Publicado em 21 de maio de 2025 por Tribuna da Internet
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General atenuou versão dada à PF e levou bronca de Moraes
Pedro do Coutto
O general Marco Antônio Freire Gomes, ex-comandante do Exército, rompeu o silêncio institucional e prestou um dos depoimentos mais aguardados no âmbito da investigação sobre a tentativa de golpe de Estado durante o governo de Jair Bolsonaro. Sua fala ao ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal não apenas revelou os bastidores do período pós-eleitoral de 2022, mas também explicitou as contradições internas nas Forças Armadas diante de uma ameaça real à democracia.
Durante mais de duas horas, o general adotou uma postura ambígua. De um lado, buscou descolar-se de qualquer articulação antidemocrática; de outro, relativizou o conteúdo da minuta golpista apresentada por Bolsonaro, chamando-a de “estudo jurídico”. A tentativa de suavizar o impacto político e jurídico do documento não passou despercebida por Moraes, que, em tom firme, chegou a sugerir que o depoente estaria omitindo a verdade.
TENSÃO – A divergência entre o que Freire Gomes declarou ao STF e o que dissera anteriormente à Polícia Federal acentuou a tensão do depoimento. Ao negar ter presenciado conluios entre Bolsonaro e o então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, o general foi confrontado diretamente por Moraes, que não hesitou em alertá-lo sobre as implicações penais de omitir ou alterar versões.
Freire Gomes sustentou que o Exército jamais participaria de iniciativas que extrapolassem os limites constitucionais. Segundo ele, essa posição foi comunicada a Bolsonaro de maneira clara, o que, em tese, teria feito o então presidente recuar de suas intenções. Entretanto, esse relato esbarra em contradições de outros envolvidos e documentos já conhecidos pela investigação.
Um dos pontos mais sensíveis foi a tentativa do general de qualificar a minuta como algo embrionário, um suposto “documento de estudo”. Essa escolha retórica procura esvaziar o peso simbólico e jurídico de um plano que, na prática, previa a decretação de estado de sítio e o uso das Forças Armadas para impedir a posse do presidente eleito. Ainda assim, o fato de ter sido compartilhado entre os comandantes das Três Forças enfraquece a tese de inocuidade.
REUNIÕES – Em outro trecho relevante, Freire Gomes descreveu reuniões em que Bolsonaro, assessores e comandantes militares discutiram o sistema eleitoral. Embora afirme que não houve ordens diretas para ação, admite que o ambiente era “politizado” e marcado por críticas à Justiça Eleitoral. A passividade dos militares nessas ocasiões revela uma conivência silenciosa, que pode ser interpretada tanto como prudência quanto como hesitação institucional frente a um presidente que flertava com o autoritarismo.
O depoimento revelou também que o general teria alertado o presidente sobre os limites legais de qualquer eventual ação militar, o que teria contribuído para esfriar a tentativa de golpe. Porém, o próprio relatório da Polícia Federal indica que essa postura lhe rendeu críticas internas, sendo chamado de “cagão” por outros generais que defendiam uma atitude mais assertiva, como Braga Netto.
A inconsistência no relato de Freire Gomes acabou colocando em xeque sua credibilidade como testemunha. Alexandre de Moraes não escondeu a irritação diante das respostas evasivas e cobrou comprometimento com a verdade. O episódio ilustra a dificuldade de extrair versões objetivas em um ambiente ainda fortemente marcado pelo corporativismo militar e pela tentativa de autopreservação.
TEMA DELICADO – O papel das Forças Armadas durante o processo eleitoral de 2022 e na transição de governo permanece um tema delicado. O depoimento do ex-comandante ajuda a montar o quebra-cabeça, mas também evidencia a disputa narrativa em curso. Há, de um lado, o esforço para mostrar que a caserna resistiu à tentação autoritária. De outro, os indícios de que parte significativa da cúpula militar flertou com um rompimento institucional.
À medida que os depoimentos avançam e o processo se aproxima de figuras-chave do antigo governo, cresce a importância de discernir quem efetivamente tentou impedir a alternância de poder e quem agiu, mesmo que tardiamente, para contê-la. A fala de Freire Gomes, ainda que cheia de lacunas, pode vir a ser decisiva na responsabilização — ou não — dos envolvidos na tentativa de ruptura democrática.