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Gesto de Lula foi mais político do que prático
Malu Gaspar
O Globo
O presidente Lula afirmou na semana passada que vai indicar novamente seu advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF), porque a derrota do ministro na votação do Senado Federal foi “simplesmente política”. Entre seus aliados, porém, ainda não se sabe nem quando nem como isso ocorrerá. Tudo porque ainda falta combinar com o maior obstáculo no caminho: Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Para aliados próximos que estiveram com o presidente nos últimos dias, o gesto de Lula foi mais político do que prático, pelo menos por enquanto. A ideia, de acordo com eles, era mostrar que não pretende ceder a Alcolumbre e recuar de sua prerrogativa de indicar o próximo ministro, nem tampouco deixar Messias “na chuva”.
“FATO ISOLADO” – Segundo dois políticos que atuam como intermediários entre Alcolumbre e Lula, o presidente do Senado tem dito nos bastidores que “não quer atrapalhar” o governo, que a derrota de Messias foi “um fato isolado” e ainda que está “aberto ao diálogo” com o presidente da República. Mas ainda não disse com todas as letras que, se Lula reenviar a indicação, ele coloca para votar e ajuda a aprovar.
Para que o impasse seja desfeito, os dois precisam voltar a conversar – até porque a indicação só seria submetida ao Senado ainda neste ano caso Alcolumbre revisse o ato da Mesa Diretora de 2010 veta a apreciação de indicados rejeitados no mesmo ano.
Só que Lula ainda avalia se vai receber Alcolumbre, conforme o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, disse ao O Globo. Logo depois da derrota de Messias no Senado, Lula chegou a mandar mapear todos os cargos de Alcolumbre no governo, mas não exonerou ninguém.
REORIENTAÇÃO – A mudança de postura do dirigente do Senado, que trabalhou ativamente para derrubar a indicação de Messias no plenário e impôs a Lula uma derrota histórica, foi interpretada como uma reorientação por conta do cenário político.
Isso porque uma das razões pelas quais Alcolumbre forjou uma aliança com a oposição para derrubar Messias foi a avaliação de que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tinha mais chance de ganhar as eleições do que Lula. Agora, com a virada de cenário provocada pelos áudios de Flávio e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que deu dinheiro para o filme sobre Jair Bolsonaro, Alcolumbre tenta recalcular a rota.
NA MIRA – Outro fator que, na interpretação dos governistas, ajudou a “amaciar” Alcolumbre foi a operação sobre Cláudio Castro (PL) na semana passada, focada na influência do governador do Rio sobre os aportes do Rioprevidência em papéis do Banco Master. Lideranças do PT acreditam que o presidente do Senado tenha se sentido na mira, uma vez que o fundo de previdência do Amapá, cujos dirigentes foram indicados por ele, também colocou R$ 400 milhões em papeis do banco de Daniel Vorcaro.
Diante da nova situação, o petista tem dito aos mais próximos que , se o presidente do Senado quiser voltar a negociar, terá que ser em outras bases, o que nas palavras de um ministro quer dizer que “se ele quiser levar alguma coisa, primeiro vai ter que entregar”.
PRIORIDADE – A postura contrasta com a de lideranças do PT no Congresso e ministros com gabinete no Palácio do Planalto, inclusive, acham que essa não deve ser a prioridade num momento em que o governo está numa maré positiva, com a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara dos Deputados. Para essa ala, a articulação política do governo deveria se concentrar na aprovação do projeto no Senado antes de voltar a discutir a vaga no Supremo.
O Palácio do Planalto também conta com a aprovação do PL dos Minerais Críticos na Casa. O projeto, que cria um fundo garantidor de R$ 2 bilhões e estabelece incentivos fiscais de até R$ 5 bilhões na área da mineração, é um ponto crítico na tentativa de estabilização das relações com os Estados Unidos e o governo Donald Trump.
PENDENGA – A questão é que esses mesmos aliados de Lula também reconhecem que o presidente da República não quer esperar até a eleição para resolver essa pendenga. Até porque, caso o petista seja derrotado nas urnas, a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso no ano passado seria preenchida pelo presidente eleito.
Lula também sabe que será cada vez mais difícil viabilizar uma sabatina conforme as eleições se aproximam. Mesmo com a possibilidade de indicar outra pessoa para o STF, o presidente deixa claro que não abre mão de Messias.