Publicado em 6 de setembro de 2021 por Tribuna da Internet

Charge do Clayton (opovo.com.br)
Pedro do Coutto
O artigo de Bernardo Mello Franco na edição de domingo de O Globo revela um fato essencial no meio da crise aberta pelo presidente Jair Bolsonaro a pretexto da computação eletrônica de votos e de um ultimato dirigido aos ministros Alexandre de Moraes e Luiz Roberto Barroso do Supremo Tribunal Federal. Quanto a Alexandre de Moraes, em face de sua inclusão em inquérito por atividades antidemocráticas. Relativamente a Luiz Roberto Barroso, também presidente do TSE, por sua posição clara e lógica contra o que seria o retrocesso contido na volta do voto impresso no país.
As alegações são absurdas e politizadas de 7 de setembro igualmente sem o menor sentido: uma data de todos, conforme acentuei no artigo de ontem que Bolsonaro desejava transformar em pretexto golpista para alguns. Mas esta ameaça está superada com base na revelação e no comentário de Bernardo Mello Franco. A realidade política nacional passou a ser outra no curto espaço entre a quinta-feira e o domingo.
MANIFESTAÇÕES – Mas Bolsonaro insiste em levar o tema para as ruas. Tanto assim que anunciou que estará presente nas manifestações de amanhã nas Esplanada de Brasília e na Avenida Paulista. Em Brasília, no corredor dos Ministérios. Em São Paulo, em frente ao endereço da Fiesp, cujo posicionamento, sobretudo após o recuo em divulgar o manifesto democrático, passou a ser fortemente contestado.
Aliás, a Federação Brasileira de Bancos não recuou e condenou a vacilação de Paulo Skaf. O presidente da República se isolou ainda mais. O agronegócio apoiou a Federação dos Bancos e os presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal desistiram de romper com a Febraban. Na minha opinião, romper com o sistema bancário e com as informações de que ele dispõe é um ato extremamente arriscado. Mas essa é outra questão.
A questão essencial, como destacou Mello Franco, está na posição assumida pelo general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, suspendendo o tradicional desfile do Dia da Pátria. Claro que a sua atitude foi apoiada pelos comandantes da Marinha e da Aeronáutica. Caso contrário não teria o impacto que obteve e está obtendo. Não sei, francamente, qual o ângulo de visão do ministro da Defesa, general Braga Netto.
INVESTIDAS – O fato dominante, contudo, ficou claro, é que as investidas contra as eleições e contra ministros do STF perderam o pouco impulso que já tinham em sua origem e passaram a se deparar não apenas com o silêncio do Exército, mas com a sua definição pela democracia, pela Constituição Federal e pela liberdade do voto. O episódio deixou demonstrado que Jair Bolsonaro não conta com qualquer fração militar expressiva para investir contra as instituições e praticar um lance de dados na tentativa vã de se tornar o imperador do Brasil. A saída para a crise a meu ver está consolidada pela estrada que leva as urnas em outubro de 2022.
Nas redes sociais os esforços para enveredar pela ilegalidade estão barrados. As fake news que chegaram a incentivar o sequestro de titulares do STF naufragaram na própria contradição de um gesto absurdo e criminoso. As fake news não têm expressão de peso capaz de subverter a lógica dos fatos. Basta considerar um princípio: se as fake news resolvessem, Jair Bolsonaro não estaria atrás de Lula na projeção para 2022, como revelaram as pesquisas do Datafolha e da XP Investimentos.
ABOLIÇÃO – Muito importante a entrevista da historiadora Mary Del Priore ao jornalista Bruno Albano, O Globo de ontem, em que, com base em pesquisas realizadas ao longo do tempo, chegou à conclusão de que a Princesa Isabel, de fato, só assumira a posição de abolicionista três meses antes do 13 de maio de 1888.
A historiadora é autora de um estudo em profundidade sobre a decretação da Lei Áurea. Vale a pena ler a entrevista porque a análise histórica é capaz não só de revelar, mas também traduzir o passado. A versão corrente de contemporâneos da época, entre os quais o meu avô, Pedro do Coutto, outro historiador, foi a de que a fuga de escravos se acentuava muito e o Império já na fase de crepúsculo, tentou usar o Exército no esforço de resgate que era exercido por mercenários chamados capitães do mato.
O Exército se recusou ao papel e a Abolição que já trazia em si um impulso republicano, ampliou seu raio de ação e sua influência no país, influência tardia, porém indispensável para fazer com que o Brasil não fosse o último , mas sim o penúltimo país a abolir a escravatura. O último no período do Império, o primeiro como República. Portanto, penúltimo à luz da história do tempo. O caráter do Império era profundamente conservador, mas o conservadorismo foi tocado pela dissidência, liderada por Joaquim Nabuco e com a atuação também marcante de Ruy Barbosa.
DESMATAMENTO – Reportagem de Laryssa Medeiros, O Globo de domingo, dá sequência à reportagem do RJ 2 da TV Globo no sábado. Na Rua Professor Hélio Povoa, Tijuca, desmatamentos e motosserras entraram em ação, iniciando a derrubada de 340 árvores para a construção não autorizada pela Prefeitura de um edifício de 240 apartamentos.
O RJ 2 de sábado focalizou inclusive a manifestação conjunta de protesto por moradores à margem da floresta urbana. Impressionante o descaso para com o verde e o meio ambiente, motivado pelo lucro e por uma legalidade disfarçada de replantio. Afinal, quantos anos demora para que futuras 340 árvores substituam as que estão se perdendo a partir de sexta -feira ? Estranho , sobretudo, é o silêncio do prefeito Eduardo Paes, responsável pela preservação do meio ambiente e pelo plano urbano da Cidade do Rio de Janeiro.