Por José Montalvão
A gestão dos espaços de sepultamento em Jeremoabo atingiu um ponto que beira o surreal, desenhando uma crise institucional e social que não pode mais ser empurrada para debaixo do tapete. Após as recentes denúncias legislativas, o próprio Secretário Municipal do Meio Ambiente veio a público trazer esclarecimentos que, em vez de tranquilizar, acendem um alerta máximo: o cemitério sob suspeita de clandestinidade no Bairro São José já funciona há mais de 30 anos.
A declaração oficial do secretário joga luz sobre uma herança crônica de omissão:
"Entramos em contato com diversas pessoas da comunidade para obter informações sobre o cemitério. Segundo os relatos, ele existe há mais de 30 anos e vem sendo utilizado regularmente pela população local durante todo esse período. A situação é semelhante à de vários outros cemitérios existentes nos povoados do município, bem como ao próprio São João Batista. Trata-se de uma realidade consolidada há décadas. Caso fosse iniciado um processo de fechamento desses espaços, haveria um impacto significativo, gerando uma demanda que o município teria dificuldade em absorver de imediato."
O Nó Gordo: Superlotação e a Doação Imoral do Terreno Frontal
Se a existência de espaços sem licenciamento ambiental adequado por mais de três décadas já é grave, o cenário do Cemitério Oficial São João Batista consegue ser ainda mais dramático. Atualmente, ninguém sabe ao certo se o gerenciamento daquela necrópole pertence juridicamente à Prefeitura Municipal ou à Paróquia. O fato inegável e visível a olho nu é que o cemitério oficial está completamente superlotado.
Para piorar a crise de espaço, a história recente de Jeremoabo guarda uma decisão que prejudicou diretamente toda a coletividade. O terreno localizado exatamente em frente ao cemitério oficial, que deveria ter sido reservado e utilizado pelo poder público para a ampliação do espaço — resolvendo o problema do sepultamento municipal por longos anos —, foi doado para a Igreja pelo prefeito anterior. Uma manobra que muitos consideram ilegal e profundamente imoral, pois retirou do município a única área de escape pública para sepultamentos na sede.
A Divisão Social da Morte: O Secof e a Luta por uma Vaga
Essa falta de planejamento urbano e o loteamento de áreas públicas geraram uma triste e cruel divisão social no momento da despedida. Em Jeremoabo, quem possui condições financeiras e estabilidade orçamentária consegue garantir dignidade e tranquilidade aos seus entes queridos adquirindo jazigos no cemitério particular da empresa SECOF.
Por outro lado, o cidadão carente, o trabalhador humilde que não dispõe de recursos financeiros para arcar com os custos de uma estrutura privada, fica à mercê do caos. Essas famílias se veem obrigadas a "disputar com os defuntos" uma vaga nas áreas públicas superlotadas ou recorrer aos espaços historicamente consolidados na clandestinidade, agravando os riscos ambientais e de saúde pública.
Uma Questão Histórica que Exige Solução de Cima
O Secretário do Meio Ambiente foi cirúrgico ao reconhecer que o fechamento abrupto desses locais causaria um colapso social imediato que a prefeitura não teria capacidade de absorver. Trata-se de uma questão histórica herdada de gestões passadas, cuja solução definitiva não nascerá de decretos isolados, mas de uma discussão ampla, técnica e estruturada.
A resolução desse gargalo demanda a intervenção e o estabelecimento de diretrizes em esferas superiores. É urgente que a atual gestão municipal, as autoridades sanitárias do Estado e o Ministério Público sentem à mesa para desenhar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que permita regularizar o que for tecnicamente viável nos povoados e bairros, e projetar com urgência um novo cemitério público municipal, planejado dentro das normas ecológicas modernas.
Conclusão: O Povo Clama por Dignidade
A morte é a única certeza da vida, e o respeito aos que partem e aos que ficam é o termômetro de dignidade de uma civilização. Jeremoabo não pode continuar vivendo em uma realidade onde até o direito ao sepultamento virou motivo de disputa e incerteza jurídica.
O silêncio do passado gerou a crise do presente. O Blog continuará cobrando que as autoridades enfrentem esse tema com a coragem que ele exige, devolvendo ao povo humilde o direito básico de sepultar seus familiares em solo seguro, legalizado e com o devido respeito humano.
Blog de Dede Montalvão: Olhando de frente para os problemas históricos da nossa terra, combatendo os privilégios e cobrando soluções para o povo.