Manifestações contra o governo Bolsonaro tiveram baixa adesão no domingo
Pedro do Coutto
A reportagem de Dimitrius Dantas, Gustavo Schimitt, Rafaela Ramos e Sérgio Roxo, O Globo, da mesma forma que a reportagem da Folha de S. Paulo, edições de ontem, incluindo a de Marianna Holanda, revelaram que a manifestação concentrada na Avenida Paulista contra o governo e pelo impeachment de Jair Bolsonaro não conseguiu lotar o espaço e refletir o grau de insatisfação que existe contra o presidente da República, ampliado com o pronunciamento de 7 de setembro.
Não conseguiu porque, como o Datafolha já deixou claro em sua pesquisa sobre as intenções de voto para as urnas de 2022, ressentiu-se da ausência de Lula e da liderança que exerce sobre ampla camada dos eleitores e eleitoras do país. Nessa pesquisa, vale lembrar, Lula concentrou 46% dos votos contra 25% de Bolsonaro e 11% relativos a Ciro Gomes. Na concentração de domingo na Paulista, Ciro Gomes esteve presente, da mesma forma que João Doria e Henrique Mandetta. Mas os fatos comprovaram que nenhum dos três sozinho teria influência nos rumos dos eleitores brasileiros.
DORIA, MANDETTA E MORO – Ciro Gomes, não há dúvida, é a terceira força, mas João Doria não pode renunciar ao governo de S. Paulo para tentar se candidatar ao Planalto. Mandetta só pode desempenhar um papel adicional na campanha contra o atual chefe do Executivo. Sergio Moro, nem isso. Embora tenha a seu favor o desencadeamento de uma onda contra a corrupção, na verdade ficou sem opção entre Lula, a quem condenou a prisão, e Bolsonaro, que forçou a sua demissão do Ministério da Justiça e se tornou alvo de sua reação baseada num motivo lógico.
A concentração na Avenida Paulista, de certa forma, constituiu uma resposta à ameaça ditatorial do presidente Jair Bolsonaro. Mas deixou um espaço vazio entre o que representam os que estavam presentes a ela e a ausência de Lula, cuja presença completaria fortemente a realidade do quadro político nacional.
Não se trata de discutir o mérito da questão se o governo Lula representou escândalos na Petrobras, como aconteceu quando as diretorias da empresa foram divididas entre as bancadas partidárias na Câmara como se fossem capitanias hereditárias. Isso de um lado. De outro, Lula nunca patrocinou manifestações públicas, incluindo faixas pelo fechamento do Supremo, do Congresso, de um desfecho ditatorial que, incluindo o fim das eleições, tinha como objetivo transformá-lo em um sucessor de Pedro II, portanto imperador do Brasil, dando sequência irrealista à novela da TV Globo “Nos tempos do Imperador”. Quanto a tal hipótese, a história brasileira retrocedeu 132 anos no tempo e no espaço.
ELETROBRAS – Reportagem de Paulo Cappelli e Dimitrius Dantas, O Globo de ontem, revela que o governo recuou do seu projeto original de privatizar a Eletrobras à base de colocação de ações no mercado, numa operação capaz de tornar a estatal de maioria em minoria no controle acionário. A questão do preço jamais foi discutida ou levada a sério. A privatização, agora ficou comprovado, era um arrematado absurdo. Significaria uma transferência de comando a custo zero para os compradores, uma vez que eles manteriam em seu poder as ações que viessem a ser adquiridas na Bovespa.
Mas a questão não é somente essa. É que agora, como acentua Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, parte para criar uma nova empresa estatal para em seguida privatizá-la. Ele não explica como e nem o motivo, mas a simples substituição do primeiro pelo segundo projeto revela que o governo propôs privatizar a holding sem ter certeza da própria iniciativa, nem saber ao certo o que estava fazendo. Mais um desastre do desgoverno Bolsonaro. O ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, não quiseram comentar o assunto. Acho que sequer poderiam fazê-lo.
DÉFICIT DE HABITAÇÃO – A TV Globo, na tarde de ontem, programa RJ TV, informou que o déficit de moradias na cidade do Rio de Janeiro atinge 220 mil unidades, o que para mim abrange praticamente um milhão de pessoas, com base na média de habitantes por unidades de um pouco mais de quatro pessoas. A reportagem acrescentou que para enfrentar esse déficit, a Prefeitura e o Governo do Estado iam habilitar a ocupação de imóveis federais, estaduais e municipais que não estão sendo utilizados e assim poderiam proporcionar habitação aos que não a possuem.
Informem ao prefeito Eduardo Paes, como ele aliás deve saber, que o problema habitacional não é tão simples. Não pode ser solucionado com a concessão que se presume gratuita de moradias. Habitação é um problema social gravíssimo que depende diretamente do mercado de empregos e da renda dos salários. Não adianta nada incluir uma família numa unidade domiciliar se ela não tem recursos para pagar o consumo de energia elétrica, o consumo de gás, o condomínio e o IPTU.
A inclusão se correspondência de renda será uma nova fonte de acúmulo de débitos cujo reflexo atinge a Prefeitura e diretamente toda a população carioca e fluminense. Em todo o Estado do Rio o déficit é de 500 mil moradias, correspondendo a cerca de 2 milhões de pessoas. Não adianta tentar disfarçar a essência do problema. Nâo se trata apenas, o que já é muito, de um lugar para morar. Trata-se sobretudo de poder manter a moradia. A embalagem não altera o produto. Constitui apenas uma ilusão a mais na vida brasileira.