Trump se alinha à tática da família Bolsonaro
Maria Hermínia Tavares
Folha
O presidente Donald Trump afirmou na rede Truth Social, nesta semana, que a votação no Brasil será seu próximo desafio. E se declarou —quem diria— preocupado com a integridade do sistema eleitoral do país e com a necessidade de que a disputa seja livre e justa. Para ele, assim será se o Brasil vier a “se juntar à crescente lista de nações que se movem à direita”.
Não poderia ser mais explícito: joga a favor do candidato direitista. Como, por enquanto não se sabe. Mas desde já o mandatário americano se alinha à tática da família Bolsonaro de disparar suspeitas sobre o nosso sistema de votação e sobre as regras que asseguram condições necessárias à livre competição nas urnas.
INTERFERÊNCIA EXTERNA – A declaração extemporânea dá mais um passo na direção de colocar as relações entre Brasil e EUA como um dos temas importantes do debate eleitoral. Bem diferente do que ocorria no passado, quando a política externa não fazia parte do rol de questões relevantes para a definição da imagem dos candidatos presidenciais, muito menos para a escolha dos votantes.
Se assim for, vale a pena olhar como potenciais eleitores encaram a ingerência ianque em assuntos nacionais. Também nesta semana, este jornal publicou a pesquisa Datafolha sobre a decisão da Casa Branca de incluir as facções criminosas Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho na lista de organizações terroristas estrangeiras que ameaçariam a segurança nacional dos EUA. O ato unilateral abre caminho à interferência direta de Washington em nossos assuntos domésticos.
O Datafolha mostra a grande repercussão do fato, medida pela elevada porcentagem de brasileiros que se julgam informados sobre a iniciativa americana. Majoritária é também a parcela dos que consideram que “organização terrorista” é um rótulo adequado às duas facções.
DIVISÃO – Ainda assim, a opinião pública se divide quase meio a meio quando se trata de caracterizar as intenções americanas, vendo nelas um gesto bem-intencionado para ajudar o Brasil no combate ao crime organizado ou, inversamente, uma desculpa para mandar no país.
As diferenças de avaliação estão associadas à preferência por partidos; à autoclassificação no gradiente esquerda-direita; à crença religiosa e ao apoio aos pré-candidatos Lula e Flávio Bolsonaro. Os partidários deste último creem mais no altruísmo dos americanos, enquanto os lulistas acreditam que aqueles se guiam pela crua ambição de poder.
LIMITES – As preferências eleitorais parecem assim organizar a visão dos brasileiros sobre as intenções dos EUA. As diferenças desaparecem, porém, diante da pergunta sobre os limites aceitáveis da intervenção americana. Quase 3 em 4 entrevistados contestam o direito de Trump de atacar unilateralmente o crime organizado, sem avisar o governo brasileiro.
Por analogia, os resultados do citado levantamento sugerem que há limites para o discurso que mobilize a defesa da soberania diante de possível interferência trumpista no processo eleitoral deste ano. Não obstante, assinalam que uma intervenção desabrida e prepotente —a marca por excelência do titular de turno da Casa Branca— poderá prejudicar seu candidato preferido.