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| Arthur Lira e Bolsonaro |
As facções do Congresso que se aproveitam da apatia motivada do chefe do Executivo têm boas chances nas urnas em outubro
O presidente Jair Bolsonaro escapou de um impeachment pelo acordo com os partidos do Centrão, do qual resultou, como celebração do entendimento, as emendas do relator. Elas são a lembrança presente do estelionato eleitoral de Bolsonaro. Ao invocar a nova política e atacar a corrupção de governos do PT, Bolsonaro se elegeu e se engajou em práticas tão nocivas quanto as do mensalão como forma de se manter no poder. A bancada que elegeu em sua onda pseudomoralizadora também se locupletou com as emendas secretas, com a hipocrisia do presidente viralizando na bancada eleita.
O núcleo duro do bolsonarismo é simpático ao dinheiro - foram R$ 270 milhões repassados de forma obscura para obras Brasil afora, algo só revelado após exigência do Supremo Tribunal Federal. O deputado Eduardo Bolsonaro, o 02, fez uso de R$ 9,5 milhões, dos quais apartou R$ 300 mil para a cidade de Miracatu, onde seu tio, irmão do presidente, Renato Bolsonaro, é chefe de gabinete da prefeitura.
A tropa de choque ideológica, que não despreza oportunidades, foi pelo mesmo caminho. O major Vitor Hugo, candidato ao governo de Goiás pelo PL, encaminhou R$ 131 milhões para obras várias. A deputada Bia Kicis, que conseguiu se alçar a presidente da comissão mais importante da Câmara, a de Constituição e Justiça, serviu-se de R$ 32 milhões, com especial apreço à Codevasf, destinatário principal das emendas secretas, que recebeu um terço do dinheiro. Todos os dias chegam denúncias de obras inacabadas, abandonadas, pessimamente executadas ou superfaturadas pela estatal, cuja área de atuação só não chegou ainda ao Chuí por descuido. Seu presidente é um indicado pelo chefão da Casa Civil e orientador das emendas secretas, Ciro Nogueira (PP-PI). Carla Zambelli, que ameaça concorrer ao Senado por São Paulo, repassou R$ 25 milhões. Helio Lopes, seguidor compulsivo de Bolsonaro, obteve R$ 20 milhões. Luiz Philippe de Orleans e Bragança contentou-se com R$ 10 milhões.
Os ataques contra a corrupção do PT serviram para desviar a atenção dos métodos usados por ele para consolidar seu poder - semelhante nos fins, diferente nos meios. Se o mensalão - no qual o presidente do PL, ao qual o presidente se filiou, foi condenado e preso - comprou a prestações o apoio ao governo Lula, as emendas secretas abriram canal exclusivo de distribuição de verbas para quem se aproximou da cúpula do poder na operação de salvamento de um governo acuado. Uma diferença é que no mensalão e no petrolão o Ministério Público foi atuante, e agora, não.
A deterioração política expressa no descontrole do destino do dinheiro público, incentivada pelo Executivo, prosperou com o avanço da centro-direita no Congresso, como havia progredido sob os governos petistas com o mesmo arco partidário. Só agora, com dois meses de atraso, o Congresso cumpriu parcialmente as exigências de transparência feitas pela ministra Rosa Weber, do STF. Em uma pilha desorganizada de prestação de contas de 343 deputados e 64 senadores, pode-se aferir que a cúpula dos partidos que comandam o Congresso ficou com a maior parte das verbas distribuídas, bolsonaristas incluídos.
O nepotismo é uma praga crônica e um Congresso conservador é uma instituição que preza acima de tudo a família. A campeã de emendas secretas, com R$ 399,2 milhões, foi Eliane Nogueira, genitora do chefão do Orçamento da República e ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, suplente no Senado de seu filho. Em qualquer país civilizado, o que não é o caso do Brasil, seria um escândalo e atrairia a atenção da Justiça. Em seguida vêm os maiorais do Congresso, como o presidente da Câmara, Arthur Lira, com R$ 357,4 milhões, que não esqueceu o pai, prefeito de Barra de São Miguel (agraciado com R$ 6 milhões) e seu reduto eleitoral, Arapiraca (R$ 45 milhões). Como quase toda a turma do Centrão, Lira enviou a maior parte do dinheiro das emendas para a Codevasf e suas empresas “de ponta”.
Os então líderes do governo no Senado, Fernando Bezerra, com R$ 256,6 milhões e Eduardo Gomes, líder do Congresso, com R$ 243 milhões, estão no top ten das emendas escondidas. Ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), coube R$ 180,3 milhões, dinheiro para ele bem utilizado porque os 853 municípios de Minas “são uma síntese do Brasil” (Folha, ontem). Há um retrocesso evidente, mas as facções do Congresso que se aproveitam da apatia motivada do chefe do Executivo têm boas chances nas urnas em outubro.
Valor Econômico
