Você que acompanha os nossos e-mails sabe: os tempos são difíceis. É um monte de ataques, ameaças, processos judiciais e tentativas de fazer o nosso trabalho parar. Todos os dias. Mas hoje eu vim dizer que ainda há o que comemorar.
Nos últimos dias, duas decisões judiciais nos fizeram felizes ao reconhecerem um princípio fundamental: sem jornalismo, não há democracia.
O Tribunal Justiça do DF rejeitou ações movidas contra o Intercept Brasil por uma ex-corregedora da Abin e por um delegado da Polícia Federal, ambos mencionados em nossas reportagens sobre os recentes escândalos na inteligência brasileira.
Os dois pediram a remoção de matérias, retratação pública e indenizações que, somadas, superam os R$100 mil. Perderam.
O juiz Edmar Ramiro Correia, do 3º Juizado Especial Cível de Brasília, no último dia 30 de abril, assinou duas sentenças afirmando o que já sabíamos: as matérias se limitaram a criticar, dentro da legalidade, a atuação dos servidores públicos em suas funções. “Não ultrapassaram os justos limites da liberdade de expressão e de imprensa”, escreveu ele.
“De fato, a crítica à atuação de servidor público, dentro dos limites legais, caracteriza direito de liberdade de expressão e de imprensa, pilares essenciais em uma sociedade democrática, sendo ônus de quem ocupa o cargo sujeitar-se à possibilidade de críticas à sua atividade, ainda que duras”, afirmou o juiz.
O juiz ainda concluiu que não houve ofensa pessoal, má-fé nem dolo, e por isso julgou improcedentes todos os pedidos — nas duas ações. Os processos foram, inclusive, associados judicialmente, tamanha a similaridade das tentativas de silenciamento. Cabe recurso das decisões.
Essas derrotas judiciais, ainda que parciais, acontecem no momento em que nossa cobertura sobre a Abin paralela se confirma, passo a passo, no julgamento sobre a tentativa de golpe que corre no Supremo Tribunal Federal — e na reta final do inquérito que apura o uso clandestino da Abin no governo Bolsonaro.
Foi o Intercept quem revelou, em 2020, que a Abin de Alexandre Ramagem e Jair Bolsonaro criou uma estrutura de espionagem paralela alocada em um novo departamento, o Centro de Inteligência Nacional.
Com essa mesma reportagem, citamos, pela primeira vez, a existência de Marcelo Bormevet, um agente da Polícia Federal escalado para operar ilegalidades da Abin.
Essa investigação foi citada por Alexandre de Moraes, ministro do STF, para autorizar uma operação da PF e mirou os principais nomes do bolsonarismo, como Ramagem, Heleno, Braga Netto e o próprio Bolsonaro, em janeiro de 2024.