quarta-feira, maio 21, 2025

A lama não é lugar para a palavra


Há saberes que não nascem nas cátedras, nem nas bibliotecas, nem nos tratados; nascem do osso exposto da experiência humana, da fricção brutal entre a dignidade e o abismo. “Jamais entre em luta com um porco. Ambos sairão sujos, mas só ele vai se divertir com isso.” Não importa se é George Bernard Shaw, Mark Twain, Abraham Lincoln ou ninguém. Pouco importa o nome grafado, porque essa sentença não tem dono: pertence ao drama humano, à consciência daquilo que se arrasta no subterrâneo da convivência. É um pedaço de realidade arrancado da carne da civilização.


O porco — metáfora sem pudor, sem verniz — não é criatura do campo, é criatura social. Vive, prospera e se alimenta do jogo sujo, da dissimulação, do ruído, do destempero, da mentira que se mascara de opinião. Seu habitat não é o chiqueiro literal, mas a lama simbólica das relações humanas degradadas. É no pântano das vaidades, no brejo dos discursos podres, que ele se revira, se fortalece, se diverte. Porque para ele não há constrangimento na sujeira — a sujeira é lar, é território, é identidade.

A sociologia reconhece essa anatomia perversa do convívio. Na lógica estrutural das interações sociais, há sujeitos que não querem o diálogo, não querem a verdade, não querem sequer a vitória moral. Querem o embate vazio, o espetáculo do conflito, a estetização da ofensa. Eles sabem: se conseguem arrastar o outro para a lama, já venceram. Porque na lama não há lógica, não há razão, não há justiça. Só há o ruído — e o ruído sempre beneficia quem não teme o grotesco.

A filosofia sempre acendeu tochas contra essas trevas. Desde Heráclito, sabemos que o conflito é pai de todas as coisas, mas não qualquer conflito — só aquele que produz síntese, transformação, movimento. O conflito que habita a lama não é dialético, não é criativo, não é fértil. É estéril. É violência simbólica, é pulsão de aniquilar, de reduzir tudo a pó, a ruído, a lama. Não há Platão que suporte. Não há Sócrates que se salve se aceita debater com quem se alimenta da torpeza.

Literariamente, essa imagem é devastadora. É rasgo, é corte, é cicatriz na superfície da convivência. A lama não é território da palavra. Na lama, a palavra afunda, se sufoca, se distorce. Na lama não há sintaxe possível. A lama corrompe o verbo, destrói a lógica, implode a razão. Quem desce à lama não volta inteiro. Sai partido, sujo, contaminado pela lógica do porco: a lógica da degradação, da banalização, do cinismo absoluto.

Por isso, há que se ter coragem para não lutar. Coragem para não ser arrastado. Coragem para não responder. Coragem para permanecer na margem seca, onde ainda é possível que a palavra floresça. Recusar a lama não é covardia — é resistência, é ato filosófico, é gesto sociológico, é escolha literária. Porque há guerras que só existem para transformar soldados em porcos. E há silêncios que não são fuga: são monumentos erguidos na altura onde a lama jamais chegará.

Paulo Baía em 21 de maio de 2025 em Cabo Frio/RJ.

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