Bolsonarismo lidera debate digital sobre corrupção
Luis Felipe Azevedo
O Globo
Os desdobramentos da operação da Polícia Federal (PF) no âmbito da investigação sobre Master contra o líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), levaram ao crescimento da discussão sobre corrupção nas redes sociais. É o que revela relatório do instituto Democracia em Xeque, divulgado nesta semana.
Os dados mostram que dois terços (66%) do total de postagens sobre o tema, entre os dias 15 e 21 de junho, estiveram alinhados ao discurso bolsonarista. Para os pesquisadores, o cenário “interrompeu a capacidade da gestão petista de pautar o debate por meio de temas favoráveis à sua agenda”.
IMPULSIONAMENTO – Segundo o estudo, a ação da corporação contra Wagner tirou o governo Lula da “ofensiva” e impulsionou o bolsonarismo no debate eleitoral sobre o escândalo do banco de Daniel Vorcaro. Se até o dia anterior à operação o eixo corrupção registrava em média menos de 65 posts, o total saltou para 1.009 na quinta-feira passada. Após Wagner ser incluído na nova fase das investigações sobre o caso Master, o bolsonarismo atribuiu protagonismo ao PT e ao governo Lula nos escândalos de corrupção do banco.
O deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), por exemplo, caracterizou o caso como o maior escândalo de corrupção do Brasil e alegou ser capitaneado por Lula. Outras publicações do campo, como do PL, afirmaram que tudo teria começado com o PT da Bahia e reforçaram a relação de Wagner com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Já o senador e pré-candidato do PL ao Planalto Flávio Bolsonaro voltou a pressionar pela abertura de uma CPMI do Banco Master.
BENEFICÁRIO – A PF apontou que o senador foi o beneficiário central de vantagens econômicas pagas por integrantes do banco de Daniel Vorcaro, apontando relação próxima de Wagner com Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. A polícia suspeita da atuação parlamentar do senador em temas de interesse do Master, como na tramitação de propostas sobre crédito consignado e o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e ainda durante a fiscalização parlamentar sobre a compra do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB). A PF apontou uma correlação entre essas atuações e supostas “vantagens econômicas indevidamente” recebidas por Wagner.
Em nota, a defesa do senador diz que apresentou recurso e busca a anulação “apontando erros graves que comprometem a medida”. A nota é assinada por Pablo Domingues. No texto, a defesa diz que há equívocos na decisão porque o parlamentar “jamais atuou no Congresso Nacional para favorecer” a instituição financeira. Ele afirma que uma prova disso é que “a única emenda de sua autoria sobre o tema”, apresentada numa Medida Provisória (MP) “propunha limitar juros e proteger os consumidores, justamente o contrário dos interesses do banco”. A defesa diz ainda que o senador se apresentou contra emenda apresentada por Ciro Nogueira (ainda que sem citar nominalmente o senador).
O advogado também diz que os valores em espécie encontrados em endereços ligados ao parlamentar têm “origem lícita e comprovada”. A PF apreendeu US$ 49 mil (o equivalente a R$ 253 mil na cotação atual) em espécie em um quarto do hotel Brasília Palace, onde ele costuma ficar em Brasília. Além disso, também foram apreendidos 33,5 mil euros e US$ 6,175 mil em seu endereço em Salvador, na Bahia.