Publicado em 12 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

Charge do Iotti (Gaúcha/Zero Hora)
Carlos Newton
Circulam várias versões sobre o vexaminoso recuo do presidente Jair Bolsonaro, que fez ameaças pesadíssimas no Sete de Setembro, mas teve de pedir arreglo 48 horas depois, quando foi obrigado a cair na real. Uma das versões é do Planalto e elenca uma série de justificativas, que teriam se acumulado, levando o chefe do governo a essa surpreendente recueta, que verdadeiramente ninguém esperava.
Vamos então conferir os diversos fatores elencados pelo chamado núcleo duro do Planalto, que nos últimos tempos está amolecido e praticamente sem rumo, em meio à tempestade que não cessa:
1 ) Debandada. Uma das justificativas do Planalto alega que a crise institucional provocada por Bolsonaro, com os repetidos ataques a integrantes do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, poderia provocar uma debandada de sua base parlamentar.
2 ) Discurso de Fux. O segundo fator teria sido o discurso do presidente do STF, ministro Luiz Fux, no dia seguinte às manifestações golpistas do 7 de Setembro. O ministro disse que a ameaça de descumprir decisões judiciais de Alexandre de Moraes, se confirmada, configura “crime de responsabilidade, a ser analisado pelo Congresso Nacional”.
3 ) Caminhoneiros. A paralisação dos caminhoneiros alinhados ao presidente também foi um dos fatores da pressão, mencionados por auxiliares do Planalto, para levar Bolsonaro a redigir a nota.
Esses três argumentos são oferecidos na desesperada tentativa de explicar uma atitude vergonhosa de Bolsonaro, que nem mesmo os filhos 01, 02 e 03 tentaram justificar, apesar de contarem com a ajuda do guru virginiano Olavo de Carvalho, agora morando no Brasil e que a todo momento é consultado.
VERSÃO VERDADEIRA – Os gênios que circundam Bolsonaro no palácio e na família acreditam na velha falácia de que os atos devem ser desprezados, porque só interessa manipular as versões. Ou seja, embora tentem parecer que são terrivelmente evangélicos, não seguem o ensinamento cristalino da Bíblia “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:32).
Neste caso do arreglo diante do ministro Alexandre de Moraes, que atendeu ao telefonema de Michel Temer mas exigiu desculpas claras e públicas, nenhuma das versões do Planalto se sustenta.
A explicação verdadeira, que fez ruir o castelo golpista de Bolsonaro, foi o recado transmitido a ele pelo Estado Maior do Exército, que detém o poder moderador neste país altamente surrealista.
FOI UMA SURPRESA – Detalhe importante: Bolsonaro foi surpreendido, porque havia tomado medidas preventivas quanto ao Alto Comando. Lá atrás, em julho de 2019, quando o governo sofreu as primeiras crises com as saídas dos ministros Gustavo Bebianno e Santos Cruz, o presidente começou a estruturar o futuro golpe e convocou para o Ministério o general Luiz Eduardo Ramos, que era chefe do Alto Comando do Exército.
Mais adiante, em fevereiro de 2020, resolveu militarizar o governo para valer e nomeou para a Casa Civil o general Walter Braga Netto, que, por coincidência, também era chefe do Estado Maior.
Com isso, Bolsonaro julgava que estaria blindado e poderia fazer o que bem entendesse, mas não é assim que a banda toca, porque o Exército é muito maior do que seus oficiais-generais. Assim, em março de 2021 o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, recusou-se a agir politicamente nas Forças Armadas e acabou sendo demitido pelo presidente, junto com os três comandantes militares.
ESTOCADA FINAL – Resumindo os fatos (e não as versões): na campanha, Bolsonaro escapou da facada de Adélio Bispo. Três anos depois, acaba de receber nova estocada, desta vez desferida pelo Alto Comando do Exército, que cortou abruptamente seus poderes e lhe mostrou que a função de comandante-em-chefe das Forças Armadas só vale quando ele agir dentro das quatro linhas.
Quando souberam que caminhoneiros de transportadoras estavam fazendo uma greve fake e interrompendo algumas rodovias, a pedido de Bolsonaro, o Alto Comando mandou que ele liberasse “imediatamente” as rodovias. Desorientado, na mesma hora Bolsonaro gravou o áudio e enviou aos falsos grevistas, que nem acreditaram e até resistiram antes de sair de cena. Assim, Bolsonaro esteve perto de ser derrubado, antes da Hora H e do Dia D.
Seu vice Mourão chegou a mandar engomar o terno da posse. Mas Bolsonaro se salvou porque lembrou a frase do general Eduardo Pazuello: “É simples assim: um manda e o outro obedece”.
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P.S. – A novela não acabou, é claro. Bolsonaro vai continuar com as provocações ao ministro Luís Roberto Barroso, voto impresso etc. Mas nem pensar em golpe militar. O pior é que passou a ser a bola da vez. Em caso de crise, o primeiro e único a ser derrubado será ele. O vice Mourão assumirá o resto do mandato, e vida que segue, como diria o grande João Saldanha, cuja casa em Maricá já foi tombada, junto com as residências de Darcy Ribeiro e de Maysa. (C.N.)