Cemitérios abandonados
Ministério Público reprova 13 dos 16 espaços disponíveis em Salvador; a pior situação é a da Quinta dos Lázaros
Alexandre Lyrio
Um lugar que deveria servir de última e digna morada dos mortos, onde se realizam mais de 50% dos sepultamentos de Salvador, se tornou a necrópole do abandono e da negligência. Enterrado pelo descaso, o Cemitério da Quinta dos Lázaros, no bairro da Cidade Nova, afunda na mesma proporção das suas covas rasas. As ossadas à mostra, o mau cheiro insuportável e os túmulos decadentes, tomados pelo mato e pelo lixo, expõem uma realidade que se estende aos outros cemitérios de Salvador, a ponto de o Ministério Público Estadual (MPE) ter emitido relatório que condena 13 dos 16 cemitérios da cidade. As únicas exceções são Campo Santo, Jardim da Saudade e Memorial da Paz. A situação se tornou tão precária que a Quinta, o único a oferecer enterros gratuitos, suspenderá as atividades a partir do dia 1º de maio por falta de espaço.
Pode se encontrar quase de tudo por entre as sepulturas do pior dos cemitérios de Salvador, segundo o MPE. Administrado pela Secretaria de Saúde do estado (Sesab), por toda parte da Quinta dos Lázaros existem pedaços de esqueletos humanos, misturados a garrafas plásticas, dejetos orgânicos e entulho. O Correio da Bahia flagrou até mesmo o crânio de um animal, provavelmente de um bode ou uma cabra, sobre uma das covas rasas. “Se não estão tomando conta dos vivos, imagine dos mortos”, ironiza, sem se identificar, um dos supervisores do local, ele próprio desanimado pela impossibilidade de dar conta de tantos problemas.
Os 6.100m2 de área não comportam mais a demanda de enterros. Somente em 2007, o cemitério sepultou 14.072 pessoas (média de 38 por dia), sendo a maioria das famílias atraída pela gratuidade do serviço. Entre os próximos 1º de maio e 1º de setembro, o Cemitério da Quinta dos Lázaros vai parar de receber corpos de adultos, restringindo-se apenas às crianças e aos indigentes. A intenção é fazer com que o período sirva para que alguns corpos sejam exumados e descartados, o suficiente para voltar a abrir vagas.
“É necessária uma média de dois ou três anos para que haja a exumação. Por isso, estamos superlotados”, admite o coordenador geral do cemitério, Deusdete Cardoso. A Sesab diz ter tomado algumas providências para que a procura pela Quinta diminua, mesmo depois de reaberto. “Encaminhamos ofícios para os cartórios para que não emitam guias de sepultamento para a Quinta. Também buscamos a compreensão da prefeitura para que acolha essa demanda nos cemitérios dos bairros”, explica o diretor administrativo do órgão, Fábio Almeida.
Para agravar o quadro, as empresas responsáveis pela contratação de mão-de-obra terceirizada e pelo tratamento dos resíduos – exumações, inumações, transporte e incineração dos corpos – estão se desligando do cemitério. A fase de transição envolve processos licitatórios com outras empresas. Estima-se que duas toneladas de ossos estejam estocadas em um galpão, sem que haja um destino para o material. “Já fechamos com a nova empresa de serviços gerais, faltando apenas concluir a licitação com a empresa responsável pelo descarte dos restos mortais”, informa o diretor da Sesab.
Mas os próprios funcionários reclamam não ter recebido pela rescisão de contrato e os salários do mês de março. Dizem não mais suportar a carga de trabalho, causada pelo déficit de trabalhadores. Os 51 homens, 22 deles terceirizados, dividem-se entre a higienização e o serviço direto nas cerca de 18 mil covas rasas. “Não tem como dar conta. Ainda mais sem receber no final do mês”, protesta um dos coveiros, que preferiu o anonimato.
A construção de um muro para rodear o cemitério resolveria boa parte dos problemas e evitaria riscos para a população. A Sesab garante que o projeto de construção está prestes a se realizar. “Em 30 dias, a obra deve iniciar”, assegura Fábio Almeida. Para intensificar ainda mais a calamidade administrativa, ainda há o fato de boa parte das estruturas do cemitério ser de responsabilidade de irmandades religiosas. Quase 100% dos gaveteiros onde se deposita os corpos, os chamados “carneiros”, pertencem à Igreja Católica. Da mesma forma que as covas rasas, esses locais se encontram em completo estado de abandono. “Temos que dar um jeito de separar o que é nosso e o que é das irmandades”, atesta
Fonte: Correio da Bahia
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