segunda-feira, maio 09, 2022

Juíza mantém demissão de delegado da PF alvo de Operação Chabu

 




A juíza Maria Isabel Pezzi Klein, convocada para atuar no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, negou pedido do delegado da Polícia Federal Fernando Amaro de Moraes Caieron (foto) para derrubar sua demissão, determinada com base no inquérito da Operação Chabu - investigação sobre uma organização criminosa que violava o sigilo de operações policiais em Santa Catarina, vazando informações privilegiadas a políticos e empresários.

A magistrada negou um pedido de antecipação de tutela - decisão provisória em casos considerados urgentes -, sendo que o mérito do recurso impetrado por Caieron ainda será analisado pelo colegiado da 4ª Turma do TRF-4, em julgamento que não tem data pra ocorrer.

O delegado acionou a corte federal após o juízo da 2ª Vara Federal de Florianópolis negar, em março, conceder a liminar solicitada em ação apresentada contra a União. Caieron pede que seja decretada a nulidade do ato que decretou sua demissão - proferido após processo administrativo disciplinar - com sua reintegração aos quadros da PF.

À Justiça, o delegado alegou: parcialidade da comissão disciplinar na produção da prova testemunhal, causando ‘enorme prejuízo a defesa’; diferenças de fatos relatados no termo de indiciamento e no relatório final da comissão; ilegalidade do Inquérito Policial que deu origem ao processo Administrativo; inaplicabilidade de artigo da lei de Improbidade Administrativa, considerando a nova redação da norma; ‘pena excessiva’, em razão de ‘vícios formais’ no PAD; e ‘ilegalidade do processamento do PAD em local diverso do qual o investigado exerce suas funções’.

O processo administrativo disciplinar questionado foi aberto em novembro de 2020, baseado em informações colhidas no inquérito que originou a Operação Chabu. Tal investigação mirou suposto grupo formado por políticos, empresários e integrantes da PF e da Polícia Rodoviária Federal.

O procedimento analisou se Caieron, que exercia o cargo de delegado na superintendência regional da PF de Santa Catarina, teria atuado na organização criminosa desbaratada pela ‘Chabu’, ‘negociando informações sobre investigações policiais em troca de vantagens indevidas, configurando atos de improbidade administrativa’. A decisão foi pela demissão do delegado, com a publicação do ato no Diário Oficial da União em janeiro.

Em decisão dada no dia 27 e divulgada pelo TRF-4 na terça-feira, 3, a relatora, Maria Isabel Pezzi Klein, ponderou que, apesar dos argumentos de Caieron, não existem elementos probatórios ‘suficientemente hábeis’ para acolher o pedido de anulação da demissão, nesse primeiro momento de análise.

"Em cognição sumária, não é possível o deferimento de liminar no caso em tela, uma vez que se faz imprescindível a oitiva da parte ré a fim de se verificar os contornos fático-jurídicos da lide, efetuando esclarecimentos, comprovação documental e fornecendo mais informações sobre a controvérsia", escreveu.

Segundo a juíza, o exame do caso exige ‘instrução probatória, com respeito ao contraditório e ampla defesa’. Assim, a magistrada apontou que a probabilidade de acolhimento do pedido de Caieron é ‘escassa, pois indispensável a análise criteriosa do contexto fático e das provas a serem apresentadas’. Além disso, Maria Isabel considerou que a decisão de primeiro grau ‘está bem fundamentada e embasada em jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça’.

Na decisão de primeiro grau, o juiz Alcides Vettorazi, da 2ª Vara Federal de Florianópolis, ponderou, por exemplo, que a pena de demissão aplicada a Caieron ‘está lastreada em farta prova documental e testemunhal’.

Em despacho dado no dia 8 de março, o juiz apontou que o ‘extenso e detalhado relatório final da comissão processante possui 295 páginas, nas quais cada conduta dolosa do autor é esmiuçada e minuciosamente revelada, evidenciando, ao menos neste juízo perfunctório, o acerto da penalidade aplicada, haja vista a gravidade dos atos apurados’.

O magistrado inclusive chegou a reproduzir trecho do despacho que culminou com a aplicação da pena demissão a Caieron:

"Com fundamentos sólidos, individualizando a conduta ilícita de Fernando Amaro de Moraes Caieron do ponto de vista disciplinar, a insigne Parecerista desta Consultoria Jurídica aponta com esmero a farta comprovação nos autos de que o indiciado, de forma efetiva e perniciosa à administração da Polícia Federal, revelara, ilicitamente, segredos dos quais se apropriara em razão do cargo público que exercia; prevalecendo-se de forma abusiva de sua condição de Delegado de Polícia Federal, quando por ação dolosa propiciara "vazamento de informações relacionadas às operações da Polícia Federal (Operações: 26ª Fase da Lava Jato, Alcatraz e Patrola), bem como restou provada a consulta da informação quanto à divulgação do resultado a terceiros não autorizados através de documentos e depoimentos"; além de que o acusado exercera atividade empresarial vedada por lei, obtendo rendimentos extras na iniciativa privada, com o agravante de haver se valido para tal de sua condição de policial federal".

COM A PALAVRA, O DELEGADO

A reportagem busca contato com o delegado. O espaço está aberto para manifestações.

Estadão / Dinheiro Rural

Política anti-pane: visões laterais contra o fatalismo e o negacionismo




Por Paulo Fábio Dantas Neto* (foto)

Foi-se o pior da pandemia e teremos eleições, notícias que trariam, respectivamente, alívio e esperança. No entanto, novos riscos se apresentam. Os ventos guerreiros pesados que sopram do exterior nesse momento sinalizam perigo ainda maior para a humanidade do que aquele que ainda mal vencemos. A eles agregam-se outros, domésticos (ou emanações domésticas de um infortúnio mundial), que rarefazem o ar em todo o Brasil, desde Brasília, trazendo maus presságios quanto ao futuro imediato. Como não podia deixar de ser, as recepções, quase sempre atônitas, dessa energia negativa variam e ainda mais variam as muitas vezes afoitas prescrições de solução. Um norte com que contamos para calçar a resistência é a consciência da força da incerteza. Consciência que pede gestos afins.

A sociedade brasileira fica inquieta quando assiste cada enésimo episódio de boçalidade a conta-gotas, como, por exemplo, um alpinista social medíocre sair do justo anonimato para um cargo de governo na área da cultura, insultar artistas consagrados numa semana e, na outra, cercado de outros rapazes zombeteiros, anunciar, como política libertária, o uso espúrio de recursos públicos para fomentar a “cultura” do armamento de milÍcias contra o Estado. De inquieta, a sociedade passa a ficar perplexa quando nenhuma autoridade aparece para enquadrar o preposto nos limites da lei e destinar-lhe a punição devida pela porciúncula de terrorismo de Estado que ele protagoniza nesses dias de fama fácil.

Diante de tais situações insólitas, que vão se tornando rotina, a política não vem produzindo vacinas nem abrindo horizontes amplos para deter a estratégia golpista. Limita-se ao varejo de arregimentações e dispersões eleitorais parciais, supondo que o básico (as eleições) está garantido e que tudo será uma questão de tempo até que as urnas resolvam as pendências e nos redimam. Até lá cada qual faz seu jogo como quer. Buscar unidade ou demarcação na oposição, diante do abismo; opor-se ou compor-se com o governo, diante do golpismo; e diante da polarização instalada, apostar na razão, na emoção, no escárnio ou na ameaça, tudo isso seria do jogo (“em qual eleição não foi e em qual não será sempre assim?”). Esse cinismo impune dissolve, melancolicamente, em mentes crentes na vida pública, a aspiração de reverter o estado crítico de equilíbrio instável em que ataques antidemocráticos e antirrepublicanos proliferam. Nessa morte civil, a hipótese de manter o estado crítico pelos próximos quatro anos parece, a corações apertados, um “menos mal’, quando comparada à da corda partir, afinal.

Vamos lá, usemos o jargão da moda e digamos, com algum otimismo, que outra narrativa é possível, a partir de um exemplo concreto. A exposição, neste sábado, da convergência quase completa de partidos de esquerda e centro-esquerda em torno da candidatura do ex-presidente líder das pesquisas é, em si, animadora. Oxalá seja um marco para que a aliança avance mais e passe a ser eixo da reunião do maior número possível de partidos, políticos e eleitores democratas, também fora da esquerda.

Para se chegar a esse tanto necessário os percalços abundarão. Há muito o que mudar no discurso e nos métodos de campanha de Lula e na sinalização da atitude política de um futuro governo que surja de seu sucesso nas urnas. Frisar isso não é ocioso nem sinal de má vontade, expressa uma pré-condição. Para se propor reconstrutor do país após a devastação bolsonarista, Lula precisará se conciliar com a parte da sociedade atual que herdou a decepção que ele causou em parte dos seus eleitores de 2002. Ao se apresentar, no momento, como a única opção competitiva para evitar a permanência de Bolsonaro, sua candidatura passa a ter uma função social que transcende o interesse de seus proprietários originários. É interesse nacional que ela se oriente para um objetivo cívico, por maior que seja a tensão entre esse objetivo, de um lado e, do outro, as disposições íntimas do protagonista e a argamassa política estruturadora do seu partido. Sua celebrada vocação de ator precisará provar que ainda pode prevalecer hoje sobre as feridas existenciais do seu ego e sobre o desejo de revanche que pulsa no seu entorno, do qual talvez se veja devedor. Um líder político da nação precisará domar o chefe de facção. O fracasso ou sucesso de Lula na lida com esse script conciliador será vivido não só por ele, mas pelo país.

Olhos que veem esperança na aglutinação eleitoral parcial até aqui obtida precisam vê-la também, por exemplo, na conduta do presidente do Senado, a fincar estacas republicanas no terreno movediço em que o Poder Legislativo se converteu de um ano e meio para cá. Acenos positivos em sua direção são mais apropriados agora do que disparar críticas – por mais justas que sejam – à fronda reacionária que Arthur Lira comanda na Câmara. Um aceno positivo a ser feito ao roteiro do presidente do Senado em torno da defesa das instituições ajudará a aglutinar o campo democrático. A interpelação frontal a Lira, feita em torno do tema do orçamento e do sistema de governo, ajuda a aglutinar o campo oposto. Tropeços tais podem perenizar a fronda que até aqui é, basicamente, um pragmático consórcio eleitoral.

Outra visão lateral importante na condução de uma campanha eleitoral democrática nas presentes circunstâncias nacionais e internacionais requer sintonia reciprocamente solidária com o Poder Judiciário. O coro dos candidatos e partidos não pode se desviar da reiteração explícita do pacto constitucional de 1988 no que concerne à prerrogativa do STF de falar por último em matéria constitucional (inclusive sobre conflito entre poderes) e ao reconhecimento da Justiça Eleitoral como instância organizadora e fiadora da legitimidade das eleições e da representação política que produzem. Meias palavras derivadas de controvérsias factuais, ressalvas doutrinárias, ou cautelas analíticas podem caber em conversas de cozinha ou em seminários especializados. Os espaços amplos, da grande imprensa ao tik tok, precisam ser vias para exprimir e expandir esses dois consensos mencionados. E a veiculação adquirir sentido de campanha, através de recados explícitos, em arenas antigas e novas, de entidades icônicas da tradicional sociedade civil (OAB, ABI, CNBB e outras), organizações cívicas, personalidades famosas, movimentos sociais (corporativos ou não). Toda a rede associativa não desprezível que tem sustentado por valor e/ou por interesse a nossa democracia precisa estar ativa e articulada, inclusive profissionalmente, do ponto de vista da comunicação, em tono dos dois consensos.

Tudo isso pode parecer óbvio, mas não como lembrança daquilo que se espera ouvir de quem pretenda liderar uma frente democrática. A convergência pode ser pouca se com esse clamor civil não estiverem alinhadas, com ênfases análogas, as campanhas das candidaturas democráticas, especialmente a principal delas, que tem nome sabido de cor por adeptos, simpatizantes e mesmo por tradicionais adversários - que exigências do momento perigoso podem converter em aliados - como está sendo o caso de Geraldo Alckmin. As aspirações presentes na corporação militar (e não só entre os militares palacianos) de se constituir, fora da Constituição, como poder moderador da República, devem ser refratadas, contra a obstinada atitude do presidente em atiçá-las. Imprescindível essa solidariedade entre sociedade política e sociedade civil, tanto quanto a firmeza do próprio Poder Judiciário. Carta constitucional na mão, essas instituições, movimentos e candidaturas precisam dizer mais do que um não à pretensão guardiânica de militares. É preciso demonstrar sem “veja bem” que não existe vácuo e que é do STF essa missão.  Além disso não render qualquer conversa que politize, como quer Bolsonaro, o assunto Forças Armadas. Decididamente não precisamos adicionar às difíceis questões do momento, uma questão institucional militar que só emergirá de fato se a pregação autocrática fomentar um pânico que desague em leniência do poder civil.  Saber que esse risco existe é primeiro passo para afastá-lo.  

Terceira visão lateral é para o papel da imprensa, o que inclui jornalistas e empresas, as mais expressivas das últimas e a grande maioria dos primeiros que denunciam, há quatro anos, o desgoverno cotidiano e desnudam para o grande público, com firmeza e empenho pedagógico, a natureza golpista do populismo presidencial. As preferências políticas de linhas editoriais perdem intensidade face ao objetivo de defender as instituições liberal-democráticas, por convicção e por instinto de sobrevivência. Sem tais aliados a defesa das instituições e a reconstrução do país serão missões impossíveis. Esse fato demonstra o diversionismo suicida que é incluir sua regulação estatal na pauta da campanha eleitoral.

Por fim, visão lateral para fora do Brasil, terreno que a de Lula não costuma ignorar, mas no qual carece, talvez, de ajuste de foco para, como nos demais terrenos, o líder da nação emergir no lugar do chefe de facção. Bom senso, além de pesquisas sobre como o cidadão brasileiro está vendo a guerra na Ucrânia, aconselham não simplesmente fazer coro à beligerância com que se apoia as vítimas da agressão russa. Fazer da paz, como Lula tem feito e não da guerra “justa”, o horizonte normativo do discurso, é algo a se elogiar, dentro, porém, de um limite em que não apresente agressor e agredido como sócios.  Esse limite foi ultrapassado na entrevista à Time, embora, do ponto de vista eleitoral, por mais que esse ponto da entrevista possa ter, supostamente, repercutido de modo negativo, não se pode desconsiderar a suposição, ainda mais razoável, de que há ganhos compensadores no fato de ser capa daquela revista.

É outro, no entanto, o ponto muito mais relevante a ser captado pela visão lateral. São cada vez mais evidentes os sinais (já em forma de notícias) de que o governo norte-americano não ficará neutro, para além da conveniência diplomática, diante da estratégia golpista de Bolsonaro para converter o Brasil em cabeça de ponte de uma internacional populista, iliberal e anti-globalista. É algo a saudar, sem cerimônias, num momento em que o globalismo está sob ameaça de explodir colorido. As atenções que Lula sempre recebe na Europa não bastam para sugerir um apoio internacional contra um golpe, nesse momento em que a fragmentação é um espectro cada vez mais forte. Para além da relevante questão da consciência ambiental – que é um ponto concreto de conexão e resistência cosmopolita à devastação dos belicismos e xenofobias - tende a se impor um diálogo mais intenso da oposição brasileira em torno de uma pauta de defesa da democracia representativa, particularmente com o governo Biden, o elo mais fático da corrente globalista, que corre o risco de recuar para o mundo das ideias. Nós e o “ocidente” é pauta urgente para Lula tratar, com companheiros de partido, sobre viagens ideológicas pretéritas. Urgência em sentido nada figurado, porque Bolsonaro irá aos EUA em junho. Ouvirá severos alertas oficiais, é certo, mas também verá a quantas anda o estado das artes da oposição local. Não é certo, porém, como reagirá ao conjunto da obra. Pode voltar tocando trompete para a sua Internacional ou dedilhando outra partitura, no pianinho. A depender disso facilitará a fala de Lula ou roubará seu léxico.

Nada do que comentei a respeito do que vejo como necessárias visões laterais ao foco eleitoral decorre de uma avaliação pessimista sobre a disposição dos brasileiros e brasileiras de usarem seu voto para melhorar essa situação que se atravessa. Os ajustes de foco não se dirigem a motivar os eleitores que, apesar da pobreza política do cardápio eleitoral, mostram-se capazes de mobilização. Os números referentes ao conjunto de eleitores inscritos apresentados pelo TSE expressam adesão significativa, o que atesta confiança num sistema eleitoral altamente inclusivo. É importante o êxito do Tribunal na campanha de mobilização, especialmente dos jovens, campanha que realizou com apoio da imprensa e de segmentos da sociedade civil, num momento em que se levanta uma onda de suspeitas infundadas contra a Justiça Eleitoral e as próprias eleições.  

As ponderações em favor da conveniência das visões laterais também não se relacionam às chances eleitorais de Lula. As quatro visões laterais que discuti – e outras que certamente convém ter - não são imperativas para que ele vença as eleições, embora também possam, ao meu ver, facilitar esse objetivo. Excluo-me do grupo (crescente) de observadores do quadro que vislumbra uma ascensão consistente de Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto e até predizem uma inversão de posições a médio prazo, após um empate técnico em poucas semanas. Acaba de sair mais uma pesquisa do Ipespe e, como outras dos institutos mais relevantes e bem reputados, indica variações sim, mas dentro de um quadro cujo traço principal é estabilidade. A âncora mais importante dessa estabilidade é a rejeição imensa a Bolsonaro, que se mantém impávido colosso, apesar de suas bondades e das suas ousadias, da manipulação de instituições do Executivo, feita em sociedade com parte do mundo político (graças à qual neutraliza o Legislativo para emparedar o Judiciário) e das ostentações intimidadoras que, com a cooperação de comandantes do Exército, emprestam força de realidade ao seu ânimo golpista.

Tudo isso atua, assim como atuam os erros de Lula e o bate-cabeça entre partidos e lideranças que inviabiliza, até aqui, uma terceira via eleitoralmente consistente (na qual residiria uma ameaça à ampliação do eleitorado de Bolsonaro ao centro), mas nada disso mostra – também até aqui -  real perigo à liderança do maior adversário do atua presidente na corrida eleitoral.

As visões laterais tornam-se imprescindíveis é pela delicadeza do quadro institucional, que se tornará cada vez mais instável à medida em que fique mais patente a impossibilidade de Bolsonaro se manter no governo através das urnas. O líder das pesquisas não pode esperar que a faixa lhe seja transmitida de modo tranquilo. A violência política já ronda diretamente o processo eleitoral, como mostra a intercepção do carro de Lula em Campinas. Atentados tendem a ocorrer e a se suceder numa crescente se não aparecer a autoridade para garantir a eleição livre. Nesse momento, as instituições policiais estão infiltradas pelo veneno miliciano, o Exército sendo atiçado e a Justiça inibida no exercício das suas funções de organizar e dirigir as eleições e na de julgar e punir o ativismo golpista. Para tornar tudo mais complexo, alguns segmentos sociais com potencial explosivo (como caminhoneiros e policiais) são permeáveis à subversão das instituições, a turba bolsonarista está literalmente armada e parte dela organizada como milícia. O risco real não é Bolsonaro vencer as eleições e sim a perturbação grave do processo eleitoral, na sequência, da posse dos eleitos, por fim, do próprio exercício do futuro governo.

Esses riscos não serão afastados por declarações de intenção ou por apelos à moderação. O banho de urna é o caminho para sairmos do impasse. O primeiro passo – apenas o primeiro – para se sair da crise. Mas depois há que governar e não se fará nem a eleição nem o governo se não houver paz, por sua vez só possível com o respeito às regras da República e à decisão dos eleitores. A democracia, para ser respeitada, precisará da força objetiva do Estado que - não nos iludamos -, ao que tudo indica, infelizmente, não poderá ficar apenas latente, mas terá que se mostrar objetivamente e ostensivamente. Sem isso teremos que lidar com o medo como variável independente. Partidos e candidatos não estarão seguros para fazer campanha, muito menos os eleitores se sentirão seguros no ato de votar. Uma desmobilização perversa pode se estabelecer na contramão do êxito recente da campanha do TSE.

Para que todos esses condicionantes sejam atendidos é preciso convocar para concretizá-los as autoridades institucionais que a Constituição determinou como garantidoras do estado de direito. Essas atribuições são intransferíveis e consistiria em imprudência imperdoável confiá-las a um consenso político ad hoc, a ser obtido pela negociação do inegociável. O resultado – caso houvesse algum – seria, além de espúrio, enganoso, pois a essa altura da escalada que tensiona as instituições, não há consenso possível, porque uma das partes resolveu denunciar o jogo. Maus litigantes terão que ser constrangidos a aceitá-lo, caso contrário, terminarão vencendo, de algum modo, ainda que percam as eleições.

O raciocínio completa-se com o que segue: a convocação permanente das autoridades constituídas para cumprirem seu dever constitucional de propiciar segurança pública para as eleições não dispensa os partidos políticos e suas respectivas candidaturas presidenciais da obrigação de respaldarem politicamente a missão dessas autoridades institucionais, colocando a convergência republicana e democrática no centro dos seus discursos. Nada impede que campanhas se diferenciem no tratamento daquelas questões cruciais que preocupam e mobilizam a maioria dos eleitores. Diferentes visões sobre como baixar o custo da vida, produzir emprego e renda através de política econômica, propor políticas públicas socialmente avançadas, mostrar preocupação e ideias sobre segurança alimentar e ambiental. Mas o momento pede que se traga ao centro do palco também o que há alguns anos era óbvio e hoje deixou de ser. A continuidade democrática está ameaçada e tem de ser comunicado ao povo quem a ameaça e por que. Nesse ponto não cabe debate, mas a difusão de um consenso que supere feridas.

A cinco meses das eleições, as campanhas são as instâncias de mobilização política mais concretas para providenciar também o devido apoio social para as instituições funcionarem. Não é possível entrar nesta campanha de 2022 disposto só a vencer a eleição, ou a perde-la com glória de vítimas, sem política ampla e responsável para com o país que se pretende governar depois. Que não se deixe a defesa da democracia em segundo plano, recurso retórico tardio para censurar terceiros e tentar salvar a pele e a responsabilidade do próprio grupo, em caso de derrota. Deu-se isso com os vencidos de 2018. É isso que os democratas, especialmente o ex-presidente Lula, têm obrigação política de evitar agora.

A ausência de um impulso agregador maior em pré-campanhas até aqui movidas por meros cálculos aritméticos num contexto perigoso de desdobramentos imprevisíveis é que respalda a percepção pessimista, talvez fatalista, que registrei nos três primeiros parágrafos do texto (e nos três primeiros minutos do áudio) desta coluna. Pessoas órfãs de um desejo de moderação que não comparece à realidade, em cada vez maior número cogitam fugir dela de diversas maneiras, como se ela não fosse nos atormentar embaixo da cama ou em qualquer redoma ou pais em que nos refugiarmos.

Deixei de lado, por mais essa semana (a cada dia a sua agonia), essa percepção pessimista, para tentar prospectar algum argumento que anime, apesar de saber que o Brasil está vivendo uma das variantes mais malignas da crise que adoece o mundo. Mas é inquietante ver, na bolha dos otimistas, predominar um voluntarismo imprudente. Muitos dos que não se sentem contaminados pela moléstia do pessimismo e esperam milagres do seu umbigo estão a se distrair com números, ignorando os perigos. Entre o fatalismo e esse negacionismo, é difícil achar caminho.  Se queremos que a vida civil prossiga, todos temos que deixar nossas áreas de conforto e mobilizar visões laterais para encarar os outros. Nesse sentido, a nota do Cidadania (“Cidadania se solidariza com PT e repudia o fundamentalismo religioso”), assinada pelo seu presidente Roberto Freire, é um alento e tanto. Que o exemplo semeie!

(Obs: esta coluna foi escrita antes do autor conhecer o teor da fala de lula no lançamento da sua chapa)

*Cientista político e professor da UFBa

Infelizmente estamos diante de um prefeito despreparado e de uma Câmara com poucas e honrosas exceções, composta de inoperantes e omissos

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Assisti vídeos e ouvi críticas ao prefeito de Jeremoabo, por ter colocado cascalho sobre áreas com pavimentação asfáltica. A realidade é que qualquer desprovido de bom senso, deveria por os dois neurônios que restam para funcionar e entender: cascalho ou areia sobre superfície plana e lisa, cria-se um ambiente propício a derrapagem, especialmente para motos e bicicletas, todavia, parece que os "engenheiros de obras prontas", empregam a sua VONTADE, a prejuízo da técnica.
Outro fato que chama a atenção é vermos ter dinheiro para destruir o Parque de Exposição, mas não dispõe de R$ 5.000,00 aproximadamente, para comprar uma caçamba de borra asfáltica e fazer o serviço, enfim, Jeremoabo merece.

Nota da redação deste Blog - Esse atentado contra a vida do cidadão que trafega nas ruas de Jeremoabo permanece impune porque o proprio povo abre mão dos seus direitos, se acomodam diante das atrocidades praticadas pelo prefeito e seus secretários.

Quem não luta pelos seus direitos não é digno deles. (Rui Barbosa).


Lembre-se de que é um direito seu recorrer sempre que achar algo injusto. Nesse caso, você pode pedir indenização pelos danos causados ao seu veículo, às pessoas envolvidas, à propriedade e, inclusive, por danos morais.


Mas, você, como deve proceder para garantir que será indenizado?

O primeiro passo é registrar um BO, o boletim de ocorrência. Depois, você precisa reunir provas. Por isso é importante registrar tudo com fotos: o buraco, os danos ao veículo etc.

Todo cidadão pode solicitar indenização sempre que sofrer prejuízo devido a um serviço que algum órgão deveria ser responsável por realizar.


Indenização por acidentes em buracos

Augusto Damião

O artigo trata de indenizações quando pessoas sofrem acidentes em estradas com buracos. Analisa quando a pessoa tem direito a indenizações por danos morais e materiais, além de discutir a responsabilidade dos entes públicos no âmbito do Distrito Federal.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Epa! Vimos que você copiou o texto. Sem problemas, desde que cite o link: https://www.migalhas.com.br/depeso/325033/indenizacao-por-acidentes-em-buracos

No âmbito do Distrito Federal, existe jurisprudência consolidada de que os cidadãos têm direito a indenizações em eventos que envolvam acidentes de carro causados por buracos nas estradas. Para a indenização, é necessário que a pessoa comprove os três requisitos da responsabilidade civil: dano, conduta e nexo de causalidade. Para provar os danos é essencial juntar ao processo todas as provas que conectam o buraco na estrada aos problemas do carro. A conduta é a ação ou omissão do Estado que causa o dano. Nesse caso, a doutrina e a jurisprudência entendem que a responsabilidade é subjetiva, porque é necessário que a pessoa prove os danos e demonstre que o Estado foi omisso e essa omissão causou os problemas. Por fim, o nexo de causalidade é o elo entre a conduta e o dano, ou seja, a pessoa deve provar que a omissão do estado causou os danos.

Para provar o nexo de causalidade e a negligência administrativa (omissão do estado), você pode tirar fotos do buraco, obter testemunhas, além de conseguir fotos do google earth (com isso você terá a localização exata). Para a configuração da negligência administrativa, é necessário que o estado não faça nada a respeito do problema, ou seja, quando o estado negligenciar até a sinalização (art. 94, Código Brasileiro de Trânsito). Se houver sinalização sobre o buraco, não terá a configuração da negligência.

Para comprovar os danos, você deve ter fotos dos danos do carro (danos materiais), como pneus danificados, pára-choques estragados, etc.

Sobre os danos morais é mais difícil do que os danos materiais, porque a jurisprudência majoritária entende que apenas situações críticas podem gerar danos morais e sua respectiva indenização. Ou seja, quando há acidentes com mortes, ossos quebrados, queimaduras, hospitalizações, ausência no trabalho por internação etc.

Relativamente à responsabilidade das entidades públicas no âmbito do Distrito Federal, é importante destacar que existe forte entendimento pela responsabilidade solidária das entidades (Distrito Federal, NOVACAP e DER), porque a legislação referente à jurisdição não é clara, abrindo espaço para a responsabilidade solidária. Sobre o entendimento à indenização e responsabilidade estatal, o processo 0714714-74.2018.8.07.0016 (TJDFT) deixa bem claro a responsabilidade civil por causa da omissão estatal. Veja:

RECURSO INOMINADO 0714714-74.2018.8.07.0016

FAZENDA PÚBLICA. RESPONSABILIDADE CIVIL POR OMISSÃO. BURACO EM VIA PÚBLICA. DANOS MATERIAIS EM VEÍCULO AUTOMOTOR. DEVER ESTATAL DE INDENIZAR.

I. No presente caso (incúria na manutenção das vias públicas), a responsabilidade do Estado torna-se primordialmente subjetiva (exceção ao art. 37, § 6º, CF), tendo em vista que decorre de omissão, e deve ser aferida mediante a verificação da ocorrência de ato ilícito, consubstanciado em conduta culposa ou dolosa.

(...)

III. Desse modo, a omissão culposa (negligência) do Estado em não promover a manutenção das vias públicas em condições adequadas de uso e segurança, com a devida sinalização de advertência em caso de obstáculos na pista (no caso concreto, enorme buraco na via), atraem a responsabilidade pela reparação do dano causado em veículo automotor, em atenção à teoria da culpa administrativa (Precedentes do TJDFT: 6ª Turma Cível, Acórdão 950453, DJE: 5/7/16; 1ª Turma Recursal, Acórdão 952663, DJE: 27/7/16; 3ª Turma Recursal, Acórdão 952739, DJE: 13/7/16; 2ª Turma Recursal, Acórdão 944767, DJE: 7/6/16).

Em julgamento recente (processo 0751504-23.2019.8.07.0016), o juiz entendeu pela responsabilidade conjunta entre o DER e a NOVACAP e subsidiária do DF, porque vislumbra que o DF "delega" os serviços de manutenção e fiscalização de rodovias para a NOVACAP. A legislação relativa ao DF é o art. 37, §6º, CF/88, a Lei Orgânica do Distrito Federal e o decreto 38.094/17.

A responsabilidade do DER baseia-se nos decretos distritais 27.365/06 e 37.949/17. No caso da NOVACAP, a legislação correspondente é o art. 1º da lei 5861/72 e o decreto 32.716/11. Existem precedentes para a responsabilidade da NOVACAP. Veja:


Jugamento 524665, 20050110060670APC


AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. DANOS DOS MATERIAIS. PISTA COM BURACO. AUTOMÓVEL DANIFICADO. OMISSÃO NA MANUTENÇÃO DA VIA PÚBLICA E AUSÊNCIA DE SINALIZAÇÃO.

1. A NOVACAP é a empresa do GDF responsável pela manutenção de vias públicas do Distrito Federal, incumbindo-lhe a execução e a fiscalização das obras, sendo, portanto, responsável pelos danos causados a terceiros em decorrência da má preservação das vias públicas.

Em suma, se você sofreu danos morais e/ou materiais causados por acidentes de carro em estradas precárias, você tem direito a indenizações. Para isso, você deve ter as provas dos danos do carro e provas dos buracos ou das estradas precárias. Além disso, você deve provar a conexão entre o acidente e os danos, comprovando a omissão estatal. Por fim, você deve procurar qual ente público é responsável, ou seja, aquele que tem jurisdição sobre aquela via. Caso não haja definição exata pela legislação, o que normalmente ocorre, é o caso de legitimidade passiva do DF, DER e da NOVACAP, com pedido de responsabilidade solidária.


*Augusto Damião é estagiário de Direito do escritório Advocacia Fernandes Andrade SS.


: https://www.migalhas.com.br/depeso/325033/indenizacao-por-acidentes-em-buracos


A inflação ronda a campanha eleitoral - Editorial




Pesquisas mostram que realidade econômica, marcada pelo avanço dos preços administrados, começa a mostrar limites do discurso de Bolsonaro

Preços administrados como combustíveis e energia costumam ser uma pedra no sapato de qualquer governo. Em países emergentes como o Brasil, boa parte da renda da população já se esvai na compra de itens básicos em situações normais, e na ocorrência de guerras como a atual o problema se agrava ainda mais. A origem da crise pode até ser externa, mas o ônus sempre recai sobre o governo. Na dura realidade vivida pela maioria da população, algo precisa ser feito a respeito; se há alguém com poder para isso, é o presidente; e, se ele não o faz, é por falta de vontade política.

Na prática, não é assim que as coisas funcionam. A conta de luz pode subir em razão de uma seca que reduz a geração de hidrelétricas e obriga o acionamento de termoelétricas; pela necessidade de investimentos na expansão do setor; por uma política benevolente de subsídios. Os combustíveis, por sua vez, podem aumentar em razão da variação das cotações internacionais de petróleo; por conflitos geopolíticos envolvendo países produtores; por dificuldades logísticas; pela concentração de mercado. Fato é que, para quem gasta parcelas importantes de seu salário com esses itens, os motivos não importam. Diferentemente dos alimentos, quando luz, gasolina, diesel e gás sobem, a percepção é que a responsabilidade é do presidente.

Há mais de três anos no comando do País, certamente Bolsonaro ouviu explicações técnicas aprofundadas sobre o comportamento dos preços de energia e combustíveis. O que não lhe falta, com certeza, é informação de qualidade. Se há poucas alternativas viáveis para resolver problemas complexos, o que não faltam são soluções ruins à procura de problemas para justificar sua adoção. Nessa toada, Bolsonaro já demitiu dois presidentes da Petrobras e tenta coagir a empresa a não fazer novos reajustes aos gritos. Os preços, no entanto, continuam elevados.

Nos governos petistas, a solução para esse problema foi o intervencionismo, com controle desavergonhado dos preços administrados, principalmente em ano eleitoral. No fundo, era o que Bolsonaro gostaria de fazer, mas não pode. Assim, apela-se para outro modus operandi: encontrar culpados, qualquer um, para livrá-lo da responsabilidade. É bem verdade que isso funciona para a ala mais radical e fiel de seus apoiadores, a quem ele oferece desde ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), como o perdão ao deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), a contestações contra a segurança do sistema eleitoral e a inviolabilidade da urna eletrônica. No caso dos preços da gasolina e do diesel, os inimigos já foram os governadores; hoje, é a Petrobras. Mas a realidade econômica começa a mostrar os limites dessa estratégia.

O mais recente levantamento Ipespe, do início de maio, mostra estabilidade no cenário eleitoral, com 44% das intenções de voto para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e 31% para Bolsonaro. Os dados mais importantes, porém, são os que revelam a percepção da população sobre a economia. Do total de entrevistados, 95% disseram que a inflação subiu ou aumentou muito e 62% avaliam que os preços dos produtos vão seguir essa trajetória nos próximos meses; 63% acreditam que a economia brasileira está no caminho errado. Pela primeira vez, inflação e o custo de vida foram os temas mais citados pelos entrevistados como prioritários para o próximo presidente, juntamente com educação.

Dessa pesquisa, infere-se o óbvio: a inflação – e, consequentemente, os preços administrados – tende a ser o assunto principal das eleições deste ano. Para Bolsonaro, isso certamente não é novidade. As falas antidemocráticas do presidente podem fazer com que passe despercebida uma parte relevante de sua mensagem, segundo a qual o aumento de preços é um fenômeno mundial não restrito ao Brasil. É algo que ele repete à exaustão no cercadinho do Palácio da Alvorada. Essa explicação, no entanto, não tem convencido a maioria da população, algo que talvez ajude a explicar o destempero de Bolsonaro nos últimos dias.

O Estado de São Paulo

Usar politicamente um general na Comissão do TSE não parece ser uma atitude republicana




Por Carlos Newton

No início da carreira, Tom Jobim tinha uma parceiro extremamente inspirado, da mesma idade, pianista clássico e que também tocava nas boates do Rio. Chamava-se Newton Mendonça, era também violinista e gaitista, um talento extraordinário. Foi o autor do “Samba de Uma Nota Só”, que depois o amigo Jobim só ajudou a fazer a letra, e os dois compuseram outros sucessos, como “Foi a Noite”,  “Desafinado” e “Meditação” (O Amor, o Sorriso e a Flor). Mendonça casou-se com a cantora Cylene Ribeiro, do Quarteto em Cy, e morreu aos 33 anos, sem ter usufruído o sucesso e o direito autoral de suas músicas.

Eram dois gênios, mas a fama ficou toda com Jobim, que era assediado por outros parceiros e parou de fazer composições com Mendonça, que se tornou exemplo perfeito do ilustre desconhecido.

UMA NOTA SÓ – Essas lembranças do início da bossa nova são causadas pelo comportamento atual de Jair Bolsonaro. Jamais ouviu falar em Newton Mendonça, não tem a menor ideia sobre esse músico genial, mas age como se fosse seguidor da obra dele, pois está se tornando o presidente de uma nota só. Na campanha eleitoral, Bolsonaro joga todas as fichas no confronto  contra o Poder Judiciário, ora atacando o Supremo, ora fustigando o Tribunal Superior Eleitoral. É como se os outros temas nacionais nem existissem. 

Nesse insensato radicalismo de uma nota só, o presidente não percebe que a repetição indefinida do tema tende a desgastá-lo, porque não adianta denunciar que a eleição será fraudada, sem conseguir apresentar provas a respeito.

Donald Trump tentou essa jogada e se deu mal. Embora até hoje um terço dos americanos acredite que a vitória de Joe Biden foi obtida por baixo dos panos, a imensa maioria dos eleitores não entrou nessa barca furada da matriz U.S.A.

GENERAIS EM AÇÃO – Para fortalecer a acusação aqui na filial Brazil, Bolsonaro conta com a prestigiosa ajuda de chefes militares, especialmente o ex-ministro Braga Netto, que indicou o general Héber Garcia Portella para integrar a Comissão de Transparência do TSE.

O general Héber, que é comandante de Defesa Cibernética do Exército Brasileiro, contratou uma  empresa paramilitar israelense de cybersegurança, a  CySource, para assessorá-lo no TSE, onde a atuação do representante das Forças Armadas tem sido tendenciosa, a ponto de cobrar urgentes medidas para prever e divulgar antecipadamente “as consequências para o processo eleitoral, caso seja identificada alguma irregularidade”.

Como se vê, o general ainda não conseguiu indicar qualquer irregularidade, mas já exige providências antecipadas para algo que nem sabe definir. Ou seja, o representante militar está sendo claramente usado para pôr em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas e a atuação do TSE durante as eleições.

P. S. – Trata-se de um comportamento de caráter político-eleitoral e não condiz com o que se deve esperar da postura de um oficial superior. Cabe ao atual ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, enquadrar o representante das Forças Armadas, para que abandone esse procedimento e passe a agir com a imparcialidade de um observador militar de alta linhagem, desculpem a franqueza. Por fim, deve-se destacar que o ministro da Defesa agiu oportuna e acertadamente, ao determinar que as medidas propostas pelas Forças Armadas sejam divulgadas pelo TSE. Essa transparência vai oxigenar a democracia e evitar que haja mal-entendidos de uma nota só. (C.N.)

Tribuna da Internet

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