Selic agora, vai ser um motivo a mais para subir os juros ao consumidor”, acrescentou.
O diretor da Anefac lembrou que, além da Selic, há outros fatores pressionando os juros bancários para cima: o retorno do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF), que caiu a zero durante 2020 em razão da pandemia; o aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) dos bancos – autorizado pelo presidente Jair Bolsonaro para compensar a redução da tributação sobre combustíveis.
“Não tem almoço grátis. O banco vai embutir [esses custos] nos empréstimos”, afirmou Ribeiro.
CRÉDITO IMOBILIÁRIO – De acordo com o economista, o impacto da alta da Selic neste ano tende a ser maior ainda no crédito imobiliário, caracterizado por um prazo mais longo, de 30 a 35 anos, e volumes de recursos mais altos.
“Aí sim, por menor que seja o aumento, passa a ter impacto. Uma alteração de um ponto percentual [para cima na taxa de juro para compra da casa própria] vai dar uma diferença de mais de 10% no total pago com a taxa anterior”, apontou Ribeiro.
A elevação da taxa de juros, de acordo com analistas, também influencia negativamente o consumo da população e os investimentos produtivos, impactando, assim, o emprego e a renda.