quarta-feira, maio 06, 2026

Longe da Terra, no espaço infindável, astronautas sentem forte fervor religioso

Publicado em 5 de maio de 2026 por Tribuna da Internet

ilustração de Ricardo Cammarota

Luiz Felipe Pondé
Folha

O senso comum costuma crer que pessoas altamente treinadas em ciência necessariamente são ateias. Ledo engano. Aqueles que lidam com o universo de alguma forma na sua atividade cotidiana e científica sustentam uma dose significativa de experiência espiritual e, talvez mesmo, mística, diferentemente de muitos profissionais das ciências humanas, biológicas e da filosofia, que costumam alimentar um ateísmo muito mais claro e praticam o proselitismo ateu abertamente, como uma forma de virtude intelectual.

Independentemente da crença de cada um, suspeito que tomar o ateísmo como virtude intelectual é um equívoco filosófico recorrente.

ASTRONAUTAS –  Entre esses profissionais praticantes das ciências que lidam com o espaço fora da Terra, os astronautas são um exemplo especialmente significante, pela simples razão de que sua relação com o espaço é, digamos assim, prática: eles frequentam o espaço.

Recentemente, o piloto da nave Artemis 2, Victor J. Glover, ao orbitar a Lua, fez uma oração se referindo ao amor de Cristo. Afinal, por que um astronauta, formado na mais fina ciência de frequentar o espaço, seria religioso e faria alguma forma de oração ao navegar pelo espaço?

Meu foco aqui é o que se chama, em estudos da religião, de dimensão estética ou “geográfica” das manifestações espirituais ou místicas —não as tomo como sinônimos, mas não farei essa digressão aqui.

OLHANDO A TERRA… – Mas, antes, vejamos outras manifestações espirituais de astronautas quando longe da Terra, vendo-a diante da imensa escuridão, vastidão e silêncio que caracteriza o espaço.

Como foi dito certa feita pelo astrônomo Carl Sagan, a partir da foto tirada da Terra pela sonda Voyager 1 em 1990, a bilhões de quilômetros, nosso planeta é “a pale blue dot” —um pálido ponto azul. Essa afirmação implica uma enorme humildade cósmica, elemento comumente associado a experiências espirituais.

No dia 24 de dezembro de 1968, na nave Apollo 8, que foi a primeira a orbitar a Lua, sua tripulação, constituída pelos astronautas Frank Borman, James Lovell — que ficou famoso quando interpretado por Tom Hanks no filme “Apollo 13” e pelo seu “Houston, we have a problem”, em 1970 —e William Anders, leu os primeiros versos do livro do Gênesis ao orbitar o satélite e fez uma mensagem de Natal. Foram ouvidos por milhões de pessoas na Terra e “bombou”, como se costuma dizer hoje.

PÃO E VINHO – Já na Apollo 11, a primeira a pousar na Lua, em 20 de julho de 1969, o astronauta Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar no satélite — o primeiro foi Neil Armstrong, que desde então viveu uma vida um tanto reclusa como professor em Cincinnati, Ohio, e recusou toda a fama que lhe era devida — levou um pão e um vinho, para celebrar a comunhão, e leu trechos do Evangelho de João.

A Apollo 15 também pousou na Lua, em 1973. Após o retorno, o astronauta James Irwin, que caminhou no astro, afirmou algumas vezes que havia sentido mais a presença de Deus do que do espaço. Tornou-se profundamente religioso, desde então.

Claro que estamos falando de americanos que cresceram num ambiente cristão, e o contexto é sempre determinante nesses casos — os soviéticos nada falaram de Deus. Mas o espaço, a Lua, a solidão da Terra e da humanidade nesta vastidão indiferente a nós que é o espaço, compõem o que em estética da religião — estética aqui se refere a sensação, como no grego, nada tendo a ver com a arte— se chama de experiência de descentramento do eu e do mundo, revelando nossa pequenez e insignificância diante do todo. No caso, o espaço.

SUBLIME KANTIANO – Estamos diante de um caso dramático do sublime kantiano, que transcende nossas capacidades cognitivas, epistêmicas e, ao mesmo tempo, eleva a alma, geralmente produzindo em quem o experimenta forte sensação de humildade cósmica e beleza, elemento essencial de qualquer narrativa espiritual que se preze.

Mesmo o estoicismo, em figuras como o imperador romano Marco Aurélio, via, no fato de sermos um “pedaço insignificante” de uma natureza que nos ultrapassa e nos determina, um elemento que o especialista em filosofia antiga Pierre Hadot considerou uma experiência passível de ser um exercício espiritual transformador da vida —nos termos do próprio Hadot.

A experiência do espaço tem profundo eco metafísico, justamente devido à sua imensidão misteriosa e silenciosa. Ao mesmo tempo, nossa fragilidade essencial diante dele nos encanta, assim como nossa solidão nele, e, quando digo “nossa solidão”, refiro-me à solidão da Terra. Só nessa condição podemos, talvez, reviver o mistério que nossos ancestrais viveram no despertar das suas consciências.


Ação na Justiça tenta proibir que as bets continuem a explorar a população pobre

Publicado em 6 de maio de 2026 por Tribuna da Internet

O alerta sobre a epidemia das bets ganhou força após operações policiais envolvendo empresas que atuam no mercado de apostas de forma criminosa -  (crédito: Caio Gomez)

Charge do Caio Gomez (Correio Braziliense)

Carlos Newton

O presidente Lula da Silva não se cansa de repetir que é preciso banir as bets, que estão empobrecendo dezenas de milhões de brasileiros, que todo mês perdem cerca de R$ 20 bilhões nesses jogos de azar, estimulados por avassaladora propaganda televisiva que considera diversão essa modalidade de apostas de cota fixa.

Como criador da Lei 14.790/2023, que regulamentou essa jogatina, o presidente se diz impossibilitado de revogá-la, uma vez que não tem o indispensável apoio de deputados e senadores.

MEDIDA CAUTELAR – É aí que surge a boa notícia. Já está tramitando na Justiça Federal um processo que pede, via medida cautelar urgente, a imediata suspensão dessas apostas, assim como a proibição de sua intensa propaganda, que está atraindo sobretudo jovens e crianças, com celulares conectados a esses sites de apostas vinculados a cassinos estrangeiros.

A Organização Globo, por exemplo, que cobra uma fortuna por anúncios de 30 segundos em sua programação noturna, assistida por cerca de 80 milhões de telespectadores, é o que mais está faturando com esse jogo ilegal e imoral. 

Entrou de corpo e alma nesse caça-níquel, ao fazer uma sociedade com a empresa LV Amazonas Holding AB, uma sociedade sueca, subsidiária da MGM Resorts International. Com sede em Estocolmo, a entidade atua como veículo para a joint venture com as Organizações Globo para operar apostas esportivas no Brasil. Os irmãos Marinho detêm 49,99% da subsidiária que leva o nome de Boa Lion S/A e tem sede em São Paulo.

HADDAD LIBEROU – Quem convenceu o presidente Lula a embarcar nessa aventura, causadora do grave problema de que já afeta centenas de milhares de viciados em jogos, foi o agora ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que usou o seguinte sofisma: o jogo ilegal existe. Assim, como não se consegue eliminá-lo, é melhor participar, cobrando taxas e impostos que ajudem a engordar o caixa da Receita Federal.

Somente no ano passado, a Receita arrecadou perto de R$ 18 bilhões com essa jogatina, dinheiro tomado de endividados que agora poderão usar parte do FGTS no programa Desenrola 2.

Percebendo que as consequências dessa liberalidade serão cobradas nas eleições, o PT também apresentou projeto na Câmara Federal, visando proibir a oferta, a promoção e publicidade desse jogo de azar. 

JOGADA ELEITORAL – A proposta do PT, que só produzirá efeito quando transformada em lei, prevê o bloqueio de sites e pagamento, além de multas e penas de reclusão para quem operar ou divulgar as apostas. 

No entanto, não é para valer. Trata-se apenas de uma jogada eleitoral. O governo sabe que essa tardia intervenção legislativa só produzirá efeito quando aprovada pelo Congresso e sancionada por quem estiver na chefia do executivo, o que somente ocorrerá em futuro remoto. 

Até lá, se demorar anos, centenas de bilhões de reais deixarão o País e serão direcionados para sites de apostas e cassinos da Europa, América e Ásia, com a ajuda de empresas brasileiras de ocasião, sócias minoritárias desses gigantes internacionais operadores de jogos em cassinos de luxo.

Para o governo federal e para a Organização Globo, é melhor ter bets do que não ter. A Receita fatura impostos e a Organização Globo está ganhando no primeiro e no segundo tempo e até na prorrogação, faturando com a publicidade de outros sites de apostas e também com a participação na Boa Lion S/A.

Além disso, os irmão Marinho exploram o povo também com o “Familhão”, outro jogo disfarçado, em sociedade com Luciano Huck, e que até há alguns meses era patrocinado pelo Will Bank, de Daniel Vorcaro, que comprometeu meio mundo com práticas fraudulentas, inacreditáveis em qualquer país minimamente sério.

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P.S. – 
Como se sabe, nem tudo que é legal é moral. Existem leis que permitem ou até favorecem comportamentos que, embora dentro da norma jurídica, são considerados imorais, injustos ou antiéticos pela sociedade, como é o caso das bets, que exploram o dinheiro do Bolsa Família. (C.N.)


Culto vira palanque e faz Malafaia e Flávio serem denunciados por abuso religioso


Associação vê propaganda eleitoral antecipada

Bianca Muniz
G1

O pastor Silas Malafaia e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tornaram-se alvos de uma denúncia no Ministério Público Eleitoral após um culto de celebração da Santa Ceia. Durante o evento realizado no último domingo (3), na sede da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), no Rio de Janeiro, Malafaia interrompeu a liturgia religiosa para declarar apoio à pré-candidatura do parlamentar à Presidência da República em 2026.

O apoio ocorreu quando Malafaia convocou Flávio Bolsonaro e outras lideranças, como o ex-governador Cláudio Castro (PL) e o presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), para subirem ao altar. O pastor conduziu uma oração coletiva nominativa em favor dos políticos e afirmou que “chegou o tempo” de apoiar o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, citando passagens bíblicas para legitimar a escolha.

RECONCILIAÇÃO – “A Bíblia diz que há um tempo para todo propósito debaixo do sol. Esse é o tempo de eu apoiar o Flávio para presidente“, disse Malafaia. O ato selou uma reconciliação pública após meses de atritos em que o religioso questionava a “musculatura política” do senador.

Em resposta imediata, a Associação Movimento Brasil Laico protocolou uma representação junto à Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro. A entidade acusa os envolvidos de praticarem propaganda eleitoral antecipada em bem de uso comum e abuso de poder religioso e econômico.

INSTRUMENTO DE CAMPANHA – O documento jurídico argumenta que o culto foi desvirtuado de sua finalidade espiritual para servir de instrumento de campanha, utilizando a estrutura da igreja, que possui 149 templos no Brasil, para conceder uma vantagem eleitoral aos pré-candidatos.

A ação é dirigida contra o pastor Silas Malafaia, a instituição religiosa ADVEC e cinco pré-candidatos que participaram do evento no altar da igreja: Flávio Bolsonaro (PL): pré-candidato à Presidência da República; Douglas Ruas (PL): pré-candidato ao Governo do Rio de Janeiro; Sóstenes Cavalcante (PL): pré-candidato à reeleição na Câmara; Cláudio Castro (PL): pré-candidato ao Senado; Marcelo Crivella (Republicanos): pré-candidato a deputado federal.

A representação solicita medidas urgentes, como a preservação de vídeos do evento e a aplicação de multas que podem chegar a R$ 25.000,00 por participante. A ação pede também a declaração de inelegibilidade de Silas Malafaia e Flávio Bolsonaro por oito anos, além da cassação de eventuais registros de candidatura ou diplomas.

DESVIO DE FINALIDADE – O documento também sugere que a Receita Federal investigue um possível desvio de finalidade da ADVEC, o que poderia colocar em risco a sua imunidade tributária constitucional.

Além das ações eleitorais, o evento foi marcado por ataques de Malafaia ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao ministro Alexandre de Moraes. O pastor, que recentemente tornou-se réu por injúria contra o comandante do Exército, classificou o inquérito das fake news como “imoral” e afirmou ser alvo de perseguição política. Flávio Bolsonaro, por sua vez, utilizou o espaço para reforçar sua aliança com o setor evangélico.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Malafaia entrou em seu inferno astral. Pipocam ações judiciais contra ele, para impedi-lo de fazer campanha, esquecidos de que, no passado recente, ele trabalhava para Lula e o PT, mas depois desistiu. Enriquecido ilicitamente, Malafaia é um explorador do povo, mas chamam a isso de religião e tudo funciona dentro da lei. (C.N.)


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