Palmeira ocupa posição delicada no governo
Pedro do Coutto
A política contemporânea tornou a comunicação um dos principais centros de poder dentro dos governos. Em um ambiente marcado pela velocidade das redes sociais, pela fragmentação da atenção pública e pela disputa permanente de narrativas, governar já não basta. É preciso comunicar. E é justamente nesse ponto que cresce a relevância — e também a controvérsia — em torno do ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Sidônio Palmeira.
Em extensa reportagem publicada por O Globo, a jornalista Jennifer Gularte descreve o fortalecimento da influência de Sidônio dentro do governo ao mesmo tempo em que aumentam as resistências à sua atuação nos corredores do Palácio do Planalto.
POSIÇÃO DELICADA – O fenômeno não é exatamente surpreendente. Em qualquer administração, especialmente em períodos pré-eleitorais, o responsável pela comunicação ocupa uma posição delicada: precisa converter ações administrativas em mensagens capazes de alcançar a população, mas depende inteiramente da qualidade, da velocidade e da coordenação das informações produzidas pelos ministérios e pelas empresas estatais.
Essa relação cria uma dinâmica inevitável. Quanto maior a necessidade de coordenar discursos e organizar mensagens, maior tende a ser a influência do comunicador. Ao mesmo tempo, cresce o desconforto daqueles que passam a ver a comunicação como um centro de poder concorrente.
A trajetória de Sidônio ajuda a compreender esse protagonismo. Publicitário responsável pela campanha presidencial vitoriosa de Lula em 2022, ele chegou ao governo com a missão explícita de reformular a comunicação oficial, após críticas recorrentes do presidente à dificuldade de fazer as realizações da gestão chegarem ao conhecimento da população. Sua nomeação para a Secom, em janeiro de 2025, representou justamente a tentativa de aproximar a comunicação institucional da lógica das campanhas eleitorais, incorporando estratégias de marketing político e monitoramento permanente da opinião pública.
AMPLO ESPAÇO – O papel desempenhado por Sidônio, porém, ultrapassa a simples produção de campanhas publicitárias. Relatos da imprensa mostram que ele participa de reuniões estratégicas, acompanha pesquisas de opinião, monitora tendências nas redes sociais e oferece sugestões que alcançam áreas tradicionalmente reservadas à articulação política. Essa ampliação de espaço gera desconforto entre aliados que consideram excessiva a influência de um ministro originalmente encarregado da comunicação.
O fenômeno é compreensível. Em governos que enfrentam desafios de popularidade, a comunicação deixa de ser uma atividade acessória para se tornar instrumento central da estratégia política. Afinal, não existe política pública capaz de produzir dividendos eleitorais se a população não perceber seus resultados. A comunicação, nesse contexto, deixa de ser apenas um canal de divulgação para se transformar em uma ponte entre gestão e percepção pública.
É justamente essa a principal missão de Sidônio Palmeira. Seu trabalho consiste em reunir permanentemente duas dimensões distintas, mas inseparáveis: aquilo que o governo efetivamente realiza e a forma como essas realizações são percebidas pelos cidadãos. O desafio é ainda maior porque o calendário político já aponta para a disputa presidencial de 2026. Embora o governo insista em diferenciar gestão e campanha, a realidade política demonstra que a construção da imagem presidencial ocorre diariamente, muito antes do início formal do processo eleitoral.
LIMITE – Existe, contudo, um limite que nenhum marqueteiro consegue ultrapassar. A comunicação pode amplificar resultados, organizar mensagens e reduzir ruídos. Mas não consegue substituir entregas concretas. A experiência brasileira mostra que governos costumam fracassar quando acreditam que problemas de avaliação pública decorrem exclusivamente de falhas comunicacionais. Em muitos casos, a comunicação apenas reflete dificuldades mais profundas relacionadas à economia, aos serviços públicos ou às expectativas da sociedade.
Por isso, o crescimento da influência de Sidônio Palmeira revela algo mais amplo do que a ascensão de um ministro. Ele simboliza uma transformação estrutural da política moderna, na qual a disputa pela interpretação dos fatos passou a ser tão importante quanto os próprios fatos. Em um cenário de hiperconectividade e polarização permanente, o poder de construir narrativas tornou-se um ativo estratégico de primeira grandeza.
A questão que permanece em aberto é se a crescente centralidade da comunicação será suficiente para fortalecer a imagem do governo Lula diante do eleitorado. A resposta dependerá menos da habilidade do marqueteiro e mais da capacidade do governo de produzir resultados que possam ser convertidos em narrativas convincentes. Afinal, comunicação eficiente pode potencializar conquistas. Mas somente as conquistas são capazes de sustentar, no longo prazo, uma narrativa política vencedora.