quarta-feira, setembro 08, 2021

8 Ameaças ao STF elevam pressão por impeachment, mas Bolsonaro mantém base para proteger mandato, dizem deputados




Com distribuição de verbas e cargos a deputados, Bolsonaro mantém base contra impeachment na Câmara

Por Mariana Schreiber, em Brasília

Após o presidente Jair Bolsonaro intensificar os ataques ao Supremo Tribunal Federal e ameaçar não cumprir decisões do ministro Alexandre de Moraes em discurso a seus apoiadores durante ato em São Paulo neste 7 de setembro, aumentaram as cobranças pela abertura de um processo de impeachment no Congresso.

Para os defensores da cassação de Bolsonaro, ele comete evidente crime de responsabilidade ao atacar o Judiciário de forma tão virulenta, quando a Constituição estabelece justamente o contrário, que os Poderes devem atuar com independência e harmonia.

No entanto, mesmo parlamentares que fazem oposição a Bolsonaro reconhecem que o presidente ainda mantém uma base capaz de evitar o impeachment.

Até o momento, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), único que pode iniciar um processo, tem atuado como aliado de Bolsonaro. Por trás dessa aliança, está a distribuição de verbas federais para investimentos na base eleitoral de deputados, além da nomeação de indicados do Centrão (grupo de partidos de centro-direita) para ministérios e outros cargos da União.

Para uma importante liderança do MDB no Congresso ouvida pela BBC News Brasil, os atos de 7 de setembro "devem mudar pouco" o equilíbrio de forças no Parlamento.

Por um lado, o público nos principais protestos, em São Paulo e Brasília, ficou abaixo dos "milhões" anunciados por bolsonaristas nos últimos dias. De outro, o presidente foi capaz de mobilizar algumas dezenas de milhares de apoiadores, evidenciando que mantém uma base fiel mais radicalizada relevante.

"Eu acho que os atos foram muito aquém do que eles esperavam. Agora, mostraram força e mostraram que Bolsonaro tem uma fatia da população que é fanática por ele", disse à reportagem o parlamentar do MDB.

Segundo essa liderança, o partido ainda discutirá internamente a possibilidade de apoiar o impeachment.

"O MDB respeita divergências programáticas, mas se aferra à Constituição, que determina a independência harmônica entre os poderes. Contra isso, o próprio texto constitucional tem seus remédios em defesa da democracia, que é sinônimo da vontade do povo", defendeu o partido, em uma nota oficial assinada pelo presidente da sigla, deputado Baleira Rossi.

Segundo estimativa da Polícia Militar de São Paulo, cerca de 125 mil pessoas compareceram ao ato da avenida Paulista, onde Bolsonaro discursou na tarde desta terça-feira e chamou de "canalha" Alexandre de Moraes.

O ministro, que é o relator no STF de investigações contra o presidente e seus apoiadores por supostos ataques criminosos às instituições democráticas, determinou nas últimas semanas a prisão de alguns bolsonaristas, como o ex-deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson, e o blogueiro Wellington Macedo.

"Qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, este presidente não mais cumprirá. A paciência do nosso povo já se esgotou. Ele tem tempo ainda de pedir o seu boné e ir cuidar da sua vida. Ele, para nós, não existe mais! Liberdade para os presos políticos! Fim da censura! Fim da perseguição àqueles conservadores, àqueles que pensam no Brasil", discursou o presidente.

'Presidente ameaçou não cumprir decisões do STF ao discursar para apoiadores'

Antes disso, Bolsonaro já havia discursado pela manhã durante o ato em Brasília, com ataques similares a Moraes e ao STF. Em reação, o presidente do PSDB, Bruno Araújo, convocou reunião extraordinária da sigla para esta quarta-feira (08/09) para discutir a posição do partido em relação à cassação de Bolsonaro "diante das gravíssimas declarações do presidente da República".

Hoje, a defesa do impeachment está mais concentrada em partidos de esquerda. Eventual mudança de posição de PSDB e MDB representaria um crescimento da adesão da centro-direita à tentativa de derrubada de Bolsonaro. Na prática, porém, parte dos deputados tucanos e emedebistas têm apoiado o governo nas votações do Congresso.

O presidente do Solidariedade, deputado Paulinho da Força, por sua vez, disse à BBC News Brasil que seu partido também discutirá nesta semana se muda sua posição para apoiar o impeachment do presidente. Ele, porém, se mantém cético sobre a abertura de um processo.

"Mesmo o Solidariedade decidindo apoiar o impeachment e o PSDB também, acho que não vai ter força no Congresso pra fazer isso agora porque a maioria prefere derrotá-lo nas urnas", avalia.

Para o presidente do Solidariedade, os mesmos deputados que garantem apoio suficiente para evitar um impeachment hoje não devem manter a aliança com Bolsonaro na eleição do próximo ano, devido à queda de popularidade do presidente auferida em diferentes pesquisas de opinião.

"Muitos dos deputados que votam com ele (hoje) votam pensando nas emendas (recursos para investimentos na base eleitora) e cargos. Mas são os mesmos que vão abandoná-lo lá na frente por outra candidatura", acredita.

Já o presidente do PDT, Carlos Lupi, afirma que é possível convencer Arthur Lira a abrir um processo contra Bolsonaro se de fato a adesão ao impeachment crescer entre os partidos.

"O presidente da Câmara, para conseguir sobreviver, tem que representar a voz da maioria. Eu percebo que se essa maioria tende, como não acontecia antes, a apoiar o impeachment, ele vai acompanhar essa maioria", diz.

"Está na hora de os democratas se unirem e dar a resposta a Bolsonaro. Quando você não respeita a independência dos Poderes, diz que não aceita mais decisão judicial, ele está rasgando a Constituição. E o remédio é usar a Constituição contra ele com processo de impeachment", defendeu ainda.

Atos não serviram como 'ultimato' ao STF

A intenção de Bolsonaro com os atos de 7 de setembro era dar um "ultimato" ao STF. Na visão de Carlos Lupi, porém, o efeito deve ser contrário. Os fortes ataque a Moraes, acredita, devem reforçar o espírito de corpo e a união da Corte frente ao governo.

A previsão é que o presidente do STF, Luiz Fux, responderá às ameaças de Bolsonaro nesta quarta-feira, antes de iniciar a sessão de julgamento da Corte.

'Alexandre de Moraes foi o alvo preferido dos manifestantes bolsonaristas'

Paulinho da Força também duvida que os protestos de terça-feira consigam intimidar Moraes na condução das investigações contra Bolsonaro e seus apoiadores

Mesmo parlamentares aliados do presidente ouvidos pela BBC News Brasil tiveram dificuldade de apontar algum efeito concreto dos atos na atuação do Supremo

"Servindo para os ministros começarem a refletir, já é um grande ganho, a gente já está considerando a manifestação válida", afirmou o deputado Capitão Augusto (PL/SP), celebrando a dimensão dos atos: "Que outro político consegue arrastar uma multidão como essa?", questionou.

Vice-líder do governo na Câmara, o deputado Evair de Melo (PP-ES), também comemorou o tamanho dos protestos e disse esperar que Moraes mude sua postura.

"É bom o Alexandre de Moraes tomar juízo e não subestimar a manifestação popular do dia de hoje. Dá tempo dele rever alguns atos, atitudes deles, conceitos dele", disse. 

BBC Brasil

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Após o discurso de 7 de setembro, o PSDB decide discutir o impeachment de Bolsonaro

Bruno Araújo propõe que os tucanos apoiem o impeachment

Após o presidente Jair Bolsonaro renovar as ameaças ao Supremo Tribunal Federal (STF) durante os atos deste 7 de setembro, o presidente do PSDB, Bruno Araújo, decidiu convocar reunião da Executiva nacional do partido para discutir o apoio à  eventual abertura de impeachment de chefe do Executivo.

Será a segunda sigla de centro a se mostrar disposta a encampar um dos pedidos de afastamento do presidente da República, pois o PSD já sinalizou nessa direção.

GRAVÍSSIMAS – Em nota, Bruno Araújo considerou como “gravíssimas” as declarações de Bolsonaro. Durante o discurso, o presidente voltou a adotar tom de intimidação e mandar recados ao STF.

Sem citar nomes, Bolsonaro afirmou que “uma pessoa específica” da Praça dos Três Poderes, onde fica a sede da Corte, não pode continuar “barbarizando”.

Nos últimos dias, o presidente tem direcionado seus ataques ao ministro do tribunal Alexandre de Moraes, relator de duas investigações envolvendo o presidente. “Não mais aceitaremos qualquer medida, qualquer ação ou sentença que venha de fora das quatro linhas da Constituição. Também não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica da região dos três Poderes continue barbarizando a nossa população. Ou chefe desse poder enquadra o seu ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos” — disse Bolsonaro, que tem criticado membros do Poder Judiciário, chefiado pelo ministro Luiz Fux, presidente do STF.

VERGONHOSO MOMENTO – Para o presidente do PSDB, os partidos precisam se posicionar sobre “o vergonhoso momento da história brasileira”.

“Com as declarações de hoje, não dá para partido político se esconder. Tem de haver posição clara do que pensa e como age cada partido em relação a esse vergonhoso momento da história brasileira” — afirmou Brano Araújo.

O pedido de impeachment deve receber apoio de importantes nomes do PSDB, como o governador de São Paulo, João Doria, que faz oposição ao governo federal, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.

RESISTÊNCIA – Porém, reservadamente, dirigentes do PSDB legenda admitem que o impedimento de Bolsonaro pode sofrer resistência dentro do Congresso, já que parte dos 33 deputados temem sofrer represália na liberação de emendas.

Nesta semana, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, também disse que se a escalada do presidente contra a democracia continuar, o partido pode vir a apoiar o pedido de impeachment.

Kassab considera inadmissível que, no meio de uma pandemia, o presidente gaste seu tempo, o de ministros e assessores, e recursos públicos participando de motociatas e ameaçando a democracia, mais de 30 anos depois da promulgação da Constituição Federal.

O Globo / Tribuna da Internet

Fim do STF e “democracy, yes”. As contradições do ato pró-Bolsonaro na Paulista




Em clima de festa e desagravo ao presidente, ato do 7 de Setembro na capital toma a avenida Paulista, mas deixa de fora a vida real da maioria dos brasileiros: desemprego, crise econômica e alta de preços

Por Lela Beltrão, Gil Alessi e Regiane Oliveira

“Nós estamos aqui defendendo a liberdade!”, gritava do alto do carro de som um apoiador do presidente Jair Bolsonaro na tarde desta terça-feira, na avenida Paulista, em São Paulo. Na lateral do caminhão, uma grande faixa dizia “We the people authorize, Bolsonaro” (Nós o povo autorizamos, Bolsonaro), uma referência ao apoio de parte da população para que o presidente lance mão da medidas autoritárias para governar. Esta contradição entre pedidos de liberdade de um lado e intervenção militar do outro deu o tom do protesto massivo realizado neste 7 de Setembro na capital paulista, que teve como principal alvo o Supremo Tribunal Federal (STF) —em especial o ministro Alexandre de Moraes.

A multidão predominantemente branca vestida de verde e amarelo ocupou ao menos 11 quarteirões do principal cartão postal de São Paulo para demonstrar apoio ao mandatário. Não era um espaço para debate de ideias. A mínima contestação de alguma informação gerava um forte rechaço. “Contra quais comunistas vocês estão lutando?”, perguntou a repórter do EL PAÍS a um manifestante. “Se você não sabe, tem que voltar para a escola de jornalismo”, respondeu Vitor de Souza, 52 anos, animado com o número de participantes, maior até do que a época em que frequentava as passeatas dos caras pintadas, contra o Governo Collor.

O hino nacional, repetido à exaustão, vez ou outra dava lugar a alguma música do cantor sertanejo Sérgio Reis, alvo de uma ação da Polícia Federal após defender atos antidemocráticos. Ele é um dos apoiadores radicais do presidente que tiveram sua “liberdade” cerceada, segundo simpatizantes: “Estamos com você, Serjão!”, gritavam os manifestantes ao ouvir a versão do cantor de Menino da Porteira. O clima era de festa. Patriota vestido de xerife norte-americano, monarquistas pela República. Anticomunistas em apoio à causa LGBTI+. Liberais contra a ditadura do STF. Religiosos pela criação da grande nação cristã do Brasil para todo mundo. Nacionalista defendendo que “our flag will never be red” (nossa bandeira jamais será vermelha). Não faltaram também os armamentistas em prol de sua própria paz.

Em comum, a fé incondicional no “mito” criado por Bolsonaro, por quem estavam dispostos a abrir mão dos valores que balizaram a construção do Brasil democrático nos últimos 30 anos. Vibraram até quando ele gritou: “Digo aos canalhas, eu nunca serei preso!”, expondo um temor diante das suspeitas de corrupção que estão chegando a ele pela CPI da Pandemia, e pelas investigações sobre o esquema de rachadinha de membros da sua família. “Está na primeira linha da Constituição: todo o poder emana do povo. E se o povo pedir uma intervenção militar, isso não será um problema”, explica Marco Júnior, 32 anos, que defende “intervenção militar com Bolsonaro no poder”. O motivo de sua insatisfação com a democracia: os comunistas, a sexualização das crianças e a falta de liberdade religiosa.

Nas faixas, cartazes e palavras de ordem gritados na Paulista não havia espaço para a crise econômica, desemprego ou o aumento no preço dos alimentos e do gás de cozinha, que tanto incomodam a população brasileira. “Nada disso é culpa do Bolsonaro, é culpa dos governadores”, afirmou o soldador Adriano Prestes, 36, que veio para a capital em uma caravana de cinco ônibus que partiu de Sorocaba, no interior paulista, na manhã desta terça-feira. “Se os governadores não tivessem fechado o comércio e as fábricas, as coisas não estariam assim”, diz, emulando um discurso já clássico do presidente, ao se eximir de responsabilidade. Sua esposa, Juliane Monteiro Vieira, 34, é motorista de aplicativo. Eles dizem ter pago 35 reais cada por um lugar no fretado que lhes trouxe para o ato, e fazem questão de frisar: “Aqui não tem sanduíche de mortadela não”. A afirmação é uma referência pejorativa ao suposto lanche pago pelos movimentos sociais de esquerda aos seus militantes para comparecer a protestos.

Nas ruas do entorno da avenida Paulista, dezenas de ônibus fretados estacionados davam a dimensão da logística envolvida no ato desta terça-feira. Caravanas vindas do interior do Estado e também de unidades federativas vizinhas, como Paraná e Mato Grosso do Sul, trouxeram milhares de pessoas para a capital, e ajudaram a fazer do protesto um dos maiores em apoio ao presidente desde que ele tomou posse, em 2019. Chamou a atenção na Paulista uma série de cartazes e banners repetidos e padronizados, impressos em vinil ou plástico duro, sinal de que, para além das cartolinas escritas à mão, com caneta, alguém investiu boa soma de dinheiro em material gráfico que foi distribuído aos manifestantes. Vários deles falavam em “intervenção constitucional no STF”, uma frase que remete ao discurso feito por Bolsonaro durante a manhã desta terça, em Brasília, quando o mandatário disse que poderia acionar o Conselho da República, órgão que em tese teria autonomia para declarar “intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio”, de acordo com o texto da lei.

In english

Se não fosse a multidão vestida de verde e amarelo, um desavisado poderia ter a impressão de estar em outro país. “Democracy yes, communism no” (Democracia sim, comunismo não) , “Alexandre de Moraes, you are fired!” (Alexandre de Moraes, você está demitido!) e “Printed and auditable vote now!” (voto impresso e auditável agora!) eram algumas das dezenas de frases escritas em inglês que se multiplicavam em cartazes e banners no ato desta terça. Uma ou outra trazia ainda os dizeres “Wir Brasilianer wollen Freiheit [Nós brasileiros queremos liberdade]”, escritos em alemão.

As mensagens em outras línguas mostram a preocupação que os organizadores do protesto têm com relação à imagem do país —e do presidente— lá fora, em meio à crescente apreensão global com a deterioração da democracia brasileira. “Um gringo que se informa pela mídia brasileira não tem acesso à verdade dos fatos”, afirmou Henrique Ferreira Deltoni, 38, que levava um pequeno cartaz onde se lia “STF Yes, Luiz Fux No” (STF sim, Luiz Fux [presidente do Supremo] não). Havia até um alerta: “the international midia lies” (a imprensa internacional mente).

Vestido com boina e coturno pretos e farda verde oliva com a palavra “Veterano” escrita em um patch colado na altura do peito, Claudinei Aparecido Raimundo, 47, observava a multidão verde e amarela que lotava a avenida Paulista. Cabo da reserva do Exército, ele liderava um grupo de homens com roupas camufladas que posava para fotos com os manifestantes. “Todos os poderes têm seu limite. Inclusive o Supremo. Eu sou favorável ao fim do STF, sim”, afirmou. Raimundo também defendeu o direito de policiais e militares da ativa participarem de atos políticos como este, do dia 7 de Setembro. “O direito à manifestação é um direito garantido e sagrado”, disse.

Havia o temor de que policiais da ativa fossem ao ato para manifestar apoio ao presidente, o que não ocorreu: de fato, havia um enorme efetivo da PM no local, todos trabalhando. De acordo com o Governo de São Paulo, 4.000 policiais atuaram na segurança na Paulista e no vale do Anhangabaú, onde ocorreu um protesto contra o presidente.

Nem mesmo a sensação térmica superior aos 30 graus e o sol a pino foram capazes de aplacar os ânimos dos participantes, muitos dos quais vieram do interior de São Paulo e de outros Estados, como Mato Grosso e Paraná. Crianças e suas famílias, dividiam o espaço com grupos de amigos e muitos idosos. As máscaras não eram traje obrigatório, mesmo com o avanço da variante delta do coronavírus, mas elas estavam presentes.

Por vezes, ouvia-se a defesa da democracia de um dos seis carros de som que ocupavam a Paulista. Mas sempre uma defesa condicional: “Vocês estão aqui para prender jornalista?”, perguntou um bolsonarista no carro de som. O público respondeu em coro: “Não”. Ele retrucou: “Mas alguns merecem”. Os manifestantes pareciam encantados com o número de participantes. “Não esperava tanta gente”, um bolsonarista afirmou ao puxar conversa. “Você é da imprensa, seja bem-vinda”. Outros, porém, alertavam: “cuidado aí, comunista”. Os alertas foram mais frequentes que os problemas. Um rapaz que decidiu atravessar a manifestação com uma camiseta do ex-bolsonarista Mamãe Falei ouviu provocações. “É um suicida”, disse uma mulher, que estava acompanhada de sua família. “Queria ver se um bolsonarista fosse com sua camiseta numa manifestação petista”, afirmou.

El País

Bolsonaro prega descumprimento de decisões de Alexandre de Moraes e diz que “canalhas” nunca irão prendê-lo

 




A apoiadores na Avenida Paulista, Bolsonaro também voltou a atacar o atual sistema eleitoral e defendeu o voto impresso

Por Marcos Mortari 

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante manifestações no dia 7 de setembro (Foto: Marcos Corrêa/PR)

SÃO PAULO – O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) repetiu, nesta terça-feira (7), ameaças contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e voltou a atacar o ministro Alexandre de Moraes. O mandatário, que pela manhã havia participado de ato com apoiadores na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, discursou nesta tarde na Avenida Paulista, em São Paulo, a milhares de apoiadores.

“Ou esse ministro [Alexandre de Moraes] se enquadra ou ele pede para sair”, afirmou Bolsonaro em tom mais duro do que no primeiro discurso. Moraes é relator do inquérito das Fake News no STF e tem proferido uma série de decisões negativas ao presidente e aliados.

“Não se pode admitir que uma pessoa apenas, um homem apenas turve a nossa liberdade. Dizer a esse ministro que ele tem tempo ainda para se redimir, tem tempo ainda de arquivar seus inquéritos. Sai, Alexandre de Moraes. Deixa de ser canalha”, continuou o presidente.

“Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá [suas decisões]”, disse. “A paciência do nosso povo já se esgotou”, complementou. A transmissão em tempo real do discurso foi feita pela internet e apresentou falhas.

Assim como discursos anteriores, Bolsonaro afirmou que as únicas opções para ele são ser preso, morto ou a vitória. Na sequência, porém, disse que nunca será preso. “Dizer àqueles que querem me tornar inelegível em Brasília: só Deus me tira de lá”, afirmou.

“Dizer aos canalhas que eu nunca serei preso. A minha vida pertence a Deus, mas a vitória é de todos nós”, complementou.

Durante o discurso, Bolsonaro também voltou a atacar o sistema eleitoral brasileiro e defendeu a implementação do voto impresso – pauta recentemente derrubada pelo Congresso Nacional. O mandatário, ainda, subiu o tom contra o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Luís Roberto Barroso.

“Não é uma pessoa que vai nos dizer que esse processo é seguro e confiável porque não é”, afirmou. “Não posso participar de uma farsa como essa patrocinada ainda pelo presidente do TSE”, completou. Foi justamente o embate envolvendo o voto impresso o estopim para a escalada da crise institucional protagonizada pelo presidente e integrantes do Poder Judiciário.

InfoMoney

Em protestos, Bolsonaro faz ameaça golpista ao STF

 




Bolsonaro em Brasília, durante evento com apoiadores

Enfraquecido, presidente comparece a atos em Brasília e São Paulo convocados para mobilizar ala mais radical de seus apoiadores. Ele repete ameaças ao Supremo e diz que "só Deus me tira de Brasília".

O presidente Jair Bolsonaro discursou nesta terça-feira, feriado de 7 de Setembro, em atos pró-governo, quando voltou a expressar falas em tom golpista, fazer ameaças ao Supremo Tribunal Federal (STF) e criticar o sistema eleitoral do país.

Em São Paulo, diante de apoiadores aglomerados na Avenida Paulista, o presidente renovou seus ataques ao STF, que recentemente prendeu vários de seus aliados e tem tomado algumas iniciativas para impedir que o governo tumultue as eleições de 2022.

Bolsonaro chegou a mencionar pelo nome o ministro Alexandre de Moraes, seu desafeto na Corte e responsável por inquéritos que afetam bolsonaristas. "Ou esse ministro se enquadra ou ele pede pra sair", afirmou. "Não vamos admitir que pessoas como Alexandre de Moraes continuem a violar nossa democracia."

Após ter rejeitada pelo Congresso sua proposta de reforma do sistema eleitoral, o presidente voltou a questionar a idoneidade e a segurança das eleições, apesar de ainda não apresentar evidências que comprovem suas acusações.

"Não podemos admitir um sistema eleitoral que não oferece qualquer segurança", disse. "Não é uma pessoa do Tribunal Superior Eleitoral que vai nos dizer que esse processo é seguro e confiável." Bolsonaro é crítico das urnas eletrônicas e defende o voto impresso auditável, apesar de o TSE ter assegurado que as urnas já são auditáveis.

No fim do discurso, Bolsonaro ainda repetiu uma frase que havia dito há poucos dias, sobre seu futuro em Brasília: "[Só saio] preso, morto ou com vitória. Direi aos canalhas que eu nunca serei preso", declarou. "Só Deus me tira de Brasília." 

Segundo a Polícia Militar, o ato na Paulista reuniu 125 mil pessoas. Uma manifestação simultânea organizada por grupos de oposição a Bolsonaro no Vale do Anhangabaú, o chamado Grito dos Excluídos, contou com 15 mil pessoas. 

Horas antes, o presidente já havia feito ameaças ao Supremo em um primeiro discurso no protesto de Brasília, também parte de uma convocação nacional organizada por ele e aliados.

"Ou o chefe do Poder [Judiciário] enquadra o seu, ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos", disse Bolsonaro, em recado direto ao presidente do STF, Luiz Fux. "Quem age fora dela [Constituição] ou se enquadra, ou pede para sair", completou Bolsonaro, no ato que reuniu apoiadores na capital federal.

"Não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica da região dos Três Poderes continue barbarizando a nossa população. Não podemos aceitar mais prisões políticas no nosso Brasil", discursou.

No momento, Bolsonaro enfrenta uma queda constante de aprovação, economia em crise, pandemia, o fantasma de um apagão energético, insatisfação crescente entre o empresariado e denúncias de corrupção.

"[Só saio] preso, morto ou com vitória. Direi aos canalhas que eu nunca serei preso", diz Bolsonaro em São Paulo

Tentativa de demonstrar força

A convocação dos atos deste feriado é encarada como uma tentativa de Bolsonaro de demonstrar alguma força nesse momento de perda de influência e como uma forma de intimidar o STF. Os atos vêm sendo divulgados há semanas pelo presidente, também como uma forma de agitar a ala extremista de sua base.

O foco das falas foi especialmente dirigido aos ministros do STF Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso – este também presidente do TSE –, que são com frequência tratados como inimigos pelo presidente e sua base.

Moraes é responsável por diversos inquéritos que afetam bolsonaristas e determinou a prisão de aliados do presidente, como o deputado Daniel Silveira e o presidente do PTB, Roberto Jefferson, que incitaram violência contra ministros do Supremo.

Já Barroso, na condição de presidente do TSE, se opõe à adoção do voto impresso, uma bandeira bolsonarista, encarada como uma forma de minar a confiança no processo eleitoral e tumultuar as eleições de 2022, que se desenham extremamente desfavoráveis para Bolsonaro, segundo pesquisas.

Bolsonaro também tem um longo histórico de falas a favor de um golpe de Estado no Brasil, e desde que tomou posse tem protagonizado embates tanto com o Judiciário quanto com o Congresso.

Atos de 7 de Setembro

O discurso do presidente não foi transmitido ao vivo por canais de TV ou redes sociais devido a dificuldades técnicas no sinal da região. Algumas filmagens conseguiram captar apenas alguns trechos da fala do presidente, que estava cercado de apoiadores que seguravam placas e faixas pedindo um golpe militar e a dissolução do STF e do Congresso.

Atos bolsonaristas também ocorrem no Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre e outras capitais.

Em Brasília, imagens da manifestação mostraram um comparecimento mais considerável que nos esvaziados protestos bolsonaristas dos últimos meses, mas observadores políticos apontaram que o número de manifestantes foi menor do que o esperado. Filmagens aéreas mostraram vários espaços vazios ao longo da Esplanada. Era também possível ver junto aos canteiros diversos ônibus e caminhões que transportaram manifestantes.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, houve registro de episódios de violência em Brasília. Pelo menos duas pessoas na Esplanada dos Ministérios que participavam dos atos com filmagens foram apontadas como "infiltradas" por manifestantes da base radical do presidente e agredidas com empurrões e socos.

Em São Paulo, simultaneamente à manifestação na Paulista, ocorria um ato organizado pela oposição, o Grito dos Excluídos, que reuniu milhares de pessoas no Vale do Anhangabaú, região central da cidade. A manifestação é organizada tradicionalmente em 7 de setembro por partidos da esquerda, encabeçados por PT, Psol e PSB, e por centrais sindicais.

Um dos organizadores do evento, o coordenador da Central de Movimentos Populares, Raimundo Bonfim, disse que, pela primeira vez em 27 anos, a manutenção da democracia é o tema central do Grito dos Excluídos, em vez de desemprego, fome e exclusão social.

Segurança reforçada

O Supremo Tribunal Federal, um dos alvos favoritos de críticas dos bolsonaristas, reforçou a segurança do seu prédio para desestimular potenciais atos de depredação ou invasão.

Em várias redes bolsonaristas, seguidores mais fanáticos do presidente têm encarando os protestos do feriado como uma oportunidade de insurreição similar a que ocorreu em 6 de janeiro nos EUA, quando uma turba de apoiadores de Donald Trump invadiu o Capitólio para tentar impedir a confirmação da vitória de Joe Biden, ou como uma chance de estimular as Forças Armadas a aderirem ao movimento.

Influenciadores bolsonaristas já estimularam atos violentos no passado que acabaram não se materializando ou que não geraram o efeito desejado. Dessa forma, analistas apontam que os atos podem se limitar a servir para mais uma vez agitar a base extremista do governo e alimentar a tensão permanente com outros Poderes.

Antes de participar do ato com apoiadores, Bolsonaro acompanhou a cerimônia de hasteamento da bandeira ao lado de 16 ministros e do ex-presidente e senador Fernando Collor, nos jardins do Palácio da Alvorada.

Também participaram o vice-presidente, Hamilton Mourão (PRTB), e o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), que está no centro de um escândalo envolvendo suspeitas de compra superfaturada de vacinas e favorecimento de empresas.

Em meio ao clima de tensão entre os Poderes estimulado por Bolsonaro, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, o presidente da Câmara, Arthur Lira, e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, não participaram da cerimônia de hasteamento da bandeira.

Mais cedo, Pacheco publicou em suas redes sociais uma mensagem sobre a "absoluta defesa do Estado Democrático de Direito".

"Ao tempo em que se celebra o Dia da Independência, expressão forte da liberdade nacional, não deixemos de compreender a nossa mais evidente dependência de algo que deve unir o Brasil: a absoluta defesa do Estado Democrático de Direito", escreveu o senador, que recentemente freou uma investida de Bolsonaro contra o Judiciário ao engavetar um pedido de impeachment apresentado pelo presidente contra o ministro Alexandre de Moraes.

Deutsche Welle

'Nunca serei preso': Bolsonaro ataca Judiciário e questiona eleições em discurso na Paulista




Presidente discursou para militantes pró-governo em Brasília antes de ir a São Paulo

Após atacar o Supremo Tribunal Federal (STF) em discurso em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro fez um breve pronunciamento a militantes pró-governo na avenida Paulista nesta terça-feira (07/09) e elevou o tom de críticas ao Judiciário.

Voltando a questionar as eleições e disse que não pode "participar de uma farsa como essa patrocinada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)".

O presidente voltou a bater na tecla do voto impresso (que foi rejeitado pelo Congresso) e disse que "só Deus" o tira do poder.

"Só saio preso, morto ou com vitória", afirmou o presidente. "Quero dizer aos canalhas que eu nunca serei preso."

O presidente chegou por volta das 14h em São Paulo, após participar de atos também em Brasília.

"A paciência do nosso povo já se esgotou! Nós acreditamos e queremos a democracia! A alma da democracia é o voto! E não podemos admitir um sistema eleitoral que não oferece segurança", afirmou.

"Não é uma pessoa no Tribunal Superior Eleitoral que vai dizer que esse processo é seguro, usando a sua caneta desmonetizar páginas que criticam esse sistema de votação", disse ele, em referência a decisões da Justiça contrárias a sites que espalharam notícias falsas.

"Não podemos ter eleições em que pairem dúvidas", afirmou.

O presidente fez críticas ao ministro do STF Alexandre de Moraes, dizendo que não vai mais admitir ou obedecer ordens como as dele. Também fez críticas ao ministro Luis Roberto Barroso, que não foi nomeado, mas citado como "presidente do TSE".

Nos últimos dias, Bolsonaro tem concentrado seus ataques ao STF ao ministro Alexandre de Moraes, que é relator do caso sobre a divulgação de notícias falsas sobre a eleição - conhecido como "inquérito das fake news".

Por causa de ataques de Bolsonaro à urna eletrônica e ao sistema eleitoral, Moraes determinou a inclusão do presidente na investigação, a pedido do TSE. Bolsonaro chegou a enviar pedido de impeachment de Moraes ao Senado, onde o pedido foi rejeitado.

Militantes na Paulista

As manifestações de militantes bolsonaristas neste domingo foram organizadas em um momento em que o presidente enfrenta queda de popularidade, aumento da rejeição e inúmeras crises em seu governo - como alto desemprego, inflação, pandemia, e crise hídrica e energética.

Com pedidos de intervenção militar e ataques ao STF, a avenida Paulista, em São Paulo, concentrou os manifestantes, que vieram em caravanas de diversos locais do país. Outras cidades, como Brasília, também tiveram movimentação bolsonarista, mas em números menores. 

BBC Brasil

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Na Paulista, Bolsonaro exorta desobediência a Moraes e repete que só “morto” deixa o poder 

Em seus discurso, Jair Bolsonaro diz que nunca será preso

Em discurso diante de milhares de apoiadores nesta terça-feira (7) na avenida Paulista, o presidente Jair Bolsonaro repetiu as ameaças golpistas contra o STF (Supremo Tribunal Federal), exortou desobediência às decisões do ministro Alexandre de Moraes e desafiou quem o investiga. “[quero] Dizer aos canalhas que eu nunca serei preso.”

“Nós devemos sim, porque eu falo em nome de vocês, determinar que todos os presos políticos sejam postos em liberdade. Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá. A paciência do nosso povo já se esgotou.”

PEDE PARA SAIR – “Ou esse ministro se enquadra ou ele pede para sair. Não se pode admitir que uma pessoa apenas, um homem apenas turve a nossa liberdade.”

“Dizer a esse ministro que ele tem tempo ainda para se redimir. Tem tempo ainda de arquivar seus inquéritos. Sai Alexandre de Moraes, deixa de ser canalha, deixa de oprimir o povo brasileiro.”

Assim como tem dito em discursos no interior do país, Bolsonaro disse que as únicas opções para ele são ser preso, ser morto ou a vitória, afirmando na sequência porém que nunca será preso. “Dizer àqueles que querem me tornar inelegível em Brasília: só Deus me tira de lá”, afirmou. “Dizer aos canalhas que eu nunca serei preso. A minha vida pertence a Deus, mas a vitória é de todos nós.”

“CANALHA” – O presidente chamou Moraes de “canalha” e voltou a atacar o sistema eleitoral brasileiro, em ataque direto ao presidente do TSE, Luís Roberto Barroso. Bolsonaro pediu de novo a implantação do sistema do voto impresso na disputa de 2022, apesar de esse projeto já ter sido derrubado pelo Congresso.

“Não é uma pessoa que vai nos dizer que esse processo é seguro e confiável, porque não é”, afirmou. “Não posso participar de uma farsa como essa patrocinada ainda pelo presidente do TSE.”

Bolsonaro também atacou a decisão do corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Luís Felipe Salomão, que vetou repasses de dinheiro a páginas bolsonaristas investigadas por disseminar fake news sobre a urna. “Não podemos admitir um ministro do TSE também, usando a sua caneta, desmonetizar páginas que criticam esse sistema de votação.”

“PATRIOTAS” – Bolsonaro fez diversas frases reiterando a importância de seus apoiadores e agradeceu a todos os que chamou de “patriotas”, que se manifestaram pelo país na data. “Não existe satisfação maior do que estar no meio de vocês”, “onde vocês estiverem eu estarei”.

“O apoio de vocês é primordial, é indispensável para seguirmos adiante. Nesse momento eu quero mais uma vez agradecer a todos vocês. Agradecer a Deus pela minha vida e pela missão.”

Bolsonaro chegou a anunciar uma reunião para esta quarta-feira (8) com os presidente de Supremo, Câmara e Senado, mas assessorias de Luiz Fux, Rodrigo Pacheco (Senado) e Arthur Lira (Câmara) disseram que não há nenhuma previsão de reunião.

MINORIA – O atos em Brasília e em São Paulo, marcados por pautas autoritárias e golpistas, representam uma minoria no país. Pesquisa Datafolha de junho mostrou que 75% dos brasileiros consideram o regime democrático o mais adequado, enquanto 10% afirmam que a ditadura é aceitável em algumas ocasiões.

Anunciado por Bolsonaro nos últimos dois meses como uma espécie de tudo ou nada para ele, as manifestações do Sete de Setembro podem ampliar o seu isolamento político, no momento em que, de olho em 2022, depende do STF e do Congresso para a liberação de recursos e aprovação de projetos.

Bolsonaro usou toda a estrutura da Presidência para os atos com ameaças golpistas. Tanto no deslocamento entre São Paulo e Brasília como em sobrevoos em helicópteros da Esplanada dos Ministérios e da Paulista. O presidente é candidato à reeleição e alvo da Justiça Eleitoral.

Folha de São Paulo / Tribuna da Internet

8 Bolsonaro faz discurso messiânico diante de Esplanada cheia e ameaça enquadrar o Supremo

 

SEP



Imagens da manifestação na Esplanada dos Ministérios nesse 7 de setembro.

Presidente fala a eleitores sobre“ultimato”: “Ou o chefe desse Poder enquadra o seu [ministro] ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos”. reunião de Conselho da República, que poderia lhe conferir poderes para uma intervenção, e PSDB já fala em impeachment

Por Afonso Benites

Brasília - A Esplanada dos Ministérios encheu e o presidente Jair Bolsonaro garantiu a foto que tanto queria. Milhares de eleitores do mandatário se espremeram para vê-lo discursar e transformar o aniversário da independência do Brasil em um ato político bem sucedido a seu favor. São os tais 25% dos eleitores leais que tiraram o 7 de Setembro para vestir verde e amarelo e mostrar sua fidelidade irredutível ao presidente. “Jurei, como [o vice-presidente Hamilton] Mourão e [o ministro da Defesa] Braga Netto dar a vida pela pátria. E vocês darão a vida pela sua liberdade”, disse Bolsonaro num discurso messiânico que citou seu papel na presidência como uma missão divina. “Cheguei aqui pelas mãos de Deus e devo a Ele a condução desta nação”, afirmou ele, enquanto os seus apoiadores gritavam: “Moraes na cadeia!” e “eu autorizo”, este último brado em referência a uma autorização para intervir no Supremo.

O ataque à Corte Suprema foi direta com a clara intenção de atingir o ministro Alexandre de Moraes, mas com uma ameaça a toda instituição. “Ou o chefe desse Poder [Luiz Fux] enquadra o seu [ministro] ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos”, disse ele em referência ao STF, discursando ao lado do vice-presidente Hamilton Mourão e de alguns ministros, como Braga Netto, o do Trabalho, Onyx Lorenzoni, o da Justiça, Anderson Torres, e a dos Direitos Humanos, Damares Alves. Bolsonaro e seus seguidores estão sob pressão da Corte que atua nos inquéritos dos atos antidemocráticos e no das fake news. Vários eleitores do presidente que ameaçaram, inclusive de morte, o ministro Moraes foram detidos nos últimos dias.

O tom do discurso foi visto como gravíssimo por opositores, especialmente pelo fato de Bolsonaro ter falado em uma reunião marcada com o Conselho da República. O colegiado é formado pelos presidentes da República, do Senado, da Câmara, pelo vice-presidente da República, por mais quatro deputados e senadores, o ministro da Justiça, além de seis cidadãos. Ele tem como uma de suas competências se pronunciar sobre a decretação de intervenção federal, estado de defesa e estado de sítio. Também cabe ao órgão a atribuição de deliberar sobre questões relevantes para a estabilidade das instituições democrática. “Amanhã estarei no Conselho da República, juntamente com ministros, com o presidente da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal, com essa fotografia de vocês, para mostrar para onde nós todos devemos ir”, falou durante o discurso. Ao contrário do que foi dito por Bolsonaro, o presidente do STF não compõe o colegiado, conforme a lei 8041/1990.

Diante do cenário, o PSDB anunciou que está convocando uma reunião extraordinária do Executiva para esta quarta para tratar das declarações do presidente. “O presidente do PSDB, Bruno Araújo, convoca reunião Extraordinária da Executiva para esta quarta-feira, para diante das gravíssimas declarações do presidente da República no dia de hoje, discutir a posição do partido sobre abertura de de Impeachment e eventuais medidas legais”, anunciou. O PSD estuda aderir ao movimento.

Plateia

Dados extraoficiais que foram apresentados a representantes do Judiciário e do Legislativo por órgãos de inteligência apontam que cerca de 150.000 pessoas estiveram na manifestação pró-Governo. O ápice foi durante o discurso de Bolsonaro. Organizadores do evento, porém, falaram que havia cerca de 300.000 pessoas. Abaixo do que os bolsonaristas alardearam. A Polícia Militar do Distrito Federal não divulgou estimativa de público.

Antes de discursar, Bolsonaro sobrevoou a Esplanada em um helicóptero das Forças Armadas e acenou para o público. Outro o escoltava e ao menos sete caças da esquadrilha da fumaça, da Aeronáutica, fizeram manobras nas proximidades do Congresso Nacional.

Diante de sua plateia, que inclui saudosos da ditadura e adeptos da ideia de fechar o Supremo, o presidente investiu num ato midiático, incluindo a chegada à Esplanada de Rolls-Royce presidencial dirigido pelo ex-piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet, um extremista como o presidente. Ao chegar se posicionou ao lado de ministros para acompanhar as solenidades em homenagem ao 7 de Setembro. Antes, fez um rápido discurso em que falou: “Hoje, eu quero ser apenas o porta-voz de vocês, e dizer que o que estou falando a partir de agora é em nome de vocês, povo brasileiro”.

A multidão de apoiadores, que chegou a Brasília desde o fim de semana, estava em êxtase. Alguns incidentes foram registrados, como a invasão da Esplanada na noite de segunda-feira e um rojão que alguns militantes soltaram em direção a uma árvore na frente do Ministério da Defesa ou a tentativa de bolsonaristas avançar sobre o acampamento de indígenas instalado a três quilômetros da Esplanada. Por fim, não houve invasão do Congresso Nacional ou do Supremo, como algumas autoridades temiam.

Entre os seus apoiadores que estiveram em Brasília, o discurso era o esperado. A cada aumento de tom do presidente, a plateia ia ao delírio. O chamava de “mito”, pedia o fechamento do Supremo e vários insistiam na intervenção militar. O público era majoritariamente formado por pessoas brancas, de classe média. Boa parte vinda de outros Estados do país, como o produtor rural Nestor Poleto, de 63 anos, que tem uma fazenda de soja e milho em Nova Mutum, no Mato Grosso. “Estou aqui para lutar contra o comunismo, a favor da liberdade. Se vai ter intervenção militar ou não, eu não sei, mas o Bolsonaro saberá o que é o melhor”, disse.

Outro que defendia atos radicais era o motorista Márcio Ramos, 53 anos. Ele defendia a destituição de todos os ministros do Supremo. “O STF está mandando mais que o próprio presidente”, afirmou. Entre os manifestantes havia dezenas deles com faixas em diversos idiomas. A ideia era que sua mensagem repercutisse em outros países.

Apesar do entusiasmo, Bolsonaro continua a falar com sua base mais leal e radical, num momento em que sua rejeição supera os 60%. Erros de gestão na pandemia, a inflação e a suspeitas de corrupção levantadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia desgastam a imagem do presidente para o resto do país. O presidente perdeu o apoio político de diversos partidos e do mercado financeiro, especialmente depois do resultado pífio do PIB na semana passada. Nesta terça, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), aproveitou a data para tuitar: “Ao tempo em que se celebra o Dia da Independência, expressão forte da liberdade nacional, não deixemos de compreender a nossa mais evidente dependência de algo que deve unir o Brasil: a absoluta defesa do Estado Democrático de Direito.”

Pacheco assinou um artigo no jornal O Estado de S. Paulo em que não deixa dúvidas sobre a sua posição sobre os atos do presidente. “As liberdades de expressão e de manifestação engrandecem uma sociedade (...) Mas é preciso que não se perca de vista a exata compreensão desses termos ao invocá-los, especialidade quando a ambiguidade de sua utilização possa vir a capturar a boa intenção de alguém a ponto de misturar valores cívicos com flertes de autoritarismo.”

Na mesma linha, o principal alvo das manifestações dos bolsonaristas, o ministro Alexandre de Moraes, publicou em seu perfil no Twitter: “Nesse Sete de Setembro, comemoramos nossa Independência, que garantiu nossa Liberdade e que somente se fortalece com absoluto respeito a Democracia”.

Na outra ponta da Esplanada, a três quilômetros do protesto bolsonarista, ocorreu um ato de militantes de esquerda, estudantes e indígenas, contou a repórter Marília Sena. Estimativas dos organizadores dessa manifestação registraram 1.000 participantes. O líder do PT no Senado, Paulo Rocha, disse que a baixa adesão ao movimento se deve à uma retomada lenta da organização anti-Bolsonaro. “Estamos em um processo de acúmulo de força porque jogaram os democratas deste país no canto do ringue. A capacidade de reação através da organização é muito grande no Brasil. Então estamos retomando”, afirmou ele durante o protesto.

Filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), ironizou o protesto dos opositores. “Sobrevoei com o presidente a Esplanada e do outro lado só tinha meia dúzia de pessoas. Nem o pão com mortadela ajudou”, disse, em referência ao lanche que usualmente era dado a militantes de esquerda em protestos. Apesar de discursar de que o apoio a Bolsonaro é orgânico, havia centenas de pessoas que vieram a Brasília bancadas por entidades da agropecuária. “Eu vim de graça, mesmo. Meu patrão quem pagou para eu estar aqui”, disse ao EL PAÍS, o trabalhador rural João Carlos Souza, que esteve em Brasília com uma comitiva que veio do interior de Goiás.

El País

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