
Bolsonaro disse que ia divulgar a gravação, mas depois desistiu
Pedro do Coutto
São tantas as versões, as confirmações e as negativas da existência do vídeo focalizando a reunião ministerial que colocou frente a frente o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Sérgio Moro, que os avanços e recuos conduzem a uma situação de mistério. Por isso recorri a grande figura da literatura policial para tentar chegar a uma conclusão.
Os personagens são vários e assim dei o título deste artigo a uma obra bastante representativa da situação em que caminha o caso. Um enigma. Enigma esse capaz de concluir não apenas por um responsável mas sim por vários deles.
FALSAS NEGATIVAS – Reportagem de Júlia Chaib, Folha de São Paulo desta quinta-feira, apresenta os vários estágios percorridos por negativas sucessivas e que conduzem a que se possa supor que no caso do vídeo haja uma semelhança com o Oriente Express.
A reportagem começa pela determinação do ministro Celso de Mello, ao determinar que o governo forneça o vídeo daquele encontro ministerial no qual o presidente da República teria afirmado interesse em acompanhar investigações que corre na Superintendência do Rio de Janeiro. O ex-ministro da Justiça narrou esse episódio no depoimento que fez à Polícia Federal. Tal versão deixaria Bolsonaro muito mal.
Entretanto setores do Palácio do Planalto revelaram haver incerteza quanto a gravação e se essa gravação seria integral ou apenas focalizando uma parte do encontro.
ASSESSOR NEGOU – O chefe da Assessoria Especial da Presidência da República, Célio Faria Jr. negou que esteja com o vídeo em nota a Folha de São Paulo. Disse que a gravação dos vídeos são questões eventuais. Celso Faria negou também não estar de posse do cartão de memória. Passou a bola para a Secretaria de Comunicação. Mas esta, por sua vez negou a realização da tarefa. Fábio Wajngartem que chefia o órgão não está com a gravação. A estrada a ser percorrida desviou-se para a empresa Brasil de Comunicação, particular, que possui contrato com a Secom.
A empresa tirou o corpo fora e o gabinete da Presidência da República negou-se a comentar o assunto.
RECURSO REVELADOR – Após as voltas circulares em torno do tema, as quais deixaram em dúvida quanto a existência integral do vídeo, um fato restabeleceu a lógica. A Advocacia Geral da União na tarde de ontem ingressou com recurso ao STF no sentido de modificar o despacho do ministro Celso de Melo.
Portanto, a iniciativa da AGU revela tacitamente que o vídeo existe, pois não pode haver recurso contra algo que não existe. A iniciativa, por outro lado, demonstra a preocupação em que o vídeo termine por não ser divulgado em face das marchas e contramarchas que marcaram as respostas vagas do gabinete presidencial.
BOLSONARO PREOCUPADO – Fica claro que Jair Bolsonaro revelou a preocupação para com os trabalhos da Superintendência da PF no Rio de Janeiro. Na minha opinião, dificilmente o plenário do STF vai atender a manutenção do sigilo do vídeo, contida no recurso, que pede apenas liberação parcial.
O desencadeamento dos vários capítulos podem terminar assinalando um conjunto de informações prestadas ao vídeo em questão. Vídeo dourado é apenas uma expressão que acrescentei a consagrada obra de Agatha Christie.
Somente isso. E agora espero pela confirmação de se os suspeitos são vários ou recai em uma só pessoa.