Publicado em 15 de dezembro de 2025 por Tribuna da Internet

Contrato previa a atuação “estratégia, consultiva e contenciosa”
Malu Gaspar
O Globo
O contrato milionário firmado pela advogada Viviane Barci de Moraes com o Banco Master previa a organização de “cinco núcleos de atuação” perante o Judiciário, Legislativo e órgãos do Executivo, mas em pelo menos uma instituição expressamente mencionada no acordo a atuação da mulher de Alexandre de Moraes é desconhecida: o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
O contrato de Viviane com o banco de Daniel Vorcaro previa uma remuneração mensal de R$ 3,6 milhões ao longo de três anos. Como ele foi assinado em 16 de janeiro de 2024, se tivesse sido cumprido integralmente teria rendido ao Barci de Moraes Associados cerca de R$ 130 milhões até o início de 2027 – ano em que o ministro assumirá a Presidência do STF, no esquema de rodízio do tribunal.
OPERAÇÃO VETADA – Depois do Banco Central, o Cade, responsável por garantir a concorrência no Brasil, era estratégico para a aprovação da compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), anunciada em março deste ano. Embora o BC tenha vetado a operação após descobrir as fraudes na venda de créditos do Master para o BRB, o Cade aprovou o negócio sem restrições em junho passado.
Mas a assessoria do órgão informou que nem Viviane nem representantes do escritório Barci de Moraes “tiveram reunião no Cade para tratar da compra do Master pelo BRB nem pra discutir outros casos relacionados ao banco desde, pelo menos, janeiro de 2024” – justamente o início da vigência do contrato com Vorcaro. O Barci de Moraes não consta no processo relativo à negociação no órgão, onde quem defende o Master é o escritório Pinheiro Neto.
O contrato do banco com o escritório da família de Alexandre de Moraes previa a atuação “estratégia, consultiva e contenciosa” perante o Judiciário, o Ministério Público, o Legislativo e em quatro órgãos do Executivo: o Banco Central, a Receita Federal, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e o Cade. A autarquia é vinculada ao Ministério da Justiça e tem sede em Brasília. O Barci de Moraes e o Master não esclareceram quais causas o escritório atuou e quanto, afinal, foi pago do valor global do contrato.
RECURSOS – Segundo o Ministério Público Federal, o BRB decidiu injetar recursos e adquirir o Master “para evitar sua quebra, embora se tratasse de uma instituição financeira cuja operação se baseava em fraudes contábeis, usadas para inflar artificialmente seus ativos e lesar investidores”.
“Apesar das evidências de que o Banco Master comercializava carteiras de créditos inexistentes — apenas em 2025, no montante de R$ 12,2 bilhões —, a direção do BRB insistiu em sustentar a operação de aquisição até a negativa final do BACEN [Banco Central]”, apontou o procurador da República Gabriel Pimenta.
“Esse comportamento demonstra que os gestores do banco público não foram enganados pela administração do Master, mas, ao contrário, tinham plena consciência e participaram das fraudes. Nesse cenário, a aquisição do Banco Master configurava não apenas uma manobra para salvar a instituição privada, mas também uma tentativa de ocultar crimes graves contra o sistema financeiro nacional e contra o patrimônio público do Distrito Federal”, acrescentou.