sexta-feira, setembro 10, 2021

Carta anônima à CPI denuncia o esquema de corrupção das distribuidoras de vacinas

Publicado em 10 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

Vacina contra corrupção - lápis de memória

Charge do João Bosco (O LIberal)

Júlia Barbon
Folha

Uma carta enviada de forma anônima a senadores da CPI da Covid nesta terça-feira (7) dá detalhes sobre os diretores das empresas VTCLog e Voetur, cita sua suposta influência sobre o governo Jair Bolsonaro e pede que a comissão aprofunde essa linha de investigação, iniciada em julho.

A denúncia de funcionários da empresa, obtida pela Folha, sugere que três das dez companhias do grupo não têm empregados e que uma das gestoras “possui em sua agenda reuniões com a base do governo, especificamente o atual vice-presidente, general [Hamilton] Mourão”, sem apresentar provas.

QUEREM BLINDAR – “A CPI precisa aprofundar não somente na VTCLog, mas em todo o grupo Voetur. Querem blindar a família Sá. A Zenaide [Sá Reis, responsável pelo setor financeiro] tem muitas informações, mas o Carlos Alberto de Sá [dono do grupo] possui contatos”, afirma o texto.

“A diretoria dessa empresa conta com um secretário/assessor que detém informações sérias. Luis Henrique é o nome dele, presta inúmeros favores a Andreia Lima, Raimundo Nonato Brasil e Ana Paula Sá, fora os demais diretores”, continua a carta.

O depoimento de Zenaide à CPI é um dos que ainda estão pendentes. A comissão corre o risco de terminar neste mês com pontas soltas e documentos sem análise, após uma pressão interna de senadores pela conclusão dos trabalhos para se esquivar de um eventual desgaste político.

EMPRESA REAGE – Questionado sobre as acusações, o grupo Voetur afirmou que desconhece o teor da carta, que “rechaça veementemente o seu conteúdo leviano” e que buscará “as medidas judiciais cabíveis contra todas as falácias apontadas à imagem da empresa e de seus colaboradores”.

“Há mais de três décadas as empresas que compõem o grupo atuam na absoluta lisura de suas funções, tendo todos os contratos firmados na administração pública supervisionados por rigorosos processos de fiscalização e controle”, disse.

A empresa também encaminhou um documento do TCU (Tribunal de Contas da União) de “nada consta” no nome jurídico da VTC. A Vice-Presidência da República informou que não iria se manifestar sobre o assunto.

ROBERTO DIAS – A VTCLog/Voetur é suspeita de manter um esquema de propina envolvendo Roberto Dias, ex-diretor de logística do Ministério da Saúde, o que ambos negam.

Ela assumiu toda a logística de distribuição de vacinas, medicamentos e outros insumos do país em 2018, quando o ministro da Saúde era Ricardo Barros, hoje deputado federal (PP-PR) e líder do governo Bolsonaro na Câmara.

Antes, quem fazia esse trabalho havia mais 20 anos era um órgão público, a Cenadi (Central Nacional de Armazenagem e Distribuição de Imunobiológicos), que foi pega de surpresa na época. A justificativa foi que a privatização tornaria o serviço mais eficiente e barato.

VIROU BAGUNÇA – Desde a mudança, porém, funcionários que recebem as remessas nos estados reclamam de problemas na logística, como itens errados, atrasos nas entregas e desorganização na comunicação, conforme a Folha mostrou em reportagem citada na carta anônima.

“As chefias [da VTCLog] são em sua maioria pessoas da família Sá ou de muita confiança da família, mesmo que sem capacitação profissional para exercer tais funções. É comum o desvio de função dentro dos setores e a cultura organizacional é baseada no medo”, escrevem os denunciantes.

Eles afirmam também que a rotatividade de funcionários é acima da média, com trocas e exclusão do histórico das conversas dos celulares corporativos, e que é comum que empregados da empresa prestem serviços particulares para a família.

FAZ LOBBY – “Todos no âmbito corporativo reconhecem a influência do [dono] Carlos Alberto em esferas importantes da sociedade, o que proporciona facilitações em processos para a VTC. Foi na entrega das vacinas da Covid que houve também um boato interno de que a Drª Andreia poderia conseguir vacinas para a diretoria”, continuam.

Eles citam ainda que Elizabeth Cassaro, amiga íntima do dono e principal gestora de uma das empresas, a Voetur Eventos, de eventos corporativos, já teve reuniões com Mourão.

“Recentemente a empresa ficou em sexto lugar na disputa para licitação do Itamaraty (não sabemos apontar especificamente qual) e desclassificaram as demais concorrentes, priorizando e privilegiando a Eventos. […] Bastou uma ligação da Elizabeth para o responsável do Itamaraty e ele então conseguiu colocar a empresa de volta”, escrevem.


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