sábado, fevereiro 05, 2022

Ex-vice-presidente dos EUA contradiz Trump e diz que não podia anular eleições




O ex-vice-presidente republicano dos EUA Mike Pence disse nesta sexta-feira que não tinha o direito de anular as eleições de 2020, e que o ex-presidente Donald Trump equivocou-se ao afirmar que ele poderia tê-lo feito.

Pence negou a afirmação de Trump de que, como vice-presidente, poderia ter bloqueado no Congresso a certificação da vitória eleitoral do democrata Joe Biden, em 6 de janeiro de 2021. "O presidente Trump disse que eu tinha o direito de anular as eleições, mas ele está errado", afirmou Pence em apresentação perante a conservadora Sociedade Federalista, no estado da Flórida.

Pence e Trump são potenciais candidatos presidenciais para as eleições de 2024, e suas divergências públicas são vistas como manobras iniciais na corrida para ganhar a candidatura única do Partido Republicano. "A presidência pertence ao povo americano, e somente ao povo americano", ressaltou Pence.

Trump declarou em comunicado na semana passada que Pence, que presidiu a certificação formal dos resultados das eleições de novembro de 2020, "poderia ter anulado a eleição". Pence já havia negado esse suposto poder, mas as declarações desta sexta-feira foram as mais contundentes até agora.

Pence, leal a Trump durante o mandato presidencial deste último, também descreveu a invasão ao Congresso realizada em janeiro de 2021 por uma multidão de apoiadores do magnata republicano como "um dia sombrio na história do Capitólio dos Estados Unidos".

AFP / Estado de Minas

Covid: Alemanha registra recorde de 250 mil novas infecções

 




Cartaz na cidade de Gelsenkirchen avisa: entrada permitida apenas para vacinados ou recuperados de covid

Em meio a debate sobre relaxamento ou não das medidas restritivas no país, Instituto Robert Koch também registra novo pico da incidência de sete dias, com 1.349,5 casos para cada 100 mil habitantes.

A Alemanha bateu um novo recorde de infecções pelo novo coronavírus nesta sexta-feira (04/02). Segundo o Instituto Robert Koch (RKI), agência estatal alemã para prevenção e  controle de doenças, foram registrados 248.838 novos casos de covid-19 apenas nas últimas 24 horas. Em comparação à sexta-feira anterior, quando o RKI reportou 190.148 casos, foram 58.690 infecções a mais.

A incidência média semanal de covid-19 por 100 mil habitantes também atingiu um novo recorde nesta sexta-feira: 1.349,5. Os altos números de contágio pela doença coincidem com um momento em que a Alemanha discute o relaxamento das medidas restritivas para contenção do vírus, impostas pelos governos federal e estaduais.

Alguns estados, como a Saxônia, no leste, Schleswig-Holstein, no norte, e Hessen, no centro, pretendem suspender algumas restrições já nos próximos dias. Em alguns deles, empresários principalmente do setor de varejo, estão processando os governos locais por subordinarem o ingresso em estabelecimentos comerciais à apresentação de comprovante de vacinação ou de recuperação da covid-19.

O mesmo é discutido em outros países europeus. A França, Irlanda e Reino Unido, por exemplo, anunciaram que devem diminuir as restrições contra o coronavírus, apesar do aumento do número de infecções.

'Na Dinamarca, uso de máscaras deixou de ser obrigatório mesmo em lugares fechados, como cafés e restaurantes'

O caso mais emblemático é o da Dinamarca, a qual, segundo sua primeira-ministra, Mette Frederiksen, deu "'adeus' às restrições e 'olá' à vida que conhecíamos antes do coronavírus".

Desde a última terça-feira, o uso de máscaras em locais fechados – com exceção de hospitais e outras instalações de saúde – deixou de ser obrigatório, e não é preciso mais apresentar comprovante de vacinação, nem fazer testes.

Não há mais limitação de público em grandes eventos; nos estádios de futebol, todos os assentos podem ser ocupados, e o funcionamento de discotecas e bares também voltou a ser permitido. A Noruega também relaxou algumas medidas, mas manteve o uso de máscara como obrigatório em lugares fechados.

Nesta quinta-feira, o diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa, Hans Kluge, declarou que o continente pode estar entrando no que chamou de "fase final" da pandemia.

Isso se deveria a três fatores: o alto índice de vacinação contra o novo coronavírus e de recuperados de infecções no continente; os efeitos mais amenos da variante ômicron; e o fim do inverno, que cai oficialmente em 20 de março. Em geral, os vírus tendem a provocar menos infecções durante os meses de temperatura mais amena.

'Centros de testes e vacinação seguem abertos e com atendimento constante na Alemanha'

Relaxamento de medidas divide opiniões

Depois de quase dois anos de pandemia, o debate sobre o relaxamento ou não das medidas restritivas para tentar conter o coronavírus, como o distanciamento social e o uso de máscara, está mais vivo do que nunca na Alemanha.

Para o presidente da Associação de Médicos Estatutários de Seguros de Saúde (KBV, na sigla em alemão), Andreas Gassen, o país deveria traçar planos políticos concretos para aliviar as restrições: Precisamos agora de um plano de liberdade, baseado em parâmetros de como podemos gradualmente afrouxar as restrições", declarou em entrevista ao jornal Rheinische Post.

Ele acredita que os estádios de futebol, por exemplo, devem começar a receber um público cada vez maior, e que em breve não será mais necessário exigir comprovante de vacinação ou recuperação. Segundo Gassen, a Alemanha precisa aprender a conviver com o vírus, e seria um "equívoco" pensar que o fim da pandemia seria marcado pelo fato de ninguém mais morrer de covid-19.

Para o especialista, a doença permanecerá na vida cotidiana, tal qual o vírus da gripe, que todos os anos apresenta novas variantes e mata milhares na Alemanha. "Temos que aceitar isso e, ao mesmo tempo, continuar a oferecer vacinas para grupos de alto risco", concluiu Gassen.

O perigo da montanha-russa

Por outro lado, o presidente da Associação Alemã Interdisciplinar de Medicina Intensiva e de Emergência (Divi), Gernot Marx, advertiu que a Alemanha pode entrar num processo de "montanha-russa", com os números subindo e descendo, caso as medidas sejam abruptamente suspensas.

"Um relaxamento das medidas para conter o coronavírus, como anunciaram alguns estados alemães, vem cedo demais", disse a jornais do grupo de mídia Funke.

Ele afirmou que, em comparação a outros países, as medidas restritivas ajudaram a desacelerar a quarta onda da pandemia na Alemanha, protagonizada pela variante ômicron; e esse bom resultado não deveria ser colocado em risco.

 "Os governos federal e estaduais deveriam esperar até que os números diminuam e se mantenham estáveis durante vários dias, antes de retirar as medidas. Seria fatal se, ao relaxarmos muito cedo, entrássemos numa montanha-russa, com os números de infecção aumentando novamente."

Deutsche Welle

O que se sabe sobre a morte do chefe do EI




Um dia após a morte do líder do grupo Estado Islâmico (EI), Abu Ibrahim al-Qurashi, em uma operação dos Estados Unidos na Síria, muitas dúvidas permanecem sobre a intervenção e o futuro do grupo jihadista.

Como foi localizado?

Qurashi foi morto na cidade de Atme durante uma operação aérea noturna contra sua casa.

Autoridades dos EUA disseram que sua localização foi concluída no ano passado. O proprietário do imóvel informou à AFP que Qurashi morava lá há 11 meses.

O ataque ocorreu dias após o EI lançar sua maior operação em anos contra uma prisão administrada por curdos na cidade de Hassake.

“O momento da operação sugere que havia informações ligando Qurashi ao ataque à prisão de Ghwayran”, disse Nick Heras, analista do Newlines Institute.

“Não seria surpreendente se os Estados Unidos pressionassem a Turquia a dar informações”, acrescentou.

A Turquia tem influência no noroeste da Síria e mantém contatos com Hayat Tahrir Al-Sham (HTS), o grupo jihadista que controla a maior parte da região de Idlib.

“Se Qurashi estava planejando gravar uma declaração sobre os recentes atentados, talvez isso tenha criado uma abertura” para localizá-lo, disse Aron Lund, membro da Century International.

Como morreu?

De acordo com a Casa Branca e oficiais de defesa dos EUA, Qurashi foi morto após detonar uma bomba para evitar sua prisão.

“Ele se matou junto com sua família sem lutar, mesmo quando tentávamos pedir sua rendição e lhe oferecer um caminho para sobreviver”, disse o chefe do Comando Central dos EUA, general Kenneth McKenzie.

Danos visíveis na casa de três andares tendem a confirmar que pelo menos uma explosão ocorreu dentro da casa.

O porta-voz do Pentágono dos EUA, John Kirby, disse que foi identificada a impressão digital de Qurashino local, mas não disse se as forças dos EUA levaram o corpo ou o deixaram.

Uma foto que supostamente mostra o rosto do líder do EI assassinado que circula nas redes sociais não pôde ser autenticada pela AFP.

Quem mais estava no local?

Autoridades dos EUA disseram que pelo menos três civis foram mortos, além de Qurashi e outros dois do lado de fora da casa, baleados por forças especiais.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) registrou 13 mortos, 12 deles dentro da casa.

A organização Save the Children indicou que pelo menos seis crianças, incluindo dois bebês, morreram.

Qual é o futuro do EI?

O ataque à prisão de Ghwayran levantou temores de um ressurgimento do EI, quase três anos depois de perder os últimos territórios de seu “califado”.

Hassan Hassan, autor de um livro sobre o grupo jihadista, acredita que o ataque à prisão “não faz parte de um retorno estratégico, nem é uma indicação de recuperação”.

“O grupo continua fraco e exposto”, segundo o especialista, e o ataque de quinta-feira é mais uma evidência da crescente eficácia das forças americanas e aliadas.

Especialistas dizem que há poucos nomes para o possível sucessor de Qurashi, mas que o próximo líder certamente virá da mesma região.

Qurashi era um turcomano da cidade iraquiana de Tal Afar que desempenhou um papel fundamental na campanha de limpeza étnica contra a minoria yazidi em 2014.

Correio Braziliense / Daynews

Política e economia: o cabo de guerra.

 




Políticos quase sempre vivem em disputa com os economistas do governo, principalmente quando estes são liberais, defensores, portanto, das privatizações e de uma menor carga tributária. 

Por Ubiratan Jorge Iorio (foto)

“Eu achava que a política era a segunda profissão mais antiga. Hoje vejo que ela se parece muito com a primeira.” - Ronald Reagan

"É melhor não contestar, foi uma decisão política da diretoria.” É muito provável que o leitor já tenha ouvido conselhos desse teor em sua empresa ou em uma repartição pública. Esse clichê é a aceitação de que uma “solução política”, uma vez decretada, mesmo quando descabida, dificilmente é revertida, porque decorre do exercício de algum poder — o que a sobrepõe às melhores soluções técnicas.

Do ponto de vista da Ciência Política, os fins das atividades políticas estão longe do consenso: os mais ingênuos listam justiça, bem comum, igualdade; os muito crédulos acrescentam até a felicidade; já os mais perspicazes enfatizam o poder e os interesses individuais. No mundo real, contudo, simplórios e sagazes têm de conviver com a política, acreditando ou não em seus benefícios, até porque ela afeta o seu dia a dia.

As atividades políticas, assim como as econômicas, consistem em ações sucessivas, em escolhas individuais permanentes, invariavelmente em busca dos melhores meios para alcançar determinados fins (que podem ser bons ou maus, éticos ou indignos, louváveis ou condenáveis) — com a diferença de que os meios de que a política faz uso são coercitivos, enquanto no campo da economia são voluntários. A ação humana em qualquer área visa sempre a aumentar a satisfação individual do agente, mas, enquanto os objetivos na economia buscam o prazer proporcionado por bens e serviços, nas atividades políticas o objetivo é conquistar, manter ou aumentar o poder sobre outros indivíduos. O poder, então, pode ser visto como a dimensão política da ação humana.

Leonard James Callaghan (1912-2005), primeiro-ministro do Reino Unido de 1976 a 1979 e ex-líder do Labour Party, não acreditava em ministros da Economia, o que o levou a afirmar, com sincero sarcasmo, que “só há dois tipos de ministros da área econômica, os que saem a tempo e os que saem depois do tempo”. Talvez estivesse certo, mas há pelo menos dois motivos para desconfiar de sua afirmação: o primeiro, sujeito a debates, é que pode ter sido injusto com alguns ex-ministros; o segundo, indiscutível, é que ele era um político.

Sim, políticos quase sempre vivem disputando um cabo de guerra com os economistas do governo, principalmente quando estes são liberais, defensores, portanto, da economia de mercado, de privatizações, abertura econômica, descentralização, menor carga tributária, contra o protecionismo e os privilégios, e, principalmente, apologistas ferrenhos do enquadramento dos gastos do governo em um regime austero, ou seja, como normalmente políticos e bons economistas são como gato e rato e considerando que a compulsão para gastar o dinheiro alheio faz parte do ethos da classe política — assim como caçar para os tigres e fazer gols para o CR7 —, é bem provável que o motivo da queixa de Callaghan — não fosse ele um trabalhista — tenha sido a rejeição, por parte dos guardiões dos cofres públicos britânicos, de algumas propostas devoradoras de Orçamentos.

Por outro lado, é cabível expandir sua ironia para incluir os economistas, sugerindo que, sendo ou não ministros, só existem dois tipos desses profissionais trabalhando em governos: os liberais (principalmente os austríacos) e os que estudaram em livros errados. E a preferência dos políticos recai sempre sobre os últimos, porque, entre pessoas chatas, austeras, que quase sempre atravancam os planos de suas excelências, e sujeitos simpáticos, especialistas em bajulá-los e a adornar seus apetites orçamentívoros mais primitivos com teorias pretensamente científicas, a escolha é óbvia.

Entretanto, é preciso considerar que, nas democracias, qualquer que seja o grupo em que se enquadrem, os poderes dos economistas são limitados à apresentação e à defesa de propostas — que podem ser tecnicamente corretas ou equivocadas — ao presidente ou ao primeiro-ministro; este, após o crivo pessoal, pode ou não sujeita-las à ala política do governo e ao Parlamento. O bater do martelo — novamente — não é técnico, mas político.

Políticos X economistas

O conflito entre bons economistas e políticos é natural e muito antigo. Vamos citar apenas dois episódios. O primeiro, na França, foi a famosa controvérsia ocorrida entre 1566 e 1568, entre Jean Bodin, que apontava como causa da inflação o fluxo crescente de metais preciosos da América do Sul para a Europa, e o mercantilista Malestroit, conselheiro do rei francês. O segundo, em 1979, no Brasil, foi a discordância entre dois ministros do governo Figueiredo, o do Planejamento, Mário Henrique Simonsen, e o da Agricultura, Delfim Netto. Simonsen, estritamente técnico, percebeu a necessidade de maior austeridade na política econômica, em resposta às crises externas do petróleo e dos juros. Delfim, literalmente político, defendia suas práticas “desenvolvimentistas” de sempre. Simonsen perdeu a paciência, pediu o boné e retornou para a FGV, retomando as aulas de que tanto gostava na Escola Brasileira de Economia e Finanças (EPGE). Perdeu o Brasil (mas eu ganhei um excelente professor).

É evidente que o cabo de guerra entre políticos e economistas costuma ser bem menos acirrado nos governos de esquerda, cujos ministros da Economia também são “progressistas” e, portanto, chegados a um estourozinho jeitoso de gastos aqui e uma pedaladazinha fiscal malandra ali, a título de “gerar renda e emprego”. Em qualquer caso, entretanto, a disputa é mais intensa em anos de eleições, sempre repletos de promessas e juras de amor aos eleitores. É compreensível, então, a queixa ao mesmo tempo cáustica e jocosa de um velho amigo, ex-secretário de Fazenda da prefeitura carioca e, portanto, com conhecimento de causa, de que só há um tipo aceitável de político: o que não foi eleito.

Vemos, então, de um lado da corda, a maioria dos candidatos com a mesma conversa fiada, especialmente naquele ridículo horário “gratuito” que nos é pespegado como um hino à democracia — quando, na verdade, é um acintoso e debochado desfile de mentiras anunciadas — sempre com a mesma conversa fiada: menos impostos, mais saúde, educação, habitação, saneamento e transportes, menos “desigualdades”, mais renda, mais empregos, menos corrupção, menos “exclusão”, etc. Seria bom crer na sinceridade de alguns, mas infelizmente suas eventuais boas intenções não têm como germinar enquanto não acontecerem profundas reformas em nosso sistema político.

Do outro lado do cabo — principalmente quando o ministro da Economia é adepto dos valores liberais —, temos os valentes soldados de Leônidas, guardiões da austeridade fiscal e da economia de mercado, quase sempre tidos como sujeitos malvados e sem sensibilidade “social”. Nessas ocasiões, é útil imaginar o presidente — qualquer que seja — com políticos taramelando incessantemente em um dos seus ouvidos as costumeiras alegações em favor da abertura do cofre e com um ministro responsável no seu outro ouvido, tentando convencê-lo de que esses conselhos são maus. Sem dúvida, é uma escolha difícil para o chefe de governo, especialmente quando ele sabe que é essencial manter e até aprofundar a consolidação fiscal e, ao mesmo tempo, que não pode governar sem um mínimo de apoio.

Situação X oposição

É interessante observar como as resistências políticas à austeridade e aos programas liberais são comuns a dois grupos de “representantes do povo”: membros da ala política da situação e parlamentares da oposição. É que, embora seus objetivos sejam diferentes, há dois traços de união entre ambos — o da busca por votos e o do apetite para gastar os recursos extraídos dos pagadores de tributos. É oportuno, também, observar que, além dos custos das soluções ditas políticas excederem invariavelmente os seus benefícios, estes são desfrutados por determinados grupos, enquanto os seus custos punem todos os pagadores de impostos e a economia do país. Ou seja, elas concentram benesses e distribuem a conta.

Vamos a dois exemplos claros da disputa entre os defensores do Erário e os que desejam arrombá-lo. O primeiro é o “fundão”. Qualquer cidadão que na infância foi ensinado a manejar as quatro operações aritméticas e que aprendeu valores éticos com seus responsáveis sabe que o fundão de R$ 4,9 bilhões, aprovado por deputados e senadores — que, aliás, ainda não desistiram de aumentar esse valor absurdamente alto para os R$ 5,7 bilhões postulados inicialmente —, é um acinte econômico e um duplo desaforo moral, configura desatenção para com a situação de pandemia e desrespeito a todos os pagadores de impostos. Essa ofensa aos cidadãos não é exclusiva da oposição, uma vez que vários integrantes da chamada base de apoio ao governo ajudaram na sua aprovação.

A outra ilustração do cabo de guerra é a questão do reajuste dos servidores públicos. Como se sabe, o presidente prometeu, por razões de governo economicamente inoportunas, embora normais pela práxis política, reajustar os salários dos policiais da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e do Departamento Penitenciário Nacional. Os recursos para tal foram contemplados no Orçamento da União de 2022, com uma dotação prevista de R$ 1,79 bilhão. Isso levou as outras categorias de funcionários públicos, com o argumento da “isonomia” — economicamente injustificado, porém juridicamente legal —, a pressionarem para também se beneficiar, sem que houvesse previsão orçamentária para esses reajustes.

O Ministério da Economia, obviamente, manifestou-se desde o início contrário a essas concessões, sabedor de que logo surgiriam pressões de outras categorias, colocando mais obstáculos para o processo de consolidação fiscal que a equipe econômica vem promovendo, praticamente contra tudo e todos. E surgiram, para surpresa, apenas e talvez, do boto-cor-de-rosa.

Brandindo bandeiras vermelhas de mil novecentos e antigamente e com os simulacros de valentia característicos dos especialistas de caminhões de som, tendo a “isonomia” como escudo e alegando que o governo teria cortado os recursos necessários para que seus salários fossem reajustados, funcionários da Receita Federal encenaram o estranho espetáculo de colocar à disposição seus cargos comissionados, no que foram copiados por servidores do Banco Central e de outros órgãos, em um movimento reivindicatório de reajustes gerais, coordenado pelo Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), que enfeixa 37 associações sindicais e diz representar mais de 200 mil servidores.

Do ponto de vista econômico, chega a ser impatriótico defender esses reajustes, por muitas razões: (a) a economia ainda não saiu de uma pandemia, que obrigou o governo a desviar-se temporariamente de suas metas fiscais; (b) os servidores públicos já são “brasileiros especiais”, por terem estabilidade; (c) seus salários, mesmo sem reajustes há anos, situam-se muito acima da média dos salários do setor privado; (d) quem trabalha na iniciativa privada — os “brasileiros comuns” — pode perder seus empregos, e seus eventuais reajustes não dependem de decisões políticas, mas da própria produtividade e da receita da empresa; (e) a austeridade fiscal é mais necessária do que nunca, porque, junto com o caminho liberal que o governo se propôs a seguir, assegura que a economia vai poder andar de fato para a frente; (f) a avaliação política desses pleitos está errada, porque os eleitores de hoje evoluíram e são favoráveis à austeridade e às reformas: elas não “tiram”, mas “dão” votos.

Se, pelo enfoque econômico, o timing desse movimento de sindicatos é o pior possível, cheirando a sabotagem e chantagem, olhado pelo ângulo da política é claramente uma demonstração de que se trata de um embuste, um ardil duplamente útil, seja para desgastar o governo, acusando-o de irresponsabilidade fiscal, seja para atrair votos para sindicalistas que dizem representar os servidores, mas que nada mais são do que gerentes de escritórios de partidos de esquerda, inteiramente aparelhados e comprometidos.

Revista Oeste

O cálculo político de Boric

 




Lógica da equipe do presidente eleito do Chile não é identitária, mas política. Escolha de ministro da Fazenda respaldado pelo mercado foi a saída encontrada para que os demais ministros possam mostrar serviço

Por Maria Cristina Fernandes (foto)

“É inverossímil! Sanhattan (centro financeiro de Santiago), todos os especuladores e donos do Chile estão em festa.” Mal o jornal chileno “La Tercera” anunciara que Gabriel Boric havia escolhido Mario Marcel, presidente do Banco Central, para o Ministério da Fazenda, Ramón López, economista influente do Partido Comunista, protestou no Twitter.

O PC chileno integra a coalizão que elegeu Boric (Aprovo Dignidade) e é, depois do partido do presidente eleito, Convergência Social, com cinco ministros, a sigla melhor representada no futuro governo. Ocupa três ministérios, em igualdade de condições com o Partido Socialista, mas, ao contrário deste, tem uma representante no coração do governo, a futura porta-voz, Camilla Vallejo, ex-parceira do presidente eleito no movimento estudantil.

A revolta do aliado não cessou. Dias depois, o BC comandado pelo futuro ministro de Boric subiria a taxa de juro. E López voltou a tuitar: “De 0,5% em julho de 2021 a taxa de juro subiu para 5,5% em janeiro de 2022. Deve ser um recorde mundial. Uma irresponsabilidade sem precedente (...). Boric premia a bestialidade nomeando Marcel como ministro da Fazenda”.

Mario Marcel, PhD em Economia pela Universidade de Cambridge, é um ex-militante do Partido Socialista. Ocupou cargos na burocracia do governo desde a redemocratização e uma diretoria no Banco Mundial. Foi levado ao BC pela ex-presidente socialista Michelle Bachelet e teve seu mandato renovado pelo presidente conservador Sebástian Piñera.

A esquerda brasileira comemorou o ineditismo da composição ministerial do futuro governo chileno pela diversidade de gênero (14 mulheres de um total de 24), de regiões do país representadas e pela participação de nomes egressos das ciências e de movimentos sociais. Escondeu do regojizo, porém, o nome de Marcel. Instado a comentar a escolha de Boric para a Fazenda, um petista graúdo, porta-voz atuante dos “desenvolvimentistas” do partido, limita-se a dizer que é cedo para saber para onde vai o Chile.

O convite a Marcel foi a saída encontrada por Boric para que os demais ministros possam, oportunamente, mostrar serviço. Professor da Universidade Alberto Hurtado, de Santiago, Tomás Undurraga vê o futuro ministro da Fazenda como a chave da equação montada pelo presidente eleito para viabilizar seu mandato.

Boric assumirá com um processo de substituição da ordem constitucional da ditadura de Augusto Pinochet em curso. A esquerda tem maioria entre os constituintes, mas uma nova Carta só será adotada se aprovada em plebiscito. “A direita não tem um terço dos representantes para aprovar a Constituição que quer, mas pode agir para questionar o processo constituinte e levar a população a rejeitar o texto no plebiscito”, diz. “Se o ambiente econômico se deteriorar, pode gerar a percepção de que o momento de transformação política se esgotou.”

É uma formulação que deriva dos conflitos vividos por esta geração que chegou ao poder. Undurraga lembra que Bachelet foi derrotada, em 2015, na tentativa de instalar uma Assembleia Constituinte. Boric e o núcleo duro de seu governo tinham sido eleitos deputados pelas manifestações estudantis de 2012/2013. Testemunharam a resistência conservadora que venceu a pressão de 300 mil pessoas nas ruas de Santiago e barrou o processo.

Estavam no exercício do segundo mandato parlamentar quando irrompeu nova onda de manifestações em 2019. Piñera viu sua popularidade despencar em meio à violência policial e capitulou à convocação de uma Assembleia Constituinte.

Grande parte da esquerda era contra a proposta de Piñera porque queria derrubá-lo. “Boric definiu sua carreira política no dia 15 de novembro de 2019, quando resolveu se insurgir contra seu próprio partido e topou a convocação”, diz Undurraga. “Ele viu legitimidade no processo e atuou como uma ponte entre setores da esquerda que aceitavam a Assembleia e aqueles que a rejeitavam. Venceu com a conformação progressista da Assembleia e, em seguida, ao conquistar a Presidência.”

O senso de história demonstrado por Boric ainda passará por muitas provações. Ao escolher Mario Marcel, mostrou que a lógica que o move não é identitária, mas política. O futuro ministro da Fazenda, porém, está longe de lhe abrir as portas para o paraíso. É apenas o sinal de que está ciente do tamanho da encrenca. Apesar de ser o presidente chileno mais bem votado da história, com 58% dos votos no segundo turno, e de ter levado nove partidos para sua equipe de governo, Boric não tem maioria na Câmara, que, pela primeira vez, terá uma bancada da extrema direita-populista à la Trump/Bolsonaro.

As pressões canalizadas pela eleição de Boric não se movem pelo mesmo relógio do presidente eleito. E podem soar o alarme antes do previsto pelo cálculo político do presidente eleito. O mais sensível dos conflitos a serem administrados é aquele que envolve os mapuche, povo que ocupa a região da Auracania, no Sul do Chile, séculos antes das chegadas dos espanhóis.

Trata-se de uma população de quase 2 milhões de pessoas. A maioria vive de agricultura e pecuária de subsistência, mas há grupos mobilizados, com invasões e ataques ao comércio e a propriedades rurais, pela soberania na região, desafiada por políticas de colonização desde o século XIX.

A causa mapuche foi abraçada pelas manifestações estudantis, berço político de Boric. Ao longo da campanha, o presidente eleito se manifestou contra a militarização da região pelo governo Piñera. Para completar o xadrez, a presidente da assembleia constituinte, Elisa Loncón, que chegou ao processo constituinte graças às cotas eleitorais, é líder da bancada mapuche. Professora universitária, defende a soberania da região e a anistia de presos por ataques.

A batata quente vai cair nas mãos de uma jovem médica de 35 anos, que conheceu Boric na política estudantil mas, ao contrário do presidente eleito, não seguiu na política partidária. Na condição de presidente do Colégio de Médicos, Izkia Siches levou a entidade, na pandemia, a ter um comportamento oposto àquele desempenhado pelo Conselho Federal de Medicina, esteio dos negacionistas no Brasil.

Escolhida para o Ministério do Interior e da Segurança Pública, Izkia formará, com Camilla Vallejo e Giorgio Jackson, secretário-geral da Presidência, outro dos líderes estudantis que ascenderam à política parlamentar depois das manifestações de 2013, a tríade de ministros mais próximos de Boric.

Se a escolha de Mario Marcel surpreendeu a velha-guarda petista, a atuação de Antonia Urrejola também colocará à prova as linhas da tradicional política externa do partido. Escolhida para o Ministério das Relações Exteriores, a advogada tem um currículo construído em passagens por órgãos nacionais e internacionais de direitos humanos, tendo chegado a presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, com o apoio da ex-presidente do país, Michelle Bachelet.

Ao longo dos governos do PT, a política externa atuou por meio das rachaduras da geopolítica. No ano passado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula chegou a perguntar por que Angela Merkel podia ficar 16 anos como primeira-ministra da Alemanha e Daniel Ortega não podia seguir presidente da Nicarágua.

A trajetória de Antonia Urrejola sugere que se o PT continuar nessa toada, não deve contar com o Chile. Frente à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, combateu abertamente as violações cometidas na Nicarágua e Venezuela.

Esta parece ter sido a chave para sua escolha. Quando deputado, Boric se recusou a relativizar os direitos humanos: “Devemos (...) condenar com a mesma força a permanente restrição de liberdades em Cuba, a repressão do governo de Ortega na Nicarágua, a ditadura chinesa e o enfraquecimento das condições básicas de democracia na Venezuela”.

Na semana passada, o presidente eleito do Chile disse à BBC que a prova de que a Venezuela conduz uma experiência “fracassada” de poder é a diáspora de 6 milhões de venezuelanos.

Ex-chanceler de governos petistas e hoje conselheiro de política externa de Lula, Celso Amorim, discorda da visão, predominante em setores da esquerda, de que Antonia Urrejola é uma "aliada dos Estados Unidos" na política para a América Latina: "Ela é de fato, uma novidade no perfil tradicional da chancelaria, mas não será manipulada. Trabalhou com José Miguel Inzulza [ex-secretário-geral da OEA] e teve, como assessor na comissão interamericana, um ex-quadro do governo petista [José Abrão, secretário nacional de Justiça na gestão José Eduardo Cardozo]. Direitos humanos também são nossa pauta, a diferença é como chegar lá".

Tratar a política externa chilena de Boric como "aliada" americana é, no mínimo, um exagero. Um de seus principais desafios é o Tratado Transpacífico de Cooperação Econômica, firmado no governo Barack Obama em reação ao avanço chinês.

O acordo de livre comércio passou na Câmara dos Deputados chilena contra o voto de Boric, para quem o TTP dá prerrogativas excessivas às empresas transnacionais que operam no país. Piñera buscou o voto dos senadores com o argumento de que se trata de um legado de Michelle Bachelet.

Undurraga diz que Boric, sem romper com a tradição internacionalista do Chile, sinaliza com a possibilidade de ampliar cadeias de valor na região. Cita o lítio, cujas jazidas, no triângulo formado pelas fronteiras do Chile, da Argentina e da Bolívia, correspondem a 68% das reservas mundiais. Com um uso que vai das baterias de celular às placas de energia solar, o mineral é tratado no Chile como o “ouro do futuro”.

Desde a virada na campanha do segundo turno, que ampliou a aliança, o professor da Universidade Alberto Hurtado só vê acertos. Se a condição estratégica do lítio para a indústria tecnológica mundial é oportunidade ou armadilha para o Chile, será a prova dos noves da sofisticada costura política do presidente eleito.

Valor Econômico

Banco de reservas de Bolsonaro está no aquecimento para assumir ministérios

 




É pouco provável que a “reforma ministerial” melhore seus índices de aprovação, ainda mais com a legislação eleitoral proibindo o marketing oficial. O objetivo é outro: garantir os palanques eleitorais 

Por Luiz Carlos Azedo (foto)

Durante o encontro com o presidente do Peru, Pedro Castillo, ontem, em Rondônia, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que, no dia 31 de março, aniversário do golpe que destituiu o presidente João Goulart, em 1964, 11 ministros deixarão o governo para disputar as eleições. “Dia 31 de março, um grande dia, é um pacotão: 11 saem, 11 entram. Da minha parte, vocês só vão saber via Diário Oficial da União”, disse, fazendo mistério.

Nos bastidores, comenta-se que as pastas da chamada cota pessoal do presidente da República serão ocupadas por técnicos da confiança dos atuais titulares ou militares. As que já estão nas mãos dos políticos do Centrão, por correligionários cujo perfil garanta os acordos originais. Uma coisa é certa: o governo não será melhor do que era. Por isso, é muito pouco provável que a “reforma ministerial” melhore seus índices de aprovação, ainda mais com a legislação eleitoral proibindo o marketing oficial. O objetivo é outro: garantir os acordos eleitorais nos estados.

São dadas como certas as candidaturas do ministro da Justiça, Anderson Torres, a deputado pelo Distrito Federal; do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, ao governo do Piauí; da ministra das Mulheres, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, a uma vaga no Senado, possivelmente pelo Espírito Santo; do ministro das Comunicações, Fábio Faria, ao governo no Rio Grande do Norte; da ministra-chefe da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, ao Senado, pelo Distrito Federal; do ministro do Turismo, Gilson Machado, ao Senado, por Pernambuco; do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a senador ou governador da Paraíba; do ministro dos Transportes, Tarcísio de Freitas, ao governo de São Paulo; da ministra da Agricultura, Teresa Cristina, ao Senado ou ao governo do Mato Grosso do Sul. O ministro Rogério Marinho, da Integração, deve concorrer a deputado federal ou ao Senado, no rio Grande do Norte, e o ministro Ônix Lorenzonni, atual ministro do Trabalho, deve disputar o governo do Rio Grande do Sul. O vice-presidente Hamilton Mourão deve se candidatar ao Senado pelo Rio Grande do Sul.

Bolsonaro, somente agora, começa a desenhar sua campanha nos estados, ou seja, está muito atrasado em relação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que vem se dedicando a isso há meses. É uma equação complicada, porque o bom relacionamento institucional com alguns governadores não se transforma em apoio eleitoral por gravitação, em razão da conjuntura local. Nesse aspecto, seu maior problema está no Nordeste, onde o Centrão começa a dar sinais de que pode largar a mão do presidente tão logo comece a campanha eleitoral para valer. Por essa razão, em alguns estados a única opção para Bolsonaro será indicar um ministro como seu candidato a governador, armando o palanque eleitoral local.

Pé-frio

Voltando à viagem para Rondônia, de certa forma Bolsonaro jogou uma boia de salvação para o presidente do Peru, Pedro Castillo, que veio ao Brasil com uma agenda bastante extensa (comércio e acesso a mercados, integração física, cooperação fronteiriça, cooperação em defesa e segurança, cooperação técnica e humanitária e combate à pandemia de covid), mas em busca de apoio político.

Castillo, de 52 anos, quatro meses apenas depois de tomar posse, pode se tornar o terceiro presidente a não concluir o mandato nos últimos três anos, caso o Congresso peruano aprove seu impeachment. O encontro com Bolsonaro serve como sinalização para os setores conservadores da política peruana, cuja instabilidade é resultado de sucessivos escândalos, alguns envolvendo a Odebrecht. Entretanto, por causa da derrota de Donald Trump, nos Estados Unidos, e de outros aliados, Bolsonaro está com fama de pé-frio.

Não é mansa, não

Mais uma vez, o presidente fez a aposta errada na pandemia. A taxa de ocupação de leitos de UTIs para tratamento da covid-19 no Brasil, em razão do avanço da variante ômicron do coronavírus, altamente transmissível, segundo pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), atingiu índices alarmante e se interiorizou.

Oito estados e o Distrito Federal estão em situação crítica, principalmente em relação às internações (com taxa de ocupação de 80% ou mais): Amazonas (80%), Piauí (87%), Pernambuco (88%), Mato Grosso do Sul (103%), Mato Grosso (86%), Goiás (91%), Espírito Santo (83%), Rio Grande do Norte (86%) e Distrito Federal (97%).

Também está havendo aumento da taxa de ocupação de UTIs no Amazonas (75% para 80%), Piauí (82% para 87%), Paraíba (28% para 41%), Pernambuco (81% para 88%), Alagoas (53% para 69%), Bahia (67% para 74%), Minas Gerais (28% para 37%), São Paulo (66% para 72%), Paraná (61% para 72%), Santa Catarina (53% para 76%), Mato Grosso do Sul (80% para 103%), Mato Grosso (78% para 86%) e Goiás (82% para 91%).

Correio Braziliense

Lá como cá, a corrupção não importa.




O inesperado sucesso dos socialistas nas eleições portuguesas antecipa um roteiro desenhado para o Brasil: ao votar, o eleitor simplesmente esquece os escândalos do passado. 

Por Duda Teixeira (foto)

Engenheiro com uma longa carreira no Partido Socialista, o PS, José Sócrates governou Portugal como primeiro-ministro entre 2005 e 2011. Já fora do poder, em novembro de 2014 ele foi preso no aeroporto de Lisboa, ao voltar de uma viagem a Paris. Foi acusado de corrupção, fraude fiscal, lavagem de dinheiro e falsificação de documentos na investigação que ficou conhecida como Operação Marquês, uma espécie de Lava Jato portuguesa. Solto após passar nove meses no cárcere, Sócrates hoje aguarda o julgamento das duas acusações que foram aceitas pelo juiz. Segundo os investigadores, ele recebeu 1,72 milhão de euros (10 milhões de reais, em valores atualizados), uma parte em malas de dinheiro, ao cabo de transações com amigos empresários que tinham negócios com o poder público.

Qualquer semelhança com os peixes graúdos da política brasileira fisgados em operações anticorrupção nos últimos anos não é mera coincidência. Alguns dos casos envolvendo Sócrates tinham conexão direta com personagens também pilhados em transações suspeitas do lado de cá do Atlântico, durante os governos do PT – o ex-primeiro-ministro, aliás, é amigo do peito de Lula. O histórico de suspeitas envolvendo uma das principais cabeças do PS português, contudo, está longe de se refletir no desempenho do partido nas urnas. Muito pelo contrário. Nas eleições do último fim de semana, a legenda de Sócrates surpreendeu e obteve nada menos que 117 das 230 cadeiras no Parlamento. Com isso, governará o país com maioria absoluta. Em Portugal, os escândalos parecem não incomodar os eleitores na hora do voto. De novo, qualquer semelhança não é mera coincidência: no Brasil, Lula lidera as pesquisas de intenção de voto, a despeito das suspeitas sobre ele e seu partido.

No caso português, há várias explicações possíveis para o fenômeno. Nas pesquisas de opinião, os eleitores até se dizem preocupados com a corrupção. O assunto costuma entrar na pauta do dia a dia. Os portugueses gostam de tratar do tema e consomem avidamente as notícias sobre prisões e julgamentos dos políticos envolvidos em malfeitos. Em abril do ano passado, uma parcela significativa da população acompanhou ao vivo, pela televisão, o juiz Ivo Rosa anunciar, ao longo de três horas e meia, quais das 31 acusações feitas pelo Ministério Público contra José Sócrates iriam a julgamento. Embora o socialista, de 64 anos, tenha conseguido se livrar da maioria delas, os casos foram revisitados em prosa e verso e reavivaram os escândalos na memória do eleitorado. A menos de um ano das eleições, seria natural se tudo aquilo tivesse impacto no resultado das urnas. Sócrates não foi inocentado. Nos casos em que o processo não seguirá adiante, o juiz entendeu que o Ministério Público não conseguiu reunir provas suficientes para demonstrar que os recursos suspeitos que ele recebeu tinham conexão direta com decisões de governo. Por essa razão, acusações como a de que ele teria embolsado propinas de companhias como o Grupo Lena, parceiro da brasileira Odebrecht, e a Portugal Telecom, que comprou a operadora brasileira Oi, foram para o arquivo.

Uma pesquisa feita com 1.020 portugueses no ano passado mostrou que eles acham que 69% dos políticos são corruptos. No entanto, quando indagados sobre quanto esse problema afeta suas vidas, 73% responderam que não viam interferência nenhuma. Só um em cada quatro entrevistados disse que a corrupção lhe trazia alguma consequência pessoal. A pesquisa também procurou entender por que os portugueses costumam escolher candidatos envolvidos em desvios. A resposta mais comum foi a de que eles preferiam votar nos nomes dos seus partidos, sem se importar com suas fichas sujas. Outras respostas repetidas foram “a Justiça não funciona”, “rouba, mas faz”, “gratidão”, “todos são corruptos” e “integridade não é prioridade”.

O voto em corruptos – ou em partidos onde há suspeitos de corrupção – encontra explicação na psicologia. “As pessoas escolhem seus candidatos principalmente porque veem neles algumas coisas em que acreditam, suas ideias, valores e crenças. Mas essa escolha é bastante intuitiva e pouco racional, parecida com a dos torcedores de times de futebol”, diz o psicólogo Francisco Miranda Rodrigues, presidente da Ordem dos Psicólogos de Portugal. O caráter duvidoso de um candidato pode ser um empecilho menor se a sua orientação política ou o seu partido forem os mesmos do eleitor. Além disso, esse defeito pode ser facilmente contornável a depender dos valores reais que os eleitores trazem consigo. Um indivíduo pode esbravejar contra a corrupção em um bar, mas no fundo achar que o delito cometido não é tão grave assim, que todo mundo de certa forma faz aquilo, ou que ele próprio poderia cometê-lo em situação parecida. “O conceito do que as pessoas entendem por corrupção varia muito, dependendo do contexto social e cultural. Comportamentos que são condenados publicamente muitas vezes podem ser aceitos no plano privado e, por isso, não geram uma rejeição nas urnas”, diz Rodrigues.

Outra explicação para o fato de os eleitores deixarem de lado as suspeitas de corrupção na hora de votar é o surgimento de outros temas considerados mais urgentes, que eles consideram impactar mais em suas vidas – como saúde e economia em tempos de pandemia, por exemplo. Nas eleições portuguesas, a maior parte dos partidos se concentrou nessas questões. O único que priorizou o tema da corrupção foi o Chega, de extrema-direita, que espalhou outdoors nas ruas com o rosto de José Sócrates, em preto e branco, e a palavra “vergonha”. A agremiação levou apenas 7% dos votos.

“A corrupção tende a perder relevância porque é um tema batido, recorrente, sem novidade. Com isso, outras discussões mais provocantes ganham maior destaque. Nos momentos cruciais da última campanha, por exemplo, os portugueses só queriam saber da foto que um dos candidatos postou do seu gato”, diz a cientista política Patrícia Calca, da Universidade de Lisboa, que participou de um estudo sobre a percepção da corrupção.

Se há semelhanças entre o caso português e o brasileiro, há também uma diferença a ser levada em conta na comparação. Alguns fatores impediram que os escândalos de José Sócrates manchassem o Partido Socialista. Enquanto aqui o PT continuou submisso a Lula e deve anunciá-lo oficialmente como candidato, o PS se afastou de Sócrates após as denúncias. O maior responsável por essa separação foi António Costa, atual primeiro-ministro, que em 2005 ocupou o cargo de ministro de Estado e Administração Interna no governo do correligionário enrolado. “António Costa criou um cordão sanitário para isolar José Sócrates. Ele não fala sobre o assunto e, quando perguntam, diz que esse é um problema da Justiça”, diz o cientista político Francisco Pereira Coutinho, da Escola de Direito Nova, em Lisboa.

Desde que saiu do governo, há onze anos, Sócrates não ocupa cargos públicos. Em 2018, um ano antes das eleições legislativas, ele se desligou do PS fazendo críticas ao partido, após 37 anos de filiação. Disse que a agremiação o tinha abandonado. Faltando menos de dez dias para a última eleição, disse em uma entrevista que “quem quer uma maioria absoluta (no Parlamento) talvez devesse começar por não desmerecer a única que o Partido Socialista teve na história”, referindo-se ao seu mandato. A aparição de Sócrates às vésperas do pleito levou analistas portugueses a cogitar que isso espantaria os eleitores do PS. Sua figura poderia ser tão fantasmagórica quanto a de Dilma Rousseff para a campanha atual do PT. Mas não foi o que aconteceu. Os portugueses mal prestaram atenção.

Surpreendentemente, o ex-ministro parece estar recebendo mais atenção em veículos brasileiros, onde comenta com desenvoltura o resultado das últimas eleições portuguesas e faz previsões sobre o Brasil. Quando fala com jornalistas de cá, ele tenta emplacar a narrativa de que a Operação Marquês cometeu abusos, assim como, na sua opinião, a Lava Jato teria perseguido Lula. Tenta se mostrar merecedor da liberdade, assim como o amigo petista obteve a sua. Enquanto Lula foi condenado e deixou a prisão aproveitando-se das idiossincrasias da Justiça brasileira, Sócrates ainda aguarda sentença nos tribunais portugueses.

Revista Crusoé

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