terça-feira, abril 05, 2022

É preciso conter ameaça à globalização trazida pela agressão russa à Ucrânia - Editorial




Primeiro, foi a pandemia da Covid-19 a travar a economia global, com a interrupção nas cadeias de suprimento que até hoje causa dificuldades no setor automobilístico e numa infinidade de outros segmentos da indústria dependentes de componentes eletrônicos produzidos na Ásia. Neste ano, a invasão da Ucrânia pela Rússia adiciona riscos geopolíticos à globalização, enquanto traz a ameaça de retrocesso nacionalista na economia e na política.

Prepara-se o terreno para a defesa de projetos protecionistas como o que vigorou no Brasil durante o programa de substituição de importações de insumos básicos (celulose, fertilizantes, produtos químicos, entre outros), máquinas e equipamentos do governo Geisel. O II Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico (PND) elevou barreiras tarifárias para que empresários nacionais produzissem internamente bens que eram importados, apoiados em fartas linhas de crédito abertas no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE) e subsidiadas pelo Tesouro Nacional.

O rompimento nas cadeias globais de suprimento pode estimular o relançamento de planos como esse, cujo desfecho é o retardamento da modernização industrial e tecnológica. A reserva de mercado e o dinheiro público farto não foram capazes de dar competitividade às empresas protegidas da competição externa. Nas décadas seguintes, o Brasil tentava reinventar a roda com um computador verde e amarelo, enquanto nos Estados Unidos Bill Gates (Microsoft) e Steve Jobs (Apple) reinventavam o computador.

Depois de resgatar da penúria centenas de milhões de pessoas — segundo o Banco Mundial, entre 1990 e 2015, em menos de uma geração, 1,1 bilhão de pessoas saíram da pobreza —, nunca a globalização e a liberdade comercial estiveram tão ameaçadas.

É possível admitir, como faz a revista britânica The Economist, a necessidade do redesenho de cadeias de suprimento para evitar a dependência de autocracias. Mas é fundamental não cair na armadilha da autossuficiência — lição que, espera-se, o Brasil deveria ter aprendido. Não é tarefa simples.

Considerando que um terço das importações dos países democráticos vem de ditaduras e um terço dos investimentos multinacionais feitos em autocracias são de democracias, é provável que canais comerciais sejam mantidos por interesses mútuos incontornáveis.

A ação militar de Putin trouxe de volta uma atmosfera de Guerra Fria. Ele procura colocar o Oriente contra o Ocidente, enquanto a China, outro país autoritário, caminha para ultrapassar os Estados Unidos como maior economia do mundo. Para isso, porém, depende de um amplo e livre comércio para continuar a crescer a taxas elevadas. As fortes sanções contra a Rússia estão sendo didáticas para o chinês Xi Jinping. Com a globalização nas cordas, ele sabe que é preciso manter mentes e fronteiras abertas, apesar de tudo.

O Globo

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