terça-feira, março 16, 2021

O voto impresso e a impressão de desordem absoluta no Palácio do Planalto


O governo assemelha-se a uma nau sem rumo, perdida em águas revoltas

Pedro do Coutto

 Em excelente artigo publicado na Folha de São Paulo desta segunda-feira, dia 15, a professora Maria Tereza Aina Sadek focalizou a história do voto no Brasil e condenou o retorno defendido por Jair Bolsonaro do voto impresso nas próximas eleições.

Francamente, eu ia escrever apenas sobre esse tema, mostrando inclusive que no voto impresso é muito fácil transformar votos em branco em votos nominais. Basta fazer um x no espaço da cédula. Já tivemos experiência nesta questão em 1982 quando da tentativa de fraude da Proconsult que se transformou num escândalo total.

ENTREVISTA – Mas acontece que no meio da tarde surgiu a excepcional entrevista da médica Ludhmila Abrahao Hajjar mostrando as razões de não ter podido aceitar substituir o general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde.

No ministério só não. No conceito mais amplo possível do que representa um projeto emergencial de saúde que não pode ser adiado. Porém, ela sofreu ameaças, até de morte, pelo celular e houve três tentativas de pessoas estranhas tentarem a ela ter acesso na noite de domingo no hotel em que se hospedara em Brasília.

Voltou para São Paulo e numa longa entrevista a GloboNews relatou os acontecimentos que tornaram a sua noite num filme praticamente de terror. O general Pazuello participou do encontro com a médica Ludhmila Hajjar  , com o presidente da República, ao qual também estava presente também o deputado Eduardo Bolsonaro.

ABALO – Na segunda-feira à tarde, Eduardo Pazuello numa entrevista coletiva disse que permaneceria no Ministério da Saúde até que o presidente da República resolvesse reorganizar a pasta. E, penso eu, rumou da entrevista para o seu gabinete abalado tanto pela recusa de Ludhmila Hajjar, quanto pelo fato novo que ocorria enquanto ele, Pazuello, falava à imprensa.

Entrou em cena o médico Marcelo Queiroga que viajou de São Paulo para o Planalto para se encontrar com o presidente da República e verificar se poderia ou não substituir o general. Como se vê não se pode deixar de analisar o que aconteceu e está acontecendo com a Saúde no Brasil. O governo assemelha-se a uma nau sem rumo, perdida em águas revoltas e ondas gigantescas.  O coronavírus continua navegando e a população brasileira à espera das vacinas e de sua aplicação.

O VOTO NO PAÍS –  Volto então a falar sobre o voto. A professora Maria Tereza Aina Sadek traçou um longo roteiro, muito claro, sobre o voto no país, citando o exemplo de 1930 e de 1934. A meu ver, as fraudes eram uma rotina em 1930, bico de pena e atas falsas. Tanto é assim que até hoje historiador algum negou que a vitória de Júlio Prestes contra Getúlio Vargas nas urnas do presidente Washington Luis não tenha sido fraudada.

Júlio Prestes era governador de São Paulo e Getúlio Vargas governador do Rio Grande Sul. Mas, vamos ver como era o voto, a partir de 1945, quando Vargas já deposto há 29 de outubro, as eleições se realizaram a 2 de dezembro. Era o seguinte: os eleitores e eleitoras podiam colocar em envelopes as cédulas de seus candidatos que disputavam o Palácio do Catete, o Senado e a Câmara Federal.  

As eleições para governador de Estado, deputados estaduais e vereadores só ocorreram em 1947. No Rio, então Distrito Federal, não houve eleição para deputados estaduais, só para vereadores. Os prefeitos eram nomeados pelo presidente da República. O sistema de cédulas individuais foi usado nas eleições de 1950 e também no pleito de 1954. A partir de 1955, por pressão da UDN, e aceitação pelo PSB e pelo PTB, criou-se a cédula oficial. Nela, os eleitores assinalavam com um x ao lado do nome, o voto que desejassem marcar.  

MANOBRA – Havia um espaço para o voto nulo e outro espaço, esse aberto, para o voto em branco. Eis aí uma passagem para o desfiladeiro político no rumo à fraude. Era simples: bastava a conivência de fiscais e alguém colocaria um x, tornando o voto branco em nominal. Foi com essa perspectiva desonesta que o escândalo do Proconsult tentou transformar a derrota de Moreira Franco em vitória e a vitória de Brizola em derrota. Mas não conseguiram.  

Eu estava no Jornal do Brasil e o redator chefe era Paulo Henrique Amorim e o editor Ronald de Carvalho, homônimo do poeta. Disse a eles que só havia uma hipótese de fraudar a eleição de Brizola, era preencher os votos brancos a eles dando o destino do beneficiário da fraude escandalosa.

MANCHETE – No dia seguinte, a manchete principal do JB foi a seguinte: “Brizola consolida vitória pela margem de 126 mil votos”. A margem só não foi maior do que a dimensão do crime imundo que se articulara. Dou este exemplo para acrescentar um aspecto histórico ao excelente artigo de Maria Tereza Aina Sadek.

Enquanto isso, ficamos esperando a perspectiva de nosso país amanhecer finalmente com um novo ministro da Saúde. A população atacada pela Covid-19 exige urgência.

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