quarta-feira, junho 10, 2026

Nunes Marques é aliado dos Bolsonaro, mas a pesquisa está devendo explicações


Charge do Zé Dassilva: censura nas pesquisas - NSC Total

Charge do Zé Dassilva (NSC Total)

Eliane Cantanhêde
Estadão

Ao suspender a última pesquisa AtlasIntel sobre a eleição presidencial, o ministro do Supremo Nunes Marques, atual presidente do STF, nos deixa entre uma tese, ou princípio, e uma questão direta, pontual. Em tese, a ingerência numa pesquisa legal e registrada é condenável. No caso em foco, há margem para dúvidas.

A família Bolsonaro ataca pesquisas e institutos desde as eleições de 2018 e 2022, quando também fez dura campanha contra as urnas eletrônicas e, por fim, negou os próprios resultados. Aliás, Jair Bolsonaro talvez seja o único vitorioso a acusar de fraude a eleição que ele próprio venceu. É inédito, incompreensível.

INDO E VINDO – De outro lado, o ministro Nunes Marques, bastante polêmico, foi indicado para o Supremo pelo então presidente Bolsonaro e é apontado como o mais bolsonarista da Corte, apesar de, nos seus votos e decisões, ir e vir de acordo com os ventos.

Se for por aí, a suspensão da atual pesquisa é preocupante, até suspeita, principalmente porque ela confirmou a queda de seis pontos, de abril para maio, de Flávio Bolsonaro para o presidente Lula num eventual segundo turno. Uma velha implicância com pesquisas amplificada por um resultado negativo? Se a pesquisa é boa para o candidato, vale; se não, não vale?

Há, porém, questionamentos não só na petição dos advogados do PL, partido de Flávio e na liminar de Nunes Marques, a ser submetida ao plenário do TSE, como também na explicação técnica e na metodologia usada pela AtlasIntel na pesquisa em foco.

DIRECIONAMENTO – Uma das perguntas da pesquisa foi se, “diante das informações divulgadas”, Flávio deveria manter a candidatura presidencial ou desistir e apoiar outro nome. À primeira vista, parece uma questão legítima, relevante, aliás, usada por outros institutos, mas o PL não acha.

O partido acusa o instituto de usar nos formulários expressões como “escândalo” e “evidências de envolvimento direto” ao se referir ao áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro ao dono do Master, Daniel Vorcaro, para um filme sobre o pai.

Para a defesa, isso influenciou as respostas dos entrevistados sobre intenção de voto, imagem e rejeição do senador.

DIZ O INSTITUTO – Alega o AtlasIntel que o questionário principal da pesquisa foi concluído antes de os entrevistados serem redirecionados para “uma página completamente separada do questionário”, com o áudio de Flávio com Vorcaro, para suas reações serem registradas, numa segunda etapa, sem possibilidade de alterações nas respostas já formalizadas.

Em resumo, o PL acusa a pesquisa de associar Flávio ao escândalo Master, Nunes Marques entende que há “suspeitas de indução ao eleitor” e a AtlasIntel nega “contaminação metodológica”, argumentando, por exemplo, que captou a mesma tendência de queda de Flávio que as demais pesquisas. Logo, dentro da realidade.

Difícil apoiar incisivamente uma das três posições, sem o bom e saudável debate entre os ministros do TSE e os entendidos na área, mas uma coisa é certa: essa guerra de versões e troca de acusações vai ser, ou já é, o forte da campanha. Nem as pesquisas e a mídia passam ou passarão incólumes, com as redes sociais armadas de robôs e fake news até os dentes.


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