quarta-feira, setembro 08, 2021

Caminhões de transportadoras e produtores de soja engrossaram protestos de Bolsonaro

Publicado em 8 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

Caminhões no 7 de setembro em Brasília

Objetivo era simular que os caminhoneiros apoiam o governo

Mariana Carneiro e Johanns Eller
O Globo

Jair Bolsonaro já tinha deixado a Esplanada dos Ministérios, no fim da manhã da terça-feira, mas um caminhão estampado com um adesivo da bandeira do Brasil ainda atraía a atenção de alguns manifestantes. Faziam fila para subir na parte de trás do veículo, que havia se tornado um ponto para selfies. Um deles escalou a cabine do caminhão para fazer um video lá de cima gritando “mito” e “é Bolsonaro, porra”.

Em outro ponto, uma mulher loira vestida com a camisa 10 do Brasil e boné fazia pose montada numa moto, colocada estrategicamente nos fundos de um caminhão graneleiro.

RURALISTAS – O cartaz preso ao veículo dizia “Os produtores rurais de Santa Juliana-MG apoiam este movimento”, e levava o logotipo do Sindicato Rural da cidade de 15 mil habitantes que fica a pouco mais de 500 km de Brasília.

No protesto contra o Supremo e pró-Bolsonaro na capital federal, era a grande quantidade de caminhões que fazia a diferença, mais do que o número de manifestantes.

Embora não haja estimativas oficiais de veículos na capital federal e no entorno, só numa foto aérea é possível contar pelo menos 40 caminhões de ruralistas, espalhados pela Esplanada dos Ministérios. Colocados diante do carro de som lado a lado, alguns deles formavam uma parede delimitando o espaço da multidão que ouvia Bolsonaro falar.

MOVIMENTO ORQUESTRADO – Assim distribuídos, aumentavam o volume do protesto. Boa parte trazia o logotipo de empresas como a grande produtora de soja e sementes Agrofava, ou da Formosa Logística, que também serve ao agronegócio, mas que nesta terça-feira sustentava bandeiras do Brasil e uma placa em inglês que pedia a remoção imediata dos ministros do STF.

Para o líder caminhoneiro Wallace Landim, conhecido como Chorão, que era contra a participação da categoria no protesto, tamanho comparecimento indica um movimento orquestrado.

“Com certeza tem investimento por trás. Sabemos que o custo é muito alto para manter (os caminhões em Brasília)”, afirma Chorão. Considerando que até ontem os caminhoneiros prometiam ficar em Brasília até sexta-feira, o custo é ainda mais alto.

CONTRA OS ATOS – Como presidente da Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores (Abrava) e principal líder dos caminhoneiros, Chorão se opôs ao envolvimento da categoria nos atos do 7 de setembro, por achar que os motoristas deveriam se concentrar em suas próprias pautas, e não se envolver na guerra do presidente contra o STF.

Mas não é o que pensa Roberto Mira, dono da Mira Transportes e vice-presidente de Segurança da NTC & Logística, entidade que compreende 60% da frota do país. Mira nega ter fornecido caminhões da transportadora para o movimento, mas conta ter encorajado a participação de seus motoristas autônomos nos protestos.

“Caminhão vazio que quisesse participar podia ficar à vontade, é dever patriótico”, disse o empresário. “Eu tenho caminhões em Brasília, e gente que trabalha para mim e que avisou que não ia trabalhar”.

CONTRA O SUPREMO – Outra decisão de Mira que reforçou a mobilização bolsonarista foi a de retirar os caminhões das estradas no feriado, o que liberou os motoristas autônomos para engrossarem o movimento.

“Os caminhoneiros estão falando em 72 horas. São apenas três dias. Não vai acontecer nada (na cadeia de logística). É o prazo do governo vai ter que chegar e falar ‘ou é 2, ou é 10’. Ou põe os dois tranqueiras (os ministros do STF Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso) na rua ou bota os 10 (ministros) de uma vez”, afirma Mira, claramente engajado no discurso bolsonarista.

Além das transportadoras, a presença de caminhões ligados ao agronegócio na Esplanada demonstrou que, apesar do racha no setor – uma carta assinada por entidades exportadoras defenderam o respeito à democracia – o agronegócio ainda permanece bastante ligado a Jair Bolsonaro. 

VERDE-AMARELO – Muitos caminhões levavam um adesivo do Movimento Brasil Verde-Amarelo. O grupo é o mesmo que organizou, em maio, uma marcha em favor do voto impresso e na qual Bolsonaro apareceu montado a cavalo.

O movimento é patrocinado por produtores rurais como a gigante Aprosoja, entidade que reúne produtores do Centro-Oeste e de outras regiões do país. Seu presidente é Antônio Galvan, investigado em inquérito que apura o financiamento a atos antidemocráticos.

Um dos fundadores, José Alípio Silveira, que produz soja no oeste baiano, contou em uma entrevista em agosto que o movimento nasceu durante a articulação contra o Funrural, que cobrou dívidas com a Previdência de ruralistas que simplesmente não recolhiam contribuição alguma.

DECISÃO DO SUPREMO – Uma decisão do STF em 2017 selou a derrota desses produtores rurais, e o Supremo autorizou a União a cobrar pela contribuição devida, desagradando obviamente o setor.

A partir da eleição de Bolsonaro, o grupo passou a dar “apoio incondicional” às pautas do presidente: primeiro a reforma da Previdência, depois o pacote anticrime de Sergio Moro e, neste ano, o voto impresso.

Para o feriado do dia 7 em Brasília Silveira afirmou que o grupo iria bancar parte da estrutura de apoio aos visitantes que chegariam de ônibus à capital. O grande número de caminhões com o logo do movimento de Silveira mostra que, se Bolsonaro vê ruir o apoio que tinha na elite econômica, o casamento com empresas de transporte e ruralistas segue firme.


Em destaque

TJ vai julgar uma ação milionária que opõe Zanin ao sogro por lucros de escritório

Publicado em 1 de fevereiro de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Juiz barra ação de R$ 5 milhões movida por sogro...

Mais visitadas