Folha de S. Paulo e Agência Folha
RECIFE - O arcebispo de Olinda e Recife (PE), dom José Cardoso Sobrinho, afirmou ontem que o aborto é um crime mais grave que o estupro, em referência ao caso da menina de nove anos que ficou grávida após ser estuprada e teve a gravidez interrompida -o padrasto confessou o crime e foi preso, mas não foi excomungado, o que aconteceu com a mãe dela e os médicos que realizaram o procedimento.
Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a Igreja. Para o presidente, nesse caso, "a medicina está mais correta que a Igreja". "Como cristão e como católico, lamento profundamente que um bispo da Igreja Católica tenha um comportamento conservador como este. Não é possível permitir que uma menina estuprada pelo padrasto tenha esse filho, até porque ela corria risco de vida", afirmou Lula.
Segundo o religioso, o presidente deveria procurar uma assessoria teológica antes de se pronunciar sobre o assunto, uma vez que demonstra não conhecer as leis da igreja, apesar de ele se declarar "cristão e católico". "Até acredito que ele seja [cristão e católico]. Tem pessoas que são católicas, mas que não são suficientemente instruídas sobre a lei de Deus." "Católico que é católico aceita a lei da igreja. Quem não aceita é católico mais ou menos, e isso não existe", rebateu o religioso. "Se o assunto é não matar, todos devemos ser conservadores até a morte", falou o arcebispo.
Estupro é pecadoO padrasto da menina, que confessou ter abusado sexualmente da garota e da irmã dela de 14 anos por cerca de três anos, não foi excomungado. Segundo o arcebispo, o crime de estupro não está incluído nos delitos gravíssimos da igreja que causam a excomunhão automática -como aborto, heresia e violência física contra o papa-, apesar de ser considerado "pecado". "De acordo com a lei de Deus, a igreja condena todos os pecados. Homicídio é pecado. Quem comete não está excomungado, mas é um pecado grave. Roubar, assaltar e estuprar também são pecados, mas não tão graves quanto aborto."
Os excomungados não podem receber sacramentos como a eucaristia e o casamento. Dom José disse que eles podem deixar a condição e, se se arrependerem, serem absolvidos em confissão. Em nota, a CNBB condenou o estupro e se disse contrária ao aborto.
AbrigadaA menina, que estava com quase quatro meses de gravidez de gêmeos e passou pelo aborto na quarta, recebeu ontem alta médica da maternidade do Cisam (Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros), ligado à Universidade de Pernambuco, onde o procedimento foi realizado.
Ela e a mãe foram levadas a um abrigo em local não divulgado. Ela vai continuar recebendo atendimento médico e psicológico.
Fonte: AGORA
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