BRASÍLIA - O dossiê montado e divulgado para tentar intimidar a oposição e constranger o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a ex-primeira-dama Ruth Cardoso tem dia, hora e mês de nascimento. A certidão também aponta os pais do vício que faz da chantagem uma prática de defesa. O dossiê foi gerado no dia 1º de fevereiro, por volta das 14h, quando começou a entrevista de demissão da então ministra Matilde Ribeiro (Igualdade Racial), no rastro das notícias sobre gastos irregulares com cartões corporativos da República.
Diante daquela demissão e da pressão da oposição para arrancar do Congresso uma Comissão Parlamentar de Investigação (CPI), a base governista - parlamentares, ministros e até assessores do alto escalão do Planalto - cristalizou a idéia de que era preciso buscar dados para mostrar que os gastos do governo Lula com cartão corporativo e na chamada Conta B (cheque e dinheiro vivo) eram iguais aos do governo anterior.
Na primeira semana desse mês de fevereiro, houve uma mutação política alimentada por conversas no Planalto com ministros e, dias depois, com o próprio presidente da República. A mutação transformou o que era para ser um levantamento de dados em defesa do governo Lula numa peça para "dar o troco no governo FHC".
Os líderes do governo tinham a certeza de que a oposição queria, com a investigação em torno dos cartões, ressuscitar a idéia de achar as supostas compras da primeira-dama Marisa Letícia na caríssima Daslu de São Paulo. Pelos corredores do Congresso, a base governista, capitaneada pelo PT, dizia que os gastos de Lurian Cordeiro, filha do presidente, com segurança e alimentação, seriam contrapostos, por exemplo, aos gastos do filho de FHC, Paulo Henrique.
"Há registros de jantares de Paulo Henrique em Roma", diziam os governistas. A base aliada ficou em estado de alerta e à espera dos dados que chegariam do Planalto, depois de uma coleta coordenada pela Casa Civil e pelo Planejamento, e que mostrariam a rotina de gastos exorbitantes no Palácio da Alvorada, da cozinha pilotada pela chef Roberta Sudbrack aos ternos e vestidos do casal FHC-Ruth.
A empresários, a ministra Dilma chegou a fazer uma confissão em tom de desabafo: "Não vamos apanhar quietos". No dia 6 de fevereiro, ministros que conversaram com a imprensa traçaram por completo esse roteiro do "troco". Nos dias seguintes, em reuniões no Planalto, sempre com os ministros Dilma, Paulo Bernardo (Planejamento) e Franklin Martins (Comunicação) coordenando os trabalhos, enquanto o presidente descansava no Guarujá, por conta do feriado do Carnaval, o governo foi mobilizando a tropa da coleta nos ministérios e dentro do Planalto.
No dia 13 de fevereiro, o jornal "O Estado de S. Paulo" descreveu "a guerra de ameaças" que tomava conta dos salões do Congresso. No dia 19, outra reportagem dizia explicitamente o que estava em curso: "Planalto prepara dossiê sobre era FHC para enfrentar CPI dos Cartões".
Nenhum desmentido oficial foi feito. Dia 29, já com o dossiê circulando no Congresso e noticiado pela revista "Veja", outra reportagem constatava: "Dossiê da Casa Civil contra FHC foi decisão de governo". A "Folha de S.Paulo", em reportagem do dia 28, apontou Erenice Guerra, a secretária-executiva de Dilma, como a operadora da montagem do dossiê.
Ontem, a "Folha" mostrou também que os dados dos arquivos da Casa Civil haviam sido pinçados para montar o dossiê. Sem manipulações. Entre a coleta de dados e a divulgação, houve pelo menos um encontro do presidente Lula com a base aliada, no Planalto.
Numa das conversas descontraídas, o presidente fez um comentário garantindo que as investigações da CPI não iriam encontrar "nada de importante" nem sobre ele e dona Marisa nem sobre FHC e Ruth Cardoso. Mas arrancou gargalhadas de petistas quando emendou com uma observação jocosa, dizendo que a diferença entre os dois casais estava no "gosto refinado" do casal tucano.
As planilhas do dossiê estão repletas de informações sobre vinhos, champanhes, "carnes finas", charutos e outros "produtos elitistas". Na CPI, o ministro Jorge Hage, chefe da CGU (Controladoria Geral da União), fez questão de dizer que a compra da tapioca, por R$ 8,30, pelo ministro Orlando Silva (Esportes), era uma informação que denotava "preconceito".
Fonte: Tribuna da Imprensa
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