segunda-feira, maio 09, 2022

MK-Ultra: o programa secreto da CIA que buscava formas de controle mental




Selo oficial da Agência Central de Inteligência (CIA), de 1974.

Há 45 anos, a Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) foi forçada a publicar documentos que confirmava o que alguns suspeitavam: ela havia financiado experimentos de controle mental, usando descargas elétricas, drogas alucinógenas e outras técnicas terríveis, sem o conhecimento dos cobaias.

Pela natureza dos abusos cometidos, os afetados só começaram a entender o que havia acontecido décadas depois, e o obscuro legado do programa ultrassecreto conhecido como MK-Ultra segue vigente.

Tudo começou no princípio da década de 1950, quando a Guerra Fria estava no apogeu.

Quando alguns americanos prisioneiros de guerra liberados na Coreia voltaram para casa defendendo a causa comunista, a comunidade de inteligência dos EUA se alarmou.

Com medo de que os soviéticos e chineses tivessem desenvolvido técnicas de controle mental, e de que seus agentes ou prisioneiros de guerra pudessem revelar informações, a recém-formada CIA destinou US$ 25 milhões para experimentos psiquiátricos em seres humanos.

"A ideia era tratar de descobrir como interrogar as pessoas e debilitá-las, e também como proteger seu pessoal dessas técnicas", disse à BBC o psiquiatra Harvey M. Weinstein, autor de Father, Son and CIA.

A agência usou organizações de fachada para se aproximar de mais de 80 instituições e pesquisadores nos EUA, Reino Unido e Canadá.

"Foi o programa mais secreto já conduzido pela CIA nos EUA", disse à BBC o autor e historiador Tom Oneill.

"Pacientes em hospitais psiquiátricos, presos em instituições federais e inclusive pessoas do público receberam drogas e foram parte de experimentos sem seu conhecimento ou consentimento".

Teste com ácido

Os projetos iniciais do MK-Ultra incluíram a Operação Midnight Climax.

'As "provas de ácido" deixaram sequelas boas e terríveis'.

"Estabeleceram o que chamavam casas de segurança, onde prostitutas levavam homens a quem, sem adverti-los, davam LSD para que os cientistas da CIA pudessem estudá-los, geralmente atrás de um espelho bidirecional".

Outra prática comum era organizar e observar festas induzidas por LSD com música ao vivo.

Essas festas se chamavam "provas de ácido", e a cultura que surgiu a partir delas teve um papel chave no desenvolvimento dos movimentos hippies e psicodélicos anos depois.

Mas alguns dos experimentos mais nocivos aconteceram no Allan Memorial Institute em Montreal, um hospital psiquiátrico no Canadá, onde as mentes de um número ainda desconhecido de pacientes foram sistematicamente destruídas.

O hospital, conhecido como "o Allan", estava sob a direção do escocês-americano Donald Ewen Cameron, que era considerado um dos psiquiatras mais destacados do mundo.

'Cameron foi presidente da Associação Americana de Psiquiatria (1952-1953 e en 1963), Associação Canadense de Psiquiatria (1958-1959), Sociedade de Psiquiatria Biológica (1965) e Associação Mundial de Psiquiatria (1961-1966)'.

É por isso que Lou, o pai do psiquiatra Harvey Weinstein, quis que ele o tratasse quando começou a sofrer ataques de pânico.

"Aconteceram coisas terríveis, e até que viessem à luz os documentos do MK-Ultra, nunca pude entender a transformação que ele sofreu".

Lou era um homem sociável que gostava de cantar e dirigia um negócio.

Mas saiu do hospital psiquiátrico como uma sombra — com sua vida e família destruídas.

Ele fão foi o único. Centenas de pessoas tiveram o mesmo destino.

"Eu tinha problemas com meus pais", se recorda Lana Ponting, "e decidiram me internar no Allan. Eles não tinham ideia do que acontecia ali."

"Quando minha família voltou para me buscar, eu parecia um zumbi. Nem sabia quem eles eram".

A enfermeira Esther Schrier foi internada no Allan grávida, pois tinha pânico de perder o bebê depois da morte de um filho. Seu tratamento terminou só quando estava a um mês de dar à luz.

Anos depois, recordou em entrevista à BBC como estava perdida.

"Tinha um bebê novo e não sabia o que fazer com ele. Uma babá me ajudava, mas, para que você tenha uma ideia, isto é um pequeno exemplo do que ela me escreveu num caderno antes de tirar um dia de folga: 'Quando escutar o bebê chorando, vá ao quarto. Pegue o bebê'... e explica passo a passo como alimentá-lo. Foi muito aterrorizador".

O doutor Cameron

A CIA havia se aproximado de Cameron três anos depois de lançar o MK-Ultra, através da Sociedade para a Investigação da Ecologia Humana, uma de suas organizações de fachada, por meio da qual canalizavam dinheiro.

Entre janeiro de 1957 e setembro de 1960, a agência entregou ao psiquiatra US$ 60 mil, o equivalente a US$ 600 mil nos dias de hoje.

'A CIA foi fundada em 1947'.

Cameron era conhecido por defender um novo enfoque científico do cérebro, segundo o qual a mente funciona como um computador, que pode ser reprogramada apagando memórias e reconstruindo a psique por completo.

Para isso, tinha que reduzir os pacientes a um estado psicológico infantil, quando os médicos podiam aproveitar a vulnerabilidade cognitiva da pessoa.

Ao começar do zero, era possível reestruturar a mente e plantar ideias na memória de um indivíduo sem que esse se desse conta de que elas não eram originais.

Pacientes que chegavam ao instituto por problemas menores, como transtornos de ansiedade ou depressão pós-parto, eram colocados no "dormitório", onde eram postos em coma induzido por dias ou meses.

Em seguida, eram "desestruturados" por uma terapia eletroconvulsiva com potência e frequência nunca vistas, para que fossem reduzidos a um "estado vegetativo", a partir do qual chegariam a um "estado mental mais saudável", segundo a teoria de Cameron.

'Cameron testou a terapia eletroconvulsiva com potência 30 ou 40 vezes acima da normal'.

"Meu pai recebeu 54 tratamentos de eletrochoque de alta voltagem seguidos por 54 convulsões (perda de consciência e contrações musculares violentas), disse à BBC Lana Sowchuk, cujo pai era "um homem são e atlético de 27 anos", que foi ao hospital para tratar asma.

"Depois de 27 dias de eletrochoques, disseram que estavam desanimados porque ainda tinha vínculos com sua vida anterior, pois seguia pedindo para ver a esposa", relata Julie Tanny, cujo pai também foi posto no programa.

"Decidiram lhe dar mais tratamentos de eletrochoque e colocá-lo para dormir por outros 30 dias".

Sem seu conhecimento ou consentimento, os pacientes foram tratados à força com grandes doses de drogas psicodélicas, como o LSD.

Como parte desse regime de reprogramação, que Cameron chamou de "condução psíquica", obrigavam-nos a escutar mensagens cíclicas com fones de ouvido ou alto-falantes, às vezes instalados dentro do travesseiro do paciente, por até 20 horas ao dia, estivessem dormindo ou acordados.

Algumas mensagens eram negativas ("minha mãe me odeia"), outras davam instruções ("deve se comportar melhor"). As mensagens eram repetidas até meio milhão de vezes por sessão.

O experimento de Cameron também envolveu a privação sensorial extrema — o que era suficiente, segundo o psiquiatra Harvey Weinstein, para provocar psicoses em qualquer pessoa.

"Meu pai estava numa espécie de célula com as mãos cobertas para que não pudesse sentir nada; no escuro, para que não pudesse ver nada; e com um ruído constante, para que não pudesse escutar nada. Basicamente, isolado de toda sensação normal."

Lou Weinstein passou meses nesse estado.

Harvey tinha 12 anos quando Lou entrou pela primeira vez no Allan Memorial Institute. Ainda era um adolescente quando, em 1961, a casa da família teve de ser vendida para pagar contas. Nesse momento terrível, a família continuava acreditando que deveria seguir o conselho dos médicos.

Mas o jovem que logo viraria psiquiatra terminou perdendo o pai.

"Esse homem dinâmico saiu como um vegetal. Tinha uma síndrome cerebral grave. Ficava no sofá, não conseguia se orientar, sua personalidade estava totalmente destruída, e às vezes não sabia onde estava."

Outros pacientes perderam as memórias e detalhes de sua família, ou ficaram com uma amnésia permanente.

Muitos voltaram para casa em um "estado infantil" e precisaram de treinamento para recuperar a continência e capacidade de ir ao banheiro.

Enganados sobre as intenções e métodos do tratamento, os pacientes carregaram sequelas pelo resto de suas vidas.

O programa MK-Ultra perdeu força em 1964, mas só foi interrompido definitivamente em 1973, quando algumas das provas de suas atividades foram apagadas.

"Tudo foi descoberto graças a um jornalista chamado John Marks, que escreveu o primeiro livro (em 1979) sobre o programa, chamado Em busca do candidato de Manchúria: a CIA e o controle mental", diz o historiador Tom Oneill.

'Marks era um jovem jornalista quando obrigou a CIA a entregar as provas'.

Quando Harvey leu uma resenha do livro, sua primeira reação foi de alívio. Finalmente havia uma explicação sobre o que havia acontecido com seu pai.

Mas esse alívio logo se transformou em ira.

"Raiva contra o médico que havia promovido essa ignomínia ao Allan. Raiva contra a CIA por fazer experimentos com pessoas seu seu consentimento. Foi um sentimento de fúria profunda. E sobretudo depois das Leis de Nuremberg de 1946."

Uma das ironias da história é que Cameron havia sido um dos psiquiatras convidados a avaliar os nazistas acusados nos julgamentos de Nuremberg, onde se declarou pela primeira vez o Código de Nuremberg para a ética da investigação com experimentos humanos.

Nos julgamentos Nuremberg, médicos nazistas foram condenados por "realizar experimentos médicos sem o consentimento dos sujeitos".

'Há quem faça paralelos entre os experimentos nazistas e os feitos por Cameron'.

Sem final feliz

Após a revelação, "houve audiências no Congresso dos EUA no meio dos anos 70, e a CIA finalmente admitiu que esse programa existia, que provavelmente não era correto, mas fingiram inocência", conta Oneill.

No entanto, diz o historiador, "a CIA sabia que estava quebrando todas as leis morais, éticas e legais ao fazer esses experimentos".

A maioria dos sobreviventes sofreu em silêncio, levando o trauma para o túmulo.

Mas com a liberação dos documentos, outras vítimas dos experimentos ou seus familiares puderam reconstituir os fatos.

"Me diagnosticaram com esquizofrenia. Descobri isso lendo meu arquivo 20 anos depois", disse à BBC Linda McDonald, que foi internada quando tinha 26 anos e sofria de depressão.

"Me deram todos esses tratamentos de choque eletroconvulsivo e medagoses de drogas e LSD e tudo isso. Não tenho memória de nada disso, nem do tempo no Allan, nem nada da minha vida anterior a isso. Tudo se foi."

'Os afetados estão lutando para serem ouvidos'

Agora, alguns sobreviventes que não receberam desculpas formais nem compensações apresentaram uma demanda coletiva contra as instituições que consideram responsáveis.

"Todos estavam por trás disso. Sabiam o que estavam fazendo. E o faziam por razões militares e políticas", denuncia Sowchuk.

"Sigo tomando medicamentos pelo que me ocorreu quando tinha 16 anos", disse Ponting. "Quero que todos saibam o que ocorreu nesse horrível hospital".

Se os historiadores e sobreviventes expuseram o que se sabe do caso ao mundo, o alcance o impacto do experimento ainda são desconhecidos.

Dada a natureza altamente sensível do programa, dificilmente essas informações virão à luz nos próximos anos. 

BBC Brasil

Mundo não pode desprezar as ameaças nucleares da Rússia - Editorial




Já se vão quase três meses desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, no que imaginava ser uma operação militar de curta duração. Ao contrário da expectativa, ela se transformou num atoleiro para Vladimir Putin. Suas forças enfrentam uma resistência renhida, que aumenta à medida que cresce o apoio material e financeiro do Ocidente. O mundo agora se vê diante da questão até há pouco impensável: Putin arriscaria usar armas nucleares? Teria a audácia de ser o segundo líder mundial, depois do americano Harry Truman em 1945, a lançar a bomba atômica?

O motivo mais evidente para levar a sério a hipótese é que Putin tem cumprido o que diz — e tem citado armas nucleares com frequência preocupante. “Se alguém quiser intervir na Ucrânia e criar uma ameaça estratégica, os ataques serão rápidos como um raio”, afirmou. Coube ao chanceler Sergei Lavrov, em entrevista a um canal de TV, aconselhar a não “subestimar” o risco de uma guerra nuclear. Os russos não ficaram só nas palavras, mas passaram a usar armas de impacto, com a intenção de transmitir recados ao Ocidente.

Outro fator crítico é o balanço da guerra. Os russos fazem questão de enfatizar avanços e conquistas, como a recente — e sangrenta — captura de Mariupol, na costa do Mar de Azov. Mas o quadro que emerge das fontes ocidentais é negativo para a Rússia. De acordo com a inteligência britânica, as forças de Putin perderam cerca de 15 mil soldados, 2 mil blindados e 60 aviões. O poder de combate, segundo essa versão, foi reduzido em 25%.

Os pessimistas consideram que, diante dos reveses, Putin arriscaria usar uma arma nuclear de efeito tático na Ucrânia, como recado aos Estados Unidos e ao Ocidente. Pela doutrina nuclear russa, o país chegaria a uma situação extrema se “um ato de agressão contra a Rússia e seus aliados pusesse em risco sua existência, mesmo sem o uso de armas nucleares”. É um enunciado aberto a várias leituras. A melhor para o mundo e para a própria Rússia é que, como a guerra não põe Moscou em risco, o cenário nuclear está afastado.

A hipótese é corroborada pelas ideias do Nobel de Economia Thomas Schelling (1921-2016), que usou a Teoria dos Jogos para analisar o risco de confronto nuclear entre potências. Num dos cenários, a Teoria do Louco, um dos lados tenta transmitir ao outro a sensação de que realmente esteja disposto a cometer o desvario de lançar a bomba, para alcançar seu objetivo real: obrigar o inimigo a recuar. Tal ameaça só é eficaz se tiver credibilidade. Não se sabe se esse é o jogo de Putin, mas até agora seus passos foram racionais.

Por via das dúvidas, os Estados Unidos já cuidam de ampliar seu orçamento militar, a fim de aumentar o poder de dissuasão. Para 2023, o Pentágono pede dinheiro suficiente para lançar uma nova geração de mísseis intercontinentais (Sentinela), um novo bombardeiro B-21 furtivo, drones e aparelhos tripulados que constituem a Nova Geração de Domínio Aéreo (NGAD). Ainda que a ameaça nuclear de Putin seja bravata, ele já deflagrou uma corrida armamentista de que dificilmente terá condições de participar.

O Globo

OTAN avisa para "maior ofensiva e destruição massiva" por parte da Rússia




O secretário-geral da OTAN disse hoje que a Aliança "não viu nenhuma mudança" na estratégia nuclear de Moscovo, alertando para a necessidade de se estar preparado para "mais destruição massiva" por parte da Rússia na guerra na Ucrânia.

"Devemo-nos preparar para ofensivas russas, mais brutalidade, mais angústia e destruição ainda mais massiva de infraestruturas críticas e áreas residenciais", disse Jens Stoltenberg em entrevista publicada hoje pelo jornal belga "Le Soir".

Ainda assim, acrescentou, "desde o início da guerra na Ucrânia, em 24 de fevereiro, a OTAN não viu nenhuma mudança na estratégia nuclear da Rússia", apesar das ameaças do Presidente russo, Vladimir Putin, de usar tais armas. "É nosso dever reduzir esse risco.

A OTAN é a aliança mais forte do mundo. E a nossa mensagem é clara: após o uso de armas nucleares só haveria perdedores de todos os lados", advertiu o primeiro-ministro norueguês.

O secretário-geral da OTAN salienta que, "infelizmente", esta guerra "poderia durar meses ou mesmo anos". Para "repelir de forma sustentável e bem-sucedida a invasão russa", Kiev precisa "mudar para armas ocidentais modernas", disse. "A Ucrânia precisa urgentemente de mais armas pesadas.

O Ocidente deve intensificar suas entregas, fazer ainda mais e preparar-se para um compromisso de longo prazo. Devemos garantir que a Ucrânia se possa defender. A coragem e bravura dos soldados ucranianos não serão suficientes. Também requer um apoio militar sustentado do Ocidente", defendeu Stoltenberg.

De acordo com o responsável, Putin foi à guerra "porque queria menos OTAN nas suas fronteiras", referindo que o que este conseguiu foi "exatamente o oposto, ou seja, mais OTAN nas suas fronteiras, mais presença da Aliança no flanco leste e possivelmente dois novos membros da OTAN (Suécia e Finlândia).

Se a Suécia e a Finlândia finalmente derem o passo, prosseguiu, "poderão integrar-se rapidamente" na Aliança. Stoltenberg espera que na Cimeira de Madrid, no final de junho, os líderes dos países da OTAN "concordem em reforçar a defesa" da Aliança, argumentando: "Enfrentamos o maior desafio de segurança desta geração", não só pela Rússia, mas por causa do terrorismo, ciberataques e as implicações da política de segurança da ascensão da China.

"Os aliados da OTAN já foram inimigos, mas conseguimos construir instituições como a Aliança e a União Europeia sobre as ruínas da Segunda Guerra Mundial para evitar a guerra", lembrou, coincidindo com a comemoração do fim daquela guerra em 08 de maio de 1945.
 
Rússia destrói quatro aviões e quatro helicópteros ucranianos

(Lusa) As forças armadas da Rússia destruíram quatro aviões, quatro helicópteros, três 'drones' e uma aeronave de transporte ucraniana nas últimas 24 horas perto da ilha Zmiinyi (Cobra) no Mar Negro, disse hoje o Ministério da Defesa russo.

"No decurso da noite, sobre a ilha Zmiinyi, os meios de defesa aérea russos abateram mais dois bombardeiros Su-25 e um helicóptero Mi-24 da Força Aérea Ucraniana, bem como um 'drone' Bayraktar-TB2 nas proximidades da cidade de Odessa", disse o porta-voz do Exército russo, Igor Konashenkov.

O comando militar russo acrescentou que durante o último dia "quatro aviões ucranianos, quatro helicópteros, incluindo três helicópteros de transporte com tropas a bordo, três aviões Bayraktar-TB2 e uma aeronave de transporte foram abatidos nesta zona".

O Ministério da Defesa russo deu a entender que as forças ucranianas tentaram efetuar um desembarque na pequena ilha na tarde de sábado e no início da manhã de hoje. Vários meios de comunicação russos sugeriram que o ataque ucraniano foi uma tentativa de estragar as celebrações do Dia da Vitória sobre a Alemanha Nazi, talvez a mais importante celebração oficial na Rússia.

A ilha, a 143 quilómetros da cidade portuária, foi tomado pela Marinha russa em 24 de fevereiro, no mesmo dia em que a Rússia lançou a sua denominada "operação militar especial" na Ucrânia.

Konashenkov também relatou ataques aéreos russos em outras partes do país, observando que a Força Aérea destruiu o comando de uma brigada motorizada na região de Kharkiv e um centro de comunicações no aeródromo militar de Chernovoglinskoye, na cidade de Artsyz, perto da Moldávia.

Além disso, a Força Aérea afundou uma corveta de classe Tarantul ucraniana nas proximidades de Odessa, de acordo com a classificação da OTAN. A aviação tática e de assalto também atacou 130 alvos militares ucranianos, incluindo três postos de comando, duas baterias de artilharia, dois arsenais e 123 posições fortificadas.

Segundo Konashenkov, 420 militares ucranianos morreram em resultado destes ataques, e 55 peças de equipamento de combate foram destruídas. A artilharia russa atacou 56 postos de comando, 32 baterias de artilharia, 415 postos fortificados e dois sistemas de mísseis antiaéreos S-300 perto da cidade de Korotich, na região de Kharkiv.

RFI / DefesaNet

Guerra na Ucrânia: por que o Dia da Vitória, em 9 de maio, é tão importante para a Rússia




No Dia da Vitória, Putin comemora também a anexação da Crimeia

A data passou a ser muito mais comemorada sob o governo de Vladimir Putin

Por Paul Kirby

Todos os anos, o desfile militar na Praça Vermelha em Moscou, na Rússia, em 9 de maio, comemora a vitória sobre a Alemanha nazista em 1945.

Mas não foi sempre assim: a data era ocasionalmente comemorada com um desfile durante os anos da União Soviética e foi resgatada pelo então presidente Boris Yeltsin em 1995 para comemoração de 50 anos da vitória militar.

Mas foi sob o governo de Vladimir Putin, a partir de 2008, que o desfile passou a ser anual e se tornou uma demonstração de força das tropas e equipamentos militares, além de uma chance de lembrar os sacrifícios da Segunda Guerra Mundial.

Vinte e sete milhões de cidadãos soviéticos morreram, de longe a maior perda de qualquer país, no que os russos chamam de Grande Guerra Patriótica.

Este ano, o evento ganhou um significado diferente. Longe de libertar a Europa, como em 1945, a Rússia travou meses de guerra contra sua vizinha Ucrânia e ainda não conseguiu uma vitória militar real que possa comemorar.

Regimentos que desempenharam um papel fundamental na guerra vão desfilar diante do alto escalão do governo e do presidente, cujo discurso ecoará pela Praça Vermelha e será examinado pelo resto do mundo. O líder da Rússia costuma usar esse momento para enviar mensagens.

O Dia da Vitória hoje faz parte de identidade russa, com livros escolares e livros de história focando na Rússia como libertadora da Europa durante a guerra.

"Mesmo em um ano normal, é uma grande demonstração da força da Rússia, do controle de Putin e tudo o que ele representa", diz o pesquisador Ammon Cheskin, da Universidade de Glasgow. "E neste isso isso está maior ainda."

Rumores de que Putin vai declarar o fim da guerra foram negados, assim como os relatos de que o presidente pretendia anunciar uma declaração completa de guerra ou uma mobilização específica do exército.

Os militares russos não vão ajustar suas ações artificialmente para sincronizar com uma data específica, disse o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov.

Em resposta às perdas da Rússia no campo de batalha, também seria possível que uma mobilização menor, não total, fosse anunciada.

Nas últimas semanas, dezenas de anúncios apareceram em sites de empregos procurando por "especialistas em trabalho de mobilização". Mas um movimento como esse pode afetar a popularidade do presidente, e o dia 9 de maio pode não ser o momento certo para anunciá-lo.

Depois que a Rússia anexou a Crimeia em 2014, Vladimir Putin faz discursos no Dia da Vitória sobre derrotar o fascismo. Em seguida, ele viajou da Praça Vermelha para o porto de Sebastopol, no Mar Negro, para comemorar a vitória na Crimeia diante de milhares de espectadores.

"Este ano, o objetivo principal era anunciar a vitória que deveria ter acontecido em fevereiro", diz Ernest Wyciszkiewicz, pesquisador do Centro para o Diálogo e Entendimento Polonês-Russo.

"Eles estão preparando um golpe de relações públicas para segunda-feira: é importante que os russos vejam que a operação militar especial sobre a qual ouviram falar levou a algo tangível", afirma.

Cidade em ruínas

Em vez de comemorar a derrubada do governo da Ucrânia, o Kremlin terá que se contentar com a captura da maior parte de Mariupol. A cidade pode estar em ruínas, mas a Rússia tem falado repetidamente em "desnazificação e desmilitarização" da Ucrânia e pode reivindicar a derrota do batalhão Azov, um grupo de extrema-direita que a Rússia considera nazista. Isso teria um forte efeito em um dia que marca a Segunda Guerra Mundial.

"Nas cidades e capitais regionais russas podemos ver placas com o símbolo do Dia da Vitória", diz Olga Irisova, cofundadora do grupo de análise Riddle Russia. "Geralmente as placas dizem 9 de maio de 1945, mas este ano elas dizem 1945/2022, então eles estão tentando dar às pessoas a ideia de que mais uma vez estão enfrentando os nazistas."

Em Mariupol não haverá desfile do Dia da Vitória por causa de aparentes ameaças à segurança. O líder da Rússia na região, Denis Pushilin, disse que um desfile terá que esperar até que Mariupol se torne parte de sua chamada República Popular de Donetsk.

No período que antecedeu ao 9 de maio, a cidade recebeu visitas do diretor de TV do Kremlin, Vladimir Solovyov, e de uma delegação do Kremlin liderada pelo vice-chefe de gabinete do presidente, Sergei Kiryenko.

'A data se tornou uma demonstração de força militar a partir de 2008'

Estética militar

O desfile do Dia da Vitória na Praça Vermelha também tem a ver com a estética e com o equipamento militar. É uma chance para o Kremlin mostrar seu armamento mais recente.

Em 2015, foi o tanque Armata T-14 que chamou a atenção, mas ele não está sendo usado na guerra na Ucrânia, porque ainda não está pronto para o combate na linha de frente. A Ucrânia diz que destruiu mais de mil tanques russos menos modernos no campo de batalha.

O desfile terá menos armamento e menos tropas neste ano do que em 2021. Um dos mais novos tanques da Rússia, o T-80BVM, e o novo sistema de mísseis antiaéreos Pantsir-S1 não estarão presentes. Mas ainda haverá cerca de 10 mil soldados e 129 equipamentos militares, de acordo com uma análise do serviço russo da BBC.

A exibição aérea será tão grande quanto antes, com 77 aviões e helicópteros, e a Força Aérea vem ensaiando sobre a Praça Vermelha em forma de Z — o polêmico símbolo adotado pelas forças invasoras na Ucrânia.

Mas não haverá líderes estrangeiros este ano, o que o Kremlin atribui ao fato do 77º aniversário da data não ser um evento significativo em si.

De qualquer forma, a maioria das mensagens em torno do Dia da Vitória é dirigida à população russa, diz Olga Irisova. Ao aproveitar a narrativa de luta contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial, o Kremlin é capaz de despertar fortes sentimentos porque a maioria dos russos têm parentes que morreram ou lutaram na guerra.

Embora os eventos do Dia da Vitória ocorram em diversas cidades da Rússia, nos países vizinhos que também fizeram parte da União Soviética o dia 9 de maio tornou-se cada vez menos significativo.

A Ucrânia teve enormes perdas na Segunda Guerra e uma recente pesquisa de opinião sugeriu que a data deveria ser vista como um dia de lembrança e não de vitória.

Já o Cazaquistão cancelou seu desfile militar pelo terceiro ano consecutivo. E a Letônia declarou a data como um dia de lembrança — para as vítimas da guerra da Rússia na Ucrânia.

BBC Brasil

Quem é Alexander Dugin, que gosta de ser considerado o "Rasputin de Putin"?




Alexander Dugin defende uma Eurásia russa para combater os EUA e um "fascismo revolucionário", ao mesmo tempo que quer "desnazificar a Ucrânia". É ele a voz que sussurra ao ouvido do Presidente russo? 

Por Cátia Bruno 

Longa barba, olhos azuis penetrantes, ar compenetrado. Muitos lhe chamam “O Rasputine de Putin”; e a alcunha deve parte do seu sucesso ao aspeto de Alexander Dugin, que não passa despercebido. Outros elementos contribuem para o epíteto de “conselheiro das sombras”: Dugin é um intelectual cuja ideologia mistura elementos do fascismo, do oculto e do pós-modernismo e já há anos que considera que a Rússia deveria invadir a Ucrânia. Agora, com uma guerra em marcha no país, as suas declarações do passado parecem assumir um caráter profético e lançam a questão: poderá Vladimir Putin estar a dar ouvidos a este homem?

Alexander Dugin é um homem complexo, Charles Clover que o diga. O antigo correspondente do Financial Times em Moscovo conheceu Dugin enquanto preparava o livro Black Wind, White Snow: The Rise of Russia’s New Nationalism (sem edição em português), sobre o nacionalismo russo. A primeira impressão deixou-o baralhado, como descreve na obra: “Dugin podia parecer um filósofo louco, um eremita Dostoievskiano. Mas, na verdade, era um tipo divertido, na moda e fácil de se gostar, bem como um dos intelectuais mais interessantes e com mais leituras que já conheci.”

Seis anos depois, já com maior distância (e fora de Moscovo), Clover mantém a mesma avaliação: “Ele é a pessoa mais interessante para se ter como convidado num jantar”, partilha o jornalista com o Observador. “Tenho de admitir, fui meio encantado pelo feitiço dele. Não que acredite no que ele diz ou que concorde com ele, mas… Já nos anos 90 ele dizia: ‘É por aqui que a Rússia vai’. E foi mesmo.” Uma personagem polémica, mas fascinante, que foi até retratada na obra de ficção Limonov (ed. Sextante), de Emmanuel Carrère, como alguém que “fala 15 línguas, já leu tudo, bebe álcool de um só trago, tem uma risada franca e é uma montanha de conhecimento e charme”.

'Alexander Dugin é filho de uma funcionária do ministério da Saúde soviético e de um engenheiro do KGB'

Na realidade, Dugin falará menos línguas (nove, dizem), mas não há dúvidas das suas capacidades intelectuais. Nem das suas ideias, que desde a década de 1980 até hoje foram incluindo elementos fascistas e tradicionalistas, aproximando-o atualmente de figuras como Stephen Bannon e Olavo de Carvalho (considerados os ideólogos de Trump e Bolsonaro), com quem mantém contacto. Também não há dúvidas do que defende para a Rússia: o país deve liderar um bloco eurasiático conservador, que comande todos os países da sua região, por oposição ao Ocidente liberal.

Não é, contudo, o único a defender ideias semelhantes na Rússia, onde o movimento euroasiático remonta à eslavofilia do século XIX. Mas Dugin é, como aponta Clover, “muito bom a promover-se”. “Ele é muito bom a pegar nas teorias dos outros e a torná-las populares. Dugin conseguiu implementar estas ideias na consciência russa.” Mas será também o responsável por semeá-las na cabeça do Presidente russo?

As ligações a militares e as teorias fascistas da “luta letal” entre Oriente e Ocidente

Alexander Gel’evich Dugin nasceu em São Petersburgo, em 1962, numa família tipicamente soviética: neto da reitora da escola de quadros do Partido Comunista da URSS e de um militar, os pais eram uma funcionária do ministério da Saúde e um engenheiro que trabalhou para o KGB. Produto do sistema, desde cedo se revoltou contra ele, porém. No final da adolescência, já fazia parte de um clube literário proibido, o Yuzhinskiy. Foi aí que conheceu os intelectuais que o inspirariam para a vida toda, como o tradicionalista René Guénon e o fascista Julius Evola. O investigador John B. Dunlop diz que Dugin foi nessa altura detido pelo KGB: há relatos de que terá sido depois expulso do Instituto de Aviação de Moscovo, outros dizem que chegou a terminar os estudos. No final dos anos 80, já durante a perestroika, Dugin juntou-se à organização nacionalista Pamyat, conhecida pelas suas posições claramente anti-semitas.

A União Soviética, porém, não era a sua única inimiga. Com a queda da URSS, Dugin manteve-se ativo na política, mas de outra forma. Juntou-se ao Partido Nacional-Bolchevique, de Eduard Limonov, que aliava a extrema-esquerda à extrema-direita, e concorreu à Duma (Parlamento russo) em 1995, mas obteve menos de 1% dos votos. Mais tarde faria uma segunda tentativa, ao ajudar a criar o Partido Eurásia, em 2002, mas novamente com maus resultados — seria expulso pelo fundador.

'Dugin fez parte do Partido Nacional-Bolchevique, que unia extrema-esquerda e extrema-direita'

Além da política ativa, Dugin procurou outra forma de influência, cultivando relações com figuras de destaque. Começou com os militares da Academia Militar russa, incluindo Igor Rodionov, que viria a tornar-se ministro da Defesa em 1996. Foi também nessa altura que Dugin publicou a sua obra de maior sucesso, Fundamentos da Geopolítica (sem edição em português), onde explica a sua teoria eurasiática. Até hoje, explica Charles Clover, é difícil perceber quem influenciou mais quem: se Dugin criou um ascendente sobre os militares ou se estes moldaram a sua visão. “Ele no livro agradece ao general Nikolai, diz que ele o ajudou muito, mas este nega e ficou muito chateado com isso. Falei com Dugin sobre o assunto e com várias das pessoas que estavam lá nessa altura e ainda hoje não tenho uma resposta clara. Aquilo que é claro é que ele tinha contactos de alto nível à altura”, resume.

As ligações importantes passaram depois da esfera militar para a política. Dugin tornou-se conselheiro do porta-voz da Duma, o comunista Gennady Seleznev, e em 1999 tornou-se o principal conselheiro geopolítico do Conselho da Duma para a Segurança Nacional, com ligações próximas ao nacionalista Vladimir Zhirovskii. Marlene Laruelle, académica que investigou a vida de Dugin, garante que, à altura, o intelectual também tinha uma forte influência sobre Aleksandr Rutskoi, do Partido Social Democrata.

As ideias de Dugin, porém, estiveram sempre bem definidas. Inspirado em Julius Evola, que foi condenado em Itália em 1951 por ter tentado “restabelecer o fascismo”, Dugin afirmou que é necessário aplicar um “fascismo genuíno, verdadeiro e radicalmente revolucionário”. Mais recentemente, tem defendido a aplicação da “Quarta Teoria Política”, que diz que após o fascismo, comunismo e liberalismo, é agora necessário uma quarta ideologia que combine “as teorias sociais e económicas da esquerda com os valores tradicionais”. Economicamente, porém, Dugin também já defendeu em público que é possível aplicar um modelo economicamente liberal, que “coexiste perfeitamente bem com os regimes autoritários mais estritos”.

“Para ele há uma luta letal há séculos, onde a Rússia lidera os poderes terrestres (talassocracias) e os EUA os marítimos (telurocracias), que opõe a civilização tradicionalista e a civilização liberal. E esta luta terminará com uma vitória do Tradicionalismo: a criação de uma nova civilização onde as nações vivem de acordo com as suas tradições, mesmo que sejam tradições não-democráticas. Mesmo que não se foque nos judeus, por exemplo, é uma ideologia fascista, na prática.”

A discrepância pode explicar-se pelo facto de que a economia não é a área que mais interessa a Dugin. Desde que publicou os Fundamentos de Geopolítica, Dugin tem-se dedicado mais a explorar a sua teoria do Euroasianismo. Para o intelectual, o mundo vive num conflito entre o mundo “Atlântico” (Ocidente) e o Oriente e é preciso deitar abaixo a “unipolaridade” liderada pelos EUA e pelo seu modelo liberal, permitindo a existência de uma Eurásia — liderada pela Rússia, é claro — que defende um modelo de civilização mais conservador.

Andreas Umland, investigador do Centro de Estocolmo para os Estudos do Leste Europeu, considera que há, contudo, uma continuidade clara nas ideias de Dugin ao longo dos anos: “Ele atualmente usa uma terminologia diferente [da do fascismo clássico], mas as ideias básicas mantêm-se”, explica ao Observador o académico ucraniano, que investigou a extrema-direita russa e, em particular, Dugin.

“Para ele, há uma luta letal há séculos, em que a Rússia lidera os poderes terrestres (talassocracias) e os EUA os marítimos (telurocracias), que opõe a civilização tradicionalista e a civilização liberal. E esta luta terminará com uma vitória do Tradicionalismo: a criação de uma nova civilização onde as nações vivem de acordo com as suas tradições, mesmo que sejam tradições não-democráticas. Mesmo que não se foque nos judeus, por exemplo, é uma ideologia fascista, na prática”, defende o investigador, por ser uma teoria que defende “que não haja mistura das nações e onde a identidade nacional define as sociedades”.

Uma Euroásia liderada pela Rússia, “da Crimeia a Lisboa”

É também uma ideologia que define o conceito de identidade nacional de forma diferente daquela que as fronteiras atuais desenham. Para Dugin, todos os antigos territórios da União Soviética, com exceção dos Bálticos, devem fazer parte do bloco euroasiático liderado pela Rússia. Foi por isso que, aquando da guerra na Geórgia, em 2008, Dugin foi fotografado com armas no terreno e popularizou o lema “Tanques para Tbilisi!”, capital da Geórgia.

Também a Ucrânia está debaixo do seu olho há muito tempo. Já em 2009, Dugin publicava vídeos no Youtube em que falava na separação da Ucrânia, com o território oriental a ser englobado pela Rússia e deixando apenas algumas regiões mais ocidentais como independentes. Em 2016, Clover escrevia que “Dugin tem estado assustadoramente certo [nas previsões] do conflito na Ucrânia”. E o jornalista ilustra como: “Ele foi o primeiro nacionalista a usar o termo ‘Novorossiya’ [Nova Rússia] para se referir ao leste da Ucrânia, numa entrevista a 3 de março de 2014, muito antes da ocupação de Donetsk e Lugansk ter começado e mês e meio antes de Putin ter usado o mesmo termo. Ele previu que as milícias de Donetsk e Lugansk iam declarar independência semanas antes de o terem feito. Ele acertou em como seria o desenho da bandeira da República de Donetsk — vermelha com a cruz azul de Santo André — dois meses antes de ser feito um concurso para a escolher. E também previu que a Rússia iria colocar tropas no terreno em larga escala, o que aconteceu em agosto.”

'A obra mais conhecida de Dugin é "Fundamentos da Geopolítica", onde defende uma "guerra letal" entre civilizações'

O momento da anexação da Crimeia e o subsequente envolvimento russo em Donbass foi aclamado por Dugin, que o encarou como um momento de viragem em direção ao modelo mundial que defende. “Depois da Crimeia, passámos um ponto de não-retorno”, afirmou. As ações do Kremlin pareciam confirmar aquilo que Dugin defendia há muito: a Rússia deve decidir tomar os Estados pós-soviéticos e “nenhum deles existirá nas suas atuais fronteiras” no futuro; a soberania ucraniana representa “um grave perigo para toda a Eurásia”; e a Revolução da Euromaidan, em 2014, foi “um golpe de Estado liderado pelos Estados Unidos”.

E o seu relacionamento com este tema não se ficou apenas pela escrita e pelas declarações públicas. Em 2015, os EUA decidiram aplicar sanções a Dugin, proibindo-o de entrar no país. Os norte-americanos dizem que o intelectual tem “recrutado ativamente indivíduos com experiência militar e de combate para lutar pelos separatistas apoiados por Moscovo no leste da Ucrânia”.

Agora, com a invasão russa a estender-se para lá de Donbass, as previsões de Dugin parecem assustadoramente reais. “Ele tinha este plano explícito de que não deve existir um Estado ucraniano e que toda a costa do Mar Negro deve ser russa”, ilustra Andreas Umland. Com as tropas russas a tentarem tomar Mariupol e a atacarem Odessa, parece que o objetivo de tomar a costa do Mar Negro já não é exclusivo de Dugin. Charles Clover, por seu turno, volta a sublinhar que há uma interseção grande entre as ideias do próprio Dugin e de alguns setores do exército russo: “A ideia de que a costa norte do Mar Negro deve ser controlada pela Rússia é um imperativo estratégico da Rússia que já se tinha tornado evidente na guerra da Geórgia.”

Subitamente, aquilo que pareciam teorias algo tresloucadas de um intelectual russo sem relevância parecem previsões ponto por ponto das ações que Moscovo acaba por tomar nesta guerra. “Dugin era um filósofo radical e marginal dos anos 80 e 90. Aquilo que aconteceu é que a política russa mainstream se aproximou do terreno ideológico onde ele está. Não foi Dugin que se aproximou do centro, foi o centro que se aproximou de Dugin: do seu nacionalismo radical, das suas teorias de extrema-direita, do trans-eslavismo e euroasianismo, da cristandade ortodoxa.”

A grande questão que se coloca agora é se irá o Kremlin seguir ponto por ponto o plano do ideólogo ou se ficará por aqui. Dugin não se cansa de afirmar que defende um combate ideológico mundial, uma revolução e uma expansão deste novo “império”. A 7 de março de 2014, poucas semanas depois da tomada da Crimeia, o filósofo escreveu um artigo que partilhou numa das suas contas de Facebook, intitulado “Da Crimeia a Lisboa”: “Não vamos limitar-nos a anexar a Crimeia. Isso é certo. Ontem, a reunificação com a Crimeia foi uma vitória para nós. Hoje, é já uma coisa infinitamente pequena”, escreveu.

Se há oito anos não parecia haver qualquer sinal de que o Kremlin partilhasse de tal visão de conquista do mundo, hoje a situação é diferente. O antigo Presidente Dmitry Medvedev escreveu não há muito tempo que tinha chegado a altura de “construir uma Eurásia de Lisboa a Vladivostok”. Pode Vladimir Putin estar a considerar avançar de alguma forma nas suas ambições territoriais para lá da Ucrânia, como Dugin gostaria? “Essa é a pergunta para um milhão de dólares”, responde Umland.

Os elogios a Trump e os encontros com a extrema-direita europeia

Com alinhamento total ou não nesta matéria, certo é que Dugin também defende um envolvimento na política ocidental para provocar o seu enfraquecimento que faz lembrar algumas das táticas de desinformação do Kremlin. O ideólogo considera há muito que a União Europeia e a NATO são ameaças à Rússia, razão pela qual celebrou eventos como o Brexit e a eleição de Donald Trump — “Ele é a América crua, sem brilho e sem a elite globalista. Ele às vezes é nojento e violento, mas é o que é. É a verdadeira América”, disse sobre o ex-Presidente norte-americano.

Dugin é bastante popular nalguns dos círculos mais radicais da extrema-direita norte-americana — a mulher do supremacista branco Richard Spencer chegou mesmo a traduzir algumas das suas obras — e elogia amplamente Steve Bannon, com quem já chegou a encontrar-se em Roma. “Ele partilha comigo a necessidade de apoiar movimentos populistas na Europa para confrontar as elites globais. É um caso muito interessante e único nos EUA”, disse Dugin.

Esse apoio aos partidos anti-sistema na Europa é claro e Dugin participa ativamente nele. Com a ajuda do empresário Konstantin Malofeev, Dugin tem promovido encontros com uma série de políticos europeus de extrema-direita, como o italiano Matteo Salvini (Lega), representantes do FPÖ austríaco, a União Nacional de Marine Le Pen e os líderes da alemã AfD.

Mas Dugin não se limita a olhar para o território europeu. Em 2011, participou num debate com Olavo de Carvalho, homem visto como o ideólogo de Jair Bolsonaro. Desde então, criou um estudo de centros em São Paulo e manteve o interesse no Brasil. “É um admirador da Música Popular Brasileira, da bossa nova e da literatura brasileira”, pode ler-se num artigo da Folha de S. Paulo, onde é possível ver uma fotografia sua a beber chimarrão, uma bebida brasileira de erva-mate.

“Ele adora esta ideia de ser visto como alguém que está a trabalhar nas sombras”

A influência de Dugin na política americana, brasileira e europeia é, porém, reduzida. O mesmo já não se pode dizer do que se passa na Rússia, onde ideias como as de Dugin passaram de marginais a populares em poucos anos. Isso mesmo resume Charles Clover na conversa com o Observador: “Sempre se assumiu que o Kremlin [de Putin] era pragmático, mais interessado no comércio e na economia, e que de vez em quando dizia umas coisas sobre Estaline ou o império que eram mais para ganhar eleições e manter-se popular”, aponta. “Esse pragmatismo mudou radicalmente nos últimos dez anos, desde que Putin regressou ao poder em 2012. O seu pragmatismo deixou de ser focado na percentagem do PIB e mais em quantos quilómetros quadrados consegue controlar.”

A adoção de ideias do nacionalismo radical de Dugin por parte do Kremlin não significa, porém, que o ideólogo seja o verdadeiro Rasputine por trás do trono de Putin. É pelo menos essa a convicção dos especialistas ouvidos pelo Observador. “É mais uma ligação indireta. Ele fala de ideias, termos, planos e agendas antes dos outros. E alguns são aplicados”, afirma Andreas Umland. Para o académico, apesar de muitas ideias de Dugin e do Kremlin se sobreporem, não se pode falar numa correspondência exata. “A ideologia oficial do Kremlin é muito eclética. E mesmo quando fala de Eurásia, tem uma conotação diferente. Dugin quer um novo mundo, é um fascista. Putin é mais um conservador, quer restaurar um antigo império.”

O próprio Dugin afirma publicamente que não conhece pessoalmente o Presidente russo, mas não nega que tem ligações a elementos do Kremlin e que considera que as suas ideias influenciam Putin. “Ele não é uma pessoa ideológica — é um realista pragmático —, mas entende que a minha visão é a certa para a Rússia conseguir enfrentar os desafios dos próximos anos”, diz.

Charles Clover concorda que há laços a Dugin, mas duvida da ideia de que o filósofo possa estar a sussurrar diretamente ao ouvido do Presidente. “Ele tem alguns contactos no Kremlin e até de pessoas do círculo próximo de Putin, como Vladimir Yakunin. E é possível que, desde que escrevi o meu livro em 2016, ele tenha conseguido mais influência. Mas tenho dificuldade em imaginar Putin a ler algo escrito por Dugin, sequer.” O jornalista recorda o homem que conheceu e diz não ter dúvidas de que o próprio Dugin adora a ideia de ser descrito como “Rasputine de Putin”, mas que tal não corresponde à verdade: “Ele não é o cérebro. Mas tem uma capacidade invulgar de ler a Rússia e creio que isso também tem a ver com as relações importantes que estabelece.”

Ao longo do tempo, Dugin tem mantido a sua relevância ajustando a mensagem. Marlene Laruelle aponta que Dugin sempre manteve coerência nas suas ideias, mas tem sido capaz de alterar o seu “status público” e passou de “intelectual marginal” a “personalidade política próxima dos círculos do poder”. Andreas Umland concorda. “Ele adora esta ideia de ser visto como alguém que está a trabalhar nas sombras”, diz, porque isso também lhe dá notoriedade. “Ele esteve nos EUA, encontrou-se com o Francis Fukuyama… Odeia a ideia de ser marginalizado e quer ser aceite no mundo académico. Daí também toda aquela imagem, com a longa barba. Ele é um bom orador, lê muito, mas não é um pensador assim tão original e esta é a forma de se destacar.”

Com a guerra da Ucrânia a decorrer, Dugin pode conseguir a verdadeira influência que tanto deseja sobre Vladimir Putin? Umland destaca como a “congruência óbvia entre as suas ideias e a do Kremlin” pode continuar a acentuar-se e a ajudar a tornar as suas ideias mais mainstream. Porém, o académico aponta que há ideias no passado do intelectual que o prejudicam nesse intento, como os vários elogios no passado a membros e divisões das SS nazis — não por acaso, Carrère imaginou no seu livro que Limonov tratava Dugin pela alcunha de “Dr. Goebbels”. “Há uma bagagem ideológica da qual ele não se consegue livrar tão facilmente e que é um problema para o Kremlin. Se não fosse isso, talvez ele até já estivesse numa posição muito mais próxima oficialmente do poder do que está agora”, reflete Umland.

Perante uma Rússia que justifica a sua intervenção na Ucrânia com uma “desnazificação”, é difícil ter como rosto um homem que chegou a concorrer a eleições por um partido que tinha uma foice e o martelo estilizados como a suástica na bandeira nazi (o Nacional-Bolchevique). Talvez não seja por acaso que Dugin tem multiplicado as publicações nas suas redes sociais onde elogia a “operação militar especial na Ucrânia” e afirma que “o nazismo é parte do rumo político da Ucrânia moderna” e tem de ser eliminado.

Mas o que é a verdadeira “desnazificação” para um homem que já elogiou as SS? “O estabelecimento de outra ideologia que não se baseie no princípio anti-Rússia”, esclareceu Dugin numa entrevista recente. O objetivo principal de Alexander Dugin é sempre o da revolução, de um novo mundo onde a Rússia é uma potência pura e não manchada pelo liberalismo do Ocidente.

Há alguns dias, o ideólogo descreveu as sanções do Ocidente como “um Leviatã furioso” que está a retirar à Rússia “Twitter, TikTok, Facebook, YouTube, marcas e resorts, gasodutos e sistemas de pagamentos”. Mas não lamentou: “Esta é uma nova e fundamental ronda da História russa, que nos livra de décadas de estagnação e nos coloca no caminho do nosso destino original.” Não é certo se Vladimir Putin concorda, mas o mais certo é ter ouvido falar disso.

Observador (PT)

Dois policiais militares são mortos em Cajazeiras no retorno do velório de colega

 Segunda, 09 de Maio de 2022 - 06:40

Dois policiais militares são mortos em Cajazeiras no retorno do velório de colega
Foto: Reprodução / Bahia 190

Dois policiais militares da 3ªCIPM foram mortos a tiros, na noite de domingo (8), na localidade conhecida como Invasão da Independência, na região de Cajazeiras, em Salvador. Os militares voltavam do velório do colega, soldado Meneses, morto um dia antes em Águas Claras (veja aqui).

 

As vítimas foram identificadas como, soldados Vieira Cruz e Shanderson.  De acordo com informações iniciais, os agentes não estavam em serviço. As circunstâncias do crime ainda não foram divulgadas. Os policiais chegaram a receber os primeiros socorros ainda no local por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e depois encaminhados para o Hospital Municipal, mas não resistiram.

 

Após as mortes, a PM iniciou buscas para tentar identificar e prender os cirminosos. Na manhã desta segunda-feira (9) um helicóptero do Grupamento Aéreo (Graer) auxilia na procura e faz rondas na região. Ainda não há informações de prisões.  

Bahia Notícias

PL pressiona Lira a retirar opositor de Bolsonaro da vice-presidência da Câmara

por Danielle Brant e Marcelo Rocha | Folhapress

PL pressiona Lira a retirar opositor de Bolsonaro da vice-presidência da Câmara
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A oposição de Marcelo Ramos (PSD-AM) ao governo de Jair Bolsonaro levou o PL, partido do presidente, a pressionar Arthur Lira (PP-AL) a retirar o amazonense da vice-presidência da Câmara e tentar emplacar um deputado da legenda no posto.
 

Ramos era do PL quando foi eleito para o cargo, mas migrou para o PSD após a filiação de Jair Bolsonaro. Para barrar a manobra, ele recorreu ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
 

No dia 29, o ministro Alexandre de Moraes concedeu uma liminar ao deputado e oficiou o presidente da Câmara a se abster de acatar qualquer deliberação do PL que implique o afastamento ou substituição do deputado do Amazonas da Mesa Diretora. O partido ainda pode recorrer.
 

A substituição de Ramos seria um ato inusual. Representaria, ainda, uma reviravolta nas regras adotadas atualmente pela Casa Legislativa.
 

A pressão do PL tem como base dispositivo do regimento da Câmara que prevê que o integrante da Mesa que trocar de partido perderá automaticamente o cargo. Ocorre que uma decisão da própria Câmara, em 2016, flexibilizou a regra e permitiu a troca para partidos do mesmo bloco, o que livraria Ramos.
 

Deputado federal de primeiro mandato, Marcelo Ramos, à época no PL, foi eleito vice-presidente da Câmara em fevereiro de 2021 com o voto de 396 colegas, na mesma chapa em que Arthur Lira se tornou presidente da Casa.
 

Ao longo de 2021, com o agravamento da crise sanitária de Covid-19 e a fraca atuação de Bolsonaro no enfrentamento da pandemia, Ramos se consolidou como voz crítica ao governo. Quando o presidente sinalizou que pretendia migrar para o PL, o vice-presidente da Câmara disse ter virado alvo de críticas e perseguições.
 

A ida de Bolsonaro para o partido de Valdemar Costa Neto em novembro de 2021 fez com que Ramos migrasse para o PSD de Gilberto Kassab —a mudança foi oficializada em fevereiro deste ano.
 

Em sua ação de justificação de desfiliação partidária junto ao TSE, Ramos foi amparado por uma carta de anuência do presidente do PL. O documento diz que a permanência do amazonense no quadro de filiados "causaria indiscutivelmente constrangimentos de natureza política para ambas as partes" e que, por isso, a legenda concordou com a desfiliação.
 

Ramos seguiu com suas críticas ao governo e se tornou mais vocal após Bolsonaro editar decretos que reduzem o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e afetam a zona franca de Manaus —na sexta (6), Alexandre de Moraes suspendeu a redução em ação no STF.
 

A decisão de Ramos de entrar com o pedido de liminar ocorreu após entrevistas de Coronel Menezes, aliado de Bolsonaro no Amazonas e pré-candidato ao Senado, em que disse que o partido queria tirar o parlamentar do cargo de vice-presidente da Câmara.
 

Na ação declaratória com pedido de liminar, Ramos faz menção à pressão do PL e requereu que o partido "se abstenha de influenciá-lo ou coagi-lo, diretamente ou indiretamente, no exercício de sua função de vice-presidente da Câmara dos Deputados."
 

O deputado no documento indicou que, "a partir de reunião com os líderes dos partidos da base de governo, foi registrada a manifestação do Partido Liberal, por pressão do presidente da República, de solicitar o cargo da Mesa", o que seria "uma tentativa, por parte da Presidência da República, de interferir nos trabalhos da Câmara dos Deputados e, de certa forma, na própria separação dos Poderes".
 

Moraes, em sua decisão, afirmou que Marcelo Ramos detém autorização judicial para o exercício pleno do mandato de deputado.
 

Além disso, continua o ministro, ele não está submetido ao estatuto do PL que, segundo a Lei dos Partidos Políticos, poderia, ainda que em tese, estabelecer normas sobre "perda de todas as prerrogativas, cargos e funções que exerça em decorrência da representação e da proporção partidária, na respectiva Casa Legislativa, ao parlamentar que se opuser, pela atitude ou pelo voto, às diretrizes legitimamente estabelecidas pelos órgãos partidários".
 

Por isso, afirmou Moraes, o PL não pode ameaçar, impedir, influenciar ou coagir Ramos na Câmara, em especial em razão da carta de anuência de Valdemar Costa Neto.
 

Procurado, Ramos disse que não iria se manifestar. O PL também não se pronunciou sobre a decisão de Moraes. Já Lira irá se manifestar nos autos do processo. ?
 

O regimento interno da Câmara determina que, em caso de mudança de legenda partidária, o integrante da Mesa Diretora perde automaticamente o cargo que ocupa e a vaga é preenchida após nova eleição.
 

Em 2016, no entanto, o então presidente da Câmara Eduardo Cunha (PTB-SP, na época MDB-RJ), em resposta a um questionamento sobre o tema, decidiu que o termo "legenda partidária" poderia ser interpretado de modo amplo como "partido ou bloco parlamentar".
 

Ou seja, uma mudança de partido dentro de um mesmo bloco parlamentar não alteraria a representação proporcional da Mesa Diretora. Como o PSD fazia parte do bloco de Lira, Ramos não pode ser afetado pela regra regimental, a não ser que Lira adote novo entendimento, derrubando a decisão de Cunha de 2016.
 

Caso reveja esse entendimento, Lira arrisca comprar uma briga com o PSD, que costuma votar alinhado com o governo. Especialmente porque outros dois membros da Mesa, Marília Arraes (PE) e Rose Modesto (MS), trocaram de partido na janela partidária —Marília, segunda secretária, deixou o PT pelo Solidariedade, e Rose, terceira secretária, saiu do PSDB para a União Brasil.

Bahia Notícias

João Leão fora da chapa de ACM Neto abre flanco para atacar governo

por Fernando Duarte

João Leão fora da chapa de ACM Neto abre flanco para atacar governo
Foto: Elias Dantas/ Ag. Haack/ Bahia Notícias

A substituição de João Leão por seu filho, Cacá, na disputa pelo Senado abre um flanco inexplorado até aqui na campanha eleitoral de 2022 da Bahia. Na condição de vice-governador, o chefe da alcateia laurofreitense está agora na condição de potencial atirador e bem mais distante da condição de alvo, ainda que mantenha o nome nas urnas, agora como candidato a deputado federal. E, como parte do governo por mais de 14 anos, tem potencial explosivo a cada ameaça mais severa ao próprio filho e ao grupo político a que pertence agora.

 

Na última sexta-feira (6), após vir a público o pedido negado de busca e apreensão contra si, João Leão foi incisivo ao sugerir que gostaria de falar na eventual Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a aquisição de respiradores pelo Consórcio Nordeste, ainda na gaveta da Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA). O requerimento da oposição dificilmente vai prosperar, por razões que vão desde o caráter eleitoreiro aos interesses privados nas respectivas reeleições dos deputados. Porém a ameaça leonina não foi em vão. Foi um recado.

 

O vice conhece a coxia da governadoria. Estava um pouco mais abaixo no prédio. Mesmo que não seja do feitio dele pressionar os antigos aliados, Leão tem méritos para ser respeitado pela fidelidade que apresentou ao longo do período em que esteve lado a lado com o petismo baiano. Tanto que, por mais que tenha dado uma guinada para o grupo de ACM Neto, não houve um ataque muito incisivo por parte dos mui amigos de outrora. Especialmente, daquele a quem o próprio vice responsabilizou pelo rompimento, o senador Jaques Wagner.

 

O ex-governador não tem o perfil de “cutucar onça com vara curta”. No caso, seria Leão, mas a aplicação mantém o sentido. Por mais que ele tenha vocalizado a exclusão do vice de qualquer decisão sobre a chapa majoritária da sucessão de Rui Costa, a definição de colocá-lo de lado não coube exclusivamente a Wagner. Foi um entendimento que passou, principalmente, pela solução para o problema gestado pelo movimento de Rui de “bagunçar” o processo político – leia-se tentar ser candidato ao Senado, emprenhar uma candidatura de Otto Alencar ao governo sem combinar com o próprio senador e, por fim, ter que criar a candidatura de Jerônimo Rodrigues. Político na essência da palavra, Wagner recolheu-se por saber que falar demais poderia gerar ainda mais traumas.

 

Se o profissionalismo político de Wagner, Leão e até mesmo de Otto impera nesse “conselho de anciões”, o ônus de atacar o vice e os adversários tem cabido a Rui e à trupe do entorno de Jerônimo. Tanto que, até o dia 31 de dezembro, a chance do governador se licenciar é nula e parece ter sido habilmente construída como uma vingança para o amadorismo rascunhado nesse processo. Por isso, o flanco aberto por Leão longe da chapa majoritária de ACM Neto é relevante. Agora, o vice parece estar a rir com as hienas. E com liberdade para atacar se necessário.

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