Publicado em 12 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

Bolsonaro poderá buscar um novo caminho para tentar se manter no poder
Pedro do Coutto
Numa entrevista a Fernando Canzian, Folha de S.Paulo de sábado, o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga afirmou que, embora acuado no momento, Jair Bolsonaro não vai deixar de atacar a arquitetura democrática até o final de seu governo. Para Arminio Fraga o comportamento do presidente da República cria uma tensão que, do ponto de vista econômico, é absolutamente paralisante.
A opinião de Fraga é extremamente oposta a do ministro Paulo Guedes que, numa palestra a investidores na última sexta-feira, em São Paulo, argumentou que após o choque político registrado no último dia 7 de setembro, o governo retomará o seu projeto de recuperação da economia nacional. A reportagem de Fernanda Trisotto focaliza o encontro de Paulo Guedes no momento em que ele procurou, mais uma vez, acalmar o que chama de “mão do mercado”. Na minha impressão, Paulo Guedes permanece mergulhado na fantasia e procura vender um clima de serenidade que não existe no governo Bolsonaro do qual é o titular da Economia.
IMPASSE CONTINUA – Para Armínio Fraga, o setor de serviços está sendo duramente atingido e ele é responsável pelo maior reflexo na formação do Produto Interno Bruto e no mercado de empregos. O impasse continua. Tenho a impressão de que Michel Temer, convocado pelo próprio Bolsonaro, representa um intervalo no desenvolvimento não só da economia, mas do próprio processo global do país. Dificilmente, a mão de tigre do mercado ficará imobilizada pela trégua que representou o recuo do presidente da República. Esse recuo, de um lado, não constrói confiança, e de outro decepciona os setores radicais da extrema-direita. Com isso, o reflexo eleitoral é inevitável e a perda de densidade política do governo se acentua.
Cada vez mais, por todos os motivos existentes, o presidente Jair Bolsonaro se distancia cada vez mais do projeto de reeleição. Por isso mesmo, conforme a previsão de Armínio Fraga e a previsão geral, ele voltará a atacar as instituições, buscando um novo falso pretexto e um caminho capaz de mantê-lo no poder. Não conseguiu em 7 de setembro; faltou-lhe apoio militar, é claro. Pois se apoio militar ele tivesse na semana que passou, o desfecho do conflito conduziria ao risco de um desabamento democrático.
Vamos aguardar o que poderão revelar as pesquisas do Datafolha ou da XP Investimentos, além do antigo Ibope, hoje Instituto Paulista de Excelência da Gestão (Ipeg), a respeito das tendências políticas dos eleitores e eleitores.Quanto mais ocorrer o esvaziamento da candidatura de Bolsonaro, maior risco ele representa para o país, para as eleições e para si mesmo.
TERMOS ADITIVOS – Julia Affonso, Estado de S. Paulo deste sábado, revela a decisão do ministro Benjamin Zymler, do Tribunal de Contas da União, anulando o termo aditivo de contrato firmado entre o Ministério da Saúde e a VTCLog que envolvia o fornecimento de insumos médicos para vacinação contra a Covid-19. A matéria acentua que o termo aditivo assinado pelo ex-diretor Ferreira Dias elevou o reajuste do contrato existente de R$ 3,9 milhões para R$ 57,7 milhões.
Essa questão de termos aditivos está exigindo uma revisão em série e de bastante profundidade porque as licitações originais preveem um sistema de reajuste de acordo com os índices inflacionários, mas os já famosos termos aditivos elevam às alturas as percentagens deste reajuste.
VENDAS NO VAREJO – Leonardo Vieceli, Folha de S. Paulo, com base em dados do IBGE, afirma que o comércio varejista, sobretudo de roupas, avançou 1,2% no mês de julho, registrando uma circulação maior de clientes. Não entendi bem o que seja circulação maior de clientes. Parece que se refira a presença de consumidores nas lojas. Mas a questão não é só essa. É preciso medir se as vendas aumentaram em seu volume físico ou se subiram também ao que se refere às despesas efetuadas pelos consumidores.
Além disso, é preciso considerar que base numérica incide no avanço de 1,2% registrado pelo IBGE. Isso porque se foi sobre uma base de acentuada retração, qualquer avanço relativo pode aparentar envolver um falso impulso de recuperação. O varejo, segundo Leonardo Vieceli, inclui também artigos de higiene, produtos farmacêuticos, eletrodomésticos e setor de calçados.
De qualquer forma, fica a pergunta: como podem as vendas aumentarem se os salários continuam congelados, os juros bancários passam de 20% ao ano e o endividamento da população, como há poucos dias a Folha de S. Paulo revelou, na escala de R$ 424 bilhões ? Só de juros são mais de R$ 80 milhões ao ano. Qual a mágica e qual a lógica que envolve o resultado a que chegou o IBGE nessa questão? Temos que partir do princípio de que a mágica é o oposto da lógica.