terça-feira, setembro 07, 2021
Políciais Antifascismo confirmam presença no Grito dos Excluídos, amanhã, 7, na Praça do Derby, no Recife
O vírus do autoritarismo - Editorial
Se cada cidadão agir conscienciosamente como um anticorpo, a democracia pode destruir o vírus do autoritarismo
Há um processo de erosão das instituições democráticas no Brasil? Nossa democracia está em risco? Ao fim e ao cabo, vai ter golpe? Para enfrentar essas perguntas cada vez mais presentes – das redes sociais à academia, da imprensa às salas de jantar –, a Fundação FHC e o Estado promoveram um debate com diversos cientistas políticos.
Como em todo bom debate, prevaleceu a dialética. E, como reza a boa dialética, as disputas foram travadas sobre uma base de consenso. O consenso é de que há uma crise global da democracia caracterizada pela ascensão dos populismos e tremendamente agravada no Brasil pelo autoritarismo desabrido do presidente da República. Os dissensos versaram sobre o grau de resiliência das instituições.
Há risco de ruptura? Carlos Pereira foi categórico: “Não”. O Judiciário vem dando “sinais coerentes e consistentes”. Contrastando com a cisão entre garantistas e punitivistas à época da Lava Jato, as ameaças de Jair Bolsonaro “unificaram o Supremo”. No Legislativo, as Comissões de Inquérito cumprem o papel de fiscalizar e constranger o presidente. A imprensa, como com todos os governos na redemocratização, dispara diuturnamente suas críticas. Nossa democracia é “incerta, vibrante e competitiva”, disse Pereira, “e isso lhe dá vitalidade”.
Jairo Nicolau falou em um “dilema” entre um “otimismo estrutural” e um “pessimismo conjuntural”. A crise de representatividade, as dificuldades de renovação partidária e o desgaste diário provocado por Bolsonaro evidenciam um “mal-estar”. Mas não há precedentes históricos para uma “quebra institucional” das democracias contemporâneas; as estruturas constitucionais brasileiras não permitem uma distorção tão extrema; e, embora haja um amplo contingente conservador na população, as evidências mostram que a extrema direita é só uma minoria, estridente, mas marginal. Eleitores conservadores que elegeram Bolsonaro não endossariam aventuras golpistas e podem migrar para um candidato competitivo de centro-direita.
Mas, mesmo que as estruturas políticas e civis sejam resistentes a rupturas, a “tensão máxima” a que estão submetidas turva o foco nos problemas reais da sociedade, aumentando “o custo de operação da democracia”, advertiu Magna Inácio. Alguns cidadãos se radicalizam, outros se distanciam, geram-se incentivos à “desmobilização dos mecanismos de controle”, e os corporativismos correm soltos. Mesmo não sendo um choque abrupto, essa degradação leva a uma democracia atrofiada e ineficiente para sanar distorções estruturais como a desigualdade social.
O tom mais pessimista do debate foi dado por Sergio Fausto. “A ideia de que as instituições estão rodando conforme a sua concepção original é uma cegueira.” O presidente da República anuncia que as eleições serão fraudadas a menos que ele vença; blinda seus crimes de responsabilidade traficando emendas parlamentares; e incita a população à luta armada. Uma coisa é a sociedade desconfiar das instituições e seus representantes, outra é “uma força política organizada querendo romper com o sistema, dizendo-o claramente, insuflando quartéis”.
Se o desfecho parece inconclusivo, não é pela fraqueza do debate, mas pela força de seu objeto. A democracia é por natureza dramática. “Otimismo” e “pessimismo” são simplificações convenientes para descrever emoções, mas inadequadas para orientar escolhas. A democracia não está nem pode estar predestinada a um futuro “ótimo” ou “péssimo”. A cada dia ela traz novas oportunidades de conflito, mas também de conciliação. O ônus dessa liberdade é uma espécie de risco permanente. Mas, pago o seu preço – a eterna vigilância –, o seu bônus são reservas inesgotáveis de energia cívica.
Como um organismo invadido por um vírus, a democracia brasileira pode adoecer – e mesmo morrer –, mas a Constituição deu boa compleição ao seu corpo (o Estado) e vigor aos seus órgãos (as instituições). Se cada cidadão agir conscienciosamente como um anticorpo, a democracia pode destruir o vírus do autoritarismo e emergir mais forte e imune às suas variantes.
O Estado de São Paulo
Postado há 8 hours ago por Brasil Soberano e Livre
A democracia no mundo - Editorial
Em 2020, deterioração da liberdade global foi inaudita, segundo a Freedom House
Não bastasse a mortandade de mais de 4 milhões de vidas e a devastação econômica, o vírus pressionou ainda mais a balança global em favor da tirania contra a democracia.
Segundo o relatório anual Liberdade no Mundo da Freedom House, 2020 foi o 15.º ano consecutivo de declínio na liberdade global. Em 2005, a organização identificava 89 países considerados “livres”; hoje são 82. Os países “não livres” passaram de 45 para 54. Menos de 20% da população mundial vive em um país livre. Mas a deterioração em 2020 foi inaudita: 3 em 4 pessoas vivem em um país que experimentou declínio. A “diferença democrática” – o número de países que melhoraram menos o de países que declinaram – foi a maior da série iniciada em 1995: 45.
Da Venezuela ao Camboja, os déspotas aproveitaram a crise sanitária para esmagar oponentes, enquanto o fechamento das fronteiras dificultou o apoio internacional a ativistas democratas. A pandemia deu a autocracias como China e Rússia a oportunidade de acusar a inferioridade “inerente” da democracia, ao mesmo tempo que ampliam sua influência internacional.
“A influência maligna do regime na China, a ditadura mais populosa do mundo, foi especialmente profunda em 2020”, seja pela campanha global de desinformação e censura, seja pela extensão transnacional dos abusos cometidos no país, como na demolição das liberdades e da autonomia de Hong Kong. Ao mesmo tempo, o regime comunista aumentou seu peso em instituições multilaterais como o Conselho de Direitos Humanos da ONU.
Os regimes democráticos adotaram recorrentemente medidas excessivas de vigilância e restrições discriminatórias à liberdade de movimento e reunião, enquanto ondas de desinformação – muitas vezes propagadas pelas próprias autoridades, como no Brasil – obliteraram a disseminação de informação confiável ao preço de incontáveis vidas.
A democracia mais populosa do mundo, a Índia, caiu do status de “livre” para “parcialmente livre”. O regime de Narendra Modi continuou a reprimir seus críticos e utilizou o combate à covid-19 como pretexto para deslocar milhões de migrantes domésticos, enquanto as hostes nacionalistas hindus culparam desproporcionalmente as comunidades muçulmanas pela disseminação do vírus, materializando essa hostilidade em surtos populares de violência.
A crise da democracia norte-americana atingiu seu apogeu com a invasão do Capitólio. Embora o presidente Joe Biden tenha iniciado seu mandato prometendo restaurar a unidade da Nação, nada indica que a chamada guerra civil cultural – seja entre os partidos Republicano e Democrata, seja, no interior de cada partido, entre extremistas e moderados – arrefecerá num futuro próximo. Isso dificultará ainda mais aos EUA resgatar sua credibilidade mundial e liderar uma coalização democrática.
A pandemia também serviu de pretexto para reprimir a onda de protestos populares que eclodiu em 2019 em nome de mais transparência e melhor governança. Se protestos bem-sucedidos no Chile ou Sudão levaram a aprimoramentos democráticos, os regimes despóticos aproveitaram a distração mundial para esmagar movimentos de resistência: quase duas dúzias de países que experimentaram grandes protestos em 2019 sofreram declínio nas liberdades em 2020.
O caso de Taiwan é exemplar tanto do vigor da democracia como das ameaças a ela. Valendo-se de sua experiência com a Sars e apostando em métodos científicos, o país foi extraordinariamente eficaz em combater o vírus sem agressões às liberdades civis. Mas Taiwan enfrenta a contínua hostilidade da China, a cada dia mais próxima de uma ofensiva militar.
“A liderança e a solidariedade global dos estados democráticos é urgentemente necessária”, conclui a Freedom House. “Os governos que compreendem o valor da democracia, incluindo a nova administração em Washington, têm a responsabilidade de se reunirem para entregar seus benefícios, combater seus adversários e apoiar seus defensores.” Empenhar-se nessa missão não é tarefa fácil, mas também não é uma opção: é questão de vida ou morte da liberdade.
O Estado de São Paulo
Postado há 7 hours ago por Brasil Soberano e Livre
Som e fúria que nada significam
A esmagadora maioria da população não acredita mais, se é que um dia acreditou, que Bolsonaro seja algo além do que mais um político de Brasília.
Por Guilherme Hobbs*
Quando a inteligência aberta de pessoas livres está no controle, o futuro é imprevisível e insubordinável. Como é o exato oposto que vem sucedendo no Brasil, as consequências da manifestação do dia 7 de setembro, anunciada aos quatro ventos pelos bolsonaristas como o irromper de um novo tempo, podem ser antecipadas se a situamos com seus condicionantes políticos.
A causa determinante que cerca o dia é: Bolsonaro não tem respaldo institucional necessário para um autogolpe, nem base política sólida no parlamento para uma “virada de mesa” dentro da legalidade. Por outro lado, seus adversários não têm apoio popular expressivo o suficiente para removê-lo do poder antes da eleição, por mais crimes e erros que ele cometa. Por fim, à esquerda e ao Centrão, verdadeiros donos da situação, interessa acima de tudo deixar o “mito” derreter até o provável retorno de Lula em 2023.
Para muitos bolsonaristas, a motivação ideológica para o dia 7 é a crença difusa, com raízes neopentecostais, de que Bolsonaro seria um líder escolhido diretamente, como que “a dedo”, por Deus – as provas disso seriam sua rápida projeção a nível nacional sem apoio midiático, a “ressurreição” depois da facada na véspera de outro dia 7 de setembro, e o inesperado de sua larga vitória em 2018. Seria o nosso rei Davi, reconhecido apenas pelos “profetas” enquanto vivia na obscuridade, longe do Palácio: “O que o homem vê não é o que importa: o homem vê a face, mas o Senhor olha o coração” (1 Samuel 16,7). Sua eleição – primeiro por Deus, depois confirmada pelo voto popular – viria com a missão de destronar o dragão diabólico comunista e permitir a ascensão a postos de poder aos “homens de Deus”, puros, inspirados, que, desde os instrumentos do Estado, remoldariam o Brasil num novo Israel, espelho para as nações, último obstáculo no mundo ao Anticristo “comunoglobalista” com os quatro chifres do Foro de São Paulo, China, “grande mídia” e a ONU.
Outros apoiadores, mais escolarizados e urbanos, veem em Jair Bolsonaro apenas um “anjo vingador” contra o establishment, a máquina, o sistema corrupto, que, apesar de não se mostrar capaz de construir nada de sólido em contraposição – muitos neste grupo já o admitem –, deve, porém, ser defendido até o fim como a última trincheira da moral e da honestidade no solo pútrido da política de Brasília.
A partir dessas convicções, que pouco têm a ver com a história real de Bolsonaro antes e durante o poder, os entusiastas pelo dia 7 enxergam uma profunda convergência entre os anseios do povo e a pessoa concreta do presidente. Portanto, neste momento crucial, esse povo não se furtaria a seguir a convocação para uma manifestação decisiva a favor do líder que, mais do que constitucionalmente representá-lo, encarnaria a essência mesmo do brasileiro “de bem”, bate com o mesmo coração e tem nas mãos o seu destino: Bolsonaro seria por excelência o defensor do “cidadão honesto”, pois ninguém o compreenderia melhor que o ex-capitão com sangue verde-e-amarelo nos veias.
O problema dessa perspectiva é muito simples: a esmagadora maioria da população não acredita mais, se é que um dia acreditou, que Bolsonaro seja algo além do que mais um político de Brasília, um operador da máquina pública sem outra fonte de credibilidade e autoridade além da qualidade de seus resultados. E os resultados têm sido desastrosos há mais de um ano. Convocar as pessoas a apoiá-lo por valores abstratos, ideológicos, de “liberdade”, “contra o comunismo”, é atribui-lo discursivamente, de volta, uma missão que ele já se mostrou repetidas vezes incapaz – e até bastante desinteressado – em cumprir.
Ainda assim, não tenho dúvida de que esta será a maior manifestação bolsonarista de todas – e não haverá outra maior. Vai encher quarteirões da Paulista e muito provavelmente superará a manifestação pró-impeachment marcada para o dia 12. Tal feito deve acarretar vitórias parciais no parlamento para o governo, em pautas específicas, e deve sustar por alguns meses a tendência de derretimento da popularidade presidencial.
But that's all! Não haverá golpe, autogolpe, contragolpe e a reeleição se manterá – e sendo percebida pelo Centrão – como inviabilizada. O futuro do Brasil seguirá oscilando entre a concretização de uma terceira via (provavelmente em torno de João Doria) e Lula à esquerda. Com a lenta recuperação econômica, a alta popularidade não voltará e o “gigantesco dia 7” restará como só mais um factoide de um governo cuja passagem em nossa história cabe bem naqueles versos shakespearianos:
a walking shadow, a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more. It is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.
*Guilherme Hobbs é programador web e graduando em Física.
Gazeta do Povo (PR)
Postado há 7 hours ago por Brasil Soberano e Livre
Bolsonarismo dobra a aposta na ousadia, desta vez com um novo elemento: as armas
Apoiadores de Jair Bolsonaro fazem gesto de arma com as mãos em manifestação de apoio ao presidente, em julho de 2019.
Caçadores e colecionadores, parte da base do presidente, têm registro de 409.000 armas. Autor de atentado contra o STF em 2020 tinha uma, apreendida antes de ele jogar carro no Ministério da Justiça
Por Cecília Olliveira
Rio de Janeiro - Com apoio de um séquito cego e fiel, o presidente Jair Bolsonaro segue dobrando suas apostas na má condução do país. Em uma de suas jogadas mais ousadas, ele protocolou o pedido de impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, em 23 de agosto. Feito depois que o ministro incluiu Bolsonaro como investigado no inquérito das fake news, o pedido foi prontamente rejeitado pelo Senado. Agora, o presidente segue incitando seguidores contra a corte, que precisou tomar providências para evitar riscos em 7 de setembro, quando estão previstas manifestações de apoio a Bolsonaro e contra o STF por todo o país.
No Palácio, governistas, militares da ativa e da reserva analisam mais de 100 decisões dos ministros da Suprema Corte, tomadas entre 2019 a 2021 para os pressionar. Ao chamar os ministros para “falar com o povo” no dia 7 de setembro e dizer que “não somos três Poderes, somos dois”, Bolsonaro estica novamente a corda, numa tensão que já é quase palpável. E há mais um elemento nessa receita: armas.
Os discursos de agitadores de Bolsonaro, chamando ações do Supremo de “ditadura da Toga” ecoam nas ações de seus seguidores, como o advogado Luiz Antonio Iurkiewiecz, que em novembro de 2020 viajou de Santa Catarina a Brasília, armado, para atacar o STF. Ele errou o prédio e jogou o carro contra o Ministério da Justiça, mas a investigação do Ministério Público mostra que Iurkiewiecz “pretendia promover um atentado contra o Supremo Tribunal Federal, com o objetivo de protestar contra o que considera “uma ditadura do Judiciário” e “mostrar a ruptura institucional”.
Falha atrás de falha
Documentos aos quais o EL PAÍS teve acesso com exclusividade mostram que o atentado poderia ter tido consequências mais graves, já que o autor do crime percorreu mais de 1.500km entre Lajes (SC) e Anápolis (GO), armado com uma espingarda Boito, calibre 12. Ele foi preso em flagrante em Goiás após uma denúncia de que um homem ostentava uma arma em frente a um hotel. A arma era legalizada (SIGMA 1207058), e só ficou apreendida porque o advogado não tinha autorização para transitar com a espingarda.
Pagou fiança, foi solto no mesmo dia e seguiu seu plano de ir até Brasília cometer um atentado contra o Supremo. Sem a arma, ele apelou para o plano B: jogou o carro contra o Palácio da Justiça. O estrago só não foi pior porque o homem errou o cálculo e o carro caiu no espelho d’água de Brasília. Na perícia do carro, alugado e com um adesivo de apoio a Jair Bolsonaro, foram encontrados também uma espada e um porrete.
Atiradores com pouca fiscalização
No celular periciado foi possível ver que o advogado participava de alguns grupos pró-armas, como “Muda Brasil CAC Sul” e “Muda Brasil - Armas”. Mas, apesar disso, nenhuma busca ou apreensão foi solicitada em endereços ligados ao investigado para saber, por exemplo, se ele tinha outras armas. Os CACs, grupo do qual Iurkiewiecz era parte e que é formado por caçadores, atiradores e colecionadores, são a categoria mais beneficiada por decretos que aumentaram o acesso a armas e munições na era Bolsonaro. Hoje há mais CACs armados no Brasil do que militares. Atualmente, o registro do grupo é superior a 409.000; enquanto os militares somam quase 335.000.
A quantidade se aproxima do efetivo das polícias militares nos Estados brasileiros, que registram 416.000, segundo dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Além da radicalização do discurso contra outros poderes da República e de um incentivo por parte do presidente para o uso de armas de fogo para fins políticos, hoje nós temos milhares de armas a mais nas mãos de civis e sinais mais fortes de cooptação de forças federais pelo presidente”, explica Bruno Langeani, advogado e gerente da área de Justiça e Segurança do Instituto Sou da Paz.
Para ele, este caso não pode ser analisado apenas como um carro jogado contra o Palácio da Justiça. É preciso se aprofundar e investigar ameaças reais que podem, ao contrário desta, “dar certo”. “Se alguém que fazia ameaças públicas na internet, participava de vários grupos de CACs e apoiadores do presidente e que publicou posts durante toda a viagem até Brasília, foi desarmado e preso a poucos quilômetros de Brasília e, mesmo assim, conseguiu realizar o atentado, isso nos traz sérias dúvidas sobre a capacidade dos órgãos de inteligência de prevenir ameaças deste tipo”, analisa.
Inicialmente Iurkiewiecz ficou preso em Brasília, depois foi transferido para uma clínica psiquiátrica e recebeu autorização para aguardar o julgamento em casa. Um laudo mostrou que ele estava com o “juízo crítico reduzido”, o que, alegadamente pode ter afetado parcialmente seu entendimento. A análise foi anexada ao processo sobre “tentativa de prática de atentado por inconformismo político”, no âmbito da Lei de Segurança Nacional. Revogada recentemente em partes, a LSN foi muito usada contra adversários políticos de Bolsonaro.
Apesar de o caso deixar claro o risco do acesso a armas por pessoas com “juízo crítico reduzido”, especialmente em um contexto de acirramento de ameaças democráticas, órgãos de inteligência do Governo, como ABIN e PF, não conseguiram se antecipar a esta ameaça. Na investigação, câmeras de monitoramento do Ministério mostram que Iurkiewiecz esteve no prédio dias antes do crime, segundo a PF, para analisar as condições de segurança.
Este “juízo crítico reduzido”, bem como o fato de Luiz ter sido preso em 2016 com munições ilegais, não impediu que ele conseguisse registrar uma nova arma junto ao Exército, em setembro de 2020, dois meses antes do atentado. Questionado sobre como uma pessoa com antecedentes criminais conseguiu ter acesso a uma nova arma, o Exército disse que não é possível responder dentro do período solicitado —data de publicação— mas que responderá assim que possível.
No início de setembro, o deputado federal e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), se reuniu com a Polícia Rodoviária Federal e o presidente da Associação Pró Armas para reclamar de abordagem a atiradores. O deputado não gostou da ação de oficiais contra CACs que portavam armas em seus carros, que, ficou claro, é importante. Ao fim da reunião, Eduardo disse no Twitter que a “PRF em breve editará um manual para orientar seus policiais sobre abordagem a CACs”.
Radicais no limite
Durante uma live no início de agosto, o presidente Bolsonaro disse que “a hora dele vai chegar”, acusando o ministro do STF Alexandre de Moraes de atuar “fora das quatro linhas da Constituição”. O entorno bolsonarista tem inflado tais ataques nas redes. Ameaças ao ministro e ao Supremo se acirram com o 7 de setembro. Há alguns dias, um comandante da PM de São Paulo foi afastado do cargo após convocar manifestação contra o STF. No domingo (5) um usuário do Twitter identificado como Cássio Rodrigues Costa Souza, ex-PM em Minas Gerais, disse: “Morra, careca, filho da puta. Terça-feira vamos te matar e toda a sua família, seu vagabundo, advogadinho de merda do PCC. Sou policial militar e nós, militares, te eliminaremos”. O perfil foi apagado, mas deixou o alerta vermelho ligado.
Langeani lembra que Bolsonaro liberou tantas armas mais potentes a CACs e policiais, que mesmo entre as armas de porte, que podem ser carregadas e escondidas com mais facilidade, há armas que ameaçam os níveis de blindagem dos veículos das autoridades públicas. “Estamos falando de veículos de congressistas, ministros do STF. Mas, no limite, como este caso mostra, nem mesmo o Executivo Federal está a salvo”, alerta.
Uma pesquisa do Instituto Atlas Intelligence divulgada nesta segunda-feira mostrou que 30% dos policiais militares entrevistados pretendem ir “com certeza” aos protestos a favor de Jair Bolsonaro e contra o Supremo Tribunal Federal. Somada a pesquisa recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que dá conta de que apoio a teses extremistas aumentou 29% entre policiais militares, é preciso redobrar a atenção.
Para o ex-corregedor da Polícia Militar do Rio de Janeiro e major da reserva Wanderby Medeiros, desde o ataque de Luiz Antonio Iurkiewiecz ao Ministério da Justiça no ano passado, a polarização subiu alguns degraus, “em grande parte motivada pela elevação de tom do próprio presidente da República, que, em mais de um momento, foi expresso quanto à possibilidade de quebra da normalidade democrática”. Apesar de não acreditar que as polícias estão envolvidas nos atos como corporação, ele reitera que punir eventuais abusos “é um dever que se impõe aos seus superiores, que inclusive podem estar incursos na prática de crime militar em não o fazendo”.
Mais uma movimentação da ala bolsonarista pode ter impacto nesse sentido. Em 2019 o presidente sancionou projeto de lei que prevê o fim da prisão disciplinar para bombeiros e policiais militares. Apesar de especialistas divergirem sobre isso —há quem julgue inconstitucional— há PMs que hoje só punem certos desvios com advertência e repreensão. Levantamento feito pelo jornal O Globo mostrou que apenas oito governadores pretendem de fato tomar alguma providência e punir PMs por adesão aos protestos desta terça-feira. A instrumentalização das polícias é um risco iminente à democracia que há muito vem sendo tratado sem a devida importância. Às vésperas de um dia D como o desta terça-feira, essa falta deixa uma janela aberta para um desfecho preocupante.
El País
Postado há 7 hours ago por Brasil Soberano e Livre
Frente a frente: o que dizem manifestantes que irão às ruas contra e a favor de Bolsonaro no 7 de Setembro
Manifestante segura cartazes em formato de armas, durante protesto pró-Bolsonaro em Brasília em julho
Por Thais Carrança, em São Paulo
"Eu vou para a rua no dia 7 de setembro para mantermos a nossa liberdade. A liberdade de pensamento, de expressão, de opinião, de manifestar. E até nossa liberdade de crença, porque hoje estamos sendo atacados de todos os lados e isso precisa ser defendido", afirma Fernando Borja, suplente de deputado federal pelo Avante, empresário e pastor batista.
Um vídeo gravado por ele, ao lado de sua esposa Flavia Borja, vereadora em Belo Horizonte também pelo Avante, está entre uma das mais compartilhadas convocatórias para os protestos governistas desta terça-feira (7/9), com mais de 926 mil visualizações no Facebook até a noite da segunda-feira.
A oposição ao governo também deve ir às ruas nesse feriado da Independência, com protestos previstos para o Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, e também em Brasília.
"O índice da miséria no Brasil cresceu. Estamos diante de uma inflação acelerada, cresce o desemprego, aumenta o custo de vida, cai a renda do trabalhador. A crise hídrica é de grande repercussão: a carestia dos alimentos, o aumento da energia, gás de cozinha a R$ 120. Queimadas, destruição do meio ambiente. Tudo isso deve nos preocupar", enumera Adilson Araújo, presidente da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), sobre os motivos para o protesto contrário ao governo.
A CTB é uma das centrais sindicais que estão convocando a manifestação da oposição no Anhangabaú, ao lado da CUT, de movimentos sociais como MTST e MST e de partidos de esquerda, incluindo PT, PCdoB e Psol.
Para entender o que pensa quem vai para as ruas nos protestos do 7 de setembro, a BBC News Brasil convidou Fernando Borja e Adilson Araújo para uma conversa conjunta, realizada de maneira virtual.
Eles temem violência nas manifestações? Como avaliam a participação de policiais e membros das Forças Armadas nos protestos? O que pensam do governo Bolsonaro? Acham que a democracia brasileira está em risco? E que pergunta fariam aos manifestantes do outro lado?
Num encontro improvável entre os dois lados que vão às ruas neste 7 de setembro, perguntamos tudo isso a eles. Confira abaixo o debate em vídeo e os principais trechos dessa conversa.
Risco de violência e policiais nos protestos
"Eu espero que não tenha violência de forma nenhuma, mas se você olhar as últimas manifestações que tiveram no país, em nenhum momento houve alguma manifestação pró-Bolsonaro que teve algumas violência, quebradeira, destruição de patrimônio público, queima de estátuas, quebrar vidro de comércio. Em lugar nenhum houve isso", diz Borja, quando questionado se tem medo de que possa haver violência nos protestos do dia 7.
"A gente sabe muito bem que a esquerda é muito bem preparada em provocar, confrontar e depois se vitimizar", completa, alfinetando o outro lado.
Já Araújo, da CTB, diz temer o que pode acontecer nesta terça-feira e afirma que não está sozinho nesta preocupação.
"Não somente eu, Adilson, estou receoso do que pode acontecer, como o mundo todo. O manifesto do agronegócio, o manifesto da Febraban, a manifestação dos líderes mundiais avocam que, de fato, os arroubos autoritários do Bolsonaro são uma ameaça ao país", afirma, fazendo referência às cartas lançadas nos últimos dias pela Associação Brasileira do Agronegócio, pela Federação Brasileira de Bancos e por políticos de 27 países em defesa da democracia brasileira.
Questionados sobre como avaliam a participação de policiais e membros das Forças Armadas nos protestos, os dois também mostram opiniões divergentes.
"Me parece que há uma certa rebelião", avalia o sindicalista. "E a prova disso é que [policiais] militares compraram [entre janeiro e junho deste ano] 116% mais armas do que em todo 2020. Essa milícia está sendo estimulada a uma provocação, uma desordem."
Ele faz referência a dados obtidos pelo institutos Sou da Paz e Igarapé, por meio da Lei de Acesso à Informação, que revelaram que os PMs compraram 24.991 armas de uso pessoal nos seis primeiros meses de 2021, ante 11.576 armas compradas com o mesmo fim nos 12 meses do ano passado.
Já o político do Avante avalia que é direito de policiais e membros das Forças Armadas participar dos protestos e defende o maior acesso às armas de fogo.
"Todos são cidadãos, 7 de setembro é uma festa nacional da nossa independência, todas as pessoas têm o direito de manifestar constitucionalmente. E vou falar mais uma vez: nós precisamos comprar é até mais armas", afirma. "Quem quer desarmamento no país, vai morar agora na Venezuela, ou vai morar na Argentina."
Governo Bolsonaro e risco à democracia
Para o empresário e pastor, o governo Bolsonaro tem a melhorar, mas também tem sido impedido de avançar devido "ao aparelhamento das instituições pela esquerda".
"Eu creio que o governo Bolsonaro tem sido hoje a única solução que nós temos. Temos muita coisa para aprimorar: temos. Tem muita coisa para reconhecer que podemos fazer diferente: podemos", diz.
"Mas nós sabemos muito bem que as instituições que foram aparelhadas pela esquerda nos últimos 30 anos estão hoje tentando travar o governo onde podem. Onde o governo tem a liberdade de agir, tem conseguido fazer satisfatoriamente", afirma, citando como exemplo as obras de infraestrutura que têm sido tocadas pelo ministro Tarcísio de Freitas.
O presidente da central sindical, por sua vez, tem uma opinião bem menos generosa da performance do governo até aqui.
"O governo Bolsonaro é a prova inconteste do negacionismo, do descaso, do diversionismo. Tudo que o presidente Bolsonaro não soube ser foi presidente da República. Bolsonaro aposta em incendiar o circo", afirma.
"Está claro e evidente que esse governo não tem nada a oferecer. Que a sua opção principal é liquidar o país, é vender as empresas públicas, é aprofundar o desemprego, a desigualdade."
Se discordam na avaliação do governo, ambos concordam que a democracia brasileira está em risco — mas por motivos bastante diferentes.
"O Brasil sofre a ameaça de um ruptura à sua democracia", opina Araújo. "Quem perde com isso? O povo. O povo que reclama um prato de comida à sua mesa. O povo que reclama a oportunidade de um emprego que não vem. Não vem porque esse governo é um descalabro."
Borja, por sua vez, ao falar da sua percepção de risco à democracia, cita países governados pela esquerda da América Latina, que enfrentam crises variadas. Com base nesse argumento, defende a pauta bolsonarista do voto impresso.
"Nós temos um grande risco hoje de perdermos a democracia e virarmos uma Venezuela, uma Cuba, uma Argentina, por causa das fraudes que estão sendo preparadas para a próxima eleição", afirma.
"Nós estamos correndo risco se não tivermos o voto impresso. Estamos correndo risco com um Supremo hoje que está trabalhando de forma arbitrária. Nós corremos o risco de hoje entregar o país para a China, que está cada vez mais comprando espaço no país todo para dominar. A população está indo para as ruas para dizer não ao comunismo", conclui.
'Voto impresso será uma das pautas dos protestos governistas neste 7 de setembro'
Uma pergunta ao outro lado
Durante a conversa realizada na segunda-feira (6/9), a BBC News Brasil questionou a cada um dos participantes o que gostariam de perguntar aos manifestantes do outro lado.
"O mundo todo acordou nessa segunda-feira um tanto preocupado com a situação em que o país se encontra, de profunda instabilidade política", disse Araújo.
"Um trecho da carta [assinada por políticos de 27 países] diz: 'Estamos seriamente preocupados com a ameaça iminente de quebra das instituições democráticas no Brasil. Bolsonaro não deve ter permissão de roubar a nossa democracia.' Isso não lhe preocupa?", perguntou a Borja.
O político do Avante respondeu criticando novamente a oposição.
"Mesma ladainha de sempre da esquerda. Nunca apresenta dados, só joga rótulos no atual governo. Um governo que recebeu um país quebrado. Um governo em que hoje as pessoas são presas por causa de opinião", disse Borja.
"O que estão falando mundo afora, vocês sabem muito bem que são fake news, são mentiras. Hoje, o único que tem chance de manter a liberdade nossa no Brasil, para não caminhar para [o país] ser entregue, virar uma fazenda da China, tem sido Bolsonaro. Nós sabemos o que está acontecendo, o povo acordou, o povo não é bobo."
Ao sindicalista, Borja perguntou quais seriam as proposições da oposição para mudar o país e se ele concordava com a avaliação de que o Supremo está aparelhado e realizando prisões arbitrárias. Araújo respondeu criticando novamente o governo Bolsonaro.
"Certamente, os problemas que agridem a nossa sociedade não serão encontrados a partir da interpretação do governo Bolsonaro, que insinua que o povo ao invés de ter acesso a um prato de feijão, tem que ter um fuzil na mão", disse.
"Isso é um retrato do descaso, do negacionismo de quem não tem compromisso efetivo com a sociedade. Se a miséria cresce, se o desemprego cresce, é muito decorrente da falta de um projeto de governo."
Entre as trocas de farpas, fica claro que o diálogo entre os dois lados seguirá difícil.
BBC Brasil
Postado há 7 hours ago por Brasil Soberano e Livre
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