terça-feira, abril 05, 2022

O xadrez político da campanha presidencial das eleições de 2022

 



Bolsonaro (PL) sai fortalecido com a exoneração de ministros para aumentar sua base de apoio nos estados. 

Com o fim da janela partidária, política brasileira teve dias intensos envolvendo pré-candidatos ao Palácio do Planalto

Por Tainá Andrade e Victor Correia

Doria (PSDB) foi bem-sucedido em sua manobra para conquistar os holofotes, porém ainda luta com a falta de apoio em seu próprio partido. Recém-filiado, Moro (União Brasil) causou uma crise na legenda e quase foi impugnado, mas o partido desistiu de expulsá-lo no sábado. De qualquer forma, ele não deve mais concorrer ao Planalto. Já Lula (PT) atua nos bastidores, costurando acordos entre partidos de esquerda e preparando seu plano de governo e o lançamento oficial da pré-candidatura.

Para analistas políticos, a terceira via sai enfraquecida da semana e a expectativa é que a corrida presidencial permaneça polarizada entre os líderes Lula e Bolsonaro. O cientista político Nauê Bernardo considera que, de forma geral, a terceira via saiu prejudicada na semana passada.

“Mostra que há um completo descompasso na tomada de decisões. Falta certeza e, no contexto que a gente vive, o eleitor  precisa de certeza. Sem isso, você não tem como avaliar o que aquela pessoa pode oferecer para resolver os problemas da população brasileira”, avalia.

Bolsonaro viabiliza palanques

O atual ocupante do Planalto exonerou na última quinta-feira nove dos seus ministros e dois secretários para que eles possam concorrer nas eleições e atuar na formação de palanques em seus estados. Entre eles estão Damares Alves, que deve concorrer ao Senado; Tarcísio de Freitas, que disputa o governo de São Paulo; e João Roma, que deve concorrer ao governo da Bahia.

Para o cientista político Nauê Bernardo, a movimentação foi bastante estratégica e fortalece a candidatura de Bolsonaro. “Isso demonstra essa intenção e esses arranjos estratégicos que precisam ser feitos para viabilizar uma candidatura competitiva”, disse. Bolsonaro vem crescendo nas últimas pesquisas eleitorais e se aproximando do líder, Lula.

Caso Moro saia da corrida presidencial, parte considerável dos votos do ex-juiz devem ir para Bolsonaro. “Enxergo de forma muito clara que há ali um desejo competitivo, com arranjos que podem garantir ao presidente condições de competir no Brasil inteiro, reconhecendo a força do adversário”, analisa Nauê.

Lula nos bastidores

Por enquanto, Lula atua de forma mais intensa nos bastidores. O PT mantém um olhar atento para o fortalecimento de Bolsonaro, mas fontes próximas ao partido garantem que isso já era esperado.

O ex-presidente costura alianças com partidos de esquerda e de centro para fortalecer seus palanques. A federação já está fechada com o PCdoB e o PV. Além disso, há conversas não-oficiais entre Lula e Gilberto Kassab, presidente do PSD. Dentro do partido, a aposta é que Lula reverterá o crescimento de Bolsonaro assim que for para as ruas.

Enquanto isso, o ex-presidente participa de eventos com seus apoiadores. Na última terça (29) ele se reuniu com representantes da Federação Única dos Petroleiros (FUP), e defendeu o fim da política de preços da Petrobras bem em meio à troca na presidência da estatal.

No dia seguinte, ele participou de um ato com lideranças de esquerda na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Moro não deve concorrer

O ex-juiz Sergio Moro quase foi expulso do União Brasil. Para se filiar, o acordo era que Moro deveria deixar de concorrer ao Planalto e buscar algum cargo no Legislativo por São Paulo.

Na quinta, Moro divulgou nota oficial sobre sua troca de partido, afirmando a desistência de concorrer à Presidência. No dia seguinte, porém, ele disse em pronunciamento pelas redes sociais que “não havia desistido de nada”, e que não concorrerá como deputado federal.

Pouco tempo após o pronunciamento, oito membros da cúpula do União Brasil, encabeçados por ACM Neto, anunciaram que entrariam com um pedido de impugnação contra Moro, já que ele havia quebrado o acordo que precedeu sua entrada no partido.

“A nossa posição não é nada pessoal. Todo mundo reconhece o valor do ex-ministro. A questão é que não tem nenhum acordo para ele concorrer à presidência”, disse a deputada Professora Dorinha, uma das parlamentares que endossam a saída de Moro. No sábado, porém, o União Brasil afirmou ter desistido de expulsar Moro, mas frisou em nota assinada por dirigentes da legenda – incluindo ACM Neto – que o papel do ex-juiz é em São Paulo.

Edurdo Leite e Simone Tebet?

Apesar da manobra realizada por João Doria na semana passada, considerada bem-sucedida por analistas políticos, uma ala considerável do PSDB continua defendendo a candidatura de Eduardo Leite. Ele é tido como uma opção melhor para uma candidatura única da terceira via, articulada pelo União Brasil, MDB, PSDB e Cidadania.

Nos bastidores ouvidos pelo Correio/Estado de Minas, há a crença de que Doria não sairá da corrida eleitoral como se estivesse desistindo. A estratégia da ala pró-Leite é segurar ele até junho para que desidrate e fique evidente que não deslanchará. 

“(O Doria) causou muita colisão para ser escolhido candidato, mas antes disso para concorrer ao governo de São Paulo. Ele tem alguns rachas, como com o grupo do Aécio, e está isolado mesmo tendo vencido a previa”, analisa o cientista político André Rosa. 

Na sexta, em evento de filiação de Rodrigo Maia (RS) no PSDB, o presidente nacional do partido, Bruno Araújo, deixou claro que há oposição interna a Doria na sigla e ele se manterá na disputa ao Palácio do Planalto se articular com os demais partidos envolvidos na decisão de um nome.

Por outro lado, Araújo também deixou claro que não haverá coibição para as movimentações de Eduardo Leite para se tornar pré-candidato à presidência, oferecendo sustentação para as especulações de uma eventual chapa entre Leite, como cabeça de chapa, e Simone Tebet (MDB) como vice. Oficialmente, isso não é considerado. Os demais partidos da coligação negociam a candidatura única sem se envolver na disputa interna do PSDB. Tebet disse que “é preciso reconhecer a legitimidade” de Doria e que trabalham com esse cenário.

Estadão / Estado de Minas

Fora de hora e lugar - Editorial




Projeto que altera lei antiterror carece de justificativa e desperta preocupação

Ao propor que o Congresso Nacional atualize a Lei Antiterrorismo, de 2016, Jair Bolsonaro (PL) reacende preocupações que já se faziam presentes na aprovação desse diploma legal, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

O projeto enviado por Bolsonaro ao Congresso acrescenta na definição de terrorismo "ações violentas com fins políticos ou ideológicos".

Para a lei em vigor são atos de "xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública".

O problema, mais uma vez, está na amplitude do conceito, que no limite pode dar margem a criminalizar protestos sociais —ainda que o texto explicite não atingir manifestações reivindicatórias "de caráter pacífico". A esse respeito, atos violentos já são punidos pelos dispositivos penais existentes.

Já causa estranheza a iniciativa de alterar legislação tão recente, versando sobre tema que está longe de figurar entre as maiores preocupações nacionais. Mais ainda em se tratando de Bolsonaro em um ano eleitoral —governantes de índole autoritária ao redor do mundo fazem uso de legislações antiterrorismo para fortalecer a perseguição a oponentes políticos.

Os questionamentos à legislação antiterror datam dos debates no governo Dilma. À época, o projeto apresentado pelo Executivo, impulsionado por temores relacionados aos Jogos Olímpicos de 2016, já era desequilibrado.

Havia nele problemas como definições vagas ("atentar gravemente contra as instituições democráticas", por exemplo) e a possibilidade de punição por delitos de opinião, entre outros. O texto, felizmente, foi aperfeiçoado durante a tramitação no Congresso Nacional.

Um alargamento das definições legais eleva o risco de interpretações equivocadas por quem por ofício deve aplicar tais regras, como juízes e promotores.

Mesmo que o Brasil tenha, corretamente, assumido compromissos internacionais de combate ao terrorismo, há que tomar máximo cuidado para não estabelecer normas que deem margem ao arbítrio.

O Congresso tem a missão de analisar com prudência a proposta do Executivo —ou, preferencialmente, pode deixar o tema de lado. Não se vê nenhuma evidência de que o país precise de uma legislação diferente para tal finalidade.

Folha de São Paulo

Ditadores marqueteiros

 



A autocracia informacional de Putin na encruzilhada

Por Marcus André Melo* (foto)

Daniel Treisman caracterizou a Rússia como uma Autocracia Informacional em The new autocracy: information, and policy in Putin’s Russia (2018). O controle da informação e a manipulação da opinião pública através de fake news cumprem naquele país o papel da repressão brutal em autocracias tradicionais. Na Rússia, é "melhor mentir que matar", afirma, em seu novo livro Spin Dictators, "ditadores marqueteiros", em tradução livre, coautorado com Sergei Guriev.

Para Treisman, a invasão da Ucrânia é parte integral da forte reação ao colapso do processo vertiginoso de modernização a que o país assistiu, entre 1999 e 2010, e que coincidiu com o boom de commodities.

Entre 1999 e 2011, o PIB per capita quase dobrou: foi de U$13 mil para U$24 mil. A taxa de crescimento anual do valor real de salários e aposentadorias cresceu a extraordinários 11%. Tudo isso após dois governos de Putin, que se torna muito popular.

Esta mudança, argumenta, afetou também valores e normas. A percentagem de pessoas que preferiam um sistema político democrático passou de 45% para 64%, entre 1995 e 2006, alcançando mais de 2/3 da população (68%) em 2011. O apoio à "democracia no estilo ocidental" subiu de 15% para 30%. 60% da população via positivamente os EUA e 70% a União Europeia.

Mas o boom chegou ao fim e os ganhos de bem-estar despencaram. A popularidade de Putin idem. Como resposta o governo montou uma "máquina informacional". A legitimidade produzida pela prosperidade foi substituída por orgulho nacional, valores tradicionais e novas ameaças externas, alimentadas pela máquina.

"A classe média na Rússia são todos que viajam. Agora não há mais classe média." A metáfora instigante é de Adam Przeworski, para captar a insatisfação doméstica generalizada na Rússia após as sanções. Mas não só: famílias perdem membros na guerra ou temem fazê-lo. Oligarcas sofrem perdas patrimoniais e de acesso a suas redes fora da Rússia.

Privação econômica generalizada combinada com conflitos no interior da elite que controla o poder, argumenta, são preditores importantes de processos de mudança de regime, que pode malograr ou não.

O diagnóstico é otimista. Ele se torna mais verossímil na medida em que o conflito se estende no tempo.

Ao contrário das expectativas iniciais, a invasão não foi fácil nem tampouco produziu queda de governo em Kiev. No início da invasão, Gehlbach previa —em caso de guerra difícil— o recrudescimento da censura e da propaganda; seguida de intensificação da repressão, o que estamos observando.

Sim, a atual generalização da repressão pode ter consequências não antecipadas, inclusive o próprio fim do regime.

*Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA).

Folha de São Paulo

É preciso conter ameaça à globalização trazida pela agressão russa à Ucrânia - Editorial




Primeiro, foi a pandemia da Covid-19 a travar a economia global, com a interrupção nas cadeias de suprimento que até hoje causa dificuldades no setor automobilístico e numa infinidade de outros segmentos da indústria dependentes de componentes eletrônicos produzidos na Ásia. Neste ano, a invasão da Ucrânia pela Rússia adiciona riscos geopolíticos à globalização, enquanto traz a ameaça de retrocesso nacionalista na economia e na política.

Prepara-se o terreno para a defesa de projetos protecionistas como o que vigorou no Brasil durante o programa de substituição de importações de insumos básicos (celulose, fertilizantes, produtos químicos, entre outros), máquinas e equipamentos do governo Geisel. O II Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico (PND) elevou barreiras tarifárias para que empresários nacionais produzissem internamente bens que eram importados, apoiados em fartas linhas de crédito abertas no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE) e subsidiadas pelo Tesouro Nacional.

O rompimento nas cadeias globais de suprimento pode estimular o relançamento de planos como esse, cujo desfecho é o retardamento da modernização industrial e tecnológica. A reserva de mercado e o dinheiro público farto não foram capazes de dar competitividade às empresas protegidas da competição externa. Nas décadas seguintes, o Brasil tentava reinventar a roda com um computador verde e amarelo, enquanto nos Estados Unidos Bill Gates (Microsoft) e Steve Jobs (Apple) reinventavam o computador.

Depois de resgatar da penúria centenas de milhões de pessoas — segundo o Banco Mundial, entre 1990 e 2015, em menos de uma geração, 1,1 bilhão de pessoas saíram da pobreza —, nunca a globalização e a liberdade comercial estiveram tão ameaçadas.

É possível admitir, como faz a revista britânica The Economist, a necessidade do redesenho de cadeias de suprimento para evitar a dependência de autocracias. Mas é fundamental não cair na armadilha da autossuficiência — lição que, espera-se, o Brasil deveria ter aprendido. Não é tarefa simples.

Considerando que um terço das importações dos países democráticos vem de ditaduras e um terço dos investimentos multinacionais feitos em autocracias são de democracias, é provável que canais comerciais sejam mantidos por interesses mútuos incontornáveis.

A ação militar de Putin trouxe de volta uma atmosfera de Guerra Fria. Ele procura colocar o Oriente contra o Ocidente, enquanto a China, outro país autoritário, caminha para ultrapassar os Estados Unidos como maior economia do mundo. Para isso, porém, depende de um amplo e livre comércio para continuar a crescer a taxas elevadas. As fortes sanções contra a Rússia estão sendo didáticas para o chinês Xi Jinping. Com a globalização nas cordas, ele sabe que é preciso manter mentes e fronteiras abertas, apesar de tudo.

O Globo

Putin está nos matando

 



Em 2018, fui à Rússia com a equipe da editoria de Esportes do Globo. Adoro futebol, mas para conversar. Minha tarefa era escrever sobre a atmosfera. Levei uma dezena de livros.

Por Fernando Gabeira (foto)

O mais importante deles para mim foi o belo trabalho de Orlando Figes sobre a história da cultura russa. Existe em inglês sob o título “Natasha’s dance”. Uma boa parte dos livros era sobre política, sobretudo oposição a Putin. Um deles me levou à releitura, nestes tempos de invasão da Ucrânia. Chama-se “A invenção da Rússia — A ascensão de Putin e a época das fake news”. Seu autor, Arkady Ostrovsky, ganhou o Prêmio Orwell pelo trabalho.

Interessante como quase tudo estava lá. A Crimeia já havia sido anexada, e Putin não estava disposto a parar por aí.

Ostrovsky o apresenta como um produto da mídia russa, inventado pela KGB, que o transformou numa espécie de James Bond do lado de lá, depois de sua passagem como espião na Alemanha.

Espiões russos eram muito queridos no país, sobretudo depois de uma série chamada “Dezessete momentos de primavera”. O herói, Maxim Isaev, infiltrou-se no alto-comando nazista com o nome de Max Otto Von Stierlitz. Sua imagem é cultuada como a de um grande herói.

Putin encarnou o personagem, posando sem camisa, lutando judô, e mergulhava em busca de tesouros. Na época, era o homem certo para salvar a Rússia dos radicais islâmicos da Chechênia.

Quando digo que estava tudo lá, quero dizer que Putin depois de 2014 já dizia que, em caso de avanço da Otan na área de influência russa, não hesitaria em usar armas nucleares e, o que é pior, com algum apoio popular.

Na análise da personalidade de Putin, Ostrovsky conclui que ele não é um Stálin, embora esteja pronto para exercer violência seletiva, dentro e fora da Rússia. É um stalinismo pós-moderno, que prefere métodos mais sutis de controle, sobretudo o da televisão.

Quando o livro de Ostrovsky estava no prelo, havia ainda protestos em mais de cem cidades da Rússia. A maioria dos manifestantes tinha 17, 18 anos e nasceu nos primeiros anos de Putin no poder. Os garotos não se dispunham a aceitar a propaganda, nem tinham o cinismo e medo das gerações anteriores. Muitos devem estar presos agora.

Se tivesse dado mais atenção aos argumentos de Ostrovsky, teria previsto a guerra na Ucrânia e, com ela, a ameaça nuclear contra o Ocidente. O que nem de longe me passou pela cabeça é que Putin, mesmo sem lançar bomba atômica, tinha uma enorme possibilidade de fulminar os ucranianos e de nos matar aos poucos.

Como não trabalhei a ideia de uma guerra na Ucrânia, não previ também suas consequências sobre o clima, sua capacidade de agravar o aquecimento global.

De repente, a guerra trouxe dúvidas sobre a segurança alimentar a muitos países. A Alemanha se dispõe a rever algumas regras ambientais para acelerar sua produção agrícola.

Com a necessidade de oferecer uma alternativa aos europeus para o gás russo, Biden deve estimular a produção americana para exportá-la na forma de líquido. Com isso, suas metas ambientais terão de ser reduzidas e adaptadas à nova realidade.

Sem falar nos gastos militares, que crescerão na Alemanha e noutros países europeus, assim como nos Estados Unidos. É difícil combater o aquecimento global aumentando a produção de combustíveis fósseis, assim como investir na transição da economia em plena corrida armamentista.

Depois da Copa do Mundo, as eleições brasileiras foram impactadas por fake news. As fake news já eram um instrumento importante para a KGB desde o fim da Segunda Guerra. O diplomata americano George Kennan previu que a desinformação seria a coluna mestra da política russa, que, afinal, prosseguiu mesmo depois do fim da União Soviética.

Putin apenas desenvolveu um longo trabalho com novos meios eletrônicos: usar trolls para espalhar desinformacão nas mídias sociais, difundir múltiplas versões sobre um mesmo fato para convencer de que não existe uma descrição confiável, mas apenas um conjunto de “fatos alternativos”.

Trump e Bolsonaro beberam nessa fonte. Por incrível que pareça, são discípulos de Yuri Andropov, um dos grandes líderes da KGB. 

O Globo

Os efeitos da alta das commodities no Brasil




Disparada dos preços dos produtos primários afeta a economia brasileira em várias dimensões, e com impactos conflitantes

Por Sergio Lamucci

A disparada dos preços das commodities afeta a economia brasileira em várias dimensões, e com efeitos conflitantes. O impacto mais óbvio é piorar as projeções de inflação, o que exige juros mais altos, ao mesmo tempo em que contribui para a valorização do câmbio, o que atenua parte das pressões sobre os preços. O movimento também dá gás à atividade econômica nos setores que produzem e exportam produtos primários, além de aumentar o saldo comercial, fortalecendo ainda mais as contas externas.

No curto prazo, as commodities mais caras engordam ainda a arrecadação de impostos e, ao elevar a inflação, aumentam o valor do PIB em termos nominais, combinação que reduz o déficit e a dívida pública como proporção do PIB. No entanto, a Selic maior, necessária para enfrentar a alta dos preços, leva ao crescimento dos gastos com juros do setor público, o que é negativo para a dinâmica do endividamento público. No primeiro trimestre deste ano, o índice de commodities CRB subiu 27%, uma das principais consequências econômicas da guerra entre Rússia e Ucrânia.

Os efeitos do conflito no Leste Europeu para o Brasil são ambíguos, como resumem os economistas do Bradesco. De um lado o menor crescimento global, a alta da inflação, decorrente das commodities mais caras, e potenciais problemas na importação de fertilizantes sugerem uma expansão mais fraca da economia brasileira e preços mais elevados, dizem eles. De outro, observam, a expectativa de um ganho de termos de troca (a relação entre preços de exportação e de importação), “em um contexto de baixos riscos de solvência, favorece a apreciação da moeda, a melhora das contas públicas e a menor aversão ao risco, que atuam na direção de maior crescimento e mitigação de riscos inflacionários”. Para o Bradesco, o efeito líquido deve ser mais crescimento, mais inflação e mais juros. Até o momento, porém, os termos de troca estão em queda neste ano, porque os preços de importação têm subido mais do que os de exportação.

O eventual impulso à atividade tende a ter fôlego curto, uma vez que o impacto defasado da alta forte dos juros vai bater sobre a economia no segundo semestre deste ano e no ano que vem. O custo de empréstimos e financiamentos vai aumentar, num cenário em que a parcela das famílias com alguma dívida atingiu o recorde de 77,5% em março, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Os juros elevados também afetam a disposição das empresas em investir em projetos de modernização e ampliação da capacidade produtiva. De março de 2021 para cá, a Selic subiu de 2% para 11,75% ao ano, devendo avançar pelo menos mais um ponto percentual em maio.

Na sexta-feira, o Bradesco elevou a projeção de expansão do PIB em 2022 de 0,5% para 1%, um número nada exuberante, mas acima do 0,5% do consenso de mercado. A agropecuária contribui para o PIB no começo do ano, especialmente por meio das exportações de carnes, aves e suínos, aponta a equipe liderada pelo economista Fernando Honorato, que ressalta ainda o desempenho do setor de serviços. Além disso, o Bradesco vê o mercado de trabalho com “um bom ritmo de criação de vagas”, ainda que a renda esteja em queda em termos reais, num ambiente de inflação alta. Para completar, também deve ajudar a liberação de cerca de R$ 30 bilhões do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) ao longo do segundo trimestre.

As perspectivas para a inflação, por sua vez, pioraram significativamente. O Bradesco elevou a estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2022 de 6% para 6,9%. A projeção do banco é até conservadora, se comparada a previsões de outros bancos e consultorias - há quem veja o IPCA em 8,5%. O choque de commodities, como petróleo e produtos agrícolas, ocorre num quadro de inflação já pressionada.

O aumento de preços de commodities também tem elevado as projeções para a balança comercial em 2022. O Bradesco trabalha com um saldo de US$ 75,4 bilhões neste ano, 22,8% a mais do que os US$ 61,4 bilhões do ano passado. Na sexta-feira, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia aumentou a estimativa de superávit comercial em 2022 de US$ 79,4 bilhões para US$ 111,6 bilhões. Para o Bradesco, o Brasil deve ter um déficit em conta corrente neste ano de 0,3% do PIB, bem menor que o 1,7% do PIB de 2021. Honorato destaca que o Brasil não tem problemas de solvência de curto prazo, um trunfo importante num ano em que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) começou a elevar os juros e o mundo vive um momento geopolítico delicado, com a guerra entre Rússia e Ucrânia. O déficit em conta corrente é amplamente financiado por investimentos externos, observa ele, lembrando ainda que as reservas internacionais de US$ 360 bilhões cobrem com folga a dívida externa do setor público, de US$ 80 bilhões.

Commodities em alta, contas externas sólidas e uma elevada diferença entre os juros externos e internos têm contribuído para o tombo do dólar, que fechou sexta-feira em R$ 4,668. Esse recuo da moeda americana ameniza pressões inflacionárias, mas não tem sido suficiente para anular o efeito do aumento dos produtos primários sobre os preços.

Nesse quadro, as previsões para o câmbio têm sofrido diversas revisões. O Bradesco reduziu a sua estimativa para o dólar no fim deste ano de R$ 5,30 para R$ 5,10. Fatores como os juros altos e as commodities caras jogam a moeda para baixo, mas há outros que apontam para um dólar mais elevado, como as incertezas no cenário global, o aumento dos juros nos EUA e as dúvidas quanto à trajetória das contas públicas brasileiras no médio prazo, num ano em que haverá eleições presidenciais.

No curto prazo, a alta de commodities e a inflação elevada melhoram alguns indicadores fiscais, a exemplo do que ocorreu em 2021. Em março, o Bradesco trabalhava com uma dívida bruta de 83,6% do PIB para o fim deste ano e de 89,7% do PIB para o fim do ano que vem. No relatório divulgado na sexta-feira, as estimativas caíram para 80,1% do PIB e 83,7% do PIB, pela ordem.

Uma guerra prolongada entre Rússia e Ucrânia tende a manter a pressão sobre os preços de commodities. Para o Brasil, é um cenário que produz efeitos negativos e alguns positivos. Mas, como o país enfrenta uma inflação persistente e disseminada, acima de 10% em 12 meses, commodities mais caras incomodam mais, pelo efeito de corroer a renda, especialmente dos mais pobres, exigindo juros altos por mais tempo, o que é prejudicial ao crescimento.

Valor Econômico

Conflito na Ucrânia pode se prolongar enquanto Rússia se concentra no Donbass, diz Pentágono




A reorientação dos esforços militares da Rússia no Donbass poderia levar a um "conflito maior e mais prolongado", já que as forças ucranianas oferecem uma feroz resistência nessa região do leste do país, disse nesta quinta-feira (31) um alto funcionário do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. "Já estão há oito anos lutando por ela", disse o funcionário sobre a região disputada de Donbass, que reúne as províncias de Luhansk e Donetsk.

"Os ucranianos conhecem muito, mas muito bem o território", acrescentou. "Eles ainda têm muitas forças ali e travam uma luta muito dura por essa área", destacou. "Apenas porque [os russos] a priorizem e mobilizem mais tropas e energia ali, não significa que será fácil", disse o funcionário americano. "Poderia ser o presságio de um conflito mais prolongado, mais extenso, enquanto os russos tentam ganhar alguma influência, obter alguns progressos e, talvez, até conseguir algum trunfo para a mesa de negociação", assinalou.

Serguei Rudskoy, chefe da Direção-Geral Operacional do Estado-Maior das Forças Armadas russas, disse na semana passada que a primeira fase da campanha na Ucrânia tinha sido concluída e que as tropas se concentrariam na "meta principal: a libertação de Donbass", onde foram autoproclamadas as repúblicas de Donetsk e Luhansk.

O funcionário do Pentágono também disse que o exército russo continuava reposicionando forças em torno de Kiev após fracassar em sua tentativa de conquistá-la. "Obviamente, estão tomando decisões para alterar suas metas e objetivos", disse. Além disso, o funcionário assinalou que os combates continuam na cidade portuária de Mariupol, no sul da Ucrânia, e em Kharkiv, no leste, mas os russos não estão conseguindo "grandes resultados".

"Acreditamos que uma das razões pelas quais eles tanto querem Mariupol é porque eles podem se deslocar de lá para o norte", afirmou. "Os ucranianos estão travando enfrentamentos muito duros dentro da cidade", acrescentou.

O porta-voz do Pentágono, John Kirby, informou que o secretário de Defesa, Lloyd Austin, decidiu manter cerca de 7.000 tropas da 82ª divisão de paraquedistas na Europa, junto ao grupo de resposta do porta-aviões Harry Truman.

"Não vão a lugar nenhum no futuro imediato", declarou Kirby. "Queremos monitorar a situação no campo e tomar as melhores decisões em tempo real". Os Estados Unidos enviaram cerca de 20.000 soldados adicionais à Europa diante da ameaça da invasão russa, com o objetivo de tranquilizar os países aliados vizinhos da Ucrânia, que temiam que o conflito alcançasse seu território.

O porta-voz do Pentágono completou que, a longo prazo, os Estados Unidos consultariam os aliados "para decidir qual seria a postura militar adequada na Europa. Seja qual for o resultado desta guerra e a data de seu fim, a segurança na Europa terá mudado e será preciso responder".

Porta-voz do Kremlin diz que Rússia fortalecerá fronteira ocidental para deter eventual ataque¹

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse nesta sexta-feira que o presidente russo, Vladimir Putin, ordenou que os militares reforcem as fronteiras ocidentais do país para que ninguém jamais pense em lançar um ataque.

Peskov declarou à principal rede de televisão da vizinha Belarus que nações não identificadas estão fortalecendo seu potencial militar perto das fronteiras ocidentais da Rússia.

O ministro da Defesa, Sergei Shoigu, estava trabalhando em um plano de segurança, disse ele. "É claro que isso será feito de forma a nos tornar seguros e garantir que alcancemos o nível necessário de paridade para que não passe pela cabeça de ninguém... nos atacar", disse ele. Putin enviou tropas em 24 de fevereiro para o que ele chama de "operação militar especial" para desmilitarizar a vizinha Ucrânia, no sudoeste da Rússia.

Os países ocidentais chamam isso de uma guerra de agressão não provocada.

AFP / DefesaNet

Rússia vai apresentar "documentos" sobre "verdadeira natureza" de incidente em Bucha




O chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov

A Rússia vai apresentar "documentos" mostrando o que afirma ser a "verdadeira natureza" dos acontecimentos na cidade ucraniana de Bucha, onde as forças russas são acusadas de ter massacrado civis, indicou o ministro dos Negócios Estrangeiros.

"Hoje, por intermédio do nosso representante permanente [nas Nações Unidas], vamos dar uma conferência de imprensa na qual serão apresentados documentos claros sobre a verdadeira natureza dos acontecimentos", declarou o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov.

Antes de Lavrov se pronunciar, já o Kremlin tinha "categoricamente" negado todas as acusações ligadas à descoberta de um grande número de cadáveres de civis em Bucha, perto da capital ucraniana, Kiev, após a retirada das tropas russas da cidade. Lavrov disse que as imagens de cadáveres espalhados nas ruas, empilhados e em valas comuns eram "falsas", denunciando uma campanha de "propaganda" e de "desinformação".

Por seu lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba, instou os Governos "que ainda tenham dúvidas sobre os crimes de guerra russos" a "visitarem Bucha" e advertiu de que as imagens dos massacres ali perpetrados são apenas "a ponta do icebergue" da brutalidade da invasão russa em curso na Ucrânia.

Kuleba referia-se às centenas de cadáveres de civis presumivelmente executados que foram encontrados naquela cidade próxima de Kiev quando o exército russo retirou, numa conferência de imprensa em Varsóvia, com a sua homóloga do Reino Unido, Liz Truss.

A MNE britânica, que na terça-feira se reunirá com o homólogo polaco, anunciou que o seu Governo impulsionará ações legais internacionais contra a Rússia por crimes de guerra e que Londres está "a colaborar estreitamente" com a Ucrânia para tal. A responsável confirmou que o Reino Unido está a preparar uma ajuda avaliada em mais de 11 milhões de euros aos civis vítimas da guerra.

Na sua intervenção, Kuleba sublinhou que "já não há lugar para meias-tintas" e instou os líderes europeus "que ainda tenham dúvidas" a "visitarem Bucha agora mesmo, verem as valas comuns e depois falarem" com ele. O MNE ucraniano fez um apelo "à União Europeia, à NATO e ao G7" para que ampliem o alcance das sanções económicas contra Moscovo e forneçam armas ao seu país.

"Quantas mais armas tivermos, mais depressa e melhor poderemos impedir a Rússia de cometer mais crimes", sustentou Kuleba, acrescentando que o seu Governo "expôs esta situação" antes, mas "depois daquilo que se viu em Bucha" é "o momento de garantir que os culpados pagarão pelos seus crimes perante a Justiça Internacional".

O que aconteceu em Bucha "é só a ponta do icebergue", assegurou, observando que "o que está a acontecer em Mariupol é muito pior".

O ministro ucraniano saudou a cooperação existente entre os Governos do seu país, do Reino Unido e da Polónia, classificando os membros deste último como "os amigos mais próximos", como ficou provado "no último mês", e expressou a sua confiança em que possam "fazer muito mais juntos".

Jornal de Notícias (PT)

Rússia pode estar a optar por guerra "longa" no leste e sul, alertam EUA




Washington vai impor novas sanções contra Moscovo esta semana

Os EUA consideram que a Rússia está a "reavaliar os seus objetivos" na Ucrânia e pode estar a planear um conflito "longo" concentrado no leste e em parte do sul, ao invés de tentar invadir o país inteiro.

"Acreditamos que a Rússia está a reavaliar os seus objetivos de guerra. Estão a reposicionar as suas forças para concentrar as suas operações ofensivas no leste da Ucrânia e em parte do sul, em vez de atacar a maior parte do território", explicou o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, em conferência de imprensa, citado pela agência EFE.

Segundo o conselheiro do Presidente norte-americano, Joe Biden, a Rússia "tentou subjugar toda a Ucrânia e falhou". Mas alertou que esta nova fase da ofensiva militar russa "pode durar meses ou mais".

No entanto, segundo Washington, Moscovo irá manter "os ataques aéreos e disparos de mísseis no resto do país para causar danos militares e económicos e também, claramente, semear o terror". "Vimos atrocidades, vimos crimes de guerra, não vimos até agora um nível de ataque à vida do povo ucraniano que atinja o nível de genocídio. Mas é algo que vamos continuar a acompanhar", assegurou Jake Sullivan.

Jake Sullivan prometeu "mais anúncios de assistência militar adicional" para a Ucrânia nos próximos dias, sem adiantar mais detalhes, embora tenha explicado que este equipamento destinado ao Exército ucraniano pode ser entregue pelos EUA ou por outros países.

O conselheiro de segurança nacional da Casa Branca confirmou ainda que Washington vai impor novas sanções contra Moscovo esta semana, na sequência do alegado massacre realizado por tropas russas contra civis na cidade de Bucha, perto de Kiev. Segundo este responsável, as discussões entre ocidentais neste momento estão concentradas principalmente em possíveis medidas "relacionadas com a energia", um assunto muito sensível para os europeus, que são dependentes do gás russo.

Sullivan insistiu na procura de "consenso" com a União Europeia, que por sua vez discute novas sanções "de emergência" contra Moscovo, num momento em que a comunidade internacional tem reagido à denúncia das autoridades ucranianas da existência de mais de 400 cadáveres nas ruas de Bucha, a oeste de Kiev, no seguimento da ocupação pelas forças russas.

Os homicídios foram também denunciados pela organização de direitos humanos Human Rights Watch num comunicado publicado este domingo, no qual detalha casos de execuções de civis, ameaças, violações e saques cometidos presumivelmente por soldados russos. Imagens nas televisões e jornais de dezenas de corpos em valas comuns ou espalhados pelas ruas dos arredores da capital ucraniana, no fim de semana, na sequência da retirada russa, estão a chocar os países ocidentais.

A União Europeia, Espanha, Polónia, Alemanha, Reino Unido, França, Japão, Canadá e EUA, entre outros, condenaram publicamente e defenderam novas sanções à Rússia. A Rússia negou hoje "categoricamente" as acusações de "massacre" e "genocídio" relacionadas com descoberta de um grande número de cadáveres de civis em Bucha, nos arredores de Kiev, e anunciou uma "avaliação judicial da provocação" ucraniana.

Jornal de Notícias (PT)

Vozes da guerra: a visão de ucranianos e russos comuns sobre o conflito.




Cidadãos que sofrem os efeitos da invasão ou que, do outro lado, acompanham seu desenrolar oferecem uma janela para o que o povo está pensando. 

Por Vilma Gryzinski

A retirada russa, a reconquista de um cinturão de pequenas localidades em torno de Kiev, a revelação de atrocidades hediondas e outros acontecimentos da guerra na Ucrânia levam multidões de especialistas a fazer análises políticas e militares que nos ajudam a compreender a enorme complexidade das questões envolvidas.

Mas sempre é bom acompanhar o que as pessoas comuns estão pensando, convencidas pelas propaganda oficial, arredias a ela ou simplesmente espantadas com o horror que testemunham.

A seguir, uma pequena amostra destas reações levantadas por diferentes órgãos de imprensa nas últimas semanas:

“Minha cabeça não consegue entender como é possível esta guerra com tanques e mísseis. Contra quem? Contra civis inocentes? É a barbárie em estado puro”, Olena Volkova, diretora do hospital de Trotianets, um dos locais desocupados pelas tropas russas, falando ao New York Times. Foram encontradas na localidade vinte pessoas executadas antes da retirada.

“Esta pessoa foi morta sob tortura. As mãos e as pernas dele estão amarradas com fita adesiva, perdeu os dentes e seu rosto todo desapareceu. Não sabemos o que queriam dele”, a mesma médica, apontando um corpo no necrotério local.

“Eles foram de apartamento em apartamento, pegando televisões e computadores e colocando nos tanques para ir embora. Estavam com pressa”, Svetlana Semenova, moradora de Bucha, outra localidade abandonada pelos russos, ao Dnyuz.

“Todas as pessoas levaram um tiro na nuca. Famílias inteiras foram mortas. Crianças, mulheres, avós. Este é o resultado da ocupação russa”, Anatoli Fedoruk, prefeito de Bucha, calculando em 280 o número de sepultados em valas coletivas na localidade.

“Vodka não”, soldado ucraniano anônimo em vídeo no qual moradores de um vilarejo rural oferecem aos libertadores o pouco que tinham, incluindo a bebida feita em casa.

“Eles estão nos dizendo que a Ucrânia está tentando entrar para a Otan e que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde; a Ucrânia então tentará recuperar a Crimeia, os Estados Unidos irão apoiar e acabaremos lutando contra eles. E todo mundo sabe que isso significaria: armas nucleares. Para evitar esta guerra, é necessário varrer a Ucrânia da face da terra. Melhor que morram cem mil do que acabe o mundo. É essencialmente o que Putin está nos dizendo. Não consigo avaliar. Pertenço ao mundo da cultura. Aprendi que toda vida tem valor incalculável”, Dimitri Likin, que pediu demissão como diretor de arte do Canal Um, estatal onde trabalhou durante vinte anos, ao site Meduza.

“As pessoas não querem matar ou ser mortas. Não é isso que dizia seu contrato de trabalho. Além do mais, eles não sabem operar mísseis terra-ar e conduzir tanques”, Mlkhail Benyash, advogado que diz já ter sido procurando por cerca de 200 membros da Guarda Nacional russa que não querem ir para a guerra, ao Meduza.

“Estamos nos virando. Ontem comemos Alabay”, conversa de um soldado russo com a esposa, interceptada por ucranianos. Alabay é uma raça de cão pastor.

“Parei de falar com o meu pai. Ele disse que sou um traidor e deveria ser o primeiro a ser fuzilado”, Vladimir Miroshnik, estudante de ciências políticas sobre a relação complicada com o pai por causa de sua oposição à guerra, ao Moscow Times.

“Minha família só acredita em fontes do governo. Quanto mais dura a ‘operação’, mais ficam radicalizados. Já acham normal a morte de civis e desejam a morte das autoridades ucranianas. Parece os dois minutos de ódio do livro 1984”, outro moscovita que falou ao site, anonimamente.

“Kirill foi um guerreiro de Cristo. Ele lutou contra o mal, contra espíritos satânicos: nazistas ucranianos criados pelas multinacionais americanas”, Gennady Zaridze, padre ortodoxo, no enterro de um jovem soldado russo morto na Ucrânia, também no Moscow News.

“Ele morreu heroicamente não em guerra com a Ucrânia, não em guerra contra o exército ucraniano, mas numa batalha do bem contra o mal. Fez tudo o que foi possível para que o bem ganhasse”, Dmitri Maslov, na mesma cerimônia fúnebre. Ele é líder distrital da região onde morreu o soldado e ex-agente do FSB, o serviço de inteligência.

“Nós, cristãos, não podemos ficar parados quando irmão mata irmão, cristão mata cristão. Não repitamos os erros daqueles que louvaram Hitler em 1 de setembro de 1939”, Ioann Burdin, padre ortodoxo detido e processado por criticar a guerra.

“Ai, meu Deus, eu queria cuspir e bater neles”, Iedokia Koneva, moradora de Trotianets, ao New York Times. depois da retirada russa.

Revista Veja

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