sábado, dezembro 10, 2022

O recado discreto do Copom a Lula - Editorial




Ao manter juros básicos em 13,75%, BC chamou a atenção para a continuação da incerteza sobre o futuro das contas públicas, sem mencionar a mudança de governo – mas nem precisava

Continua incerto o futuro das contas públicas, embora um novo governo deva começar em janeiro e por isso o mais seguro é manter em 13,75% a taxa básica de juros, decidiu o Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC). A incerteza é maior que a usual, as projeções até 2024 apontam inflação longe da meta e o mais prudente é manter a estratégia atual, segundo nota do Comitê divulgada logo depois da reunião. Se necessário, poderá haver novo aumento dos juros. Com o cuidado habitual, os autores da nota evitam referências diretas ao atual governo e a seu sucessor, mas são claros ao indicar fatores de risco no cenário da inflação. Ganham destaque a maior persistência das pressões inflacionárias globais e a “elevada incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal”. A insegurança inclui, nesse caso, possíveis novos estímulos à demanda, por meio de mais despesas ou de benefícios tributários.

Maiores gastos foram prometidos pelos dois candidatos principais, e a PEC da Transição, se aprovada nas duas Casas do Congresso, abrirá espaço em 2023 para um novo estouro do teto. As promessas do candidato eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, têm destaque evidente no cenário de referência do Copom, embora sem citação explícita. Mas, se houvesse referência ao futuro presidente, deveria incluir mais um detalhe importante. Ele e seus auxiliares da área econômica têm prometido responsabilidade fiscal, mas sem explicar como se manterão sustentáveis as finanças do governo central.

Não só no mercado, portanto, surgem expressões de preocupação quanto ao futuro das contas públicas, incluído, naturalmente, o endividamento do Tesouro. Pouco depois da eleição, o presidente eleito procurou desqualificar as manifestações de inquietação observadas no setor financeiro. Atribuiu esse tipo de reação, inicialmente, a um excesso de sensibilidade e, depois, a censuráveis jogadas especulativas, como se a especulação, normal no dia a dia de todos os mercados, fosse aberração ou imoralidade. Errou em todas essas avaliações, e errou também ao subestimar a relevância de uma clara sinalização de prudência fiscal.

A decisão do Copom sobre os juros básicos e suas explicações evidenciam os equívocos do futuro presidente da República. Não há como desprezar o risco de maior inflação, quando o governante, atual ou futuro, anuncia a intenção de aumentar a despesa e se abstém de explicar como preservará a solidez das finanças públicas.

Gastança e alta de preços são noções estreitamente vinculadas. Esse vínculo é especialmente forte em países onde é preciso reafirmar com frequência a credibilidade do Tesouro. Não é o caso da Alemanha e de outros países onde a responsabilidade fiscal é uma tradição. No Brasil, como na maior parte da América do Sul, a confiabilidade financeira do setor público é muito menos clara.

O presidente eleito tem evocado seu primeiro governo, quando se obtiveram regularmente superávits primários – saldos positivos, excluído o custo dos juros da dívida pública. Não basta evocar essa história. A herança recebida pelo governo petista em 2003 foi muito melhor que o legado previsto para 2023. Além disso, a gestão financeira foi menos severa no segundo mandato e degringolou no final do período petista. Nessa fase, a presidente Dilma Rousseff deu espaço à inflação, devastou o Tesouro e jogou o País na recessão de 2015-2016.

Não adianta o futuro presidente evocar a disciplina fiscal mantida em seu primeiro mandato. Ele terá de restabelecer a imagem do PT como partido capaz de cuidar das finanças públicas.

No mercado, os juros básicos projetados para 2023 passaram em quatro semanas de 11,25% para 11,75%. A inflação estimada para o próximo ano subiu de 4,94% para 5,08%, segundo a pesquisa Focus. A projeção de crescimento econômico aumentou de 0,70% para 0,75%. Juros altos de nenhum modo ajudarão o novo governo em seu primeiro ano. Se levar esses dados em conta, o presidente eleito tratará de mandar mensagens mais claras e mais positivas ao mercado e ao BC. É só uma questão de bom senso.

O Estado de São Paulo

PEC Fura-Teto dá mais dinheiro a parlamentares que a Bolsa Família




Presidente eleito Lula com Rodrigo Pacheco, que faz campanha para continuar no cargo.
Por Cláudio Humberto

Está explicada a aprovação fácil no Senado, em tempo recorde, da PEC Fura-Teto, “vendida” pelo governo eleito do petista Lula como a única maneira de combater a suposta crise de “fome no país”, mantendo os R$600 do Auxílio Brasil. O custo do seu Bolsa Família petista (R$70 bilhões), no entanto, é menor que os R$75 bilhões aprovados para uso dos parlamentares inclusive no “orçamento secreto”, emendas do relator.

Lorota eleitoral

Na campanha, Simone Tebet (MDB) disse que o “orçamento secreto” para 2023 seria de R$19,4 bilhões. Só ontem aprovou R$75 bilhões.

Dinheiro na veia

A PEC também prevê que parte dos R$75 bilhões poderá ser gasta por meio de emendas parlamentares, que são impositivas.

Escândalo fake

A PEC não discrimina gastos, como no “orçamento secreto”, chamado pelos jornalões de “maior corrupção do planeta”. Esqueceram o petrolão.

Tudo para apressar

Assim como a PEC Emergencial de Bolsonaro, a PEC Fura-Teto de Lula se juntou a outra PEC na Câmara, que está em análise mais avançada.

Descartado, Amorim bancou pupila para chanceler

Após verificar que não agrada à equipe de transição o seu pretendido retorno à chefia do Ministério das Relações Exteriores, o ex-ministro Celso Amorim tentou viabilizar a escolha de uma diplomata conhecida por lhe prestar obediência: a embaixadora Maria Laura da Rocha. Caso se confirme o nome de Mauro Vieira para comandar o Itamaraty, será uma derrota para Amorim, que fez força pela embaixadora Maria Laura.

Velha conhecida

Maria Laura foi chefe de gabinete de Celso Amorim entre 2008 e 2010, quando ele era chanceler durante o governo Lula.

Bem conectado

Mauro Vieira foi chanceler de Dilma e depois se aproximou do senador Davi Alcolumbre, que lutou para mantê-lo na ONU, em Nova York.

Encantador de autoridades

Vieira é chamado no serpentário de ‘guarda-chuvas mais rápido do Itamaraty’, referência à habilidade do diplomata de encantar autoridades.

Inteligência

A inteligência da Polícia Militar do DF captou movimentos de possível grande manifestação em Brasília neste sábado (10). São manifestantes pró-Bolsonaro contra a diplomação de Lula, na segunda (12).

Pra ontem

Com a inquietude do mercado e para acalmar militares, Lula resolveu antecipar nomes de ministros para esta sexta-feira (9). O planejamento inicial era revelar os nomes só na terça-feira (13), após a diplomação.

Ruim para o mercado

A predefinição do ministério do ‘Lula III’ e a aprovação da PEC Fura-Teto fizeram a Bolsa de Valores cair e fechar no menor patamar desde agosto. Apenas este mês, a queda no índice Ibovespa já superou 4,6%.

Fogo amigo

Petistas que fritam Simone Tebet (MDB-MS) e não querem a senadora no Ministério da Cidadania, levaram ao presidente eleito Lula o nome de Tereza Campello para comandar a pasta, em 2023.

Senador Plínio Valério (PSDB-AM) expondo a verborragia palanqueira dos petistas

Verbete fake

Até o verbete do partido Peru Livre, de Pedro Castillo, no Wikipédia em português, foi alterado para dizer que o partido é supostamente “conservador”. Em inglês continua “partido político marxista do Peru”.

Invenção

Maldosamente plantam que o ministro Paulo Guedes (Economia) recusa a Secretaria da Fazenda de São Paulo achando o cargo “menor” que o atual. Nada disso, ele quer descansar e cuidar dos próprios negócios.

Reserva

O suplente Fernando Dueire (MDB) tomou posse e assumiu a vaga de Jarbas Vasconcelos (MDB-PE) no Senado. O veterano pediu afastamento do cargo para tratamento de saúde.

Além da margem

Pesquisa YouGov entre eleitores republicanos nos EUA, dia (8), aponta liderança de 5 pontos do governador da Flórida, Ron DeSantis, sobre Donald Trump para ser candidato do partido a presidente, em 2024.

Pensando bem...

...prisão e censura em tempos de Democracia é o que faz a Justiça assumir as feições dos velhos delegados com chibata na mão.

Diário do Poder

Câmara tem de rever texto da PEC da Transição - Editorial

 




Barbaridade aprovada no Senado implode arcabouço fiscal e grava o orçamento secreto na Constituição

O PT e o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, na certa celebraram a primeira vitória do novo governo, com a aprovação no Senado da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Transição, que abre espaço orçamentário para gastos adicionais estimados em R$ 205 bilhões no ano que vem, além de mais R$ 181 bilhões em 2024. O novo governo petista será, contudo, o primeiro a sofrer consequências nefastas se a PEC passar intacta pela Câmara. Não será nada agradável para um presidente sem maioria sólida no Congresso, que governa um país dividido.

O texto aprovado estabelece o prazo de 31 de agosto de 2023 para o presidente da República encaminhar ao Congresso um “projeto de lei complementar com objetivo de instituir regime fiscal sustentável para garantir a estabilidade macroeconômica”. Até lá, nenhuma das regras outrora em vigor será confiável. Ao estabelecer que as despesas adicionais não estarão sujeitas ao teto de gastos nem aos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal, a PEC da Transição termina de implodir o que resta do arcabouço fiscal brasileiro. Antes mesmo da posse, Lula — com a contribuição inestimável dos parlamentares — concluirá o serviço iniciado pelo presidente Jair Bolsonaro.

A consequência imediata é descrita sem rodeios no comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, emitido horas antes da aprovação da PEC: “Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma maior persistência das pressões inflacionárias globais; (ii) a elevada incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal do país e estímulos fiscais adicionais”. Tradução: haverá mais inflação.

Os juros, por ora mantidos pelo Copom em 13,75% ao ano, sofrerão maior pressão, contribuindo para a escalada da dívida pública. Ao mesmo tempo, o crescimento, que já arrefece, tende a ser pífio diante da perspectiva de recessão global e da incerteza dos investidores. Todos — Lula e os parlamentares — tinham perfeita noção dessa realidade. Em vez disso, justificaram a PEC com base em teorias econômicas delirantes que jamais pararam de pé.

O pretexto alegado para tamanha falta de responsabilidade foi a necessidade de ampliar gastos sociais e recompor investimentos. Isso teria sido possível com autorização excepcional para gastos bem menores, ao redor de R$ 80 bilhões, sem implodir as regras fiscais que mantêm a confiança do investidor na solidez da economia brasileira.

A preocupação real dos parlamentares, contudo, é outra — e nada tem a ver com qualquer crise social, real ou imaginária. No artigo mais pusilânime da PEC, é atribuída ao relator do Orçamento a prerrogativa de apresentar emendas para alocar os gastos adicionais autorizados acima do teto. Descontado o aumento previsto para o programa de transferência de renda, sobrariam R$ 150 bilhões em dois anos, cujo destino estaria sujeito a um mecanismo tão opaco quanto as famigeradas emendas do relator (RP9).

Uma vez aprovada a PEC, o orçamento secreto ficaria gravado na Constituição, na forma de uma parceria entre Legislativo e Executivo sujeita a regras ocultas do público. A Câmara tem o dever de rever as barbaridades aprovadas pelos senadores. Do contrário, a eleição de Lula, celebrada dentro e fora do Brasil como “salvação da democracia”, cobrará como preço a institucionalização da corrupção.

O Globo

Brasil mais liberal? População quer Estado menor e mais eficiente.




No plano geral dos princípios que regem a economia, a tendência é decididamente a favor do liberalismo e contra a gastança ilimitada. 

Por Ricardo Ferraz 

Às vésperas do comando do país se transferir da direita para a esquerda, os rumos da economia no Brasil voltam a girar em torno de uma questão que já havia provocado polêmica na primeira vitória do PT, há vinte anos. Na área econômica, cada declaração e cada movimento da transição do governo eleito de Luiz Inácio Lula da Silva indicam que ele vai trilhar caminhos equivocados na definição do papel do Estado nos próximos anos. Exemplo disso são os reiterados discursos dele contra privatizações. O petista usa sempre o argumento que merece confiança por ter saído do Palácio do Planalto lá atrás com aprovação recorde, bons números de crescimento e contas públicas em ordem. Além disso, ressalta que foi sua proposta de governo que acabou sendo vitoriosa no pleito e, portanto, conta com o apoio da maioria dos brasileiros (embora a tal proposta nunca tenha sido suficientemente detalhada na campanha).

Apesar do triunfo de Lula nas eleições, a verdade é que esse viés antiliberal do futuro governo está longe de ser uma unanimidade entre a população. Pesquisa exclusiva realizada pelo Instituto Atlas Intel, a pedido de VEJA, mostra claramente o fenômeno. Segundo o trabalho em questão, a maioria das pessoas espera e deseja que o Estado intervenha em áreas essenciais — só que de uma forma mais eficiente e sem o mesmo peso atual da máquina pública. No plano geral dos princípios que regem a economia, a tendência é decididamente a favor do liberalismo e contra a gastança ilimitada. “Nas últimas décadas, o Estado brasileiro cresceu sem ser capaz de suprir as carências da população. Perguntar por que isso ocorre é fundamental, mas ainda debatemos o tema como se estivéssemos no século XIX”, critica Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central.

Por enquanto, esse tipo de discussão está fora do radar do novo governo. As prioridades são outras. Desde que foi reconduzido pelas urnas ao Planalto, Lula tem deixado claro que pretende reeditar a política de investimentos públicos em infraestrutura para gerar emprego e retomar a atividade econômica — expediente que, sem a contrapartida de recursos garantidos, contribuiu para o desequilíbrio das contas na última gestão petista, a de Dilma Rousseff. Agora, em troca da garantia do Bolsa Família, Lula pressiona pela aprovação de uma PEC, em andamento no Congresso, que autoriza bilhões de reais do Orçamento a ficarem fora da conta. Não está claro de onde sairá o dinheiro para cobrir o buraco.

Ao manifestar indiferença em relação às expectativas do setor financeiro, Lula desagrada diretamente a um punhado de engravatados, mas, como mostra a pesquisa da Atlas Intel, boa parte da população também faz restrições a gastos sem lastro e ao excesso de medidas intervencionistas. O instituto fez doze perguntas que refletem as principais discussões em torno dos rumos da economia para 1 600 pessoas de todas as regiões do país. Em uma escala de 0 a 100, em que o número mais alto significa maior adesão aos preceitos do liberalismo econômico, o índice geral ficou em 48 pontos, praticamente a metade do espectro. No entanto, no que diz respeito à macroeconomia, ou seja, à definição do projeto como um todo, o patamar anti-­intervencionismo subiu para 69 pontos no item teto de gastos (veja o quadro). “A população não está disposta a sacrificar seu futuro se isso gerar endividamento”, diz Andrei Roman, CEO da Atlas Intel.

A maioria dos entrevistados afirmou ainda considerar viável reduzir o tamanho do Estado sem comprometer a qualidade dos serviços prestados (62 pontos) e se colocou mais favorável a um enxugamento da máquina pública do que a aumentos de impostos (70). Mas nenhum tópico da pesquisa amealhou tanta adesão popular ao liberalismo quanto a necessidade de maior incentivo à livre concorrência e ao empreendedorismo. Nesse quesito, o índice cravou 83 pontos e foi um dos poucos a unir a opinião de ricos e pobres. O anseio faz sentido para a multidão de candidatos a empreender — levantamento da Central Única de Favelas (Cufa) detectou que 76% dos moradores das comunidades carentes têm, ou querem ter, o próprio negócio. Eles penam com a burocracia e o execrável cipoal tributário existentes no Brasil. Renata Barbosa, 48 anos, moradora de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, vive de fazer bolos e salgados em casa para festas e enfrenta as agruras da mão pesada do Estado. “O que pago de imposto não retorna em nada para mim”, desabafa ela, que chegou a abrir uma loja, mas teve de baixar as portas por causa da pandemia. “O governo tem de deixar as pessoas livres para empreender.”

Os obstáculos à maior liberdade de mercado no Brasil passam por questões históricas e culturais. Herdeiro de uma tradição portuguesa católica e colonialista, o país nunca deixou de ver o lucro como pecado e o Estado como provedor. “A sociedade brasileira nutre um certo sentimento anticapitalista. Faltam lideranças para fazer o liberalismo avançar no país”, diz Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e colunista de VEJA. Quem tem feito esse papel, especialmente no meio da população de baixa renda, são os pastores evangélicos. Herdeiras das reformas do século XVI, que estabeleceram uma ética protestante voltada para o trabalho e a poupança, as religiões neopentecostais, com todas as ressalvas que se possa fazer à sua atuação, se tornaram uma força motriz do liberalismo no país. “A teologia da prosperidade prega que ninguém nasceu para ser pobre. Trabalhar e enriquecer é um jeito de atingir a salvação oferecida por Cristo em vida, e não após a morte”, explica Lívia Reis, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser).

Típica da dicotomia de valores predominante no Brasil, a adesão ao liberalismo começa a esmorecer quando os entrevistados são colocados diante de questões que afetam diretamente sua vida. Indagada sobre o papel da Petrobras na economia, a maioria defendeu que a empresa use seu lucro para baixar e subsidiar o custo dos combustíveis — uma clara interferência indevida adotada tanto no governo Dilma Rousseff, que comprometeu o caixa e derrubou o valor das ações negociadas no exterior, quanto no de Bolsonaro, que, de olho nas eleições, cortou impostos para baixar preços e desequilibrou as contas públicas estaduais. “A percepção geral de um ganho imediato no dia a dia explica a tentação dos políticos em adotar medidas populistas”, observa Roman.

Na forma de discussão rasteira que se costuma fazer no Brasil, muitas vezes os interesses sociais do governo e os da iniciativa privada parecem coisas excludentes. “Não vou governar para a Faria Lima”, disse recentemente Lula, com o objetivo de reforçar que fará uma gestão para os pobres, sem levar muito em conta a opinião do mercado financeiro. Mas, apesar da aparente contradição, a doutrina do liberalismo moderno comporta a possibilidade de os governos agirem para reduzir a desigualdade. “Os liberais atuais concordam que é preciso que o Estado atue como um juiz do jogo, estabelecendo regras para que ele seja justo, impedindo a formação de monopólios e garantindo a competitividade. O que não faz sentido é o governo entrar em campo para marcar gol”, compara Alexandra Godoi, professora de economia da FGV. “Não há como abrir mão de financiar saúde, educação e uma rede de proteção social, mas é preciso que tudo isso seja bem pensado e administrado”, reforça Arminio Fraga.

Se no campo da economia a discussão é permanente e oscila como um pêndulo, intercalando momentos de maior e menor interferência estatal, na esfera social os valores liberais passaram a moldar o comportamento humano. “Características como liderança, proatividade, criatividade, capacidade de gestão, visão empreendedora e meritocracia foram talhadas dentro do ambiente de livre mercado e são normativas na sociedade brasileira hoje em dia”, afirma Daniel Pereira Andrade, professor de sociologia da FGV. Imbuído desse espírito, Rafael Hatab, 31 anos, abriu quatro padarias, está a caminho de se tornar uma franquia e tem potencial para avançar mais ainda. “Se não enfrentasse tanta burocracia, poderia melhorar a vida dos meus 120 funcionários”, diz.

Preconizado por Adam Smith (1723-1790) no livro A Riqueza das Nações, o liberalismo econômico parte da premissa de que o progresso é mais certo quanto maior for a liberdade do mercado e do indivíduo. “Ao defender seu próprio interesse, ele promove o da sociedade”, ensinou o pensador escocês, disseminando a teoria que serviu de base para o enriquecimento da Europa e dos Estados Unidos. Neste momento em que o governo eleito dá sinais de que está disposto a ceder à tentação de interferir na economia para fazer o bolo crescer, é bom que não perca de vista a receita de Adam Smith, que é aprovada, como mostra a pesquisa da Atlas, pela maioria dos brasileiros.

Revista Veja

Zé Dirceu retorna às articulações e já indica auxiliares a Lula




O PT não esquece nem aprende, como diz o ditado popular.

Por Marcela Matos 

Há exatos vinte anos, o então deputado José Dirceu foi confirmado pelo presidente eleito Lula como ministro-chefe da Casa Civil — um anúncio importante na época, mas previsível. Dirceu era uma espécie de alter ego do presidente. Na campanha de 2002, atuou como coordenador-geral, responsável por formular as principais estratégias de ação e operar as mais delicadas negociações políticas. Vencida a eleição, comandou a equipe de transição e participou ativamente da escolha de cada um dos ministros. No governo, nada acontecia sem antes ser chancelado pelo seu gabinete. Candidato natural à sucessão de Lula, viu ruir seus planos em 2005, com o escândalo do mensalão. Condenado e preso, nunca mais foi visto em confabulações com os antigos companheiros, ao menos não publicamente. Na campanha deste ano, os petistas juram que Dirceu não teve nenhuma participação, assim como não dá pitacos na equipe de transição, não fala com Lula e nem exercerá nenhum tipo de influência na nova administração. Uma série de evidências mostra que a realidade não é bem assim.

Na segunda 5, um convescote revelou que certas mudanças já são visíveis em algumas órbitas de Brasília. Entre goles de caipirinha, cerveja e vinho e garfadas em uma suculenta picanha (sim, o carro-chefe da campanha de Lula), um grupo de autoridades assistiu animado à vitória do Brasil sobre a Coreia do Sul. Antes e depois do jogo, o assunto dominante entre as rodas que se formaram foi a composição do futuro governo. Entre os presentes, vários aspirantes a escalar degraus na hierarquia do poder, como o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, e o deputado Marcelo Freixo — ambos do PSB e que vislumbram ocupar um ministério no ano que vem —, o ex-­braço direito do ministro Ricardo Lewandowski Manoel Carlos de Almeida Neto, cotado para assumir a cadeira do próprio Lewandowski no STF, o procurador Antonio Carlos Bigonha, o preferido do PT para suceder a Augusto Aras na PGR, além de advogados, políticos de menor expressão, magistrados e… José Dirceu.

A camisa branca do ex-ministro destoava do verde e amarelo com que as autoridades estavam vestidas, mas isso é o que menos importava. O importante é o simbolismo da situação. Dirceu nunca se afastou completamente da política e nem de alguns personagens centrais que dela fazem parte. Na campanha, o ex-ministro mantinha contatos frequentes com o MDB, que tinha a senadora Simone Tebet como candidata ao Planalto, mas já articulava para apoiar Lula no segundo turno — tudo de maneira reservada, com absoluta discrição.

Respeitado por ter absorvido as condenações impostas pelo mensalão e pelo petrolão sem sucumbir a um acordo de delação premiada, o ex-ministro, depois da vitória petista, passou a ser acionado por determinados setores para decodificar os sinais emitidos pela equipe de transição e explicar “como funciona a cabeça desse pessoal novo do PT”. Ministeriáveis também estão batendo à porta do ex-ministro em busca de apoio político — outra prova de sua reabilitação. “Vou levar esse assunto adiante”, costuma repetir. O “adiante”, para muitos, tem nome e sobrenome. Reza a lenda que Dirceu mantém um canal de comunicação direto com Lula — mas ninguém sabe (ou quer revelar) se isso realmente procede.

Com quase 1 000 pessoas nomeadas para sua equipe de transição, o time selecionado por Lula para pavimentar as bases de seu terceiro mandato já entrou para a história como o maior de todos os tempos. De celebridades a acadêmicos, de lideranças políticas a economistas renomados, o petista decidiu abrigar figuras que o ajudaram na campanha eleitoral e, assim, mostrar a preparação para um governo amplo, diverso e, sobretudo, repaginado. Esse balaio gigante de colaboradores também está servindo para o PT resgatar, direta ou indiretamente, antigos companheiros que ficaram pelo caminho durante os dois primeiros mandatos do presidente eleito (veja abaixo). Dirceu é a estrela maior desse grupo.

Amigos relatam que o ex-ministro há muito enfrenta uma situação difícil. Com uma dívida de 37 milhões de reais em impostos, com os bens bloqueados e ainda sob ameaça de voltar para a cadeia, ele mora na casa da sogra, enquanto luta para reaver o seu registro de advogado, cassado há mais de cinco anos. Sua única fonte de renda seria a aposentadoria de ex-­parlamentar paga pela Câmara. O ex-ministro, apesar das dificuldades, comemorou a vitória de Lula com uma viagem a Paris. Afinal de contas, ninguém é de ferro.

DE VOLTA À VITRINE

O PT usa a equipe de transição para tentar redimir antigos companheiros.

GUIDO MANTEGA
O ex-ministro da Fazenda chegou a ser indicado por Lula para compor a equipe de transição, mas desistiu diante da má repercussão

PAULO BERNARDO 
Embora ainda responda a processo por corrupção, o ex-ministro do Planejamento está no núcleo de comunicações

Nelson Barbosa
O ex-ministro da Fazenda foi um dos responsáveis pelas pedaladas fiscais, manobra contábil que resultou no impeachment de Dilma Rousseff

LUCIANO COUTINHO 
O ex-presidente do BNDES é réu na Justiça, acusado de autorizar empréstimos irregulares a doadores do PT.

SERGIO GABRIELLI 
O ex-presidente da Petrobras não tem cargo formal na equipe de transição, mas participa da formulação de políticas na área de energia

Revista Veja

A ordem é gastar




Como Lula e o Congresso se acertam para abrir um rombo federal nas contas públicas. 

Por Duda Teixeira e Natália Lázaro 

Depois de mais de um mês de negociação, o Senado aprovou nesta quarta, 7, a Proposta de Emenda à Constituição, PEC, que expande o teto de gastos em 145 bilhões de reais, podendo chegar a 168,9 bilhões se houver receitas extraordinárias. O processo agora segue na Câmara, onde deverá sofrer algumas alterações. A aprovação é dada como certa, no que deve se consolidar como uma grande vitória de Lula. Com a cumplicidade do governo de Jair Bolsonaro, o petista tem pautado a discussão política no país mesmo antes de tomar posse. O trâmite célere do texto revela como uma tese antiga e furada ainda segue viva na mente dos nossos representantes: a de que quanto mais o governo gasta, melhor para todos.

O relator da proposta foi o senador Alexandre Silveira que, apesar de ser do PSD, é próximo de Lula e está sendo cotado para assumir algum ministério. O trecho mais representativo de sua obra é este aqui: “Além de não comprometer a sustentabilidade da dívida, os gastos adicionais propiciados por esta PEC poderão, em verdade, ampliar a capacidade de pagamento do governo. Projeta-se em 69,3 bilhões de reais a expansão do Programa Auxílio Brasil (ou do que vier a substituí-lo). A teoria keynesiana tradicional, bem como a chamada Teoria Monetária Moderna (ou MMT) enfatizam o papel central da política fiscal (em contraposição à política monetária) para recuperar a economia de um país. Mais especificamente, recomendam a expansão de gastos públicos sem a devida compensação na forma de elevação de tributos. Potencializa-se, dessa forma, o efeito multiplicador de tais gastos”.

“Efeito multiplicador de gastos” é o que se conhece mais comumente como “multiplicador keynesiano”. Busca-se, portanto, um resgate da teoria keynesiana que, embora tenha ajudado os Estados Unidos a sair da recessão nos anos 1930, causou recessão quando foi aplicada no Brasil. “Os economistas do PT são historicamente ligados à escola da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, cuja teoria é baseada em um keynesianismo mais radical, como também num pensamento intervencionista, com algumas doses de marxismo. É essa a mistura básica que está por trás das ações de figuras como Luciano Coutinho, Guido Mantega, Dilma Rousseff, Aloizio Mercadante e Guilherme Mello”, diz o economista Alexandre Andrada.

Luciano Coutinho está no grupo de transição da Indústria, Comércio e Serviços. Guilherme Mello, no de Economia. Mercadante é quem coordena todas as equipes, trabalhando no Centro Cultural Banco do Brasil. Guido Mantega deixou a turma após seu nome ser amplamente rejeitado pelo mercado. Dilma Rousseff não foi anunciada porque geraria uma reação ainda maior, mas pode ressurgir a qualquer momento.

O tal multiplicador keynesiano entende que um aumento do gasto autônomo do governo gera uma elevação do consumo, a qual aquece a economia como um todo. Com isso, haveria uma melhora na arrecadação de impostos. No final, o ganho com o crescimento geral do PIB superaria o dispêndio inicial. Seria uma maravilha se fosse assim, mas isso só funciona em situações específicas, como quando as contas públicas de um país estão muito em ordem. “Quando a gente tem um aumento do gasto público em uma economia como a brasileira, já com um nível de endividamento alto, isso eleva os juros e expulsa o investimento privado”, diz o economista Reginaldo Nogueira, diretor-geral do Ibmec de São Paulo. A elevação dos gastos aumenta a preocupação com a capacidade de o governo saldar suas dívidas. O Banco Central então precisa elevar os juros da economia (a taxa Selic) para que o governo possa captar o dinheiro que necessita. Como consequência, investidores privados deixam de apostar em negócios que fazem a economia crescer e compram títulos da dívida pública, os quais oferecem retornos maiores. Como os juros da economia como um todo acompanham os do governo, a população passa a ter mais dificuldade para parcelar compras, contrair dívidas ou pagar as antigas. O consumo, por fim, despenca.

A PEC ainda faz de conta que a dívida pública do Brasil não é um grande problema: “a situação hoje é mais confortável do que aquela que motivou as emendas constitucionais anteriores que flexibilizaram o teto de gastos. A relação dívida pública/PIB, após atingir o máximo de 89,0% em fevereiro de 2021, vem caindo continuamente e se encontra em 77,1% (do PIB) em setembro de 2022”. O documento oculta que, quando o teto de gastos foi criado, em 2016, essa relação estava em pouco mais de 70% do PIB. Portanto, mesmo com o limite em vigor, a situação fiscal piorou. “Essa afirmação é um grande absurdo. A situação fiscal é muito pior do que a de alguns anos atrás e as perspectivas para o ano que vem são desafiadoras, porque as despesas financeiras vão disparar e haverá uma queda no crescimento do PIB”, diz o economista Simão Silber, professor da USP e pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, a Fipe. As previsões para essa relação dívida/PIB para os próximos anos é de que ela evolua para chegar perto de 100% do PIB em quatro anos. Silber também critica aquele tal “efeito multiplicador dos gastos” ao lembrar da baixa qualidade do gasto público no Brasil. Bilhões de reais foram torrados em grandes projetos, como a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, ou a Comperj, no Rio de Janeiro. O dinheiro foi pelo ralo. Falar em efeito multiplicador, nesses dois casos e em muitos outros, é uma piada de mau gosto. “No segundo mandato de Lula, o investimento estatal não produziu nada. Foi só corrupção. O melhor é que o Estado forneça as condições para que o setor privado faça os investimentos necessários”, diz Silber.

Como uma concessão aos críticos, os promotores da PEC tentaram compensar o desabamento do teto de gastos falando da necessidade de definir “uma nova âncora fiscal”. Mas ninguém parece ter muita pressa. “Entendemos que este não é o momento adequado para detalhar como será essa âncora. Certamente, a proposta de fixar um limite para a dívida pública merecerá toda a atenção no debate futuro, e não devemos, sob hipótese alguma, descartá-la de pronto. Entretanto, falta, nesse período de transição, o tempo necessário para avaliar essa e outras propostas para a âncora fiscal que, certamente, irão surgir ao longo dos debates. Por esta razão, como detalhamos adiante, fixaremos um prazo máximo para que o novo governo apresente uma proposta para um regime fiscal sustentável”, diz o texto. Ficou decidido que Lula terá até agosto do ano que vem para enviar ao Congresso a proposta da âncora, por meio de lei complementar. Mas nenhuma punição foi estabelecida caso o presidente ignore a obrigação. “Essa é uma medida imprópria, possivelmente inócua, uma vez que não traz uma penalidade específica”, diz o cientista político Bernardo Santoro, da Fundação da Liberdade Econômica.

Foi Lula quem colocou o estouro do teto de gastos como prioridade. Seu argumento inicial era de que seriam necessários mais 200 bilhões de reais para cumprir com suas metas de campanha, como manter o Auxílio Brasil (ou Bolsa Família) em 600 reais, além de um valor adicional de 150 reais por criança. Mas o valor necessário para esse fim seria entre 60 bilhões de reais e 80 bilhões de reais. Mesmo assim, a maior parte dos congressistas animou-se para pendurar na conta alta de Lula uma série extra de gastos, enquanto outros — minoritários — buscaram puxar o total para baixo, reduzir o seu prazo de vigência ou criar uma alternativa ao teto de gastos, como uma “âncora fiscal”.

Para conseguir o que queria, Lula tem negociado diretamente com muitos parlamentares, líderes de bancadas e de partidos. O petista tem ido raras vezes ao Centro Cultural Banco do Brasil, onde estão os responsáveis pela transição. Em vez disso, ele tem marcado jantares tarde da noite, às vezes começando às 23h, para ficar de fora de qualquer agenda oficial e despistar jornalistas. Os acordos são fechados principalmente por estado da federação, e não tanto por partidos. Enquanto isso, o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, que Lula deixou no comando da transição, encarrega-se de outros temas, como definir se o carro em que o presidente eleito desfilará no dia 1º será aberto ou não.

Senadores comemoram aprovação da PEC do Lula. À medida que as conversas evoluíam, a “PEC da Transição” foi acumulando novos nomes. Se alguns meios, como O Antagonista e Crusoé, depois passaram a chamá-la de “PEC da Gastança”, em referência aos valores exorbitantes, veículos chapa-branca preferiram “PEC do Bolsa Família”, um nome bem mais afável. Por fim, foi batizada apropriadamente de “PEC do Lula”, em honra ao seu grande artífice e maior interessado. Para ser aprovado, o texto terá de conquistar três quintos dos congressistas, em dois turnos no Senado e na Câmara. O quórum está garantido. “Políticos, salvo raras exceções, sempre gostam de gastar mais. Quanto mais obras inauguradas, melhor sua imagem junto aos eleitores. Quanto mais agrados, maior o apoio dos setores simpáticos e até mesmo dos pouco antipáticos a ele. Ninguém ganha votos cortando gastos, fazendo superávits”, diz Alexandre Andrada, professor de economia da UnB.

Uma artimanha inserida na PEC também ajudou a acelerar o seu encaminhamento. Foi incorporado ao texto uma emenda apresentada pela senadora Eliane Nogueira, do PP, suplente e mãe de Ciro Nogueira, do PP e aliado de Bolsonaro. O acréscimo permite desbloquear 7,7 bilhões em emendas parlamentares este ano. O dinheiro poderá ser distribuído por emendas de relator, vulgo orçamento secreto. A liberação do dinheiro ajudará o governo a fechar as contas de dezembro. Além disso, congressistas poderão direcionar os recursos para seus estados com emendas individuais e de bancada. As mudanças agradaram a todos, e ajudaram a acalmar os parlamentares que prometiam atuar contra sua aprovação, como o senador Carlos Portinho, líder do governo Bolsonaro nessa Casa.

Se os políticos estão animados com a possibilidade de gastar mais e agradar os seus currais eleitorais, o resto do país está ressabiado. Na quarta, 7, o Banco Central decidiu manter a taxa Selic em um patamar elevado, de 13,75%, citando “elevada incerteza” sobre o novo arcabouço fiscal para substituir o teto de gastos. Há dois anos, essa taxa estava em 2%. Na quinta, 8, uma pesquisa da Quaest mostrou que a porcentagem de brasileiros que acham que a economia irá melhorar nos próximos doze meses caiu de 75% para 48% entre outubro e novembro. Até mesmo entre os eleitores de Lula foi notada uma redução de dez pontos percentuais, de 76% para 66%.

Mas nem todas as ponderações, fatos e indícios parecem ser suficientes para fazer com que a classe política deixe de lado o seu “keynesianismo de quermesse”, termo cunhado pelo economista Alexandre Schwartsman. Ele próprio explica a persistência dessa mentalidade entre os nossos representantes: “A grande verdade é que esse keynesianismo de quermesse dá um mínimo de respeitabilidade à história de que se pode aumentar gastos sem consequências. O Congresso brasileiro jamais se opôs a um aumento de gastos e nunca fará isso. Qualquer coisa então que sirva como uma tábua de salvação, dizendo que se pode gastar mais sem qualquer efeito sobre inflação, endividamento, taxa de juros ou dólar, vai ser lida como um mandamento divino no Congresso. Mas é claro que isso é um mito sem qualquer base na realidade”. Os brasileiros pagarão essa conta no final.

Revista Crusoé

Desinformação contamina eleições em todo o mundo com táticas trumpistas




Um tsunami de notícias falsas inundou Twitter, Facebook, TikTok e YouTube com fotos e vídeos manipulados e ativistas pró-democracia acusaram as plataformas de fazerem muito pouco para combater esta prática

Nos Estados Unidos, assim como no Brasil e em Israel, uma enxurrada de desinformação afetou eleitores em todo o mundo em 2022

Nos Estados Unidos, assim como no Brasil e em Israel, uma enxurrada de desinformação afetou eleitores em todo o mundo em 2022, mas muitos ignoraram a tática de Donald Trump de semear a desconfiança nos processos democráticos.

Um tsunami de notícias falsas inundou Twitter, Facebook, TikTok e YouTube com fotos e vídeos manipulados e ativistas pró-democracia acusaram as plataformas de fazerem muito pouco para combater esta prática.

Candidatos de todo o mundo seguiram à risca o manual de Trump de divulgar acusações infundadas de fraude eleitoral, mas em países como Estados Unidos e Brasil, muitos eleitores pareceram repudiar esta narrativa.

Desafiando previsões generalizadas de uma "onda vermelha" (cor do Partido Republicano) nas eleições de meio de mandato de novembro nos Estados Unidos, vários candidatos escolhidos por Trump perderam. Observadores dizem que a negativa contínua do ex-presidente e seus aliados em aceitar o resultado das eleições presidenciais de 2020 pode ter desanimado os eleitores.

Líderes e simpatizantes republicanos "parecem estar aceitando que recorrer a teorias conspiratórias levou a uma escolha ruim de candidatos, a uma mobilização ineficaz de eleitores, ao cinismo e a muitos outros malefícios", disse à AFP Mike Caulfield, pesquisador do Center for an Informed Public, da Universidade de Washington.

"Muitos vão tentar desvincular seus apoiadores das teorias da conspiração de fraude eleitoral... Vai ser um problema muito difícil de resolver", disse.

Da mesma forma, as eleições no Brasil, que tiveram um segundo turno tenso em 30 de outubro, foram marcadas pela desinformação, pois o presidente Jair Bolsonaro repetiu, sem provas, denúncias de fraude, assim como fez seu ídolo, Donald Trump.

Bolsonaro perdeu a reeleição para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e as pesquisas mostram que os brasileiros continuam confiando no sistema de urnas eletrônicas que o presidente pôs em dúvida.

Mas os analistas advertem que muitos eleitores ainda acreditam nas afirmações de Bolsonaro e, consequentemente, a luta contra a desinformação está longe do fim.

Narrativas 'enganosas

Candidatos às eleições de novembro em Israel também seguiram o manual de Trump. O partido de Benjamin Netanyahu, Likud, lançou uma campanha denominada "deter o roubo" assim que as eleições foram convocadas.

"O Likud impulsionava a conspiração de que as eleições são manipuladas, que o comitê eleitoral central de Israel é controlado pelos subterrâneos do Estado", disse Achiya Schatz, diretor do grupo de vigilância da desinformação FakeReporter.

Netanyahu venceu e as acusações desapareceram, a ponto de ele voltar ao poder após 14 meses atuando na oposição.

Trump teve uma presença importante na política húngara, ao declarar apoio ao primeiro-ministro de extrema direita Viktor Orban antes das eleições de abril, também marcadas pela desinformação.

O Fidesz, partido de Orban, "aproveitou seu controle dos meios de comunicação para difundir acusações e narrativas enganosas sobre seus adversários políticos", segundo pesquisa do centro de estudos húngaro Capital Político.

Pouco antes das eleições, Orban, que cultivou relações próximas com o presidente russo, Vladimir Putin, alegou que seus adversários "combinaram com os ucranianos" oferecer-lhes armas e apoio caso vencessem.

Orban não apresentou provas e seu partido voltou ao poder com maioria parlamentar.

Arma poderosa

Em todo o mundo, informações enganosas e desinformação costumam correr soltas nas campanhas eleitorais, corroendo a confiança nas instituições democráticas e, às vezes, gerando o caos quando se trata de manipular resultados.

Nas eleições presidenciais nas Filipinas, em maio, a desinformação relacionada com as eleições atingiu níveis "sem precedentes", segundo Rachel Khan, da aliança de verificação de fatos Tsek.ph.

O aumento das checagens em comparação com as eleições anteriores não deu conta de controlar a desinformação, concentrada principalmente nos principais candidatos: Ferdinando Marcos, que venceu com folga, e Leni Robredo.

"Em termos de resultados eleitorais, tivemos muito pouco impacto", disse Khan a respeito do trabalho da aliança.

"O problema realmente é a alfabetização midiática. Mesmo quem diz que consegue distinguir a desinformação, na verdade não consegue", acrescentou.

No Quênia, os adversários nas presidenciais William Ruto e Raila Odinga supostamente contrataram "guerreiros digitais" para difundir desinformação eleitoral.

As notícias falsas começaram a se espalhar quase um ano antes das eleições de agosto.

Embora a Suprema Corte do Quênia tenha confirmado a vitória de Ruto, apoiadores de Odinga acreditam que as eleições foram manipuladas.

A Nigéria se prepara para realizar eleições no começo de 2023 e já é possível ver táticas similares na web: falsificação de imagens para enlamear adversários.

Com Trump de olho na Casa Branca, analistas advertem que nos Estados Unidos a desinformação eleitoral poderia recrudescer à medida que a corrida às presidenciais de 2024 ganhar força.

"A desinformação é uma ferramenta poderosa", disse à AFP Pamela Smith, presidente da organização apartidária Verified Voting. "E aqueles que só aprovam as eleições que os favorecem continuarão fazendo uso dela", previu.

AFP / Estado de Minas

Valdemar é alertado sobre risco de perder o comando do PL e ser preso, diz coluna

Sexta-Feira, 09/12/2022 - 15h20

Por Redação

Imagem sobre Valdemar é alertado sobre risco de perder o comando do PL e ser preso, diz coluna
Foto: Agência Brasil

Presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto foi aconselhado a moderar o tom das críticas às urnas eletrônicas e a “enquadrar” bolsonaristas do partido que fazem ataques ao sistema eleitoral e a integrantes do poder Judiciário.

 

O conselho foi dado a Valdemar, segundo apuração do Metrópoles, parceiro do Bahia Notícias, por pelo menos duas influentes lideranças políticas do Centrão que conversaram com o presidente nacional do PL ao longo das últimas semanas.

 

Nas conversas, esses líderes alertaram Valdemar que, se ele continuar atacando as urnas, poderá acabar sendo afastado do comando da sigla ou até mesmo preso, por ordem do ministro do STF Alexandre de Moraes, atual presidente do TSE.

 

De acordo com relatos, lideranças do Centrão lembraram ao cacique do PL que o documento elaborado a pedido do partido para questionar a confiabilidade das urnas foi incluído no inquérito das fake news, relatado por Moraes

Bahia Notícias

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