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segunda-feira, outubro 04, 2021

Diretor da Hapvida usou tese de Nise Yamaguchi para convencer médicos a prescrever cloroquina


A médica Nise Yamaguchi em depoimento à CPI da Covid, no Senado

Nise Yamaguchi defendia a cloroquina sem base sólida

Johanns Eller
O Globo

No auge da primeira onda da Covid-19 no Brasil, médicos da operadora de saúde Hapvida que foram coagidos a prescreverem hidroxicloroquina para pacientes com sintomas gripais receberam um longo material em defesa da droga atribuídos à médica Nise Yamaguchi. A pressão para que funcionários da rede, que atua principalmente nas regiões Norte e Nordeste, prescrevessem a hidroxicloroquina foi revelada pelo GLOBO na última sexta-feira.

A oncologista, que depôs na CPI da Covid em junho, atuou como consultora informal do Ministério da Saúde e desponta como uma das principais defensoras do remédio, que não é eficaz contra a doença.

TRATAMENTO PRECOCE – A apresentação, intitulada “Evidências científicas sobre o uso precoce da cloroquina no combate à Covid-19”, consta de trocas de mensagens entregues à equipe da coluna por médicos que ainda trabalham na Hapvida.

Ela foi distribuída em julho de 2020 pelo diretor de emergências da Hapvida, Alexandre Wolkoff, em um grupo de WhatsApp voltado para orientações médicas.

O documento, que tem 33 slides, ressalta em uma das telas que  “Prevent Senior, Hapvida e planos do sistema Unimed, dentre outros planos de saúde”, defendiam o uso do medicamento no tratamento da Covid.

DADOS FALSOS – A apresentação distribuída aos médicos com o nome de Nise Yamaguchi reserva um slide para cada rede, destacando argumentos para a defesa do chamado tratamento precoce. No caso da Prevent Senior, o slide diz que 5.400 pacientes receberam a hidroxicloroquina e que, destes, nenhum faleceu. Apenas 128 teriam sido internados depois de receber o remédio. Hoje se sabe que a rede paulista ocultou óbitos por Covid-19, fraudou prontuários e distribuiu o remédio sem o consentimento de diversos pacientes.

Desde maio, a Hapvida reviu e abandonou a orientação de uso da cloroquina (leia nota abaixo), mas naquele momento o plano não só recomendava seu uso como fornecia treinamentos para os médicos aplicarem a cloroquina nos tratamentos contra a Covid e  impunha metas de distribuição aos pacientes.

Como mostrou a coluna, em junho, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do ministério, Mayra Pinheiro, conhecida como “capitã cloroquina”, tentou tornar obrigatório o uso de cloroquina para a Covid no SUS – e acabou impedida pelo Tribunal de Contas da União.

GESTÃO DE PAZUELLO – Nessa época, também foi ampliada a indicação da cloroquina para gestantes e crianças. Em abril, uma nota técnica aprovada por Pazuello já autorizava a adoção do medicamento no combate ao coronavírus.

A reportagem procurou Nise Yamaguchi e a questionou sobre o material. Até o fechamento deste texto, a médica não confirmou e nem negou a autoria da apresentação. Também não respondeu se prestou consultoria a uma das redes privadas a respeito da hidroxicloroquina. Nós também perguntamos à Hapvida se a dra. Nise Yamaguchi participou de algum curso ou treinamento da empresa. A assessoria de imprensa afirmou que não.

O arquivo não é datado, mas foi gerado em 2 de julho de 2020, quatro dias antes de ser compartilhado no grupo interno da Hapvida. A data coincide com as investidas do governo federal em prol da cloroquina. Nessa época, o ministro era o general Eduardo Pazuello.

ESTUDOS SUPERADOS – Os slides atribuídos a Nise Yamaguchi também enumeram estudos que, àquela altura, já tinham sido questionados amplamente na comunidade científica internacional. Entre eles, o conduzido por Didier Raoult, em Marselha, na França, que neste ano reconheceu que o remédio não é eficaz contra o coronavírus.

Outro trabalho usado na apresentação é o do ucraniano Vladimir Zelenko, um obscuro médico radicado nos Estados Unidos que fez chegar sua tese ao então presidente americano, Donald Trump, que a abraçou por influência do então aliado Rudy Giuliani. O discurso enfático de Trump a favor da cloroquina viria a influenciar um de seus mais importantes aliados, Jair Bolsonaro

Embora a autoria do documento não seja confirmada, a própria atividade de Nise Yamaguchi nas redes sociais indicam que Raoult e Zelenko foram grandes fontes de inspiração para o embasamento da oncologista na defesa do tratamento precoce. O ucraniano, inclusive, é próximo de Nise.

MENSAGEM DO UCRANIANO – A médica fez questão de destacar em uma rede social, em julho de 2020, um texto em sua defesa que teria sido assinado por Zelenko.

“Tenho colaborado com a Dra. Nise Yamaguchi do Brasil. Ela é uma liderança excepcional e tem salvado milhares de pessoas da Covid-19”, diz trecho da mensagem.

Em nota enviada à reportagem, a Hapvida reconheceu ter defendido e disseminado o uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, porém não indica mais a prescrição de cloroquina  “por não haver comprovação científica de sua efetividade”.

ERA TUDO MENTIRA – Mas em julho de 2020, época em que a apresentação em defesa da cloroquina foi distribuída nos grupos de WhatsApp pelo diretor de emergências, já havia estudos sólidos indicando que o remédio não era eficaz no combate à Covid-19.

Um dos principais ensaios clínicos, realizado no Brasil no primeiro semestre de 2020, apontou inclusive para os riscos do uso da droga em pacientes cardíacos.

Mesmo assim, a Hapvida se engajou diretamente na promoção do remédio e na coerção de seus médicos ainda neste ano, como indicam mensagens também obtidas pela reportagem.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Esse tipo de informação mostra que Bolsonaro não estava sozinho nem foi o inventor dessa farsa da cloroquina. O problema é que ele não soube recuar. Parece que em seu dicionário não existem palavras que possam expressar “desculpem, eu errei”. Ele não tem essa grandeza, por isso insiste no negacionismo suicida. (C.N.)


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