segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Nova patifaria

Ricardo Noblat
A Câmara dos Deputados está pronta para votar amanhã, em caráter de urgência, o projeto de resolução que subtrai do seu segundo vice-presidente, o deputado Edmar Moreira (DEM-MG), a função de corregedor. É atribuição do corregedor fiscalizar o comportamento dos colegas e instalar processos contra aqueles que quebrem o decoro parlamentar.
Aparentemente, a perda da função será um castigo para Moreira, aplicado pela maioria dos deputados presente à sessão de votação do projeto. Mas só aparentemente. Trata-se de mais uma patifaria que se alimenta do estado de impunidade que prevalece no Congresso. Eleito segundo vice-presidente na semana passada, o que fez Moreira para perder a função de corregedor?
Disse uma verdade. E expressou um desejo que é de nove entre 10 dos seus pares. A verdade: "Temos o vício insanável da amizade". O desejo: se dependesse dele, processos por quebra de decoro seriam instruídos dentro da Câmara, mas remetidos para a Justiça. Dela seria a última palavra sobre a eventual cassação de mandatos e de direitos políticos.
No segundo semestre de 2005, a CPI que investigou o escândalo do mensalão pediu a cassação dos mandatos e dos direitos políticos de 19 deputados, acusados de fazer parte do esquema de pagamento de propinas a quem topasse votar como mandava o governo. O "vício insanável da amizade" salvou 12 deles. Somente três foram cassados. Quatro renunciaram aos mandatos. E assim puderam disputar as eleições seguintes.
Razoável que o líder do PT na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (SP), tenha saído em defesa de Moreira. "Não acho que seja uma tese desprezível", comentou Vaccarezza a propósito da idéia de Moreira de transferir para a Justiça a decisão de punir quem fira o decoro. Vaccarezza foi eleito líder com o apoio do ex-ministro José Dirceu, um dos três cassados no caso do mensalão.
Moreira se elegeu segundo vice-presidente da Câmara como candidato avulso. Contou com votos do PT, PR e PMDB. O DEM disputou a vaga com outro candidato. Se ele tivesse calado sobre processos por quebra de decoro, a mídia não teria se interessado por seu passado. Ao se interessar, descobriu que Moreira não presta para ser deputado, corregedor e muito menos segundo vice-presidente da Câmara.
Se há um deputado coberto de lama da cabeça aos pés, é Moreira. Não deve ser o único. Empresas de Moreira funcionam em endereços inexistentes. Duas delas são rés em 2,7 mil ações trabalhistas e acumulam 5.674 processos em andamento ou arquivados na Justiça de São Paulo. Moreira é acusado de sonegar impostos, omitir bens na sua declaração de rendimentos à Receita Federal, e dar calote no Banco do Brasil.
Cada deputado pode pedir reembolso mensal de até R$ 15 mil a título de despesas feitas em seus Estados no exercício do mandato. Basta que apresente notas fiscais correspondentes às despesas. A Câmara não quer nem saber se elas são frias ou quentes. Dono de empresas da área de segurança, Moreira gastou 78% do que poderia ter gastado em 2008 com... serviços de segurança. Em 2007, foram 50%. Que tal dar uma espiadinha nas notas dele?
Onde está a patifaria engendrada na Câmara? No simples afastamento de Moreira da função de corregedor. Como um sujeito com prontuário tão sujo poderá comandar a Câmara substituindo o presidente e o primeiro vice? Como um partido poderá seguir abrigando-o em seus quadros? Como ele poderá ficar a salvo de um processo de cassação por falta de decoro?
O DEM jura que expulsará Moreira esta semana. Em seguida, reivindicará a vaga de segundo vice-presidente para um dos seus deputados. Arlindo Chinaglia (PT-SP), ex-presidente da Câmara, caça um parecer jurídico que garanta a permanência de Moreira no cargo. Não cabe a desculpa de que Moreira infringiu a lei somente como empresário. Ele é deputado desde 1999. Passou por três partidos. Nenhum quis saber do que ele era capaz
Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Em destaque

Ministro revela: “25,2 milhões de pessoas fazem apostas em bets ilegais no Brasil”

Publicado em 21 de junho de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Charge do MM (Arquivo Google) Arthur Bambini CNN Br...

Mais visitadas