sábado, fevereiro 05, 2022

O bolsonarismo pós-2022




Por Vera Magalhães (foto)

Ainda que Jair Bolsonaro perca as eleições, hipótese hoje bastante plausível, de acordo com as pesquisas, o bolsonarismo como força política permanecerá. Não com a conformação de hoje, tendo o Centrão a ele acoplado como um ser parasitário, mas como um balaio de reacionários, ressentidos, negacionistas e teóricos da conspiração de todos os matizes, com mandatos e com voz nas redes sociais e nos veículos alternativos de mídia que vicejaram nesse período de governo.

É esta a campanha paralela que começa a ganhar contornos e que deve ser objeto de atenção da imprensa, pois, ainda que Bolsonaro seja derrotado, haverá uma bancada ruidosa que terá o capitão e os filhos como gurus seja quem for o próximo presidente.

A radicalização de ministros como Marcelo Queiroga e Damares Alves já mira esse futuro, e vale para a hipótese de Bolsonaro ser ou não reeleito.

A ministra que é a antítese de tudo que sua pasta deveria representar tem investido sem receio do Ministério Público numa agenda cada vez mais sectária, e especificamente antivacina.

Ela segue a picada aberta pelo chefe, mas conta com seu próprio público, que vem sendo cuidadosamente cultivado nos últimos três anos. Os “damaristas" são uma bolha fiel e dedicada dentro do guarda-chuva do bolsolavismo. E é por isso que uma candidatura dela ao Senado é considerada bastante promissora, a depender do Estado que ela escolha para fincar seu domicílio eleitoral.

Formar uma bancada no Senado tem sido a tecla na qual Bolsonaro mais bate quando projeta seus planos para um eventual segundo mandato. Ele sabe que foi na Casa que representa a federação, além do Supremo Tribunal Federal, que sua pauta armamentista e anti-direitos e minorias foi brecada. Se fosse depender da Câmara, sobretudo depois que Arthur Lira assumiu, ela teria tido um campo mais fértil para prosperar.

Também está nos planos do grupo manter uma bancada numerosa e atuante de deputados federais. Se o grupo perdeu nomes como Joice Hasselman e Alexandre Frota, a ideia é jogar todo o peso do apoio de Bolsonaro, considerado ainda importante, em nomes-chave para manter o movimento vivo ainda — e talvez principalmente nessa condição — que seja para fazer oposição ruidosa a Lula ou a quem seja eleito, clamando por impeachment no dia 1 do mandato.

Também pesa a favor dessa preocupação de eleger “os nossos”, como definiu um aliado a percepção, cada vez mais presente na família e no entorno do presidente, de que haverá uma tentativa de prendê-lo caso ele fique sem mandato.

Seria o exército barulhento no Congresso, nas Assembleias e na internet aquele a ser mobilizado para ir às ruas e repetir os atos com ameaças às instituições para defender o “mito" dessa esperada caçada judicial que ele enfrentará para que seja responsabilizado, por exemplo, pelos atos cometidos por seu governo no curso da pandemia.

Bolsonaro já admitiu que haverá uma revoada de ministros e sua substituição por ocupantes-tampão. Governar há muito deixou de ser o objetivo principal do presidente e dos que o cercam. A eleição é o foco, com interesses cada vez mais particulares dos vários grupos que compõem um governo nada coeso e orgânico.

O Globo

Bolsonaro na Rússia – para além da carne

 




Além de ignorar os contornos da crise, ele tem um nível de imprevisibilidade muito perigoso nessas situações

Por Fernando Gabeira (foto)

Bolsonaro ficou conhecido por criar crises. Na sua única viagem internacional de importância, ele escolheu a crise. Não foi criada por ele, possivelmente não se interessa por suas coordenadas, mas, ainda assim, viaja para Moscou para encontrar Putin. É uma viagem para discutir comércio. Eu vendo carne, você vende fertilizante, o que mais podemos fazer?

O problema é que tropas russas estão estacionadas na fronteira com a Ucrânia. É um tema prioritário nos Estados Unidos e na Europa. Um clima de tensão: invadem ou não invadem?

Putin sabe o que quer e, sobretudo, sabe quando pressionar para manter a Ucrânia sob sua influência. A Europa depende do gás russo, e nada mais valioso do que um bom aquecimento no inverno.

Por sua vez, Biden enfrenta um segundo grande desafio. O da retirada das tropas do Afeganistão foi desgastante. Evitar uma invasão da Ucrânia não é fácil. Mesmo porque os mecanismos de sanções econômicas nem sempre são eficazes contra um país resiliente como a Rússia.

Bolsonaro leva talvez um pouco mais do que a carne em sua agenda. Claro que ela é importante, porque trata do interesse de seu grupo de apoio no agronegócio. Mas os russos buscam gás na Amazônia e querem fabricar seus helicópteros militares em Belo Horizonte.

Desde 2002, quando se formou uma parceria estratégica entre Brasil e Rússia, ao menos sete áreas de cooperação tecnológica se abriram. Mas, ainda assim, como explicar uma viagem dessas agora? Por mais carnívora que seja a agenda, Bolsonaro é presidente de um país e será chamado a declarar algo sobre um tema que mobiliza o mundo.

Quando a Rússia anexou a península da Crimeia, o Brasil, na época sob o governo Dilma, expressou uma posição prudente, sem se comprometer muito com nenhum dos lados. Talvez seja esse o caminho de Bolsonaro. A diferença é que agora Bolsonaro estará no cenário da crise, sob os olhos do mundo. Uma saída realmente prudente seria adiar a viagem para tempos mais calmos. Naturalmente, estará cercado de experientes diplomatas que devem orientar seus passos. Mas, além de ignorar os contornos da crise, Bolsonaro tem um nível de imprevisibilidade muito perigoso nessas situações. É irônico que a política internacional do governo em fim de mandato obrigue Bolsonaro a pisar em ovos. Até aqui ele fez inúmeras bobagens. Rompeu a cooperação com a Alemanha e a Noruega na Amazônia, jogando dinheiro e reputação no lixo. Investiu contra Macron, fez piadas machistas sobre a primeira-dama francesa. Na América do Sul, fez comentários inadequados sobre a Argentina e viu aos poucos se formar um verdadeiro cinturão de esquerda em torno dele – Bolívia, Chile e Peru.

O único ponto do mundo pelo qual se interessava abertamente, os Estados Unidos, acabou precipitando seu isolamento. Apostou em Trump, perdeu. Como se não bastasse a imprudência, seguiu duvidando da legítima eleição de Biden.

Do ponto de vista internacional, Bolsonaro está isolado. E quem está só, abraçado a Putin, deve viver uma solidão bem mais gélida. Isso parece ter sido também uma herança de Trump no universo mental bolsonarista. Os setores tradicionais da extrema direita acham que na Rússia também existem fontes de tradição que contestam a modernidade.

Steve Bannon mantinha uma relação com um tradicionalista russo, Aleksandr Dugin. Este via como necessária a recuperação da importância da Rússia no mundo e achava os chamados isolacionistas nos Estados Unidos potenciais aliados. Na eleição de 2016, a proposta de Dugin era a de encorajar a Rússia a introduzir “a desordem geopolítica na atividade interna dos Estados Unidos”. A verdade é que a participação da Rússia na eleição de 2016 nos Estados Unidos foi um grande tema de investigação. As relações entre o tradicionalismo russo e a extrema direita levaram também a um longo debate entre Dogin e Olavo de Carvalho.

Não se pode precisar até que ponto a Rússia, como a Hungria, pode ser vista como uma aliada em bandeiras tradicionais pelo bolsonarismo. Certamente, alguns temas de direitos humanos podem unir Bolsonaro e Putin para além da carne e dos fertilizantes. O Brasil tem apoiado propostas russas contrárias à expansão dos direitos das mulheres.

Paradoxalmente, a agenda conservadora que Bolsonaro não conseguiu avançar no Congresso brasileiro pode se tornar um tema de conversa na Rússia. E isto 105 anos depois da revolução bolchevique. Não deixa de ser um reencontro. Em 1917, o Brasil rompeu relações com a Rússia precisamente por causa da revolução. Em 1947, rompeu de novo por causa da ascensão do Partido Comunista. São voltas que a história dá.

A Rússia tornou-se atraente para a extrema direita, exatamente por alguns dos fatores que pareciam ser atropelados pelos revolucionários. E o Brasil se torna mais atraente para a Rússia, na medida em que se afasta, pelo menos teoricamente, da globalização que considera uma vitória do marxismo cultural.

O mais possível é que intensifiquem a troca de carne e fertilizantes. A de ideias não parece promissora.

O Estado de São Paulo

O que é a lei russa sobre agentes estrangeiros?




De veículos de imprensa a jornalistas e ativistas de direitos humanos, dezenas constam na lista do governo russo de "agentes estrangeiros". Rótulo remonta à era soviética e, segundo críticos, vem sufocando a dissidência.

Por Sonia Phalnikar

Nesta quinta-feira (03/02), o governo da Rússia proibiu as operações da Deutsche Welle (DW) no país, retirou as credenciais de imprensa dos jornalistas que trabalham para a emissora e anunciou que planeja iniciar um procedimento para reconhecer a DW como uma empresa de mídia que opera como "agente estrangeiro".

O anúncio foi pelo Ministério russo do Exterior em retaliação ao bloqueio, pela Alemanha, de um canal no idioma alemão da emissora estatal russa RT, por falta de licença de transmissão.

Mas afinal, o que é o rótulo de "agente estrangeiro" que poderá ser atribuído à DW?

A lei russa sobre agentes estrangeiros data inicialmente de 2012, quando era aplicada a organizações não governamentais que recebiam fundos do exterior.

Em dezembro de 2019, o presidente russo, Vladimir Putin, assinou uma nova legislação, ampliando a definição legal de quem pode ser considerado um agente estrangeiro.

Ela agora inclui qualquer indivíduo ou grupo privado que receba financiamento estrangeiro – seja este proveniente de governos, organizações ou mesmo cidadãos de fora do país – e publique material impresso, em áudio, audiovisual, entre outros.

Uma vez rotulados pelas autoridades como "agente estrangeiro", indivíduos e organizações ficam obrigados a indicar o fato em qualquer conteúdo que publicarem, até mesmo postagens nas redes sociais.

Os "agentes estrangeiros" também são obrigados a apresentar ao governo declarações financeiras e relatórios sobre suas atividades a cada seis meses e passar por auditorias anuais.

Da era soviética a mídia e opositores de hoje

O termo "agente estrangeiro" tem uma conotação negativa, que remete à era soviética e sugere espionagem. Ele era usado pelos soviéticos para rotular dissidentes políticos.

A classificação também acaba dissuadindo anunciantes, que hesitam diante da possibilidade de ser associados a um "agente estrangeiro", ou simplesmente a um indivíduo ou entidade vistos de forma desfavorável pelo governo.

Críticos afirmam que as autoridades russas usam a legislação para reprimir meios de comunicação, ativistas, grupos de oposição e indivíduos críticos ao Kremlin.

Grupos da sociedade civil alertam que a lei sobre agentes estrangeiros está afetando o trabalho de jornalistas e defensores dos direitos humanos e sufocando a dissidência.

O Kremlin nega que a legislação seja usada para censura, e Putin sustenta que a lei é necessária para proteger a Rússia de interferências estrangeiras.

Quem está na lista?

Em dezembro de 2021, duas integrantes do grupo de ativistas Pussy Riot foram listadas como "agentes estrangeiras" pelo governo russo. O grupo feminista é conhecido por suas músicas e por seu ativismo, altamente crítico a Putin e ao estado russo.

No mesmo mês, as autoridades russas baniram uma das entidades de direitos humanos mais antigas do país, a Memorial International, por esta não ter colocado em postagens nas redes sociais o status oficial de "agente estrangeiro".

Em novembro, Ivan Pavlov, um proeminente advogado de direitos humanos que defendeu a Fundação Anticorrupção do líder oposicionista Alexei Navalny, foi incluído na lista de "agentes estrangeiros".

O Ministério da Justiça russo também atribuiu o rótulo ao jornalista Viktor Shenderovich, conhecido por um programa de sátira política com marionetes que foi ar nos anos 1990.

Marat Gelman e cinco outros colecionadores de arte também estão na lista, que incluía apenas 17 nomes no fim de 2020 e agora contém 111.

Deutsche Welle

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Temor no pós-eleição




A nova guerra entre esquerda e bolsonaristas: quem ameaça mais a democracia?

Por Eliane Cantanhêde (foto)

Engana-se quem considera que o presidente Jair Bolsonaro está morto para as eleições de outubro. Apesar de todos os absurdos, erros e perdas de apoios, o presidente tem o cargo, estrategistas e vai operar cada vez mais o temor do irreal “comunismo” e real da volta do PT e do ex-presidente Lula.

Se o Supremo, setores do Congresso e da opinião pública trabalham com a hipótese de Bolsonaro reagir a la Donald Trump em caso de derrota, grupos bolsonaristas, inclusive da área militar, reagem na mesma moeda: segundo eles, se alguém tem condições de agitar as ruas do País são Lula e esquerda.

No discurso público e nos bastidores, oficiais de Exército, Marinha e Aeronáutica garantem que não participarão de nenhuma “aventura golpista” a favor de Bolsonaro ou de ninguém. E acrescentam: vão respeitar o resultado das urnas, qualquer que seja o novo presidente – ou seja, o novo comandante em chefe das Forças Armadas.

Nas conversas ao pé do ouvido, porém, as três forças trabalham com variados cenários e o mais drástico é de convulsão nacional. Isso vale também para o caso de derrota de Lula, não só para a de Bolsonaro.

Nessas análises, as ameaças de Bolsonaro são mais explícitas, mas menos críveis. Para um filho, basta “um cabo e um soldado” para invadir o Supremo, para um então ministro, os ministros da Corte deveriam ser presos, daqui e dali fala-se em “novo AI-5”. E o próprio presidente ameaça descumprir ordem judicial em pleno Sete de Setembro. Só “bravata”?

O problema, para setores militares e bolsonaristas, porém, está na esquerda. Segundo eles, Lula tem liderança, está ressentido depois de preso e conta com MST, sindicalistas e radicais, com capacidade para produzir tumultos de rua, quebra-quebra e ameaças à democracia em caso de derrota.

Atenção: não considero esse risco, mas escrevo porque se trata de informação relevante, para ficar no radar o que setores bolsonaristas pensam e, eventualmente, podem usar para validar algum tipo de “reação à altura”.

Na realidade, foi Bolsonaro quem desde o início do seu governo armou civis, foi complacente com o motim da PM no Ceará e forçou alianças com as polícias. E é ele quem insiste na fake news de que a eleição de 2018 foi fraudada e as urnas eletrônicas não são confiáveis. É ele, enfim, quem replica Trump, capaz de estimular o Capitólio.

Não é à toa que, após quase 40 anos da redemocratização, os presidentes do Supremo, do TSE e do Senado se sentem obrigados a defender a democracia e as instituições. Não há clima nem lideranças capazes de incendiar o País, ganhe quem ganhar, mas a campanha vai ser sangrenta... 

O Estado de São Paulo

Lula não é minha mãe




Por Carlos Graieb (foto)

Fui ouvir a entrevista que Lula concedeu hoje a rádios do Paraná e, lá pelos 11 minutos da conversa, senti aquilo que minha tia Albertina chamava de “arrepio nos dentes”. O presidenciável petista estava dizendo que deu atenção especial aos pobres em seus dois mandatos. Então, ele usou uma metáfora.

“Nós fizemos o que faz uma mãe”, disse Lula. “Ou seja, ela cuida de todos os filhos em igualdade de condições, mas aquele que está mais fragilizado é aquele que ela vai fazer um cafuné a mais, que ela vai cuidar melhor, que ela vai dar um pedaço de carne a mais, um copo de leite a mais.”

Foi como voltar ao início dos anos 2000, quando as metáforas de Lula atingiam você em rajadas, dia sim e outro também, todas elas sobre família e futebol. Lembrei mais uma das razões por que não quero que o PT retorne ao governo.

Essa não é, obviamente, a principal razão. Há coisas muito mais graves. Não acredito nas soluções estatizantes do partido para a economia. Além disso, ouço Gleisi Hoffmann dizer que o PT nunca fez nada de errado na Petrobras, e sinto que eles não hesitarão em corromper o sistema político mais uma vez, como no mensalão e no petrolão, quando sentirem aquela tentaçãozinha de permanecer no poder pelos próximos sete mil anos.

Não acho, porém, que as escolhas retóricas de um político sejam totalmente irrelevantes.

Essa ideia do governante paizão ou mãezona, que zela pelo bem estar da meninada, é especialmente perniciosa. Ela eleva o político e diminui os cidadãos.

Lula não é minha mãe. O estado não é nosso pai. E o Código Eleitoral não é o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Não vou discorrer sobre a retórica de Bolsonaro. Digo apenas que não desejo ao Brasil outros quatro anos de vulgaridade ululante e metáforas matrimoniais. Por isso, continuo torcendo pela Terceira Via e pela eleição de alguém que não seja nem pai, nem mãe, nem herói, nem vingador, nem salvador da pátria. Basta que seja um bom presidente.

O Antagonista

Evaristo de Miranda e Embrapa Territorial na mira da “inquisição verde”

 




Por Geraldo Luís Lino

Há anos, o engenheiro agrônomo e doutor em Ecologia Evaristo de Miranda (foto) e sua equipe da Embrapa Territorial, da qual foi um dos fundadores, têm sido proverbiais pedras nos sapatos dos porta-vozes brasileiros do catastrofismo ambiental. O seu “pecado”: contestar com dados do mundo real os cenários apocalípticos sobre uma apregoada “devastação ambiental” no País, em especial, nos biomas Amazônia e Cerrado, que alimentam as insidiosas pautas intervencionistas do aparato ambientalista-indigenista em sua agenda permanente contra o desenvolvimento nacional.

O ataque mais recente veio de um grupo de 12 cientistas vinculados ao aparato ambientalista-indigenista, com um artigo que será publicado na edição de fevereiro da revista Biological Conservation, mas cujo conteúdo foi devidamente antecipado para dar-lhe a necessária publicidade midiática. No texto, intitulado “O risco de falsas controvérsias para as políticas ambientais brasileiras”, os autores acusam Miranda e sua equipe da Embrapa Territorial de “fabricar falsas controvérsias com o intuito de afrouxar as leis e normas para a proteção do meio ambiente no Brasil”, como sintetizou um artigo publicado no sítio da revista piauí (25/01/2022), que, em março de 2021, já havia publicado um alentado ataque a Miranda (“O fabulador oculto”).

Os 12 autores são: Raoni Rajão (Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG); Antonio Donato Nobre (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais-INPE); Evandro Cunha (UFMG); Tiago Ribeiro Duarte (Universidade de Brasília-UnB); Camilla Marcolino (UFMG); Britaldo Soares-Filho (UFMG); Gerd Sparovek (UFMG e Universidade de São Paulo-USP); Ricardo Rodrigues (USP); Carlos Valera (Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC); Mercedes Bustamante (UnB); Carlos Nobre (INPE); e Letícia Santos de Lima (UFMG e Universidade Autônoma de Barcelona).

Previsivelmente, o artigo teve ampla repercussão na mídia nacional, invariavelmente, sob a ótica negativa com que o jornalismo em geral costuma tratar das questões ambientais. Alguns exemplos:

– UOL, coluna de Rubens Valente (25/01/2022): “Estudo mostra como ‘falsas controvérsias’ do governo afetaram meio ambiente”;

– Valor Econômico (25/01/2022): “Cientistas apontam ‘falsas polêmicas’ da Embrapa”;

– O Estado de S. Paulo, coluna de João Lara Mesquita/Mar sem fim (26/01/2022): “Evaristo de Miranda, guru ambiental de Bolsonaro, é acuado por grupo de cientistas”;

– G1/Globonews (26/01/2022): “Informações divulgadas pela Embrapa prejudicaram leis ambientais.”

Um exemplo de cabotinice foi o sítio ambientalista Conexão Planeta (27/01/2022), que publicou uma nota intitulada “Em artigo publicado em revista científica, 12 importantes cientistas brasileiros denunciam ‘guru ambiental’ de Bolsonaro”. No texto, Evaristo de Miranda é descrito como detentor de um “currículo pífio”. A qualificação é um tanto questionável para quem tem um mestrado e um doutorado em Ecologia (Universidade de Montpellier, França), é pesquisador da Embrapa desde 1980 e tem desenvolvido um importante trabalho de divulgação sobre temas ligados à agricultura e o meio ambiente em geral, sempre com um enfoque objetivo, racional e sem concessões ao alarmismo “politicamente correto” – motivo maior da contrariedade raivosa que desperta em seus detratores.

No artigo, os autores batem na mesma tecla depreciativa:

    (…) Desde 1982, o Dr. Evaristo de Miranda produziu em média apenas um artigo científico a cada 3,8 anos. Ele é o primeiro autor de apenas três desses dez artigos, todos publicados antes de 1994 e apenas um publicado em uma revista com fator de impacto considerável… Mas o mais importante é que nenhum dos dez artigos científicos indexados e revisados por pares listados no CV [curriculum vitae] de Miranda proporcionou os detalhes metodológicos do seu trabalho relacionado ao Código Florestal e outras controvérsias, restando apenas relatórios internos, vídeos no YouTube ou capítulos de livros não revisados por pares. (…)

A linguagem e os argumentos descritos no artigo da Biological Conservation denotam a evidente pretensão dos autores de se apresentarem como guardiões de um alegado rigor científico, contra o qual qualquer contestação implicaria em “falsas controvérsias” apresentadas pelos discordantes da “ortodoxia” alarmista prevalecente. Em outras palavras, atuando como uma “Inquisição científica” de coloração esverdeada, completa com o seu “índex” de autores proibidos.

O resumo (Abstract) do trabalho é revelador:

    Falsas controvérsias falsas têm influenciado a formulação de políticas nos temas de saúde e ambientais durante décadas, resultando em importantes retrocessos de implementação em todo o mundo. Como um estudo de caso, neste artigo, nós examinamos controvérsias falsas produzidas por um pequeno grupo de pesquisadores brasileiros ativos, que têm impactado seriamente a conservação ambiental, particularmente em assuntos ligados ao desmatamento e às mudanças climáticas. Com base na literatura, nós desenvolvemos uma tipologia de estratégias voltadas para as falsas controvérsias, que incluem a fabricação de incertezas, abuso de credenciais científicas e desconsideração pela literatura científica. Em seguida, nós examinamos a influência desse grupo de contrários no Congresso Nacional. Depois, analisamos as falsas controvérsias promovidas por esses contrários e argumentamos que, para entendê-los adequadamente, nós precisamos considerar uma estratégia até agora ausente na literatura: a manufatura de “pseudofatos”, ou seja, afirmativas que contrariam a literatura estabelecida, mas se esforçam para aparecer como fatos científicos. Ao contrário de outros contextos, nos quais os contrários têm basicamente buscado lançar dúvidas sobre assuntos consensuais, argumentando que ainda existem consideráveis incertezas sobre eles, no Brasil, os pseudofatos sobre o desmatamento têm sido produzidos e publicados fora da literatura revisada por pares. Nós concluímos o estudo com recomendações sobre como se opor às falsas controvérsias científicas que ameaçam a conservação ambiental em geral.

A soberba dos autores chega ao ponto de rotular como “pseudofatos” quaisquer evidências que contrariem os relatos alarmistas apresentados como “assuntos consensuais” – deixando de lado, providencialmente, o fato elementar de que “consenso” é um conceito alheio à verdadeira Ciência, que se baseia em evidências observadas no mundo real, e não em proporções numéricas, mesmo majoritárias.

Os dois temas citados pelos autores, mudanças climáticas e desmatamento, proporcionam uma legião de exemplos desse preceito fundamental, que tem sido bastante desprezado pelos cientistas que adotaram o ativismo ideológico como orientação preferencial das suas atividades profissionais.

Em relação ao primeiro, a despeito de todo o alarido em torno da alegada influência humana na dinâmica climática global, inexiste qualquer evidência física de que as temperaturas atmosféricas e oceânicas e de níveis do mar, registradas no período posterior à Revolução Industrial do século XVIII, sejam anômalas em relação às registradas nos séculos e milênios anteriores. Enquanto tais anomalias não forem observadas, não se poderá fazer qualquer ilação sobre uma hipotética interferência humana no clima global – ao contrário do que ocorre nos perímetros urbanos, com o amplamente conhecido efeito das “ilhas de calor” (que afeta não mais que 0,5% da superfície do planeta). Evidências contrárias à hipótese do aquecimento “antropogênico”, provenientes de pesquisas realizadas em todos os continentes, têm sido amplamente publicadas em revistas científicas de todo o mundo, apesar de não receberem sequer uma reduzida fração da publicidade consagrada aos estudos alinhados com o alarmismo climático. Uma excelente fonte de dados facilmente acessível é o sítio www.co2science.org, onde se encontram os resumos de literalmente milhares desses artigos científicos, qualquer um dos quais representa um sério óbice para a hipótese catastrofista.

Sobre o desmatamento, um exemplo de hipótese não comprovada pelos alarmistas é a bizarra tese do “ponto de inflexão” da Amazônia, a partir do qual o bioma entraria em deterioração e se converteria em ecossistemas mais pobres. Seus autores são o climatologista Carlos Nobre, um dos autores do artigo, e o recém-falecido biólogo estadunidense Thomas Lovejoy, um dos maiores expoentes da ciência “engajada” nas causas ambientais com finalidades de influência política. De acordo com a tese, tal “inflexão” se tornará irreversível se a proporção de desmatamento do bioma atingir 20% (a atual é 16%), com a sua conversão em ecossistemas menos biodiversos e mais assemelhados ao Cerrado. Todavia, o prognóstico se baseia apenas em modelos matemáticos sem qualquer base factual, como os utilizados nos prognósticos climáticos (não por acaso, outra especialidade de Nobre). No mundo real, o fenômeno jamais foi observado em biomas brasileiros, inclusive, no mais impactados de todos, a Mata Atlântica, que perdeu cerca de 90% de sua cobertura original desde o início da colonização do território brasileiro, no século XVI.

A despeito disso, os autores afirmam que “o risco para o meio ambiente global representado por contrários que promovem falsas controvérsias no Brasil e em outros países pede a necessidade de repensar como a comunidade científica, a sociedade civil e a mídia devem lidar com esses pesquisadores e seus materiais não publicados que definem tendências”.

Para eles, “a comunidade científica não está bem preparada para lidar com falsas controvérsias científicas e difusão de pseudofatos. Ao considerá-los indignos de atenção, a comunidade científica tem permitido que alegações falsamente científicas não sejam contestadas”.

Ou seja, tudo que contrarie a ortodoxia alarmista entra na categoria “falsamente científico”.

Portanto, dizem, “a academia também deve ser culpada pela longa e crescente capacidade das falsas controvérsias científicas de influenciar a política”. Isto, porque, “embora seja bastante extenuante verificar todas as alegações que são tornadas públicas por tais ‘cientistas’ (sic), mais espaço deve ser aberto em periódicos científicos (ou seja, seções de comentários especiais ou artigos de refutação como o nosso), para identificar e discutir de maneira rigorosa as falsas controvérsias científicas”.

Estas poucas passagens de um texto de 12 páginas são suficientes para se aquilatar a pretensão olímpica dos autores. A rigor, tal inclinação não surpreende, já que a metade deles (Raoni Rajão, Antonio Donato Nobre, Britaldo Soares-Filho, Mercedes Bustamante, Carlos Nobre e Letícia Santos de Lima) integra o Painel Científico para a Amazônia (SPA, em inglês), entidade com a pretensão de constituir-se em uma versão “amazônica” do notório Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a encarnação institucional do alarmismo sobre o clima global.

Como o IPCC, o SPA, criado em 2019, está vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU), por intermédio da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável (SDSN), entidade criada em 2012 para promover os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da organização mundial. Com sedes em Nova York e Paris, é presidida pelo economista estadunidense Jeffrey Sachs. Embora o seu orçamento não seja divulgado, recebe recursos de uma pletora de entidades filantrópicas, agências governamentais e empresas privadas, muitas das quais são presenças constantes entre os financiadores do aparato ambientalista-indigenista internacional. Entre outras, destacam-se: Bill & Melinda Gates Foundation; Charles Stewart Mott Foundation (especificamente para o SPA); Gordon & Betty Moore Foundation; William and Flora Hewlett Foundation; Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ); The Foreign, Commonwealth & Development Office of the UK Government (FCDO); Swedish International Development Cooperation Agency (SIDA); The Prime Minister’s Office of the United Arab Emirates; Unilever; Bayer; Iberdrola.

No ano passado, o SPA lançou o “Relatório de Referência sobre a Amazônia”, para alertar sobre um suposto “alerta vermelho” de desmatamento e degradação do bioma, o qual requeriria ações imediatas visando a um “desmatamento zero” até 2030.

“Alerta vermelho”, como se sabe, é a expressão empregada pelo IPCC para referir-se à situação supostamente alarmante do clima global, descrita em seu último relatório, divulgado também em 2021.

Na ocasião, Carlos Nobre, copresidente do SPA, ressaltou: “Nossa mensagem aos líderes políticos é que não há tempo a perder. O atual modelo de desenvolvimento está alimentando o desmatamento e a perda da biodiversidade, levando a mudanças devastadoras e irreversíveis. Para que a Amazônia sobreviva, devemos mostrar como ela pode ser transformada para gerar benefícios econômicos e ambientais que seriam o resultado de colaborações entre cientistas, detentores do conhecimento indígena e seus líderes e governos (Alerta Científico e Ambiental, 07/10/2021).”

Observe-se que, para ele, a “salvação” da Amazônia virá da colaboração entre “cientistas, detentores do conhecimento indígena e seus líderes e governos” – nenhuma menção, por exemplo, a representantes dos setores produtivos amazônicos, que, de resto, costumam ser ignorados nas discussões sobre o futuro da região.

Sua colega no SPA e coautora do artigo, a bióloga chileno-brasileira Mercedes Bustamante, reforçou: “Com os recentes surtos de desmatamento que estão devastando a mais extensa floresta tropical do planeta, devemos também anunciar um alerta vermelho para a Amazônia. Salvar as florestas do desmatamento e degradação contínuos e restaurar os ecossistemas é uma das tarefas mais urgentes de nosso tempo para preservar a Amazônia e suas populações, e enfrentar o risco global e os impactos das mudanças climáticas.”

É exatamente o cenário construído a partir de visões como essas que se vê ameaçado pelo trabalho de cientistas como Evaristo de Miranda e seus colegas.

MSIa

Republicanos decidem que invasão do Capitólio foi "legítima"




Partido afirma que seguidores de Trump que invadiram o Congresso dos EUA em 6 de janeiro de 2021 exerciam uma forma legítima de discurso político. Legenda pune deputados que integram comitê de investigação sobre invasão.

O Partido Republicano dos Estados Unidos decidiu nesta sexta-feira (04/02) que os eventos ocorridos em 6 de janeiro de 2021, incluindo a violenta invasão do Capitólio por apoiadores do então presidente Donald Trump, foram uma forma legítima de discurso político.

Uma convenção do Comitê Nacional da legenda, realizada em Salt Lake City, aprovou por unanimidade uma resolução advertindo formalmente os deputados republicanos Liz Cheney e Adam Kinzinger, que integram um comitê de investigação da Câmara dos Deputados sobre o ataque ao Capitólio.

Duas semanas antes da posse de Joe Biden, apoiadores de Trump, após um discurso inflamado do então presidente afirmando que as eleições haviam sido fraudadas, entraram à força na sede do Congresso americano com o objetivo de tentar impedir a confirmação da vitória eleitoral do democrata. Cinco pessoas morreram no ataque e mais de 100 policiais ficaram feridos.

Mais de 720 pessoas respondem a acusações formais pela invasão, e cerca de 50 já foram condenadas.

"Perseguição de cidadãos comuns"

A resolução afirma que Cheney e Kinzinger participaram, sob a liderança do Partido Democrata, de uma "perseguição de cidadãos comuns" que estavam exercendo o seu direito à legítima expressão política.

Segundo o documento, os dois republicanos teriam apoiado o uso indevido de atividades de inteligência por parte dos democratas para fins políticos.

'Crítica a Trump, a republicana Liz Cheney está isolada em seu próprio partido'

Cheney e Kinzinger são os únicos republicanos no comitê da Câmara dos Deputados sobre o tema. A liderança republicana da Câmara se recusa a cooperar com os democratas na investigação do ataque.

Resolução é uma "desgraça"

Referindo-se a Trump, Cheney disse antes da votação da resolução que o Partido Republico havia se colocado, por sua própria vontade, como "refém" de um homem que queria reverter o resultado de uma eleição presidencial. Ela disse que era conservadora e que respeitava a Constituição.

'Invasão do Capitólio ocorreu após discurso de Trump afirmando que eleições haviam sido fraudadas'

Kinzinger afirmou que os republicanos estavam perdendo a noção da realidade diante de "teorias da conspiração" e de uma cultura "tóxica" de obediência. O senador republicano Mitt Romney, crítico de Trump, também declarou que a resolução contra Cheney e Kinzinger era uma "desgraça".

No final de janeiro, Trump disse que os invasores do Capitólio precisavam ser tratados de "maneira justa" e prometeu que, se eleito presidente em 2024, irá conceder indultos a eles.

Deutsche Welle

A América Latina em três incidentes




A Argentina não está mudando o centro de gravidade apenas na economia. Movimentos recentes mostram que eles podem estar fazendo uma aposta militar. 

Por Leonardo Coutinho 

Oficialmente foi um incidente. O vazamento da transmissão ao vivo de uma reunião entre o presidente da Argentina Alberto Fernández e seu homólogo russo Vladimir Putin expôs o momento em que o argentino disse ser preciso substituir a liderança dos Estados Unidos por outros sócios, inclusive a Rússia. Os jornalistas que aguardavam do lado de fora da sala ganharam a informação de presente por causa de um suposto descuido dos assessores do Kremlin. O caso foi tão “acidental” que uma das várias estatais russas de informação fez o favor de distribuir para o mundo o trecho mais quente e para ajudar acrescentou com legendas, inclusive em português. Incidentes...

Muitas vezes evitando encarar o interlocutor, como se buscasse as ideias pelo chão, Fernández reclamou do Fundo Monetário Internacional (FMI) e sentou a borduna dos Estados Unidos. Como de praxe, repetiu a ladainha de que a culpa da crise argentina é do FMI e transfere para os americanos a responsabilidade pela dívida de seu país.

A edição feita pelos russos e distribuída pelos seus canais oficiais mostra um Putin silencioso, quase sonolento, que observa o argentino sugerindo – quase implorando – que a Rússia faça parte do novo azimute para os argentinos. “A Argentina vive uma situação muito especial. Produto de seu endividamento (...). Desde os anos 90, a Argentina focou sua visão nos Estados Unidos e economia argentina depende muito da dívida que tem com os Estados Unidos.” Em outro trecho ele diz: “Estou convencido de que a Argentina tem que sair dessa grande dependência que tem com o FMI os Estados Unidos. Tem que se abrir para outros lados e aí que a Rússia tem um lugar muito importante.”

Fernández desembarcou em uma Rússia conturbada. Mas não chegou com a bagagem vazia de instabilidades. E não estamos falando da economia e de seu desgosto com os americanos.

A Argentina não está mudando o centro de gravidade apenas na economia. Movimentos recentes mostram que eles podem estar fazendo uma aposta militar. Recentemente, o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Scioli, fez uma queixa ao Brasil. Segundo sua missiva, revelada pela revista Crusoé, “a Argentina apreciará se o governo brasileiro procurar restringir a concessão de permissão para aeronaves militares britânicas provenientes ou com destino às Ilhas Malvinas”.

O Reino Unido é um dos problemas para os planos expansionistas de Putin. Um dos países mais poderosos da Otan, é um aliado historicamente incondicional dos Estados Unidos.

Ajudar a Argentina a elevar a temperatura na América do Sul, em torno da irremediável disputa pelas Malvinas, pode ser um instrumento de diversionismo e de estratégia. Os chineses já estão militarmente presentes por lá desde 2015, camuflados em uma base militar disfarçada de pesquisa espacial. Recentemente, passaram a financiar uma estrutura na Patagônia que permitirá aos argentinos ampliar sua presença na Antártida – em uma clara resposta aos britânicos, que também ampliam sua presença naquela parte do planeta.

Por mais insólito que possa parecer, a aproximação da Rússia pode ter um link Malvinas-Ucrânia, no qual a Argentina entrou no jogo para ajudar a espraiar a crise.

No fim do mês, o presidente Jair Bolsonaro também irá a Moscou. Ele se sentará na mesma poltroninha na qual Alberto Fernández foi o protagonista do suposto incidente que serve de alerta para o brasileiro. O “incidente” com o argentino pode ter sido providencial para o brasileiro. É uma incursão que não permite deslizes ou, muito menos, brincadeiras.

No mesmo dia em que Fernández teve seu vídeo distribuído pelos canais russos, Jair Bolsonaro desembarcou na floresta amazônica para se reunir com o peruano Jose Pedro Castillo. Entre apertos de mão e abraços, Bolsonaro posou com o chapelão “Pepe Legal” de Castillo. A imagem foi distribuída pelo governo peruano, que depois a apagou de sua página oficial. Um incidente da real realpolitik capaz de atingir em cheio a parte mais fundamentalista de qualquer matiz política, que tende a não suportar. Por mais que os seguidores mais fiéis de Bolsonaro encontrem justificativa para tudo, vê-lo fantasiado com o sombrero do vizinho marxista não é algo que deve sair impune.

É evidente que o Brasil deve estreitar seus laços com Peru e Rússia, para ficar apenas nos dois casos. O potencial do país de Castillo para impulsionar nossa economia é diminuto. A Rússia tem uma economia menor que a dos estados da Califórnia, Texas e Nova York. Tem, inclusive, um PIB abaixo do brasileiro. Está bem longe dos poderosos Estados Unidos e China, mas é um parceiro bem importante. Ainda mais relevante por ser uma fonte de um insumo cada vez mais restrito no mercado e que faz do Brasil um refém: fertilizantes. Talvez essa seja a principal razão da viagem de Bolsonaro a Moscou. Buscar formas de ampliar o fornecimento de fertilizantes ao Brasil, ainda que seja por meio de uma incursão por um terreno minado.

Apenas um dia antes, moradores de um condomínio de Guayaquil registraram em vídeo uma operação de resgate dos bombeiros locais. Depois de arremessar vários objetos de sua janela, no 17º andar do edifício, um homem usando apenas bermudas gritava frases desconexas e prometia se jogar. Foram horas assim.

Uma operação de resgate foi montada no topo do edifício. Dois homens paramentados e atados pelas costas estavam a postos para o bote. Aquela famosa descida de rapel acompanhada por um assalto sobre o suicida, de forma a empurrá-lo para dentro do imóvel e assim contê-lo.

Na hora H, quando o bombeiro se lançou para o salto salvador, ele ficou enroscado na corda e se chocou contra a parede. Pendurado de ponta-cabeça, ele viu o homem se debruçar no parapeito e cair.

A vítima era um venezuelano. Pelos jornais equatorianos, não é possível saber nada além de sua nacionalidade e prenome. Anthony se matou por razões não reveladas, mas morreu como a metáfora de seu país. Vítima de seus próprios problemas, mas também dos erros de quem se prestou a tentar salvá-lo.

A Venezuela é um país que passou os últimos anos pendurado na janela. Seu povo gritou por socorro. O resgate nunca veio. Talvez tenha até subido no telhado, mas ficou enroscado de ponta-cabeça sem jamais triscar sequer na janela pela qual a ditadura empurra o país inteiro, a cada dia um pouco mais. O regime – que não opera sozinho, mas com o suporte irrestrito dos chineses e russos que avançam na América Latina – sempre soube tirar vantagem das derrapagens de quem se apresentou para resgatar o país.

Gazeta do Povo (PR)

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