No dia 13 de maio, o tempo se dobra. Não como comemoração de grilhões rompidos por mãos benevolentes, mas como celebração da luta que nunca cessou — a memória viva dos que vieram antes, homens e mulheres arrancados de sua terra, mas nunca de sua dignidade. A cada 13 de maio, reafirma-se que a liberdade não foi um presente, mas uma conquista lavrada em suor, sangue e espiritualidade. É data que nos convoca a honrar a ancestralidade negra e africana, com seus saberes imensos, sua cosmologia profunda, sua dança que é reza e resistência. E é neste chão fértil de memória que brota nossa voz, coletiva, insurgente, esperançosa.
Somos filhas e filhos da encruzilhada, do tambor, do silêncio imposto e da palavra redimida. Trazemos nos corpos o sopro da ancestralidade, nos gestos a firmeza de quem não se dobra. Somos a travessia feita carne, somos o resgate daquilo que nunca se perdeu. Cada passo é herança. Cada riso é um ato político. Cada gesto de amor é uma reexistência. A frase de Gilberto Gil pulsa em nossas veias como batida de atabaque: "a felicidade do negro é uma felicidade guerreira". E é por essa felicidade insurgente que continuamos caminhando — jamais resignados, mas em permanente levante.
Em nós habita a força dos quatro elementos, o mistério do universo e o brilho das estrelas não vistas. Somos filhos da Terra e do tempo, da Água e da lágrima, do Fogo e da palavra, do Ar e do sonho. Cada mulher negra que ensinou os passos da vida sem livros, cada homem negro que construiu com as mãos o mundo que o negava, cada criança que ousou brincar no meio do luto — todos são nossos mestres. Em seus olhos arde a centelha de um saber que desafia o academicismo, um saber que transcende, que cura, que ensina.
Nossa filosofia é prática e encantada. É griô, é terreiro, é igreja de portas abertas, é irmandade de santos católicos, é quilombo, é favela e sala de aula. Nossos corpos rezam em muitas línguas e se inclinam diante de muitos altares. Valorizamos as religiões de matriz africana e reconhecemos a sabedoria que brota dos sincretismos, das devoções populares, dos santos negros canonizados pelo povo, das ladainhas que embalam o sagrado em meio à dor. Reconhecemos também o cristianismo dos pobres e humildes, aquele vivido com fé e ternura por uma massa de negros, negras e pardos que, nos rincões e favelas, mantêm viva a chama de um catolicismo popular, de romarias, promessas e velas acesas. E dos evangélicos populares, que, mesmo nas margens, sustentam redes de cuidado e de acolhimento com capilaridade em todo o imenso Brasil.
Nos terreiros de umbanda, os pretos e pretas velhos nos lembram, com voz baixa e firme, que sabedoria é silêncio e paciência, é folha e oração. As casas de candomblé acolhem com seus rituais, seus cantos e suas lideranças generosas, moldando espaços de pertencimento, identidade e cura. É ali, nesses lugares muitas vezes perseguidos e incompreendidos, que floresce uma teologia do corpo, da dança, da comunhão com o mundo. Esses espaços são trincheiras e santuários. São escolas de mundo e de humanidade. E nos ensinam que o sagrado está em cada gesto de dignidade.
A música é nossa linguagem mais funda. Os cantos que entoamos no trabalho, no culto, no velório, na rua e na festa são mais do que arte — são força vital. Cantamos para suportar, para transformar a dor em coragem, o luto em memória, o cotidiano em rito, a fé em caminho. O canto é nossa travessia e nosso abrigo, é também promessa de futuro. Nas melodias que sobem dos terreiros, das igrejas, dos becos e das praças, está a alma de um povo que resiste dançando, que sofre cantando, que sonha em coro. Porque nossa alegria, como nossa dor, é coletiva.
Nosso saber é ancestral, comunitário, forjado na ausência de privilégios e na abundância de coragem. Não está nos palácios da razão, mas nas cozinhas, nos quintais, nos becos, nas rodas de conversa e de samba. Onde há dor, há também um projeto de futuro. Onde há injustiça, germina um gesto de cura. Onde há racismo, brota resistência. Somos as mãos que escrevem outra história. A história de um povo que nunca foi apenas vítima, mas sempre sujeito. Que nunca foi apenas apagado, mas sempre acendeu sua própria luz.
E assim seguimos — sem pedir licença, mas com a ternura de quem conhece o peso do mundo e ainda escolhe semear. Somos mulheres e homens, velhos e jovens, vivos e mortos. Somos o ontem que se levanta e o amanhã que se anuncia. Não aceitamos migalhas de reconhecimento: queremos o banquete da justiça plena. Porque não somos apenas parte. Somos o todo. Somos a possibilidade da vida em sua plenitude. Somos a esperança que não cansa. Somos a liberdade que canta. Somos a felicidade guerreira de um povo que nunca deixou de lutar.
Paulo Baía em 13 de maio de 2025 em Cabo Frio/RJ.