
Entre os três, apenas Augusto Heleno ainda parece ser confiável
Carlos Newton
Ainda bem que o ministro Celso de Mello manteve-se firme e não se deixou enganar pelas artimanhas do chamado “Gabinete do Ódio”, conduzido no Planalto pelo vereador Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, que tentou o possível e o impossível para evitar que o vídeo da reunião ministerial do dia 22 fosse encaminhado ao Supremo Tribunal Federal.
Ciente de que haveria dificuldades para entrega da gravação, que é a principal prova a ser colhida nesse inquérito, o ex-ministro Sérgio Moro solicitou que prestassem depoimentos os três ministros generais que no dia seguinte, 23, se reuniram com ele e o presidente Bolsonaro, tentando convencê-lo a não se demitir do cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública.
JAMAIS MENTIRIAM? – Com toda certeza, Moro relacionou os nomes dos três generais (Augusto Heleno, Braga Netto e Eduardo Ramos) por presumir que eles jamais mentiriam em depoimento à Justiça, no qual a testemunha assume o compromisso de dizer a verdade e nada mais do que a verdade. Mas o ex-ministro está tremendamente enganado.
Dos três ministros, dois já demonstraram que pretendem costear o alambrado em busca de sua saída, como dizia Leonel Brizola. Foi triste ver Braga Netto, da Casa Civil, no Jornal Nacional, ao tentar justificar o “sumiço” do vídeo, dizendo que nem toda reunião ministerial é gravada na íntegra. “Às vezes gravam-se apenas trechos”, afirmou, fazendo questão de repetir as falsas alegações do “Gabinete do Ódio” e demonstrando uma submissão inaceitável.
Da mesma forma, o general Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) também se comporta como se fosse advogado de Bolsonaro, ensaiando uma patética defesa da posição do presidente.
“PELO QUE SE RECORDA…” – Em entrevista a Fernando Rodrigues, no SBT, Ramos declarou que na reunião do dia 22 o presidente Jair Bolsonaro não fez nenhuma sinalização que indicasse interferência na Polícia Federal. Pelo que me recordo, disse Ramos, não houve nem menção a superintendências da corporação durante a reunião interministerial.
Na entrevista, o ministro-general arrisca uma nova versão da postura de Bolsonaro, para afirmar que “em nenhum momento” da reunião o presidente quis se referir a processos judiciais ou investigações conduzidas pela Polícia Federal. De acordo com ele, Bolsonaro falava apenas do Sisbin (Sistema Brasileiro de Inteligência) e cobrava relatórios de melhor qualidade.
ADVOGADO DE BOLSONARO?- “O que é a inteligência? Parece que ficou demonizado, mas não é: em qualquer país do mundo você precisa de informações e de dados sobre as fronteiras, os crimes transnacionais, queimadas, de criminalidade, de grupos radicais se reunindo, isso faz parte do Sisbin. E quem faz parte do Sisbin? O sistema de inteligência das Forças Armadas, da Polícia Federal, das Polícias Militares, todos vão e alimentam esse sistema. Então era disso que o presidente estava falando”, disse Ramos no programa do site 360, “interpretando” as situações e comportando-se como se fosse defensor de Boldsonaro.
“Mas esse relatório que o Sisbin produz ou os órgãos…”, começou a dizer Fernando Rodrigues, um dos melhores jornalistas do país.
“O presidente tem que ter acesso”, interrompeu Ramos.
“Mas ele já tem acesso”, assinalou o apresentador.
“Sim, mas ele os considera não tão no nível que ele queria”, declarou Ramos, acrescentando: “Eu como general, onde passei, é obrigação, é dever da pessoa que está investida de autoridade exigir que seus subordinados deem o melhor de si. Ele é o chefe supremo do país. Ele não pode ser surpreendido – e às vezes acontece – com informações que ele recebe de WhatsApp.”
SÓ RESTA HELENO – Bem, para dizer a verdade, somente a verdade e nada mais do que a verdade, só resta o ministro-general Augusto Heleno. A situação dele é diferente de Braga e Ramos, porque na reunião tentou apoiar a posição de Moro e agora não pode alegar que naquele momento estava fazendo anotações, respondia a uma mensagem no celular ou estava distraído, pensando na morte da bezerra, como se dizia antigamente.
Segundo o ex-ministro Moro, o general Heleno o apoiou e disse a Bolsonaro que ele, como presidente, não poderia receber relatórios sobre inquéritos na Polícia Federal. E isso está gravado no vídeo.
Ramos é um completo fracassado, deveria voltar à ativa, sua função principal é a articulação política do governo com o Congresso, e não se precisa dizer mais nada. Braga Netto também é da ativa e devia seguir o mesmo caminho. Perdeu completamente a moral, ao aceitar prestar serviços ao “Gabinete do Ódio”.
###
P.S. 1 – É da lavra de Braga Netto a frase “Carlos Bolsonaro não tem gabinete no Planalto”, embora todo mundo saiba que Carluxo usa a sala de seu amigo Filipe Martins, no terceiro andar, ao lado do gabinete de Bolsonaro, enquanto Braga Netto fica asilado no quarto andar.
P.S. 1 – É da lavra de Braga Netto a frase “Carlos Bolsonaro não tem gabinete no Planalto”, embora todo mundo saiba que Carluxo usa a sala de seu amigo Filipe Martins, no terceiro andar, ao lado do gabinete de Bolsonaro, enquanto Braga Netto fica asilado no quarto andar.
P.S. 2 – Tenho muito respeito por Augusto Heleno. Espero que ele faça um depoimento verdadeiro, como testemunha, sem tentar ser advogado de uma parte ou de outra, mantendo a postura de um oficial-superior das Forças Armadas, mesmo que esteja na reserva, ao contrário dos outros dois, que continuam na ativa, junto com o porta-voz invisível Rêgo Barros, mas fazendo papel feio, ganhando salário em dobro e engarrafando a fila de promoção de seus companheiros. (C.N.)