quinta-feira, março 12, 2026

O grande risco de o crime organizado passar a ser tratado como terrorismo


EUA analisam classificar o CV e o PCC como terroristas

Pedro do Coutto

Nos bastidores da política internacional, uma discussão que parecia distante da realidade brasileira começa a ganhar contornos cada vez mais concretos: a possibilidade de os Estados Unidos classificarem duas das maiores facções criminosas do país — o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho — como organizações terroristas.

A hipótese, ainda em análise por autoridades norte-americanas, não é apenas um gesto simbólico de endurecimento contra o crime organizado. Ela revela uma mudança profunda na forma como o mundo passa a enxergar a dimensão internacional dessas facções e levanta um debate sensível sobre segurança, soberania e política externa.

EXPANSÃO – Durante décadas, o crescimento dessas organizações foi tratado sobretudo como um problema doméstico brasileiro. No entanto, a expansão de suas operações para além das fronteiras nacionais transformou essa percepção. Hoje, redes ligadas ao PCC e ao Comando Vermelho operam rotas internacionais de tráfico de drogas que passam por países como Paraguai, Bolívia e Colômbia e chegam a mercados da Europa e dos Estados Unidos.

Essa estrutura logística, alimentada pelo comércio ilícito de cocaína e armas, deu às facções um nível de organização e capilaridade que já não pode ser explicado apenas como violência urbana localizada. Trata-se de um fenômeno transnacional, com ramificações financeiras, logísticas e políticas.

MECANISMOS JURÍDICOS – É justamente esse alcance que começa a chamar a atenção de autoridades norte-americanas. Nos Estados Unidos, a classificação de um grupo como organização terrorista ativa mecanismos jurídicos poderosos, capazes de congelar ativos financeiros, ampliar investigações internacionais e até justificar ações de segurança mais agressivas.

Nos últimos anos, Washington tem ampliado o conceito de terrorismo para incluir organizações ligadas ao chamado “narcoterrorismo”, especialmente quando elas exercem controle territorial, utilizam violência sistemática e financiam suas atividades por meio do tráfico de drogas. Sob esse prisma, o PCC e o Comando Vermelho poderiam ser enquadrados como estruturas criminosas que combinam características típicas de cartéis com práticas de intimidação social e poder paralelo.

PREOCUPAÇÕES – Para o Brasil, entretanto, a proposta levanta preocupações relevantes. Autoridades brasileiras argumentam que o conceito de terrorismo pressupõe motivação política ou ideológica, algo que não caracteriza as facções brasileiras, cuja principal finalidade é econômica.

Classificá-las como terroristas poderia abrir precedentes delicados no direito internacional e criar espaço para pressões externas sobre questões que, em princípio, dizem respeito à segurança interna do país. Em termos diplomáticos, o debate toca diretamente no tema da soberania nacional.

ASPECTO SIMBÓLICO – Há também um aspecto simbólico importante. Quando uma potência global passa a discutir a inclusão de organizações brasileiras em listas internacionais de terrorismo, o país inevitavelmente se vê confrontado com a dimensão real do problema que enfrenta. O crescimento do crime organizado nas últimas décadas não ocorreu por acaso.

Ele foi alimentado por um sistema penitenciário que frequentemente fortalece essas organizações, por fronteiras extensas e difíceis de controlar e por falhas estruturais nas políticas de segurança pública. Nesse ambiente, facções criminosas foram capazes de se transformar em verdadeiras corporações ilegais, com hierarquia, estratégia financeira e presença internacional.

ESPELHO INCÔMODO – O debate nos Estados Unidos, portanto, funciona como um espelho incômodo para o Brasil. Ele evidencia que a violência que atinge cidades como Rio de Janeiro e São Paulo não é apenas um problema local, mas parte de uma engrenagem criminal que conecta periferias urbanas a redes globais de tráfico. A intranquilidade vivida nessas metrópoles — marcada por confrontos armados, disputas territoriais e expansão de mercados ilícitos — é apenas a face visível de um sistema muito mais amplo.

Se a classificação americana vier a se concretizar, as consequências podem ser significativas. Poderá haver maior cooperação internacional contra essas organizações, intensificação de investigações financeiras e maior pressão diplomática sobre o Brasil para reforçar o combate ao crime organizado. Ao mesmo tempo, surgirá o risco de internacionalização de um problema que, até hoje, o país tentou tratar majoritariamente como questão doméstica.

No fundo, a discussão revela um dilema estratégico. O Brasil precisa lidar com o fato de que suas principais facções criminosas se tornaram atores de alcance internacional, com capacidade de influenciar mercados ilícitos e gerar impactos além de suas fronteiras. Mas também precisa preservar a autonomia de suas instituições e evitar que a narrativa do combate ao terrorismo seja utilizada como instrumento de pressão externa. Entre a necessidade de cooperação global e a defesa da soberania nacional, o país se encontra diante de um desafio complexo: enfrentar o crime organizado em uma escala proporcional ao poder que essas organizações já conquistaram.


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