terça-feira, fevereiro 17, 2009

As Catilinárias de Jarbas

As Catilinárias de Jarbas

Josué Maranhão
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BOSTON – Não é necessário ter poderes sobrenaturais para concluir que os políticos brasileiros merecem a péssima avaliação que o povo lhes faz. Geralmente recebem, com absoluta correção, as piores classificações. Chega até ao absurdo. Em minha última curta permanência no Brasil escutei uma conversa que me deixou pasmo. Dizia um cidadão que “os políticos brasileiros são piores do que os piores bandidos. Os bandidos, pelo menos, roubam de particulares e ajudam de alguma forma as populações mais pobres, nas favelas. Os políticos roubam dinheiro público e não dividem com ninguém”.De um modo geral, o conceito dos políticos brasileiros é assustadoramente nefasto, calamitoso. Lembrei-me do tema, que não gosto de lembrar, por conta da entrevista de Jarbas Vasconcelos à revista “Veja”, no último final de semana. Neste caso, tenho alguma afinidade com o presidente Lula: ele diz que tem azia quando lê jornais e eu tenho ânsia de vômito, quando falo ou simplesmente penso alguma coisa sobre os políticos brasileiros. Obviamente, não tenho a veleidade de inocentar os políticos de outras nacionalidades. Também têm folhas corridas recheadas de crimes ou atos assemelhados. Mas não tanto quanto os brasileiros. Conheci Jarbas Vasconcelos ainda no início da década de sessenta. Éramos ambos advogados e chegamos a trabalhar juntos, em favor de um mesmo cliente, ele como advogado empregado da empresa e eu como advogado autônomo. Depois, quando eu era juiz, o reencontrei em várias oportunidades, sentados em posições profissionais diferentes na sala de audiências.Não o conheço como político. Nosso último contato pessoal ocorreu quando ele estava se afastando da advocacia, para ingressar na política, há quarenta e tantos anos. De sua vida pessoal nada sei. Ou melhor, apenas li várias vezes que ele tem uma vocação especial para ser namorado de Miss. Acompanho à distância a sua atuação política. Salvo a minha ignorância quanto a fatos ou atos desabonadores, coloco-o entre as raridades: é um dos políticos brasileiros destacáveis da nefasta classificação que o povo dá à categoria. Enfim, está no grupo restrito cujos nomes sequer preenchem todos os dedos de uma só mão. Apesar de correr o risco de omissão, integro-o na trindade quase sagrada, ao lado de Pedro Simon (PMDB-RS) e Eduardo Suplicy (PT-SP). E é só!Na entrevista que vem causando polêmica, Jarbas fez declarações inusitadas, embora algumas revelem verdades incontestáveis. É o que ocorre, por exemplo, quando diz, a respeito da eleição de Zé Sarney, que “é um completo retrocesso” e que ele (Sarney) “vai transformar o Senado em um grande Maranhão”. Ressalvo que se refere ele ao Estado, que pouco conheço, e não ao meu nome de família.Instado a avaliar o Senado, disse: “Sou um dissidente do meu partido. O nível de debates aqui é inversamente proporcional à preocupação com benesses. É frustrante”. A respeito do celerado Renan Calheiros, não mediu palavras, quando disse que o dito cujo “...é um beneficiário desse quadro político de mediocridade em que os escândalos não incomodam mais e acabam se incorporando à paisagem”. Adiante, revela sua afinidade com a avaliação que o povo faz, dizendo: “A classe política é totalmente medíocre”. Foi incisivo quando falou sobre a banalização dos escândalos políticos, afirmando: “O escândalo chocava até cinco ou seis anos atrás. A corrupção sempre existiu, ninguém pode dizer que foi inventada por Lula ou pelo PT. Mas o fato é que o governo Lula contribuiu para essa banalização”. Ainda sobre a tema, disse: “A corrupção é um câncer que se impregnou no corpo da política e precisa ser extirpado. Não dá para extirpar tudo de uma vez, mas é preciso começar a encarar o problema”. A respeito do governo do presidente Lula, tece comentários sobre a infra-estrutura do país, as precárias condições das estradas, dos aeroportos e portos e quanto ao setor elétrico, que diz vir se arrastando. É incisivo quando diz: “O grande mérito de Lula foi não ter mexido na economia. Mas só. É um governo medíocre”. Sobre a política externa diz que é “piada de mau gosto”. Um comentário contundente ele faz sobre os recordes de popularidade do presidente Lula : “Ele fez essa opção pelo assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo”. Concluiu, ainda sobre o Bolsa Família, dizendo: “Há um benefício imediato e uma conseqüência futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a educação, com a qualificação, com a formação de quadros para o trabalho”. Os comentários mais virulentos ele fez sobre o seu partido, dizendo: “Hoje o PMDB é um partido sem bandeiras, sem propostas, sem norte”. Indagado por que o PMDB quer cargos no governo, atacou de frente, afirmando: - “Para fazer negócios, ganhar comissões. Mas a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral. A corrupção está impregnada em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer mesmo é a corrupção”. Sobre o posicionamento do seu partido, junto aos governos, foi forte: - Daqui a dois anos o PMDB será ocupante do Palácio do Planalto, com José Serra ou com Dilma Rousseff. Não terá aquele gabinete presidencial pomposo, mas terá vários gabinetes ao lado. O PMDB vai se dividir. A parte majoritária ficará com o governo, já que está mamando...Uma parte minoritária, mas significativa, irá para a candidatura de Serra. O partido se tornará livre para ser governo ao lado do candidato vencedor”. Acompanho os meandros da política no Brasil há bem mais de meio século. No entanto, nunca vi ou li declarações tão incisivas, tão contundentes. Principalmente tendo como alvo mais direto o seu próprio partido. Lembro-me da entrevista de José Américo de Almeida, que ajudou a derrubar a ditadura Vargas, em 1945 e lembro-me dos famosos discursos de Carlos Lacerda contra os governos. Não importava qual era, inclusive não escapavam aqueles que ele havia ajudado a subir, como foi o caso de Jânio Quadros. Parece-me que as pedradas de Jarbas se incorporaram a uma antologia universal, que tem como marco maior as Catilinárias, os famosos discursos de Cícero contra Catilina, no Senado Romano. -
Fonte: Última Instância

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