domingo, setembro 06, 2026

Explode no Brasil o número de fundos que podem ocultar o dono do dinheiro, como no Master e na Carbono Oculto

Explode no Brasil o número de fundos que podem ocultar o dono do dinheiro, como no Master e na Carbono Oculto

Por Alexa Salomão

06/09/2026 às 08:30

Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil

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O Brasil virou uma espécie de fábrica global de fundos de investimento regulados

O Brasil virou uma espécie de fábrica global de fundos de investimento regulados. Em 2014, assumiu a primeira posição em número dessas estruturas e, de lá para cá, descolou dos demais países, segundo números agregados pela IIFA, sigla em inglês para Associação Internacional de Fundos de Investimento.

A entidade reúne informações de 44 jurisdições, incluindo o Brasil, representado pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

No período, o número de fundos regulados do Brasil no levantamento da IIFA passou de 14,4 mil para 32,3 mil ao final do primeiro trimestre deste ano —quase o dobro do segundo colocado, a Coreia do Sul, que ao final de março tinha 17,3 mil.

Três tipos de fundos respondem por 47,2% desse boom brasileiro, segundo dados da Anbima: multimercados, FIPs (fundos de investimento em participações) e, sobretudo, Fidcs (fundos de investimento em direitos creditórios). São veículos que podem dar origem a estruturas pouco transparentes.

A comparação internacional da IIFA não considera todos os fundos. O dado reúne os fundos que são abertos, que têm cota resgatável e contam com limites pensados para proteger o cotista, como restrição de diversificação ou alavancagem para aplicação do recurso. É o produto com porta de saída e mecanismos de proteção contra riscos. Em resumo: fundos regulados para a proteção do investidor.

A classificação não engloba, por exemplo, os fundos de private equity ou os hedge funds dos EUA, que somavam 58.891 fundos ao final de 2025, segundo a SEC (Securities and Exchange Commission). Eles têm oferta restrita, voltada a investidores qualificados, e a regulação recai sobre o gestor, não sobre o fundo.

Os fundos brasileiros equivalentes, como o FIP, são contabilizados pela IIFA. Mesmo não sendo abertos, eles são regulados pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e têm alguns limites de aplicação.

A CVM, porém, não foi preparada para elevar a proteção dos investidores durante esse boom. O que se viu no período foi o seu enfraquecimento, acompanhado de um número crescente de investigações criminais, que apuram o uso de fundos para fraudes, ocultação de patrimônio, desvio e lavagem de dinheiro até pelo crime organizado.

Do trio de fundos que mais cresceram, o multimercado é o mais flexível, com grande liberdade de alocação. Investe em diferentes tipos de ativo, misturando renda fixa, ações, crédito, derivativos e cotas de outros fundos, fazendo uso de diversas estratégias, inclusive alavancagem.

Já o FIP compra participações em qualquer tipo de empresa, listada ou não. No extremo do pior exemplo, é possível que o FIP esteja até numa empresa de fachada sem que isso esteja claro. Usado em cadeia, pode tornar mais difícil de se descobrir quem é o real investidor de uma companhia.

Como o nome diz, o Fidc investe em "direitos creditórios", ou seja, compra à vista, com desconto, títulos de dívida que serão pagos no futuro, como duplicata, fatura de cartão de crédito, cheque, carnê de lojas, contrato de aluguel, crédito de empresa em dificuldade. Como o fundo frequentemente mistura papéis de inúmeros credores, é difícil para o investidor de fora ver a qualidade de cada título, quem é o devedor ou o histórico daquele crédito.

De 2014 a 2018, o número de Fidcs dobrou; depois, quadruplicou, acumulando uma alta de 810% até março deste ano. Segundo a Anbima, foram criados 3.757, mais que em renda fixa (3.593), previdência (3.318) e ações (2.085). Nos 12 meses até julho, foram quase dois por dia. O patrimônio está em R$ 960 bilhões, segundo a CVM.

Com o crescimento dessa indústria, parte da oferta do crédito no país, tradicionalmente feita pelos bancos, foi substituída por Fidcs, à medida que as instituições financeiras ficaram mais seletivas na liberação de empréstimos com o aumento da inadimplência. Entre os maiores credores na recuperação judicial da Casas Bahia, por exemplo, está o Fidc IBCB-AF01, com mais de R$ 1 bilhão a receber e usado para financiar a varejista.

Na semana que passou, o Comitê de Estabilidade Financeira do Banco Central destacou que o uso dos fundos em cadeias múltiplas está dificultando a avaliação do risco assumido por agentes econômicos nesse mercado de crédito, especialmente com o uso crescente de estruturas com Fidc.

"É motivo de preocupação a expansão desses fundos para financiar empresas", diz o economista Marcos Lisboa.

Quem atua no combate ao uso criminoso dos fundos lembra que quase tudo pode ser embalado nessas estruturas mais flexíveis —para o bem e para o mal. "Ainda que totalmente legais, fundos com várias camadas, protegidos por sigilo, dificultam a identificação do dono do dinheiro", explica o delegado da PF (Polícia Federal) Alexandre Custódio Neto.

Deflagrada pela PF em 6 de agosto, a Operação Heritage investiga peculato e lavagem de dinheiro em um suposto desvio de R$ 308 milhões em acordo entre a Oi e o governo de Mato Grosso, com dois Fidcs. Os alvos negam irregularidades.

A Operação Carbono Oculto, de agosto de 2025, avalia 40 fundos, entre FIPs, multimercados, imobiliários e Fidcs, suspeitos de dissimular patrimônio e lavar dinheiro de pessoas ligadas ao PCC (Primeiro Comando da Capital).

Alguns dos fundos investigados pela Carbono Oculto também fizeram parte do esquema de fraude do Banco Master, de Daniel Vorcaro, segundo denúncia do Banco Central. Eram administrados pela Reag, gestora liquidada pelo BC.

"Não tenho nada contra o fundo em si. É uma opção legítima para quem quer investir, mas algumas estruturas estão a serviço do crime. Nos deparamos com fundos não apenas na Carbono Oculto, mas em todas as recentes operações contra o PCC —Fim da Linha, Hydra e Última Parada", afirmou à Folha o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público do Estado de São Paulo, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado.

O risco dos fundos ganhou novos contornos com os EUA declarando PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas e prevendo punições para quem se relacionar economicamente com essas facções.

Na 6ª edição do Integrity Conference, da International Chamber of Commerce Brasil, que discutiu como empresas devem se precaver dos riscos associados ao crime organizado, o diretor de governança e conformidade da Petrobras, Ricardo Wagner de Araújo, falou à plateia sobre uma lista de checagem que incluía a seguinte pergunta na hora de fazer negócios: "Tem fundo?".

Araújo disse à Folha que a estatal escrutina vínculos com fundos antes de contratar. "Se a gente estiver investindo ou fazendo parceria, e a empresa é composta por algum fundo, precisamos conhecer no detalhe", disse.

"É importante saber quem é o beneficiário, se a pessoa teve processo, condenação oficial ou participou de alguma operação, e se a instituição do fundo é um banco tradicional ou um banco virtual com meia dúzia de clientes. Descoberto isso, queremos saber de onde veio o dinheiro."

Especialistas atribuem a expansão dos fundos locais a questões regulatórias e tributárias.

A Lei da Liberdade Econômica, de setembro de 2019, deu segurança jurídica a cotistas e prestadores de serviço e permitiu estruturas mais sofisticadas.

Em 2022, duas mudanças regulatórias convergiram para turbinar o setor: a lei n.º 14.430 deu segurança jurídica à securitização de qualquer tipo de recebível, e a resolução 175 da CVM reorganizou e simplificou as regras dos fundos, incluindo os Fidcs.

As mudanças coincidiram com a expansão das gestoras independentes e a desconcentração da indústria, antes dominada pelos grandes bancos.

A tributação também é um motivo para o uso do veículo. "Você pode tributar pessoas jurídicas e físicas. O fundo não é um nem outro —fica no meio, com tratamento diferenciado", explica o advogado Thiago Giantomassi, sócio de fusões, aquisições e mercado de capitais do Demarest.

Em estruturas em cascata, operações entre empresas podem ser tributadas; entre fundos, a tributação recai sobre o investidor, sob regras do fundo.


Politica LivreCríticos ainda veem distorções nos fundos de fundos. Segundo a IIFA, o Brasil lidera em número (10,7 mil) e proporção (33,1%) nessa categoria, à frente da Coreia do Sul (2.000; 11,9%) e dos Estados Unidos (1.268; 10%).

O advogado Bruno Becker, professor da ESPM, compara em tese de doutorado pela USP a indústria de fundos de 147 jurisdições. Até 67% dos fundos têm até cinco cotistas, e 44%, um.

A avaliação dele é mais crítica: entende que parte da disparidade na comparação internacional ocorre porque a maioria dos fundos no Brasil não é fundo na prática. "Atua como organização patrimonial, como holding, mas não como instrumento de poupança coletiva. Chamam-se fundos porque alguém assim os registrou, e a CVM aceitou o registro."

Segundo Becker, no mundo, fundo de investimento reúne investidores em carteira diversificada; no Brasil, fundo também é tipo jurídico, mesmo sem função econômica.

Politica Livre 

Cármen Lúcia vê erros tanto de Moraes quanto de Mendonça e vira peça-chave na disputa por hegemonia no STF

 

Cármen Lúcia vê erros tanto de Moraes quanto de Mendonça e vira peça-chave na disputa por hegemonia no STF

Por Luísa Martins e Ana Pompeu/Folhapress

06/09/2026 às 07:02

Foto: Luiz Silveira/Arquivo/STF

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Cármen Lúcia

A ministra Cármen Lúcia, do STF (Supremo Tribunal Federal), vê erros tanto do ministro André Mendonça quanto do ministro Alexandre de Moraes nas medidas que levaram a corte ao epicentro de uma crise institucional, e ainda não definiu qual deles vai ganhar o seu apoio.

Moraes e Mendonça disputam o voto de Cármen em busca da hegemonia de seus respectivos grupos no Supremo, e a posição da magistrada é considerada decisiva nas deliberações que o plenário deve fazer sobre as condutas dos dois ministros.

A corte vai discutir, de um lado, se houve arbitrariedade nos métodos utilizados por Mendonça nas apurações sobre o Banco Master e do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), e que resultaram no relatório em que a PF (Polícia Federal) aponta Moraes como interlocutor do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

De outro, o STF vai avaliar a regularidade do ato de Moraes ao se utilizar do inquérito das fake news para pedir uma investigação contra Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.

Antes de Moraes decidir partir para o contra-ataque, na quinta-feira (3), Cármen chegou a telefonar para ele e indicou se solidarizar com a situação de exposição pública. Na terça (1º), Mendonça tirou sigilo de relatório da PF que mostrava diálogos de Vorcaro com o ministro, incluindo uma mensagem na qual o banqueiro pergunta se deveria deixar o país, às vésperas de ser preso, em 2025.

Moraes, segundo um auxiliar, compreendeu o telefonema da colega como um aceno, embora Cármen não tenha garantido a ele o seu apoio em votações futuras.

O que veio depois —o uso do inquérito das fake news para contra-atacar Mendonça— também não a agradou. A ministra relatou a uma pessoa próxima uma sensação de perplexidade com os dois colegas e com o ponto a que chegou a erosão interna do Supremo.

Ela tem dito a auxiliares que está ciente de que seu voto está sob disputa e que há até mesmo apostas informais no mundo jurídico sobre a qual corrente ela se alinharia. A ministra, entretanto, diz que vai decidir exclusivamente com base nos autos, cuja íntegra ainda não acessou.

Moraes tem o apoio dos ministros Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin. Já Mendonça calcula contar com Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e Edson Fachin. Segundo um assessor da cúpula do STF, o ministro Dias Toffoli fica de fora das votações, pois se declarou suspeito de atuar nos casos do Master.

Tanto Mendonça quanto Moraes afirmam a interlocutores que confiam na adesão de Cármen aos seus respectivos grupos, o que pode reconfigurar a correlação das forças e alianças que hoje existem no Supremo.

Aliados de Mendonça dizem acreditar na sensibilização da ministra quanto ao recado ruim que será passado à sociedade caso a corte feche os olhos para a gravidade de haver um ministro do Supremo sob suspeita de integrar a rede de influência de Vorcaro.

Uma pessoa próxima ao relator do Master disse que Cármen construiu uma reputação de absoluta integridade ao longo dos anos de magistratura e que votar para aliviar para um colega seria colocar tudo isso a perder.

O entorno de Moraes afirma que Cármen já demonstrou ser contra a adoção de procedimentos arbitrários a pretexto de atender aos clamores da sociedade, como na ocasião em que ela votou para reconhecer a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro em casos envolvendo o presidente Lula (PT), em 2021.

"Todo mundo tem direito de ter um julgamento justo diante de um juiz ou de um tribunal imparcial", disse ela na ocasião. "Isso não significa que não queiramos, sejamos contra ou estejamos emitindo juízo de valor sobre o combate à corrupção, que é obrigatório e precisa ser feito."

Para um interlocutor de Moraes, se o plenário confirmar o entendimento de Mendonça, haverá margem para que qualquer magistrado investigue um colega, fazendo do Supremo ringue para um "vale-tudo". Mendonça entende que o colega pode fazer o mesmo no âmbito do inquérito das fake news.

A leitura do grupo pró-Moraes é a de que Mendonça agiu deliberadamente para expô-lo, mandando que a PF apurasse suspeitas contra o ministro à revelia de decisão prévia do plenário, em violação ao regimento interno do Supremo.

Na divisão atual da corte, Cármen é alinhada a Mendonça, por exemplo, na defesa da implementação de um código de conduta para o STF, proposta da qual é relatora. Por outro lado, ela acompanhou Moraes em todos os votos da ação penal sobre a tentativa de golpe de Estado.

Interlocutores da ministra afirmam que ela não tem alinhamento irrestrito com nenhuma das duas alas e que seus votos se pautam pela Constituição. A ministra tem manifestado preocupação com o peso institucional da crise, diante de um potencial impacto catastrófico para o STF.

Politica Livre

Entenda o que diz o relatório usado por Moraes em contra-ataque a Mendonça

 

Entenda o que diz o relatório usado por Moraes em contra-ataque a Mendonça

Por Folhapress

06/09/2026 às 09:29

Atualizado em 06/09/2026 às 08:55

Foto: Luiz Silveira/Arquivo/STF

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André Mendonça e Alexandre de Moraes

O relatório interno da Polícia Federal usado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), para contra-atacar seu colega de tribunal, ministro André Mendonça, tem informações classificadas como de baixa confiança e queixas contra Jorge Messias, advogado-geral da União.

O documento, sem autoria identificada, analisa o comportamento de Mendonça como relator dos inquéritos relacionados ao Banco Master e aos desvios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), bem como sua relação com outras autoridades.

Com base no documento, classificado pela própria PF como "sem valor probatório", Moraes acusa Mendonça de ter focado as investigações contra ele e outras autoridades —como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP)—, enquanto poupava outros investigados "por motivos pessoais e políticos".

Veja os principais pontos do documento:

Informações de baixa confiança

Algumas das hipóteses mais graves do relatório são classificadas como conjecturas de baixa confiabilidade. É o caso, por exemplo, da afirmação de que decisões de Mendonça faziam parte de uma "estratégia de recomposição de forças" no STF, de que ele atuava em conluio político com Jorge Messias ou de que visava viabilizar uma anistia aos condenados pelos ataques golpistas de 8 de Janeiro.

O próprio relatório alerta diretamente que "não autoriza afirmação institucional, providência formal ou manifestação externa" e que o uso público desses cenários poderia "contaminar" a validade de outros atos de investigação sólidos.

Davi Alcolumbre como alvo estratégico

O relatório classifica o senador Davi Alcolumbre como um "provável alvo estratégico" de Mendonça. A hipótese formulada atesta que o ministro nutria uma "desavença conhecida" com o senador desde o governo passado, quando o parlamentar atuou como um "grande empecilho" à sua indicação ao STF.

O plano de Mendonça consistiria em usar o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda como "rota de acesso" para atingir e enfraquecer Alcolumbre. De acordo com a tese policial, o magistrado pretendia desestabilizá-lo politicamente para impedir a manutenção do favoritismo à presidência do Senado.

O objetivo final dessa manobra seria evitar que Alcolumbre controlasse a pauta de votação de eventuais pedidos de impeachment de ministros do STF, viabilizando, em tese, uma futura recomposição de forças no Supremo favorável à anistia aos condenados pelo ataque golpista de 8 de Janeiro.

Aliança com Jorge Messias

O advogado-geral da União é citado no contexto da decisão da AGU de não recorrer contra as decisões de Mendonça que barravam atos administrativos da PF —como restrições na composição de equipes investigativas e entrega do acervo de provas.

A PF avaliou que a decisão da AGU de não entrar com ação contra o ministro relator partiu do interesse pessoal de Messias de "preservar a relação política" com Mendonça. Como teve sua indicação ao STF rejeitada pelo Senado em abril de 2026, Messias estaria buscando a simpatia e o apoio de Mendonça e de suas bases de influência (como igrejas evangélicas, dada a "matriz religiosa comum" de ambos) para tentar a renovação de sua indicação à corte.

A própria PF adverte que a avaliação tinha "confiança agregada BAIXA" e não autorizava nenhuma providência formal ou manifestação externa da corporação, servindo exclusivamente para "monitoramento e coleta dirigida" de inteligência interna.

Tratamento diferente a Moraes

De acordo com o documento, Mendonça demonstrava interesse pessoal em iniciar uma investigação formal contra Moraes. O magistrado teria pedido, mais de uma vez, que a equipe da Polícia Federal "encaminhasse alguma provocação a ele nesse sentido".

Como nem a PF nem a PGR apresentaram elementos contra Moraes, Mendonça agiu de ofício. Segundo o material, o ministro determinou uma ampla diligência investigatória contra o colega e convocou os investigadores para uma reunião em seu gabinete, na qual entregou uma cópia não assinada de sua decisão sem dar vista prévia à Procuradoria-Geral da República, procedimento que seria fora das vias processuais ordinárias.

O documento afirma que houve diferença de tratamento a Moraes em relação a outros ministros, como Gilmar Mendes, Luiz Fux, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques, o que seria um indicador relevante.

"Quanto à causa, a hipótese de correlação com afinidades internas ao colegiado e com origem de indicação para o cargo permanece sob observação, sem sustentação nos elementos atuais e sem necessidade para o juízo de risco: para efeito de gestão, importa a assimetria observável, não sua motivação", diz o texto, também classificado com grau de confiança baixo neste ponto, por não haver comparação documental construída.

Desconfiança sobre Gonet e Andrei Rodrigues

O relatório usado por Moraes cita nominalmente o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, apenas uma vez. Ele trata do que chama de "imputações genéricas" dirigidas aos dois, diante de desconfianças de Mendonça sobre ambos.

O texto relata que Mendonça teria afirmado reiteradamente, em reuniões, que Andrei mantém "proximidade inadequada" com o presidente Lula (PT) e, por isso, "não seria possível confiar nele". Há, ainda, um relato de que, em reunião com a equipe de investigação, Mendonça teria declarado ter preparado um procedimento no qual avaliava determinar o afastamento cautelar de Andrei Rodrigues de suas funções.

Sobre Gonet, o relatório aponta que Mendonça aplicou a mesma suspeita, nesse caso, em referência à relação do chefe do órgão com Gilmar Mendes. Também aqui, isso o tornaria "indigno de confiança" e, por isso, o ministro teria cogitado chamar Gonet como testemunha nos processos. Para a PF, trata-se de uma manobra para tirá-lo do comando da acusação do caso.

A PF classificou as informações com grau de confiança alta quanto à ausência de fato concreto invocado por Mendonça e quanto às consequências jurídicas das medidas pensadas, mas classificou como baixa a moderada quanto à ocorrência das reuniões de pressão, por se basearem apenas em relatos verbais.

Interferência de Mendonça nas investigações

O relatório da PF afirma que Mendonça, como relator dos casos do INSS e do Master no STF, assumiu papel de investigação em episódios como a escolha de delegados para atuar no caso e acesso ao acervo probatório.

"Avalia-se que o juízo relator vem exercendo, na Operação Sem Desconto e em feitos conexos, poderes típicos de presidência da investigação, e não de supervisão judicial, com três efeitos convergentes: subordinação de atos de gestão administrativa da Polícia Federal ao controle judicial; acesso direto ao acervo probatório bruto; e supressão da supervisão técnica do delegado sobre o produto analítico da unidade", afirma o relatório.

Esse é um dos pontos apresentados por ala do STF para que Mendonça abandone o caso, que tem entre os investigados o filho do presidente Lula.

Diferença de tratamento entre investigados

Em outro trecho do documento, a PF aponta a diferença de tempo entre a representação feita pelos investigadores em casos envolvendo os senadores Jaques Wagner (PT-BA) e Ciro Nogueira (PP-PI).

Enquanto a análise por pedidos de busca contra Wagner levou nove dias, no caso de Ciro foi de 29 dias. Contra o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ), o prazo foi ainda maior, de 75 dias.

A operação contra Wagner foi deflagrada em junho e teve como desfecho o afastamento dele do cargo de líder do governo no Senado. Ciro Nogueira foi alvo em maio. Mendonça e Nogueira foram ministros de Jair Bolsonaro (PL).

"A dispersão é expressiva e sugere correlação entre tempo de apreciação e perfil do investigado", afirma o relatório.

O texto, contudo, ressalva que o grau de confiança na hipótese é baixo, em razão de uma amostra seletiva de alvos, com variáveis não controladas (como complexidade e dias trabalhados).

"A série, contudo, é pequena e não controlada: medidas heterogêneas em volume e complexidade; intervalos que embutem o tempo de vista à PGR, não imputável ao juízo; recessos e picos de pauta não isolados. O dado, no estado atual, é indiciário."

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