Jogando em casa
É na geografia das ações judiciais que a tática de Hang se revela. Dos 55 processos, 38 foram iniciados em Brusque, em Santa Catarina. A cidade é sede da Havan há quatro décadas e terra natal do empresário.
Na 1ª Vara Cível da cidade, a taxa de êxito de Hang é alta: 26 casos foram julgados como procedentes ou parcialmente procedentes a favor do empresário. Ou seja, um aproveitamento de 68,4%. Longe de sua área de influência, a história muda. Em São Paulo, onde moveu 12 ações, o sucesso de Hang na primeira instância despenca para 25%.
“Percebemos que o Luciano Hang costumava processar jornalistas em São Paulo, onde sofreu algumas derrotas. Depois, começou a abrir casos em Brusque, obtendo sucesso”, conta a advogada Letícia Kleim, coordenadora jurídica da Abraji e responsável pelo levantamento.
“Essa é uma prática conhecida internacionalmente como forum shopping. Não só a Justiça de Santa Catarina pode ser mais hostil à liberdade de imprensa, como ele [Hang] exerce uma influência econômica que se torna também política. Ainda que não seja declarada, ela impacta objetivamente os casos”, diz Kleim.
Em Brusque, o bilionário é onipresente. Restaura prédios históricos, faz doações, e sua megaloja funciona como o principal centro de lazer de uma cidade onde quase 80% do eleitorado votou em Jair Bolsonaro em 2022 – o mesmo ex-presidente com quem Hang costumava dividir palanques.
A influência do empresário chega ao próprio Judiciário local. Em dezembro de 2024, Hang ofereceu um jantar para desembargadores do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, o TJSC, em um palacete que havia restaurado. Pelo menos quatro magistrados que relatavam processos envolvendo o empresário posaram para fotos ao lado dele. O caso foi parar no Conselho Nacional de Justiça, o CNJ, que acabou arquivando a apuração.
Nesse mesmo convescote estava o desembargador Gilberto Gomes de Oliveira. O filho dele, Gilberto Gomes de Oliveira Júnior, era justamente o juiz titular da 1ª Vara Cível de Brusque, uma das duas varas cíveis da cidade, o que o fez ser responsável por analisar alguns processos movidos por Hang até fevereiro de 2026.
As sentenças de Oliveira Júnior a favor do dono da Havan chamam a atenção por terem trechos semelhantes. Em seis delas, o magistrado usou exatamente a mesma frase: “É certo que a reportagem publicada pela parte ré ultrapassou o mero caráter informativo”. Em 15 decisões, ele ainda repetiu a mesma citação de um livro de 2007.
Em outras dez, usou o mesmo trecho para dizer que jornalistas agiram “com manifesta desídia [falta de cuidado], já que foram negligentes na veiculação de notícia que vincula o requerente [Hang e/ou a Havan] sem a mínima base fática de comprovação”.
Foi Oliveira Júnior quem condenou José Simão a pagar R$ 50 mil, tratando uma coluna de opinião humorística como matéria jornalística. Ele também mandou a Folha de S.Paulo e a jornalista Patrícia Campos Mello pagarem R$ 100 mil a Hang pela reportagem sobre disparos de WhatsApp nas eleições de 2018. E ainda censurou o repórter Guilherme Amado, do Metrópoles, por revelar o grupo de WhatsApp onde empresários cogitavam um golpe de estado.
Os três casos foram revertidos a favor dos jornalistas em instâncias superiores. Vale ressaltar que, três anos antes de censurar Amado, o mesmo juiz usou o argumento da “liberdade de expressão” e do “risco de censura” para impedir a exclusão de uma entrevista dada por Hang na pandemia.
Decisões pró-Hang não foram tomadas somente por Oliveira Júnior. Em abril deste ano, a juíza Joana Ribeiro – nova responsável pela 1ª Vara Cível de Brusque – condenou o Diário do Centro do Mundo, o DCM, a pagar R$ 120 mil ao empresário e à Havan. Na decisão, ela rechaçou a tese de lawfare – uso da lei para perseguição –, afirmando estar “ausente demonstração concreta de abuso”.
Procurados pelo Intercept Brasil, Oliveira Júnior e Joana Ribeiro não responderam aos nossos questionamentos. Já o TJSC disse que “não se manifesta sobre decisões judiciais bem como sobre processos em tramitação, em respeito à independência da atividade jurisdicional, ao devido processo legal e às normas que regem a atuação do Poder Judiciário”. O tribunal acrescentou, porém, que as decisões judiciais são proferidas “de forma fundamentada pelos magistrados competentes”, assegurados “o contraditório, a ampla defesa e os recursos previstos no sistema de Justiça”.
Já Hang declarou, em nota enviada ao Intercept por meio de sua assessoria, que considera a liberdade de imprensa “fundamental para a democracia”, mas ponderou que ela “não pode ser usada como escudo para espalhar mentiras ou perseguir quem pensa diferente”.
O empresário também rejeitou “qualquer tentativa de atribuir influência indevida sobre instituições ou autoridades” e disse que confia “plenamente na Justiça brasileira e na independência dos magistrados, que decidem com base na lei e nos fatos” (leia a íntegra da resposta).