segunda-feira, outubro 09, 2023

As guerras partidárias




A crise na Câmara dos EUA exemplifica a luta por poder entre partidos

Por Gaudêncio Torquato

Os EUA, infelizmente, borram sua imagem de liderança no painel das democracias planetárias. Quais as razões para tal mudança de paradigma? A principal aponta para a alteração da fisionomia política na sociedade pós-industrial. A política deixa de ser missão para se tornar profissão. 

O motor econômico, por sua vez, passou a puxar a máquina política do mundo globalizado, como se pode conferir com os embates que se travam nos EUA e na Europa, a partir da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Escopos doutrinários tornam-se apêndices da economia.

Cabe indagar: como essa “nuvem de disfunção” (é assim que alguns analistas enxergam a crise norte-americana) afeta países como o Brasil? O fio desse rolo já chegou até nós há muito tempo. Nosso país abriga a prática da intransigência, do impasse político e da polarização entre as duas bandas que puxam o cabo de guerra: bolsonaristas e votantes em Lula.

Por aqui, a política não dá trégua aos competidores. A gana pelo poder é tão desmesurada que os climas eleitorais se intercambiam. A campanha municipal de 2024 já começa a agitar a mesa de debates. Em São Paulo, a guerra eleitoral começou com os questionamentos ao programa de privatizações do governo Tarcísio de Freitas.

No Brasil, é assim. A eleição seguinte abre as cortinas logo após a apuração dos resultados da anterior. Em todas as instâncias, programas e projetos, mesmo os mais abrangentes, comportam ações de cunho eleitoreiro. Políticas de longo prazo? No baú do esquecimento. E esse novo PAC não seria projeto do amanhã? Ora, está contaminado pelo olho nas urnas.

O megaempresário Jorge Gerdau, certa feita, fez o alerta: “numa visão estratégica de longo prazo, é preciso ter políticas de desenvolvimento industrial, ter emprego de qualidade e não depender apenas de commodities e do minério”.

A ausência de estratégia de longo prazo deriva da efervescência eleitoral que impregna o ânimo dos conjuntos. Como nos EUA, por aqui não se abre espaço para a busca de consenso entre blocos de um lado e de outro a respeito de temáticas relevantes. A disputa obedece a uma lógica que Thomas Hobbes cunhou de política de golpes preventivos: A teme que B ataque e decide atacar primeiro, mas B, temendo isso, quer se antecipar, fazendo que A, pressentindo o golpe, tente reagir, e assim por diante.

O ataque não abriga armas de destruição ideológica (até porque as ideologias estão no buraco), mas movimentos táticos. As clivagens partidárias do passado, originadas em antagonismos de classes, perdem sentido no fluxo da expansão econômica e do consequente ingresso de parcelas de parte das margens sociais no centro da pirâmide. As siglas se assemelham em seus lemas: o poder pelo poder.

O Tempo

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